Lá E De Volta Outra Vez
24 Inferno, com certeza!
Notas iniciais
Quando cheguei na escola no dia seguinte, minha língua estava até formigando. Eu tinha que falar com alguém sobre Debrah, mas estava receosa. Ela podia ter razão sobre ninguém acreditar em mim. Eles a “conheciam”.
Respirando fundo, eu entrei no grêmio, esperando o bom dia distraído de Nathaniel. Ele nem olhou na minha direção, mas soube que era eu. Respirei fundo e me sentei, prestes a dizer, mas travei. Ele sabia muito bem quem era ela, podia me ajudar sem saber da história.
– Nath, você tem que me ajudar a desmascarar essa...cobra.
– Anna, você precisa entender que...
– Nath, Debrah assumiu que mentiu, tentou te seduzir, mas acabou dando errado e que ela fingiu que você a agarrou.
– Anna! O que está dizendo?
– Melody, oi. Olha, eu sei que é estranho, mas...
– Pode parar com isso. É muito feio ficar falando mentiras por ai, se você ainda não aprendeu isso.
Sem ter tempo de reagir, ela saiu da sala bufando e me deixou lá, de boca aberta.
– Todos vão acreditar nela.
– Valeu pelo aviso.
Eu não soube direito quais eram minhas opções. Eu podia correr e dizer para Melody que tinha sido brincadeira de mau gosto, podia abrir o jogo mesmo, podia fingir que não tinha acontecido nada. Ainda cogitando minhas possibilidades, deixei o grêmio e fui para a sala de aula.
Melody continuava me encarando do jeito irritado, mas eu tentei ignorar. Esperava contar para Alexy ou Rosa, mas nenhum dos dois chegou a tempo. Prestei tanta atenção na aula quanto eu podia. A preocupação começava a me perturbar.
Quando eu estava saindo da sala, vi Debrah com as meninas, conversando despreocupada. Maldita. Ela olhou para mim e sorriu, despistadamente. Sai de perto, respirando fundo. Testando, ela estava me testando. Cachorra.
Na tentativa de fugir do olhar perseguidor e, agora também, de Iris, eu sai mais cedo do refeitório depois de almoçar na pressa. Ela veio atrás. Respirei fundo, tentando ignrorar sua existência, mas a persistência dela me venceu.
– Que foi, Debrah?
– Eu te disse que ninguém ia acreditar em você. Anna, para de tentar ser a dona da verdade. Eu já te disse que só quero meu gatinho e ai vou embora. Não estrague sua reputação aqui tão rápido.
– Eu não estava falando com ninguém que já não soubesse. Melody ouviu porque é intrometida.
– O grêmio é aberto aos alunos. Anna, essa guerra vai acabar mal para você.
– Eu só estou limpando minha consciência. Você não tem como saber o que é, Debrah, você não tem.
– Estou avisando, eu consigo te transformar na pior pessoa daqui em um instante.
– Debrah, por favor, me dá licença?
– Eu te irritei, foi?
– Debrah, sua existência é que me irrita. Some, sai da frente! – Os olhos dela foram se enchendo de lágrimas enquanto um sorriso torto ia virando os traços de um choro contido. Franzi o cenho, finalmente olhando ao meu redor. A escola toda. Ou pelo menos todos os meus amigos. Ela conseguiu me fazer gritar na frente de todos.
– Se não queria ser minha amiga só precisava dizer.
– Debrah. Ei, desculpa, eu... – Até Alexy. Eu nem consegui fechar a boca depois de ver a expressão chocada dele. O ar me faltou. Ela não exagerou nem por um instante. As garotas foram tirando-a de perto de mim, consolando o suposto choro.
– Qual seu problema, guria?
– Eu não acredito.
Qual o tipo de reação nesse momento? Tentar se explicar. Eu tentei. Para que? Só piorou tudo. Agarrei Alexy pelo braço e perguntei por que da hostilidade? Ele simplesmente disse que quando a máscara cai não tem muito retorno. Então eu fiz a única coisa que me restava, sai de perto e fui para a sala.
Nathaniel sentou por perto, mas não disse nada. E não me deixou feliz também. No fundo o que parecia era que ele simplesmente não se importasse. Eu me importava. Não era ele quem ia ter que ficar por três anos sozinho dentro da escola, conversando consigo mesmo. Não seria ele quem ia ser lembrado sempre como o mentiroso asqueroso. Quando a aula terminou ele até tentou me ajudar, mas não adiantou. A gente só brigou.
– Anna. Viu, eu te disse para deixar de lado.
– Obrigada, capitão óbvio. Era só isso?
– Ei, não é culpa minha. Debrah sempre foi assim, sempre vai ser. É guerra perdida caçar briga com ela.
– Sabe qual o seu problema, Nath? Você é covarde e espera que todo mundo ao seu redor seja também. Pra você está tudo bem uma garota chegar e aniquilar meses de amizade, desde que você não tenha que falar demais, está tudo bem ter que se esconder atrás desse medo de falar, é fácil apanhar calado.
– Cala a sua boca, Anna.
– Cala você a sua, não é o que você faz sempre? Se você quer continuar feito um cachorro com o rabinho entre as pernas o problema é seu, eu vou falar, eu vou virar inimiga de todo mundo nessa escola, mas eu vou andar com a consciência limpa e o coração leve.
E depois de fechar o armário com uma portada, saí andando e deixei ele lá, vermelho de raiva, com a mandíbula travada. Que inferno. Nem mesmo os amigos de longa data eu ia conseguir manter. Entrei no vestiário masculino e fiquei sentada num banco, com a cabeça nas mãos.
– Anna?
– Ei, Lys.
– O que faz aqui?
– O que tenho feito nas últimas horas, me escondendo de todos. Vim para cá para não esbarrar em nenhuma menina no vestiário feminino.
– Hum, Debrah, é?
– É, ela mesmo.
– Ela não vale nenhuma dessas lágrimas suas. – Só quando ele secou meu rosto com a mão é que eu notei que estava chorando. E ai eu entrei em desespero e desatei a chorar com direito a soluços altos e catarro. Bem horrendo. – Ei, ela não pode ter esse poder sobre você.
– Ela tem sobre todos os outros, Lys. Em um segundo ela deixou a escola toda contra mim. E o único que sobrou eu mesma afastei.
– Eu estou aqui.
– É, eu sei. Desculpa.
– Alguma maneira de te fazer parar de chorar?
– Não sei, um strip tease deve dar conta do recado. – Abaixei o rosto, tentando limpar o nariz na blusa. Tomei um susto ao ver o rapaz ficando de pé e tirando o casaco, o lenço do pescoço e começando a desabotoar a camisa. – Lys, era brincadeira.
– Hum, eu sei. Não é isso, eu quero te mostrar algo.
– Não soou melhor.
Ele acabou de tirar a camisa e ficou de costas para mim, subindo as calças. Eu não sabia no que eu babava mais, nas costas estranhamente definidas dele ou na tatuagem das asas. Escolhi as asas por motivos de auto controle.
– Liberdade. Não quero dizer que deveria se livrar de seus amigos nem nada disso. Se livre só do que te faz mal. Mesmo que algumas pessoas estejam nesse meio. Não ligue pros outros.
– Sua tatuagem é muito bonita, Lys.
– Obrigado. Agora acho que devia lavar o rosto e ir para casa descansar. Vai ver que vai estar tudo mais fácil amanhã, quando estiver mais calma.
– Eu começo a ter a impressão de que você está sempre cuidando de mim.
– Você cuida de mim também. Agora vai.
Concordei e peguei minha mochila, secando o rosto com as mãos. Ele sorriu e abriu a porta do vestiário para mim. Saí, mas não fui para casa. Dentro de mim, o medo e a decepção começavam a virar determinação e raiva. Eles achavam que eu era um monstro, eu ia mostrar como eu conseguia ser uma pessoa horrível. A ideia de uma guerra ia se formando, e que eu tinha que me preparar.
Cheguei na academia e fui socar o saco de pancada empoeirado, determinada.
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