Lágrimas
13 Capitulo 13 - Alana
Notas iniciais
Capitulo Treze
Alana
Cheguei em casa com um misto de confusão e medo. O beijo com Miguel não podia ter acontecido. Algo dentro de mim pulava dentro do peito, mas eu em minha parte racional queria que isso não acontecesse. Tudo estava andando em um ritmo ao qual não podia acompanhar. As coisas já estavam fugindo do meu controle. E isso eu não poderia permitir. Nem por mim, — e muito menos por Geliel.
– Chegou tarde meu bem – disse vovó – venha que vou te contar minhas histórias.
Eu não estava com muito sono, então fui até a cozinha puxei uma velha cadeira e sentei-me. Vovó pegara sua xícara e começara contar suas famosas histórias...
Há muito tempo quando o mundo em que nós conhecemos era completamente desconhecido. Habitavam aqui criaturas lindas e poderosas. Dentre elas estavam às ninfas. As ninfas não são fadas. Algumas delas queriam governar o mar. E se tornaram sereias metamorfas. Suas asas são encantadoras, mas elas não possuem um belo rosto, ou um canto tão encantador como as sereias.
Quando em uma longa batalha as sereias conseguiram se livrar delas, Kianda a protetora dos mares e sereias ficou sabendo de uma profecia. Essa profecia dizia que uma jovem menina hibrida nascida entre os dois mundos, teria o poder suficiente de destruí-lo. Há anos e mais anos os deuses procuraram essa pobre menina. E nunca a encontraram. Poseidon declarou várias vezes que quem a encontrasse seria o segundo em seu reino. Ninguém a defendia a não ser Kianda. Ela disse que a menina seria ótima para contra as ninfas, — mas ela não podia se esquecer do sangue hibrido que a menina carregara. E assim aos longos dos tempos eles a procuraram. Sem descanso. E até hoje a cada cem anos uma guerra acontece. E se a menina estiver entre nós... Será o fim de tudo...
Aquilo me arrepiou. Vovó praticamente adiantou alguns capítulos do livro em que eu encontrara a historia das sereias. Ela olhava para mim e parecia muito mais velha do que parecia. Quase como se visse algo mais. Quase como se tudo não fosse parte apenas de histórias e sim fosse real.
– Você não vai perguntar nada? – disse ela rindo
– Estou muito cansada vó – disse eu – posso dormir?
– Claro meu bem. Logo eu subo também. O dia foi muito cansativo.
Subi as escadas correndo. O livro continuava no mesmo lugar. Deixei-o ali. Não queria lê-lo hoje. Hoje não queria mais problemas. Não queria pensar em nada que não fosse dormir e descansar. O dia amanhã seria cheio. Sem Geliel mais uma vez. Sem amor. Apenas com Miguel e Vee. Um menino que bagunçara minha vida e havia me beijado. Isso daria um bom livro. Realmente já não sabia nada sobre meus sentimentos.
Não sonhei nada. Nem mesmo com uma flor. Dormi e acordei normalmente. Sem suar ou ao menos chorando. Graças a Deus a fase passou. Isso era ótimo. Hoje Vee e eu íamos juntas para a escola. O namorado dela também ia. Ele inacreditavelmente conseguira transferência para nossa escola. Pensei na possibilidade bizarra de Vee e ele namorarem. “Melhor não pensar” – pensei comigo mesma.
– Oi – disse um menino de cabelos pretos lisos, alto e magricelo – sou Antony.
Meu Deus. Ele era bonitinho. Olhei para Vee dizendo “Isso é Feio”, o menino nunca vai gostar de você. Mas ela logo desviou o olhar. Bem, vou ser simpática.
– Oi – disse eu – fico feliz de conhecê-lo. Vee fala muito bem de você.
Ele começou a dar pulinhos. Abaixei a cabeça e fingi não reparar. Ele era a prova viva de que existiam gays menos comportados.
– Amor – disse Vee – pode parar de pular agora? Todo mundo na rua está olhando para nós!
O coitado ficou vermelho. Esse era o jeito dele. Ele olhou para mim meio sem graça. Retribui seu olhar sorrindo e fazendo o melhor que podia demonstrando que eu o aceitava do jeitinho dele. Sério não tinha preconceitos. Achava isso ridículo. Cada um com sua opção. E que as pessoas cuidassem mais da sua vida ao invés de cuidar das dos outros.
Antony não ficou na mesma turma que a nossa. Nem mesmo nossas aulas batiam. Vee jurou que ia reclamar na secretaria. Mas isso não ia adiantar. Ela sabia, mas não custava tentar.
– Amiga – disse ela na quinta aula – Antony é um fofo. Ele assiste filmes infantis. Não é fofo?
Quis responder que não, não era fofo. Mas ele agora a fazia feliz. Adeus sinceridade. Foi bom te conhecer.
– Claro – disse eu – super fofo. Que filme ele assiste?
– Os clássicos – disse ela – Ursinhos Carinhosos, Barbie entre outros... Achei super fofo.
Calei a boca. Isso não enganaria os pais de Vee. Sua mãe Rebeca era muito religiosa. Ela repudiaria o coitado. Rebeca era super legal, mas não se adaptava as diferenças. Isso me deixava triste. Onde nossa sociedade ia parar?
O dia passou como o vento. Nem sinal de Geliel. Liguei para ele mas o celular estava desligado. Tentei me tranqüilizar. Ele disse que daria sinal de vida. Acalme-se. Ouvi ruídos, mas não me importei muito. Mas quando vi que eram Miguel e Sarah tendo uma briga pública só faltei fazer pipoca e ir assistir...
– Você não sabe o que é namorar – gritou Miguel – estou cansado disso.
– Eu também – disse ela – a partir de agora estamos separados.
– Nunca estivemos juntos – jogou Miguel para ela.
– Ótimo – ela pegou o carro e saiu.
Ele se afastou e olhou para mim. Aquela mesma sensação de errado pulava dentro de mim. Mas me fazia pirar. Ele era tão surreal. Como podia ser assim? Tentei evitar o olhar. Hoje eu voltaria a pé. Hoje eu pensaria em outras coisas. Miguel e eu jamais. Geliel e eu... Seria para Sempre.
Lisandra
Onde andava seu filho. Ela tentava pensar, mas nada lhe ocorria. Como ela podia descobrir onde ele estava? Tentou raciocinar, mas nada lhe ocorria. Será que ele havia morrido? Uma leve dor em seu coração quase a transpassou, mas ela era incapaz de amar. Nem mesmo seu filho. Se acaso ele estivesse morto, — era pela sua incapacidade.
– Lisandra – sussurrara uma voz que ela conhecia muito bem – vejo que anda preocupada?
Desde que se tornara ninfa renegada, ela aprendera a governar as trevas. Elas sim eram suas servas. Mas assim como em todo lugar, até ali existiam pessoas mais poderosas do que ela. Ela tentou não parece rude perante seu senhor.
– Meu Mestre – sussurrou ela e se ajoelhou aos pés do grande demônio marinho que via a sua frente – ando meio atrapalhada.
– Mas uma mulher como você raramente fica assim! – o grande demônio fazia pequenos círculos na bochecha da serva renegada. Ela fechava os olhos em sinal de respeito e prazer.
– Alana é um pesadelo. Kianda interfere em meus planos. E não sei onde está a anta de meu filho. Com certeza morreu tentando me desafiar. Bem feito para ele. Renegou a raça.
O Demônio riu. Uma risada esganiçada e ao mesmo tempo divertida. Lisandra permaneceu séria. Ela não gostava que a levasse na brincadeira. O demônio percebendo isso, logo parou de rir. E acarinhou mais sua serva.
– Seu filho não está morto – sussurrou ao seu ouvido – ele só está sendo protegido por Kianda. Por isso nossos poderes não podem vê-lo. Esqueceu que sua Deusa sabe invocar a luz?
Lisandra gritou. Até mesmo o demônio parecia atordoado. Aquela mulher era implacável. Como podia sentir tanto ódio e menosprezo?
– Minos – disse ela – eu supliquei-lhe ao senhor que não deixasse acontecer.
Minos o demônio riu. Como ela era tola. Ele tentara, mas não conseguia seduzir o menino de volta as trevas. Ele resistia como quem não quisesse mais. Sua força de vontade era impressionante. Afinal ele era filho de Lisandra. Os dois eram bem parecidos nesse ponto.
– Ele resistiu a tudo. Seu filho abandonou praticamente o caminho das trevas. De renegado passou a ser um servo de justiça que atua sozinho. A solidão faz parte do destino de seu filho.
Lisandra pareceu mais lívida. Havia algo que ali que poderia ajudá-la. Mas ela precisaria do poder do mestre. Algo destrutivo. Se o mestre Minos concedesse esse pedido, Poseidon já seria carta fora do baralho. Lisandra tentou jogar seu charme de forma impecável. Mesmo renegada, seus poderes de sereia ainda restavam ali.
– Senhor – disse ela abraçando o demônio – preciso de um livro. O livro das runas. Sei que o senhor o tem.
Minos guinchou. Ela estava maluca?
– Esse livro tem um poder incomum. Não conseguira dominá-lo. Para que afinal o queres?
– Para criar o caos que tanto preciso – disse ela – Alana precisa descobrir logo seu novo lado. Caso contrário estará perdido. O senhor sabe disso.
Minos pareceu refletir. Caos era algo poderoso. Se o caos matasse a pequena, ou a trouxesse para o lado deles, a vitória era garantida. Ele pareceu reconsiderar.
– Gosto da idéia – disse ele – mas e Poseidon? Ele não ficará nada feliz.
– Deixei que ele faça sua parte – sussurrou ela – assim teremos menos trabalho. Do resto cuido eu.
Minos sorriu. Lisandra sabia exatamente como alcançar o que queria. Ela era implacável mesmo.
– Desejo concebido – disse Minos – use o livro com cuidado.
O livro das runas se materializou no ar. Caindo ao chão com um estrondo surdo, Lisandra sorriu. Logo na cobertura de um apartamento luxuoso um demônio e uma sereia renegada faziam um pacto e estavam prontos para criar o caos.
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