Lá E De Volta Outra Vez
2 Enturmando, ou não
Notas iniciais
Depois de passar um bom tempo na biblioteca com Nathaniel, pondo a conversa em dia, decidi voltar para casa. Tia Ágatha acabava de chegar em casa, com seu vestido de fada e as asas. Sorri. Adorava quando ela ia vestida assim nos meus aniversários de dez anos atrás.
– Querida, oi.
– Ei, tia. Como foi o dia?
– Ah, o de sempre. Levando sorrisos para os lugares. – Concordei, fechando a porta atrás de mim. Tia Ágatha andava vestida daquele jeito porque era assim que ela alegrava a vida das crianças com câncer.
Trabalhando no hospital da cidade há anos, ela normalmente ia com aquela roupa rosa e azul e falava para as crianças que ela estava levando o mais essencial na cura deles, a esperança. Ela até já tinha me levado como acompanhante, mas eu quase chorava.
– Quer pedir uma pizza?
– Pode ser. – Concordei, prendendo o cabelo com uma piranha e jogando a mochila em cima do colchão na sala. Ela saiu cantarolando pela casa, ainda no vestido de fada. Deitei no colchão e respirei fundo, exausta. Acabei cochilando. Até que foi uma vantagem o sono de uma hora e meia porque, logo depois de comer a pizza, minha tia começou a maratona de TV. E, de novo, não dormi até o relógio marcar três da manhã.
No dia seguinte, estava morta de cansaço. Entrei na sala de aula com os pés arrastando. Nas mesas de dupla, eu coloquei a mochila ao lado de Nathaniel e pus a cabeça sobre a mesa. Ele me olhou, calado.
– Bom dia. – Murmurei, erguendo o rosto e dando um bocejo.
– Dormiu tarde?
– Infelizmente. Minha tia ficou vendo TV até as três da manhã.
– E dai?
– Estou dormindo na sala.
– Oh. Sinto muito.
– Vou sobreviver. Logo minha mãe vai chegar com os móveis da casa nova e eu terei um quarto. – Dei de ombros, pegando um caderno na mochila. O professor de matemática entrou, encerrando os assuntos todos.
Meu armário ficava no meio do corredor. E até eu chegar lá, ouvi uma meia dúzia de risadas, aparentemente direcionadas para mim. Não entendi. Não até ver o que estava pregado com fita adesiva na portinha roxa do armário. Era a foto que eu tirara no dia anterior para a matrícula, só que toda rabiscada.
Devo dizer, aquele bigode desenhado meu era mais bonito do que o de muito homem velho. Dei uma risada fraca e olhei ao redor, procurando possíveis suspeitos. Eu nem lembrava daquela criatura, até ela dar as caras.
Antigamente ela só sabia chorar e correr pro papai, xingando o irmão. E agora, do jeito que tinha duas garotas a cercando enquanto ela vinha na minha direção, eu não esperei nada de bom.
– Ambre. Ei. – Falei, olhando a foto de novo. Ela tinha virado aquelas patricinhas enjoadas que acham que comandam o colégio e todos nele. Revirei os olhos.
– Você a conhece, Ambre? – A chinesinha ao seu lado falou, retocando o batom.
– Velha conhecida. – A loira deu de ombros, cruzando os braços e me encarando. – Deveria adotar esse visual.
– É muito único. Deixo pra você mesmo. – Joguei a foto na lata de lixo mais próxima, deixei meu material no armário e o tranquei, indo embora.
Abri a porta do grêmio, alarmando Nathaniel. Ele ficou esperando eu dizer algo, com uma pasta de documentos na mão.
– Sua irmã mudou. – Ele estava prestes a concordar, mas o interrompi. – Ela é uma vadia agora.
– Isso foi...rude. Não devia falar assim dela, muito menos comigo.
– E ela não devia roubar uma foto da minha matrícula e sair espalhando um monte de cópias. Ah, depois de garantir que eu estaria com o bigode do Eufrazino em todas.
– Ela fez isso?
– Está mesmo tão surpreso?
– Não. – Ele esfregou os olhos e falou, irritado. – Vou falar com ela. E sumir com as fotos.
– Obrigada. – Deixei o grêmio junto dele, mas indo em outra direção. Peguei umas vinte fotos por conta própria, pregadas nas janelas e portas, nos armários e até nas paredes. E foi tudo pro lixo.
– Anna. – Ken. Ele carregava consigo algumas fotos também, estendendo-as para mim. – Vi que estava recolhendo e decidi te ajudar.
– Valeu, Ken. – Suspirei, jogando mais aquele bolinho de papel no lixo.
– Foi a loira alta, não foi? – Para o Ken, quase todo mundo era alto. Inclusive eu. Também, ele devia medir 1 e 65.
– É, Ambre. Bem, provavelmente com ajuda do Tico e o Teco dela.
– As outras meninas? Foram elas que me seguraram para Ambre tomar meu dinheiro.
– Ela te roubou? – Mudei de postura, esperando ele confirmar. Eu até tinha me irritado com a história das fotos, mas roubo?
– Não foi muito. Só o dinheiro do lanche.
– Não interessa. Ela vai te devolver. – Minha vontade era de ir atrás dela e dar um corretivo bem dado naquela menina, mas Ken me segurou.
– Não precisa. Pelo menos elas não te fizeram mal.
– Devia estar preocupado com você.
– Não foi tão sério. Elas vieram falar de você, então eu disse que você era a menina mais incrível do mundo. Ai elas riram e pegaram o dinheiro.
– Disse o que? – Sorri, mais calma. Ele repetiu, me fazendo rir. – Tem certeza que não disse que eu era o amor da sua vida?
– Talvez... – Ri, deixando-o envergonhado. Podia ser doido, mas Ken era uma gracinha.
– Vou caçar mais dessas fotos. Até mais, Ken.
Sai pelo corredor, tomando fotos das mãos de alunos e das paredes, com os fones ligados. Entrei na sala em que acabara de ter aula e parei uma menina ruiva.
– Licença, podia me dar essa foto?
– Oh, toma. Ambre não tem limite mesmo.
– Deu pra ver. – Concordei, pegando a foto.
– Hum, eu sou Íris. Sou da sua turma.
– Anna. A menina da foto. – Ri, rasgando as fotos comigo e joguei no lixo. – Prazer, Íris.
– O prazer é meu. Espero te ver mais por ai.
– Pode ter certeza. – Sorri e sai da sala, com a mochila nas costas.
Assisti mais duas aulas tendo que ficar vendo fotinhas passando de um lado pro outro. E Ambre com um sorriso torto para mim, como se aquilo fosse uma grande vitória.
No intervalo, decidi ir comer no pátio. Tinha levado comigo um pedaço da pizza da noite passada e comia a fatia sentada num banco, até vir mais uma irritação pro dia.
– Bela foto. – Castiel jogou a fotinha no meu colo, rindo. Simplesmente fiquei de pé e joguei a foto fora e tentei ir embora, mas ele parou na minha frente.
– É, muito engraçada. Ha ha.
– Quem te deu esse presente?
– Ambre, Tico e Teco.
– Tico e Teco eu imagino que sejam Li e Charlotte.
– Não acho que muita gente ande com aquela criatura.
– É, com certeza não.
– Se quiser pegar essas fotos pra você, não ligo nem um pouco.
– Não são problema meu. Boa sorte.
– Obrigada...por nada. – Revirei os olhos e voltei para dentro da escola, enquanto ele continuava rindo da minha cara.
O sinal tocou a primeira vez enquanto eu estava no corredor. A diretora vinha correndo na minha direção, com os passinhos curtos presos pela saia rosa do terninho.
– Senhorita Wright. Senhorita, você ainda tem algumas pendências.
– Pois não?
– Todos os alunos devem estar inscritos em algum clube, querida. Normalmente todos continuam nos clubes dos anos anteriores, mas como você é novata...
– Ah, sim. Quais as opções que eu tenho?
– O clube de basquete e o de jardinagem ainda não estão completos, senhorita.
– Jardinagem. – Eu não tinha muitos problemas com esportes, desde que eles não envolvessem bolas.
– Muito bem. Compareça à sede do clube após a aula.
– Onde isso é? – Ela simplesmente foi embora sem me responder. Fui para aula, dando de ombros.
Acabei ficando ao lado de Íris naquele horário, mais na frente da sala. Como de costume, nos primeiros dias de aula eu estava anotando tudo e prestando atenção em cada coisinha dita pelo professor.
– Ei, Íris. – Antes que ela se levantasse, no fim da aula, segurei seu braço e perguntei. Devia ser uma das estruturas novas da escola. – Onde fica o clube de jardinagem?
– Ah, fica ao lado do pátio, o jardim com a estufa. Não tem erro.
– Ok, obrigada. – Sorri.
– Eu até te levaria lá, mas preciso ir ao clube de música.
– Não se preocupe, eu me viro. – Sorri em agradecimento e juntei minhas coisas, saindo da sala.
Quando cheguei ao jardim, não tinha ninguém lá. Bem, tinha o Ken. E eu meio que esperava que ele tivesse escolhido jardinagem. Basquete definitivamente não era pra ele.
– Ei, Anna. Sabia que ia escolher jardinagem. Você gosta de natureza.
– É, acho que sim. Sabe o que temos que fazer?
– Não. Estava esperando, mas ninguém apareceu por aqui.
Caminhei até a estufa, tentando abrir a porta. O que consegui foi achar um papel colado ao vidro da estrutura. Li o escrito no bilhete.
– Ken, escuta só. – Limpei a garganta e li a mensagem. – Bem vindos ao clube. Por aqui, fazemos uma pequena iniciação. Só precisam cumprir uma pequena missão e serão aceitos.
– Quais são as missões?
– Regar as plantas e levar uns enfeites pra sala. Acho que é aquilo ali. – Vi o vaso de figueira e o que parecia ser um buquê de mimosa.
– O que você quer fazer, Anna? – Ken falou, esperando para descobrir o que ia sobrar para ele.
– Levo as plantas, você rega as plantas. – Deixei o papel de volta no vidro e fui para as plantas. Uma ia pro grêmio, a outra pra sala de aula em que eu estudava.
Peguei o buquê e parei no meio do corredor, decidindo pra que lado ir. Olhei as flores nas minhas mãos e vi os pontinhos amarelos que caiam nos meus dedos. Sala de aula, com certeza.
Deixei as flores em cima da mesa do professor e voltei para o jardim, limpando as mãos na calça jeans. Ken estava com uma mangueira nas mãos, molhando o gramado. Respirei fundo e peguei o vaso da figueira.
Caramba, que parada pesada. Atravessei o pátio correndo, empurrando a porta do corredor com o pé. Por sorte do destino, Nathaniel abriu a porta do grêmio no exato momento em que eu ia passar.
– O que...?
– Ai. – Deixei o vaso perto da janela, sentindo os braços pesados. – Tarefa do meu clube.
– Uma figueira? Ficou bom com o resto do cômodo. – Ele comentou, ainda parado no vão ds porta.
– É porque figueira é planta de secretaria. – Ele concordou. – E achei melhor deixar essa aqui do que a mimosa. Não queria te matar de alergia.
– Até disso você lembra?
– Deixa eu ver. Estou com quinze anos. Há uns nove anos, minha mãe teve que me dar comprimidos pra dormir porque eu estava desesperada, com medo do meu melhor amigo morrer no hospital por causa de pólen.
– É, acho que é um momento memorável. – Ele riu, finalmente fechando a porta. – Obrigado pela consideração.
– Não há de que. Estarei sempre aqui para te ajudar.
– Hum, bom momento para falar isso. – Ele falou, pensativo. – Posso pedir um favor?
– Até dois.
– Acho que agora você já reparou que eu e Castiel não somos bons amigos.
– Longe disso. Também, moleque incoveniente.
– Pois é. Poderia pedir para ele assinar esse papel para mim?
– O que é isso?
– Uma folha de ausência que ele precisa assinar.
– Não sei se ele vai querer...
– Não custa tentar. Por favor.
– Ok. Vou ver o que dá pra fazer. Já volto.
Castiel parecia não sair do pátio. Assim que o avistei, estiquei a folha e esperei alguma reação. Ele me olhou sério, esperando uma explicação.
– Eu não te mandei faltar à aula. Assina, por favor?
– Me deixa em paz.
– Castiel, quanto mais rápido você assinar, mais rápido eu paro de te irritar e vou embora. Todo mundo ganha.
– Você tem mais que dois neurônios? – Ele tirou os fones e ficou me olhando com aquela cara de bunda incrível. – Sai.
– Tá. Ok. – Suspirei e voltei ao grêmio, pronta para relatar minha falha ao representante. – Eu avisei que ele não ia querer...E antes que você fale qualquer coisa, também não quero falar com ele.
– Anna, por favor...
– Nathaniel. – Ele me olhou com os mesmos olhos de quando éramos crianças, fazendo chantagem emocional. Miserável. – Só tento mais uma vez.
– Obrigado.
Peguei a folha mais uma vez e fui para o pátio, já esperando a reação do menino de cabelo pintado. Aquele vermelho estava longe de ser natural. Ele tirou os fones de novo e esperou.
– Finge que é pra mim e esquece do loirinho lá dentro. – Comecei, esticando a folha de novo. – Uma folha a mais não vai fazer diferença, vai por mim. E depois você se resolve com ele.
– Realmente, tem que ser muito chata para conseguir aturar aquele representante imbecil. – Ele pegou a folha e tirou uma caneta da mochila, assinando o maldito papel. – Toma. Agora some.
– Obrigada. – Peguei a folha e voltei para o grêmio. Nathaniel esperou o relatório antes de dizer qualquer palavra.
– E ai?
– Toma. Não me pede mais favores. – Ele riu da minha cara de irritação, mas agradeceu pelo meu esforço.
– Bom, vou entregar isso pra diretora. Valeu.
O sinal marcando encerrando o horário de aulas tocou. Fiquei de pé e fui deixar o material que não ia mais usar no armário, pronta para voltar para casa. A primeira visão que tive foi Nathaniel batendo nos armários, desequilibrado.
– Filho da...
Castiel levantou a mão já fechada num punho, pronto para dar uma surra em Nathaniel. Os outros alunos no corredor simplesmente assistiam à discussão, quietinhos.
– Cala a boca... – Nathaniel também era atrevido que só. Castiel era um pouco maior que ele e estava bem mais nervoso também.
– Ei, ei, ei. – Pulei no meio da bagunça, agarrando Nathaniel pela blusa e puxando-o para fora da mira de Castiel. – Qual seu problema, garoto? Quantos anos você tem? Cinco?
– Cai...
– Nathaniel, fica quieto. – Resmunguei. – Fim do show, vão embora. Cai fora, Castiel. Vai gastar seu tempo com alguma atividade útil.
Ele pegou a mochila no chão e foi embora, sem dizer nada. O pequeno grupo foi se desfazendo. Olhei para Nathaniel, séria. Ele me olhou de volta.
– Só porque você não ia ser espancado não quer dizer que tem que aceitar provocação, idiota. – Ele riu, me forçando a rir também. Idiota. – Eu vou embora.
– Te vejo amanhã. E obrigado, de novo.
– Sempre aqui. Tchau.
Fechei o armário e fui embora. Nathaniel tinha mudado muito, mas ao mesmo tempo tinha muito dele guardado dentro de sua alma. Dava para ver pelos olhos dourados. Fui embora pelo mesmo caminho de sempre, murmurando a música nos fones.
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