Saltando entre as sombras dos prédios dessa deprimente cidade, um vulto alto e magro praticamente voa entre os telhados, atravessando os becos escuros em longos saltos. Quando sua silhueta marcada pela luz da lua cheia se apaga; seus olhos, como fogo vivo, se acendem no breu.

Uma janela aberta desperta o interesse, um fugaz vento faz as cortinas esvoaçarem e um grito na calada da noite ecoa.

_ Sede, sede, sede,... – enquanto limpa uma gota de sangue que lhe escapa aos lábios com a língua, caminha lentamente até a janela, deixando um corpo ainda quente sobre lençóis manchados de rubro em uma casa qualquer daquela grande cidade. Pouco lhe importava se a sua camisa branca estava suja, ou se havia tirado uma vida, apenas ansiava matar a sede que o consumia.

Parou na janela a admirar a distante paisagem que lhe fugia a vista, o canal a poucas quadras de distancia dividia a cidade da sua periferia. Eram tristes e acinzentadas as cores, o povo frio como gelo.

Em um passo aquele corpo despenca até a calçada, fazendo um som abafado ao encostar os pés nas pedras perfeitamente alinhadas.

Vagava pela rua com as mãos nos bolsos, sem pensamentos fixos, apenas lembranças e uma sede que o possuía.