Lá E De Volta Outra Vez
5 Um Dia Ruim
Notas iniciais
Sabe, com o passar dos dias foi ficando mais fácil me adaptar. Fui ficando mais próxima de Iris, conversando nos intervalos entre aulas. Nathaniel estava sempre por perto, nem que fosse me escutando falar enquanto organizava os arquivos. E eu até o ajudava, às vezes.
E meu contato com Castiel era o mais restrito possível. Pelo menos por parte minha. Ele não perdia a oportunidade de fazer algum comentário inoportuno quando me via. Era extremamente irritante.
E, como eu imaginava, eu virei o passatempo preferido da Ambre e sua matilha. Na maioria das vezes eu simplesmente respondia à altura, deixando a loirinha bem irritada.
Era tudo bem tranquilo. Depois que minha mãe me matriculou na academia, eu ia treinar quase todos os dias, com ou sem Nathaniel. Depois eu ia para casa, tomava um belo banho e descansava. Ficava olhando o céu estrelado da minha janela e, em noites sem estrela, fica olhando minha parede.
E eu passei uns dois meses nesse ritmo não muito agitado. Estava me considerando muito bem. Claro que eu não tinha tantos amigos, mas a zona de conforto não me deixava fugir. Nathaniel até me disse para fazer mais amigos, ficar mais com as meninas, mas eu sempre desistia no último instante.
Um dia qualquer, no início do meu segundo bimestre na escola, fui abordada por um sujeito mais velho no corredor. Com seus trinta anos de idade, imaginei que ele não seria um novato.
— Com licença. É, eu sou novo por aqui, sou professor Faraize. – Ele estendeu a mão, tímido. Apertei, só para não deixá-lo ainda mais tímido e sem graça. – Poderia me mostrar a escola?
— Ah, claro. – Acabei de pegar meu material no armário e fui ser a guia turística do colégio. – Bem, aqui nesse corredor, temos algumas das salas de aula e o grêmio estudantil.
Abri a porta do grêmio, imaginando que Nathaniel estaria lá. E acertei em cheio. Ele me olhou, curioso, segurando uma pasta bege. O professor novo o cumprimentou, sério.
— Este é Nathaniel, representante de turma, e de longe um dos mais prestativos do colégio. Nath, esse é o professor novo.
— Faraize, sim? Prazer. – Nathaniel lhe estendeu a mão, deixando a pasta de lado. Faraize a apertou, um pouco menos tenso do que antes. – Hum, se precisar de qualquer ajuda, senhor, pode me procurar.
— Sim, obrigado. – Ele concordou, me olhando.
— Bom, vamos ao pátio. – Deixei a sala, vendo os olhos de Nathaniel me seguirem. Dei de ombros para ele antes de sair, levando o professor para a área externa. – O pátio é a maior área de recreação, e passagem para o jardim e o ginásio, senhor. E cheio de maus encontros.
— Falando de mim, pirralha? – Eu tinha falado alto assim que o vi, e Castiel simplesmente riu. Faraize se apresentou, mas o aluno acenou e deixou a mão estendida sem aperto. O professor recolheu o braço, constrangido.
— Se a carapuça serviu... – Dei de ombros, me virando para o professor. – A sala da direção é no fim do corredor, a biblioteca também. E é isso.
— Bom, eu agradeço a ajuda. Com licença. – Ele se despediu sem graça e voltou para o corredor, ajeitando o suéter azul. Castiel deu uma risada, desembolando o fio dos fones.
— Se continuar prestativa assim, vai acabar se escravizando. – Ele murmurou. – Fique avisada.
— Obrigada. – Sorri e voltei para o interior da escola. Minha relação com Castiel era tão estranha que, ao mesmo tempo que ele parecia não se importar com minha presença, ele parecia fazer questão de ser sarcástico ou sem educação mesmo.
Parei no corredor para trocar a música tocando no celular, e meu sossego acabou. Com um sorriso mais irritante do que nos outros dias, Ambre e as duas criaturas que a seguiam caminhavam como se atravessassem uma passarela.
— Ei, Anna. Belo modelito. Está parecendo uma mendiga incrível. – As três riram. E eu até aceitava que não estava exatamente arrumada, com um jeans surrado e uma camiseta cinza um pouco gasta também.
— Obrigada. Você também arrasou com essa camiseta à saco de batata. – Vi o sorriso sumir por um instante, até ela voltar a falar, jogando a cabeleira loira de lado.
— Veja, Anna, eu e as meninas estávamos planejando ir comer uma pizza depois da aula, mas a Charlie esqueceu de trazer dinheiro a mais. Você bem que podia emprestar, não é?
— Oh, quer que eu acompanhe vocês também? – Sorri, cruzando os braços. – E qual exatamente é o plano da Charlie de me pagar de volta? Corta essa.
— Bom, plano B, meninas. – Ambre falou e segurou um braço meu. A menina asiática, Li, agarrou meu outro braço e Charlotte simplesmente meteu a mão no meu bolso e pegou todo o dinheiro que eu tinha. Ambre deu o sorriso de vitória e me empurrou, me jogando no chão.
O plano era levantar e encher a mão naquela carinha de Barbie, mas minha linha de pensamento mudou assim que, ao me apoiar com as mãos no chão para ficar de pé, a chinesinha fincou o salto da sandália preta na minha mão esquerda.
— Puta. – Gritei, segurando a mão atacada. As três voltaram para o pátio contando as notinhas. Sentada no meio do corredor, eu continuei segurando a mão contra o peito, grunhindo. Quem diria que saltos machucavam tanto?
— Anna, tudo bem? – Iris perguntou, se abaixando do meu lado. – O que houve?
— O que houve é que aquela piranha da Ambre acabou de me roubar. E de pisar na minha mão com um salto. Bom, isso foi Li.
— Oh. Devia ir até a enfermaria.
— Não acho que seja tão grave, deve passar logo. – Murmurei, soltando a mão e vendo o esfolado avermelhado. – Eu ainda acabo com a raça dela.
— Ela é assim com todo mundo, não fica assim. Até com o irmão.
— Eu sei. Ainda quero meu dinheiro de volta. Ela não perde por esperar.
— Bom, vem. Temos que ir pra aula. – A ruiva me ajudou a ficar de pé e abriu a porta da sala de aula para mim. Fui para o meu lugar, vendo o demônio loiro entrando pouco depois. Nem disse nada.
Não consegui prestar muita atenção na aula de inglês, riscando o caderno. Como eu ia pegar a droga do dinheiro de novo? E pior, deixar Ambre com aquela cara maquiada pregada no chão.
Bom, vamos por etapas. O dinheiro devia estar com ela, na bolsa. Ela só a soltava durante as aulas, mas eu não sentava perto dela. Aquilo era fácil de resolver. A parte da humilhação, talvez não fosse tão fácil.
Ou fosse. Ambre era fútil. E odiava ter o orgulho ferido, isso era óbvio. A questão é que ela achava que tudo em que ela algum dia encostara era super valioso. Ela tinha até o armário customizado, como se fosse a diferentona. Estava ai.
“Vou acabar com seu trabalho naquela porta de metal. Ou pelo menos o dinheiro que você desembolsou.”
A escola esvaziou depois do último horário. E foi justamente nesse último horário que eu contei para Nathaniel o que a irmã dele me fizera e pedi para ele pegar o dinheiro na bolsa. Ela estava lixando as unhas quando ele esgueirou a mão pela bolsa e pegou o dinheiro.
— Toma. Eu vou falar com ela depois.
— Não precisa. – Contei o que ela tinha me tomado e devolvi o resto. Não era meu e eu não precisava roubar de ninguém. Ele guardou as notinhas amassadas no bolso.
— Precisa sim. Já passou dos limites essa palhaçada.
— Pode deixar, querido. Eu me viro. Ela ainda tem medo de aranhas?
— O que você vai fazer, Anna? – Ele franziu o cenho, me olhando. Eu sorri, sem olhar na sua direção.
— Relaxa. Não envolve aranhas de verdade. E nem morte, o que é uma pena.
— Anna...
— Só não quero que você entre na discussão sem motivo. E eu sei me cuidar, pode deixar.
— Ok, mas tome cuidado.
— Pode deixar. Acho melhor devolver antes que ela note.
— Se já não notou. – Ele resmungou, deixando o grêmio para procurar a irmã. Aproveitei a deixa e sai da escola correndo. Comprei a lata de spray azul, os bichinhos de plástico e voltei com pressa para o colégio.
Sabe, eu nunca fui de caçar problema assim. Na verdade, na outra escola, minha única punição foi por chutar um menino bem lá depois que ele chamou o Ken de esquizofrênico sem o menor motivo. Ainda assim, a ansiedade era imensa.
Eu já tinha colocado os adoráveis bichinhos de oito patinhas de plástico no meio do material. No horário do almoço, fiquei vigiando-a abrir o cadeado e decorei a combinação. Fechei a portinhola e, com a lata em mãos, comecei a pichar a porta enfeitada.
— Hey, Ambre pagou caro nisso. – Revirei os olhos. Não era mesmo meu dia. Li veio para cima de mim feito uma fêmea ao ver os filhotes em risco. Agarrou minha mão, tentando soltar a lata. Eu tentei afastá-la, mas a comoção já estava armada.
— O que é isso? – A diretora. Soltei a lata na hora, vendo Li falar com firmeza.
— Senhora Shermansky, essa louca estava arruinando o armário sem o menor motivo.
— O menor motivo sua bunda, vocês me roubaram.
— Não quero saber! Senhoritas, talvez gostem de limpar toda a sujeira que já fizeram, sim? Aqui e nos corredores, é um absurdo.
— O que?
— Assim que os alunos dos clubes forem embora, vocês duas vão limpar toda essa porcalhada.
— O que? Eu estava... – Li começou a falar, mas a diretora a interrompeu.
— Não quero saber. – Eu fiquei caladinha, evitando piorar a situação. A diretora foi embora depois de falar com Nathaniel. Li virou as costas e foi esperar em uma das salas.
— Esse era o plano brilhante? – Nathaniel me encarou, sério.
— Ei, a ideia era boa. Um pouquinho de sorte nesse ótimo dia e teria funcionado. – Ele concordou, entrando de volta para o grêmio. Fui atrás dele.
— Vou pedir o pessoal da limpeza para deixar o armário destrancado, você tente não demorar.
— Ah, eu queria tanto mofar no colégio. Que merda.
— Para de reclamar, podia ser pior. Espera ai um pouco, vou lá falar com o zelador.
Tive que esperar quase uma hora para poder começar minha punição. Nathaniel me disse que convencera a diretora que não precisaria avisar aos pais, e eu fiquei grata. Peguei o balde com sabão e água e a esponja, esperando Li.
A menina estava sentada na escada no fim do corredor, passando base nas unhas. Olhou para mim por cima dos dedos e falou.
— Eu não vou estragar minhas unhas te ajudando. Tente não demorar. – Revirei os olhos e, na melhor oportunidade de ficar longe dela, fui limpar o armário de Ambre antes.
Com o cabelo preso e os fones ligados, esfreguei a porta de metal, tirando o azul que o manchara. Até pensei em pegar as aranhas, mas desisti da ideia. Ninguém sabia daquilo. Nem eu.
Quando voltei para a escadaria, Li tinha sumido. Fui procurá-la no banheiro, mas não a vi. Suspirei e voltei para a escadaria.
Estar ali fazendo todo o trabalho era previsível, mas a ideia de estar sozinha me incomodou um pouco. A luz fluorescente parecia instável, para deixar o clima mais agradável ainda. Nossa, que morte lenta. Todas as cenas dos filmes de terror japoneses que eu já tinha visto me atormentavam.
Uma risada. Parecia muito grave para ser de Li ou da diretora, mas só tinha as duas no colégio. Soltei a esponja no balde e falei, olhando o corredor escuro ao meu lado.
— É, muito engraçado, Li, agora sai dai. – Sem resposta. Suspirei e voltei a esfregar, sentindo os braços cansados e ardendo com o esforço. Uma porta rangendo. Nem me virei. Ela ia brincar sozinha.
Aposto que ela tinha fugido quando eu fui pegar um pano no armário de limpeza. Sinceramente, que menina ridícula. Atrapalha minha vida e ainda finge que está tudo normal.
Outra daquelas risadas. Olhei mais uma vez, vendo Li no pé da escada.
— Precisa estar escondida se quer me assustar com essas risadas.
— O que? Eu não falei nada. Achei que era você.
— Bom, não estou feliz para estar rindo assim. – Murmurei, ficando de pé. Meus joelhos estavam com as marcas de pedrinhas do chão.
— Se não foi você, quem foi? – Ela ficou de pé e pegou a mochila. Confesso que a cara apavorada dela foi tentadora demais para não fazer o que eu fiz. Peguei minhas coisas e parei bem de frente para ela.
— Foi um espírito. – Os olhos dela se abriram tanto que eu comecei a rir, mas ela simplesmente olhou por trás de mim. E berrou e saiu gritando corredor afora. Me virei.
E que susto. O vulto que começava a sair do porão escuro, que àquela hora deveria estar trancado, me fez correr feito uma menininha assustada e deixar a escola depois de dar um grito.
— Você fez o que? – Nathaniel devia estar rindo de mim pelos últimos vinte minutos, tomando a garrafa d’água quando conseguia não rir.
— Você faria o mesmo. Pensa comigo, tem três mulheres dentro da escola e aparece uma sombra de um quarto que está trancado de quase um metro e noventa de altura. Quem você acharia que é, o Michael Jordan?
— O que o Michael Jordan estaria fazendo aqui?
— Por isso mesmo você não acharia que é ele. – Apontei, fazendo-o rir de novo. – Me ajuda a lembrar porquê eu ainda sou sua amiga.
— Porque você já me falou demais para voltar atrás.
— Ah, deve ter uma brecha.
— Sério, eu te conheço muito para não sermos mais amigos.
— Enfim, foi um susto bem estranho.
— Claro, o fantasma da escola.
— Ok, senhor racional, me dá uma explicação melhor.
— Algum aluno idiota estava pregando uma peça em vocês.
— Quem fica na escola tanto tempo só para assustar uma menina? Ninguém faz isso. – Ele deu de ombros. – Viu, nem você sabe nada melhor para falar.
— Ok, ok. Deixa o fantasma de lado. Ele não vai te seguir. Eu te protejo.
— Own, meigo. Bom, eu vou pegar meu material no armário. Te vejo depois.
— Tchau. – Ele murmurou, mais tranquilo. No corredor, vi Ambre respondendo uma mensagem antes de abrir seu armário, meio distraída.
Já dava para abrir um campeonato de maior susto do colégio. Ela deu um pulo tão grande quando viu as aranhas que eu tive que passar correndo por ela para não rir na sua cara. Escorei a testa no meu armário e gargalhei, me sentindo finalmente vingada.
Com o material na mochila e alguns minutos de tempo livre, caminhei hesitante até a escadaria. Meu serviço até tinha sido bom, mas o que chamou minha atenção foram as bitucas de cigarro do lado do primeiro degrau. E uma palheta também.
Aquilo não estava ali antes. E ninguém fumaria na escola num horário com tanta gente. Sacudi a cabeça, querendo esquecer aquela ideia boba de fantasma. Ainda assim, algo tinha me assustado e eu queria descobrir quem fora.
Fui para a aula, riscando os cantos do caderno depois de acabar o exercício. E com a palheta no bolso, me lembrando de que algo tinha acontecido ali na noite passada.
Depois da aula eu simplesmente sentei em um dos bancos do pátio, como se uma resposta fosse aparecer ali, do nada. Quando vi o rosto sério de Castiel, decidi arriscar a sorte.
— Castiel. – Ele me olhou, esperando eu falar logo o que eu queria. Não parecia estar de bom humor. – Existe alguma chance que você conheça alguém que fuma?
— Por que?
— Perguntando, apenas. – Ele negou, voltando a mexer nos bolsos. Peguei a palheta, olhando bem para ele.
— E de que você reconheça isso?
— Isso é meu. – Ele pegou a palheta. – Perdi ontem, tive que ficar em casa procurando outras nas gavetas.
— Você toca.
— Guitarra. Onde achou isso?
— No corredor.
— Hum, deve ter caído do meu bolso. Valeu.
— De nada. – Não comentei nada sobre o susto da noite anterior porque, primeiro não queria ser ridicularizada, e segundo porque a sombra não parecia ser dele.
Com a curiosidade que matou o gato, eu decidi esperar até o fim das aulas e ficar na escola, até o fim da tarde. Eu ia ver quem é que tinha me visto passar aquela vergonha.
E eu esperei quase a tarde toda. No último minuto, quando Nathaniel estava prestes a ir embora, quando a escola já estava vazia, ele me perguntou se eu ia ficar. E eu disse que não. Segui-o até a saída e fui para casa correndo, antes que escurecesse.
No dia seguinte ia funcionar. Tinha que funcionar. Eu tinha ficado até tarde deitada, me repreendendo por ser tão frouxa. Mas seria diferente, agora eu conseguiria.
Andando pelo corredor como de costume, eu decidi dar aquela volta perto da escola. E lá estava um bloco de notas. Apanhei-o e, olhando só a primeira página à procura de um nome, guardei na mochila.
As aulas se arrastaram e eu apenas ficava repetindo para mim mesma que, naquela noite, eu tinha que descobrir quem fora o engraçadinho a me assustar. Fazendo meus exercícios para gastar tempo, vi um cena inédita. A conversa baixa perto da porta da sala me chamou a atenção. E a voz de Nathaniel eu reconheci na hora, demorando um pouco mais para perceber que a outra era de Castiel. Eles se odiavam, do que estavam falando? Não consegui ouvir.
Provavelmente era Nathaniel ameaçando Castiel de ser expulso com aquele monte de faltas. Preferi fingir que nem estava ali, ficando calada na sala. Quando o céu começou a ficar num tom meio arroxeado, decidi que era hora. Chequei se o colégio estava vazio e fui para os fundos do corredor.
Por algum motivo, fui com o celular em mãos, apertando-o. Estava tudo bem, era só algum aluno imbecil. Ouvi a risada de novo e a porta do porão se abrir. Um vulto menor que o anterior veio na minha direção.
Sem saber o que fazer, eu simplesmente liguei a lanterna do celular. Nathaniel desviou o rosto, semicerrando os olhos. Abaixei o aparelho, chocada.
— O que faz aqui? – Perguntei, tentando ignorar o motivo pelo qual eu estava ali.
— Eu te conheço, sabia que ia aparecer de novo. Vem, eu te explico. A luz do porão não é tão forte quanto essa sua.
— Foi mal. – Falei, passando por ele e descendo para o tal porão.
Aquilo era o depósito do colégio, num resumo básico. Tinha escadas de vários tamanhos, caixas e, no meio de toda a zona, alguns instrumentos musicais. Um par de violões, uma guitarra elétrica, e um teclado. Castiel estava sentando num caixote, com um cigarro aceso.
E ao seu lado um menino maior. Quis dar meia volta e fingir que não tinha feito nada. O estranho provavelmente era o tal fantasma imaginário. Castiel me apontou com o queixo, apagando o cigarro.
— Então, Anna, num resumo, este aqui é Lysandre, amigo do Castiel. Os dois ensaiam juntos aqui no porão, mas como você diria, o cômodo fica trancado. Começou quando Castiel roubou minhas chaves, eu descobri, mas não falei nada porque a senhora Shermansky acharia que eu fui irresponsável.
— Ok, então eu só me assustei por que eu fui burra?
— Oh, não fala assim. Você é brilhante. – Ele riu, abraçando meus ombros. Castiel riu, me mostrando sua palheta vermelha. Foi ai que o menino desconhecido se pronunciou.
— Prazer em te conhecer, me chamo Lysandre.
— Anna, hey. – Acenei, sem graça. Eu só pagava micão mesmo, incrível.
— Eu peço desculpas pelo susto da noite retrasada, eu não sabia que você ia estar lá com sua amiga.
— Ele esqueceu, porque eu avisei. – Castiel comentou, pegando a guitarra. – Enfim, esse cara ai é seu temido fantasma.
— Ha ha, valeu. – Sorri para ele. Era muita vergonha para uma pessoa só. – E fui eu quem levei susto sem razão, Lysandre, está tudo bem. Ah, a propósito, isso não seria de um de vocês?
Peguei o bloco de notas dentro da mochila. Lysandre pareceu satisfeito em ver a capa esverdeada. Deduzi que era dele e devolvi, fechando a mochila de novo.
— Bom, é isso. – Nathaniel comentou, afrouxando um pouco a gravata. – Você vai para casa?
— É, meus pais chegam daqui a pouco e vão enlouquecer se eu não estiver lá.
— Vem, eu te deixo lá.
— Ah, ok. Prazer em conhecer, Lysandre. Tchau. – Ainda sem jeito, eu deixei o porão e fui com Nathaniel, agarrada em seu braço, xingando-o. – Devia ter me dito.
— O segredo não era só meu.
— Não ia contar para ninguém, e você sabe. Era só a vontade de me fazer passar vergonha, não é?
Ele riu, me abraçando em resposta. Com o céu começando a escurecer, caminhamos até o apartamento, risonhos.
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