Lá E De Volta Outra Vez
88 Viver e Deixar Acontecer
Notas iniciais
Eu estava andando pelo parque quando meu telefone vibrou. Rosa finalmente me respondera, avisando que só então tinha terminado de arrumar suas coisas. Leigh bem avisou.
“Tenho um encontro na casa do Lys hoje...estou a mil por hora, você sabe como.”
“Relaxe, o apartamento é incrível e vai dar tudo certo. Quero o relatório completo depois. Divirta-se”
Ignorei o emoji no final da mensagem. Aposto que, pessoalmente, o bom humor e as provocações dela me deixariam mais tranquila. Andei mais um pouco, tentando ignorar o nervosismo. O relógio parecia ter parado.
— Anna? – Priya. Olhei para ela, meio atordoada. Não esperava aquele encontro hoje. – Tudo bem? Parece nervosa.
— Bom saber que ficou bem estampado. – Suspirei. – Lys me chamou para ir à casa dele e estou uma pilha de nervos. E se eu ficasse em casa meus pais perceberiam e desistiriam da noite romântica deles.
— Entendi. – Ela parecia estranhar. – Mas qual o problema exatamente?
— Definitivamente, não é a casa. – As respostas saiam mais afiadas do que eu queria. – Ok, só não ria. É que estou um pouco apreensiva caso...sabe...a gente faça algo. Sabe?
— Também está estampado na sua cara. – Ela comentou, fazendo meus ombros caírem de desânimo. Ela sorriu, solidária. – Anna, não precisa infartar por conta disso, sabe? Não se sente pronta?
— Não tenho certeza. Eu tenho medo de fazer algo errado e estragar tudo, como de costume. Ou não conseguir, sei lá.
— Olha, pode parecer um conselho idiota, mas você deveria relaxar e seguir o fluxo.
— Viver e deixar acontecer. – Repeti meu mantra de minutos atrás. Ela sorriu, concordando.
— Seu corpo vai te responder, é só escutar direitinho. Você pode fazer só o que tiver vontade ou te deixar confortável.
— Ou seja?
— Se você quiser, vá em frente. Se não, tudo bem também. Não fique lendo demais nas entrelinhas, senão sua noite vai passar voando.
Aquilo de fato me tranquilizou. Afinal, eu sempre sonhara poder passar um momento a sós, com ele, sem me preocupar com meus pais nem nada assim. Era só isso, um momento nosso. Eu não precisava pensar centenas de cenários diferentes, eu podia simplesmente descobrir qual seria.
— Você dá ótimos conselhos. Parece uma senhora de 60 anos. – Comentei, bem mais tranquila. Ela sorriu de volta, achando graça do comentário.
— Bom, essa idosa também tem um encontro hoje e precisa ir se arrumar.
— Vai lá, tenha uma boa noite.
Depois que Priya foi embora, eu não precisei mais enrolar, o que não ajudou em nada com o nervosismo. Caminhei por uns quinze minutos, sem pressa, até chegar ao prédio. Conferi o número do apartamento na mensagem que ele me mandara mais cedo, tocando o interfone tremendo.
— Já vou abrir. – Ao invés de abrir o portão e me esperar, ele desceu para me receber. Sorri, o coração a milhão quando o viu em trajes um pouco menos formais que os de costume. – Ei.
Entrei no apartamento muda, tentando não entregar minha ansiedade. Ele me acompanhou até seu quarto, esperando enquanto eu estudava o cômodo. Franzi um pouco o cenho, não era bem o que eu imaginara.
Aliás, o que eu esperava?
Primeiro eu não esperava que ele fosse tão grande. O quarto era enorme, bem maior que o meu, com uma parede quase totalmente coberta pelas janelas. As cortinas estavam abertas, então estava bem claro ainda. A cama era de casal, havia também uma escrivaninha com um quadro acima, repleto de post-its e papéis alfinetados. Os livros nas prateleiras e o quadro acima da cama complementavam o ambiente relativamente sóbrio.
Pensando bem, dava para perceber um pouco dele ali. Era bem organizado, menos o quadro com os papéis, mas tinha uma certa criatividade. Ele parecia ansioso.
— O que achou?
— A sua escrivaninha é bem bonita, apesar de não combinar com o resto. – Bati na madeira de leve, evidenciando que ela era bem mais escura que o resto dos móveis.
— Foi o único móvel que eu mesmo comprei. Encontrei numa feira de antiguidades e adorei.
— O local de trabalho de Lysandre, onde ele escreve seus poemas. – Ri, fazendo-o rir também.
— A maior parte das vezes. Oh, estou sendo um péssimo anfitrião. Não perguntei se você queria tomar nada.
— Se você tiver algo refrescante, aceito.
— Vou buscar. A casa é sua, fique à vontade. – Ele deixou o quarto. Coloquei minha bolsa na cadeira da escrivaninha, aproveitando a proximidade para ver as notas no quadro.
Eu já tinha testemunhado o talento dele antes, mas nunca assim. Sorri, lendo os menores. O pai dele estava certo, Lys tinha muito talento, mais do que ele se dava o crédito.
— Você salvou a maioria, sabia?
— Como assim? – Consegui fingir que não tinha me assustado com o retorno inesperado.
— A maioria vem do bloco de notas. Aquele que você, tão insistentemente, me ajudava a achar.
— O que seria de você sem mim, hein? – Ele sorriu, sem pegar pilha da pequena provocação. – Fico feliz de ter ajudado. Seria uma pena se eles acabassem numa lata de lixo.
— Bom, é um outro talento meu, a desordem.
— Seu quarto diz o contrário.
— Ah, não se engane, eu já perdi algumas coisas por aqui. – Ele ria agora, bem mais próximo. Sorri também, finalmente prestando atenção a ele, acariciando seu rosto. – Fico feliz de te ter aqui hoje, sabia?
Ele abraçou minha cintura, me puxando ainda mais para perto. Se meu sorriso não fosse tão espontâneo, minhas bochechas já estariam doloridas. Aceitei com naturalidade quando ele me puxou com ele para a cama, nos sentando. Ganhei um beijo no canto da boca.
— Sabia que você é a primeira garota a vir no meu quarto?
— Ah é? – Fiquei mesmo surpresa, de um jeito agradável. – Não trouxe nenhuma ex aqui?
— Você é minha primeira namorada. – Ele parecia satisfeito com a confissão.
— Como é? – Aquilo eu não esperava mesmo.
— Eu não me incomodava muito com esses assuntos antes, ainda mais vendo meus amigos. Até te conhecer. Eu vivia feliz, sozinho, na minha bolha. Até você a estourar. Ou entrar nela, não sei.
Aquilo tirou algumas toneladas dos meus ombros. Uma certa felicidade também, entender a hesitação por parte dele também. Ele também estava vivendo seus primeiros momentos daquele universo. Tornava-o ainda mais irresistível.
Respondi com um beijo carinhoso, apoiando as mãos em seu peito. Depois, arrisquei me deixar cair na cama, deitada de lado, vendo na parede os últimos raios de sol do dia. Ele me imitou, deitado de frente para mim.
— Seu cabelo fica lindo no sol. – Comentei, vendo o brilho prateado dos cabelos dele. Imagino que não era o comentário que ele esperava. – As últimas semanas com você foram mágicas, sabia?
— Para mim também. Você me entende tão fácil, nós nos entendemos sem falar nada...Nunca vivi isso com ninguém, nem mesmo meu irmão.
Coloquei a mão em seu peito de novo, sentindo-o estremecer de leve sob meu toque. Sua pele parecia mais quente que o normal. Estremeci também. Afinal, Priya tinha mesmo razão, meu corpo ia me responder.
Fiquei sentada de novo, num movimento brusco que o assustou. Antes que ele me imitasse, tirei minha blusa. Seus olhos praticamente me devoraram, a boca entreaberta, mas sem se mexer. Eu sabia tudo que ele sentia, porque eu sentia também. Surpresa, ânimo, hesitação. Peguei sua mão e a coloquei na minha cintura nua.
Aquilo o despertou. Ele se sentou também, desabotoando a camisa, ainda me encarando. Eu também o devorava, sem sequer disfarçar. Ele me elogiou, virando-se para jogar a roupa na cadeira onde estava minha bolsa. Suas costas ainda carregavam a tatuagem das asas, exatamente como eu me lembrava. Desci os olhos, encontrando uma pequena cicatriz no seu quadril.
— Não tinha visto antes, o que é? – Perguntei, passando os dedos de leve por cima da linha esbranquiçada.
— Ah, eu a tenho desde os onze. O nosso cachorro na fazenda arrumou briga com o cachorro vizinho, eu fiquei com medo e pulei no meio.
— Então é corajoso também? – Provoquei. Ele riu.
— O cachorro ajudava com o rebanho, ia sair caro. – Ele deu de ombros, mudando o foco. – Infelizmente, ela ficou bem feia.
— Discordo. – Inclinei-me e dei um beijo sobre a linha, sentindo o respirar fundo. Depois subi pelo peito, o pescoço, até seus lábios de novo. – Achei sexy.
Ele retribuiu com um daqueles beijos inebriantes dele, me deixando até tonta. Tínhamos deitado de novo, as pernas entrelaçadas, suas mãos buscando as minhas. Não me incomodei nenhum pouco quando suas mãos soltaram o botão da minha calça, imitando-o.
Lys tateava cada curva minha, prestando atenção a como eu reagiria. Ele não precisava fazer esforço algum para que eu me derretesse toda em suas mãos. Ofegante, tentava retribuir cada toque carinhoso, sem muito sucesso.
— Lys, você quer...? – Não consegui terminar o pensamento, mas ele não precisou.
— Quero. – Foi uma resposta firme. No mesmo instante, como se atingido por um raio de sobriedade, ele se endireitou, sentado, me estudando. – Você tem certeza?
— Absoluta. – Ergui o tronco, apoiada numa das mãos, a outra tirando uma mecha de cabelo do seu rosto. Assenti mais uma vez, tirando-o da inércia. Ele se inclinou de novo na minha direção, mais uma vez me beijando cheio de paixão.
Arrisquei segurar sua mão e guia-la, lentamente, subindo pelas minhas pernas, até ele assumir o comando de novo, experimentando com os toques entre minhas coxas. A sensação não era a mesma de quando eu me tocava, fazendo meu corpo inteiro parecer pronto para entrar em combustão.
Não importava mais todo o meu medo de antes. Só o que importava era a presença avassaladora de Lysandre que me consumia, sua pele contra a minha, nossas respirações quebrando o silêncio do quarto.
Tudo podia mudar, mas aquela noite ainda seria a mais feliz da minha vida. Com a cabeça em seu peito e a euforia ainda me deixando com a cabeça leve, adormeci sem qualquer remorso.
Na manhã seguinte, eu acordei com o calor de seu corpo e os raios de sol invadindo o quarto. Ainda estava muito cedo, mas com os eventos do dia anterior, a cortina não tinha sido uma prioridade.
Sua mão estava sobre minha barriga, seu rosto tranquilo ainda adormecido. Não resisti e beijei seu ombro, uma, duas, três vezes...Seu sorriso denunciou que ele despertara.
— Não foi um sonho, então. – Ele comemorou, me apertando no abraço ainda sonolento. – Sonhei que fazia amor com uma menina incrível. Acordei com ela nos meus braços, para melhorar.
— Ontem foi...mágico. – Falei, o som abafado depois que escondi meu rosto ruborizado em seu peito. Ele riu da minha timidez.
— Foi mesmo. Não se arrependeu, espero.
— Claro que não. – Finalmente levantei o rosto, olhando direto nos olhos dele. – Eu acordei e senti muitas coisas, todas boas, nenhuma parecida com remorso. Eu te amo.
— Também te amo. – Aquilo encerrou a pequena conversa sobre arrependimentos. Voltei a me aninhar em seu peito, pronta para passar o resto da eternidade ali. Para o começo das férias, estava tudo perfeito. Ele inspirou meu cabelo.
— Você tem algo planejado para hoje?
— Nada. – Corri para responder, sorrindo. Aquilo serviu para nos manter mais um tempo presos um ao outro, conversando sobre as coisas mais bobas, como o amanhecer, a cortina aberta, o quadro acima da cama.
Eu definitivamente não sabia o que o futuro me reservava, mas meu mantra poderia continuar valendo. Era só viver e deixar acontecer. O resto se resolve. Fechei meus olhos, inspirando seu perfume e ouvindo sua voz cantarolando, até adormecer.
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