Lá E De Volta Outra Vez
77 Educação Sexual
Notas iniciais
Meu fim de semana com Lety fez com que eu passasse a próxima semana tranquila, aproveitando para corrigir minha ausência com Lysandre. Claro que ele me disse que não tinha problema, mas eu não acreditei muito. Por isso, finalmente combinamos de nos encontrarmos no sábado e visitarmos a loja que ele tanto queria me mostrar.
Era até estranho que os dias daquela semana estivessem tão tranquilos assim, ainda mais depois do nosso encontro com Evan. Claro que o universo também achou e decidiu me dar uma sacudida.
— Bom dia, Peggy. – Ela acabava de passar apressada do meu lado, mas se virou e veio falar comigo. – Por que a pressa?
— Difícil querer se trancar numa sala num dia tão quente, sim? E hoje vai esquentar ainda mais. – O sorriso dela me passou batido, e eu olhei o céu com nuvens antes de responder.
— Eu achei o tempo hoje bem...fresco. – Estranhei, sentindo a brisa nas minhas costas que reforçava minha afirmação. Ela só deu um daqueles sorrisos dela e disse que seria um longo dia e entrou na escola, sem que eu tivesse tempo de fazer perguntas. – Esquisita, como sempre.
Contrário ao que Peggy tinha dito, estava tudo muito calmo dentro da escola. O pátio estava quase deserto, então entrei direto e fui para meu armário. Foi quando o interfone da diretora sinalizou o aviso.
“Bom dia a todos. Bom, numa data especial de prevenção, o colégio definiu que hoje seria ministrada para todas as turmas uma aula de educação sexual. Uma a uma, cada turma será recebida na sala de ciências para a aula. Peço que todos se atentem ao aprendizado, toda informação pode ser essencial. Agradeço a atenção.”
Peguei meu material, revirando a mensagem no meu cérebro. Parecia um assunto extremamente pertinente, ainda mais considerando-se a faixa etária. Pelo menos o básico a gente deveria saber, principalmente sobre DSTs e gravidez precoce. Ainda assim, era sempre estranho falar abertamente sobre o assunto. Pelo menos quando seu namorado ia estar sentado no mesmo recinto.
Pensando bem, agora dava para entender um pouco o desconforto de Delanay. Eu também não ia querer ter que ministrar uma aula daquelas, ainda mais para as turmas mais novas que ririam de absolutamente tudo. Apesar de que eu imagino que minha turma não seria muito diferente.
Acabei de ajeitar meu armário e fechei a mochila. Iris parou ao meu lado assim que eu fechei a portinha, parecendo mais incomodada com essa história toda de aula do que eu.
— Você ouviu o anúncio? – Ela perguntou, ao que eu só confirmei com a cabeça. – Essa aula vai ser super constrangedora, já estou vendo. Já pensou se eles decidem passar uns vídeos? Argh, eu mal cheguei e já quero fugir, ou pelo menos me esconder no vestiário.
— É, eu imagino que vai ser estranho, mas ela não está errada. As estatísticas mostram que várias doenças sexualmente transmissíveis tornaram a crescer na população mais jovem. Mesmo assim eu confesso que também me esconderia no vestiário.
— Bom, eu sou obrigada a concordar que importante é. Bem, te vejo em sala, então. – Ela respirou fundo, como se tomando coragem e foi na direção da escadaria. Aproveitei para sondar com os outros qual seria a reação geral.
Encontrei Violette e Melody no grêmio durante minha busca por Nathaniel. Melody estava explicando para Vi que os representantes foram avisados com alguns dias de antecedência. Não me demorei ali. Dei bom dia, falei sobre como Delanay parecia irritada com a situação e rimos da situação.
— Ela me dá um pouco de medo. – Violette comentou depois que eu tinha feito minha imitação de Delanay brigando com a diretora. – Um professor feito Patrick talvez fosse tratar do assunto com mais leveza.
— Pode ser, Vi, mas acho que as meninas ficariam mais constrangidas de ouvir um homem falando sobre camisinha feminina, por exemplo. – Dei de ombros, tentando imaginar a situação. Ela ficou corada enquanto cedia ao meu argumento.
— Depois que conhecemos a professora Delanay um pouco mais ela se prova uma boa pessoa. – Melody disse, tentando acalmar Violette. Aproveitei que a situação parecia encerrar o assunto e pedi licença, dizendo que ia procurar Alexy. Eu ainda queria saber sobre o encontro.
Procurei nas salas, mas só encontrei Priya, assobiando uma música feliz. Dei bom dia, perguntando sobre a tal famigerada aula.
— Ah, vai ser bem engraçado. – Ela comentou, e eu confesso que vindo de Priya não me chocava nem um pouco.
— Engraçado não é exatamente a palavra que estão usando. O que exatamente você acha que vai ser engraçado?
— A situação toda. Eu já tive aula de educação sexual na minha antiga escola, o cenário é sempre o mesmo. Uma turma inteira de garotos e garotas constrangidos enquanto um professor fala sobre as diferenças entre um pênis e uma vagina, como se ninguém nunca tivesse ouvido falar sobre.
— É, visualizando bem nossa turma na minha cabeça, eu consigo ver alguns para os quais isso deve ser verdade. – Ela riu, parecendo pensar um pouco mais seriamente no assunto.
— Essas aulas têm uma falha enorme nelas. – Ela comentou, e eu simplesmente esperei que ela completasse, mesmo que já imaginasse a questão. – Eles só tratam do assunto sobre uma visão heterossexual. Daí, os adolescentes que se descobrem homossexuais ou que têm alguma outra orientação nem sempre estão tão prevenidos quanto os outros.
— Pode ser uma boa levantar essa questão em uma discussão. Não que eu imagine a Delanay confortável para explicar nada disso. – Ela concordou, uma risada sem muita graça. – Eu não posso dizer que eu sei, mas deve ser no mínimo desconfortável ter sua sexualidade ou orientação sexual posta como um problema secundário. Bom, questão. Não é um problema ser assim.
— Sua forma de se expressar é maravilhosa, Anna. Sempre foi. – Ela sorriu, e eu agradeci. Só me parecia evidente aquele tipo de coisa. – Bem, vou tomar um ar antes de entrar para uma aula. Estou com muito calor hoje.
Finalmente, andando mais um pouco, encontrei Alexy. Sorri, recebendo um abraço de bom dia. E, como com todos os outros, perguntei sobre a aula da Delanay. Lógico que Alexy reagiria daquele jeito.
— Delanay vai nos ensinar a fazer bebês.
— Eu espero que ela nos ensine a não fazê-los, Alexy. Seria assustador.
— É porque é assustador. Ai, enfim, não deve ser tão terrível.
— Não sei se eu quero ir.
— Ah, vai...Você não quer aprender como deixar o Lysandre louco de desejo?
— Se for de um jeito tão brega quanto essa frase sua, não. – Ele riu da minha pressa em negar a situação. – Na verdade, eu não pensei nesse ponto ainda.
— Amiga, não minta. Vai me dizer mesmo que não pensou em algo mais próximo com seu galã de romance? Ainda mais nesse calor, com certeza você vai querer tirar umas roupinhas logo.
— Que calor é esse que vocês todos estão sentindo? Será que eu estou doente? – Conferi minha testa, plenamente preocupada agora, mas Alexy riu como se eu estivesse tentando fugir do assunto. – É sério.
— Já, já você sente também. – Ele riu. O bom é que Alexy sabia equilibrar bem as piadinhas, mas sem ser maldoso. Era só para me deixar corada e pronto. Infelizmente eu não tinha muito como retrucar.
— Falando em mudar de assunto, você não me contou sobre o Evan ainda. – Comentei, realmente interessada na situação. E dessa vez ele não se incomodou com a mudança. Na verdade, ele parecia bem empolgado.
— Bem, a gente não saiu mais junto, mas estamos nos ligando com frequência desde o último dia. Bom, mas tivemos que contar para nossos pais também.
— E como foi para eles? – Percebi a mudança do tom na conversa. Era compreensível, deve ter sido bem difícil revelar pros seus pais que vocês na verdade eram três, e não dois. Era ainda mais para digerir do que simplesmente a possibilidade dos seus filhos descobrirem algo que mudaria tudo.
— Bem, na verdade, muito bem. Claro que eles sentiram muito sobre nossos pais, mas descobrir sobre Evan os deixou animados. Pelo menos eles pareciam querer conhecê-lo logo. Enfim, eu queria te agradecer mais uma vez por estar conosco até o fim.
— Eu sei como família é importante, Al. E no caso de vocês, foi melhor que a encomenda, não é? – Peguei sua mão e ele concordou, sorrindo. O sorriso de Alexy me deixou feliz, simplesmente por ser verdadeiro.
— E ele é super legal, sério. Até depois que você foi embora ele perguntou sobre você e como você também foi parte da história toda. Enfim, acho que vocês vão se dar bem.
— Fico feliz por vocês. – Mesmo que eu ainda não soubesse muito bem o lado de Armin. Na última vez ele parecia meio incomodado com tudo. O importante agora era que pelo menos ele e Alexy tinham se reconciliado. – Bem, por mais que eu não esteja exatamente empolgada, temos uma aula especial agora. Vamos?
Ele riu e me acompanhou escadaria acima. Entramos na sala de ciências, Delanay tinha escrito no quadro o título da aula e a observação sobre não precisarmos de jaleco hoje. Fui para o meu lugar, sentindo todo o clima esquisito dentro da sala. Antes que eu me sentasse, Ambre perguntou se tínhamos que manter as duplas, ao que Delanay resmungou e disse para nos sentarmos como quiséssemos. Ela realmente parecia mentalmente exausta com toda a situação.
Lysandre e Castiel estavam juntos, para minha sorte. Rosa passou ao meu lado e, enganchando seu braço ao meu, me levou com ela até a mesa, junto de Alexy. Nosso trio se sentou, vendo Delanay tentando manter sua paciência enquanto as outras mesas se preenchiam.
— Muito bem. Bom dia a todos. Bem, a diretora Shermansky me pediu para organizar esta aula para conscientizar a todos sobre contracepção e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Vamos começar por estas, sim? Alguém pode nos dizer alguma dst do seu conhecimento? Qualquer uma.
Claro que demorou para alguém tomar coragem, mas surpreendentemente foi Violette quem iniciou a discussão, apontando o HIV. Daí Melody emendou e adicionou o herpes genital. E claro que a coisa começou a desandar. Li esboçou nojo e Ambre perguntou se tínhamos mesmo que falar daquilo. Delanay fingiu que não ouviu e pediu para continuarmos.
Levantei a mão, meio sem graça. Eu já não era uma pessoa de participar muito das aulas, exceto quando diretamente perguntada, mas agora eu simplesmente estava tentando manter o foco da coisa para acabarmos mais rápido. Ela pediu para eu falar, séria.
— Hepatite B. – Delanay confirmou, satisfeita, enquanto meus dois amigos me olhavam com malícia de rabo de olho. Não deixei meu olhar encontrar o deles. Claro que isso não os impediu de sussurrar.
— Alguém anda fazendo a lição de casa, hein? – Ignorei, reprimindo o sorriso que quis aparecer. Cutuquei os dois, voltando a prestar atenção em Delanay.
— Bem, as DSTs mais comuns atualmente são o HIV, a hepatite B, sífilis, clamídia e herpes. O importante a ressaltar é que dentre estas, somente o HIV ainda não pode ser curado, apesar de haver tratamento. Todos os outros podem ser combatidos com eficácia. Logicamente, todos nós já sabemos que é melhor prevenir do que remediar. Desta forma, é preciso não se expor ao risco.
— Abstinência sexual? – Priya perguntou do seu lugar. Pela expressão dela eu não sabia se ela só estava tentando provocar Delanay ou se ela realmente tinha entendido aquilo. A professora franziu o cenho.
— Evidente que não. Existe forma de se prevenir sem ser a abstinência. Alguém sabe?
Claro que ninguém queria o holofote, não naquela aula. Li, sentada atrás de mim, sussurrou para mim uma coisa tão idiota que me deu vontade de rir. Claro que me segurei.
— Ser feia ajuda a evitar DSTs, não é, Anna? – Ela riu com Ambre, mas por um motivo bem diferente do qual eu tinha para querer rir. Ainda assim, nenhuma das duas respondeu. Delanay insistiu, parecendo ainda mais exausta. Ouvi o resmungo e a resposta, que veio mais do fundo da sala.
— O uso de preservativo, professora. – Lysandre. Pelo menos alguém finalmente tinha respondido. Delanay confirmou, agradecendo a participação. Só quando Alexy me cutucou para dizer que estávamos revisando bem juntos, a percepção de que não eram só os dois que achariam isso me chegou. Ajeitei meu corpo na cadeira, sentindo o rubor nas bochechas. Rosa deu um sorrisinho.
— Muito bem. O preservativo é o único método eficaz contra a transmissão de DSTs, além de ser também um método contraceptivo. Por isso é o mais comumente usado. O anticoncepcional, por exemplo, só previne a fecundação. Ou seja, ela impede a gravidez, mas não as doenças.
Os meus amigos sabiam que eu tomava a pílula para regular meu ciclo menstrual, e tinha começado bem antes de Lysandre, então disso eles não fizeram piada. Pelo menos de uma coisa eu ia conseguir me safar.
— E assim temos herpes e bebês no mesmo nível, que mágico. – Rosalya soltou sem pensar, e eu acabei soltando um som antes de conseguir reprimir o riso. O que não impediu a turma toda de olhar para todos. Aliás, para mim. Exatamente ai eu reparei que era parte do único casal da turma. Claro que tínhamos Rosa e Bia, mas os namorados delas não estavam ali, o que mudava tudo. Eles eram dois estranhos, Lysandre estava bem ali.
Nesse momento eu travei. A vontade de rir sumiu, assim como as pequenas piadocas sussurradas iam surgindo, todas de muito mau gosto. Ah, e em comum todas eram voltadas pra mim, nunca para ele. Revirei os olhos, desconfortável. Delanay reprimiu os cochichos e retomou sua fala.
— Alguém pode me dizer outras formas de contracepção, além do preservativo?
— As pílulas? – Iris arriscou. – Apesar de muitas meninas já tomarem simplesmente para regularem o ciclo.
— Sim, ela realmente é muito utilizada para isso, além de oferecer a prevenção. Algum outro?
— Videogames. – Ambre e Li davam aquele sorrisinho maldoso. Claro que a piada gerou uma comoção na sala, e todo mundo meio que olhou pro Armin. O bom é que ele estava claramente tranquilo, as pernas meio abertas na cadeira e os dedos batendo no tampo da mesa. Eu arriscaria dizer que era uma pose bem sexy no meu ponto de vista.
— Você acha, Ambre? Um monte de gente se conhece através de jogos onlines. Eu já não conheço quem ache gente burra interessante. – Ele retrucou, tornando a virar sua atenção para o quadro. Até Alexy reagiu à atitude do irmão.
— Já chega. Senhorita Ambre, se repetir algum comentário como este eu te mando direto para a diretoria. Acredite, com o que ando ouvindo sobre você, é melhor ficar quieta. – Delanay retomou sua autoridade em sala. Ela claramente era bem diferente de Faraize em sala de aula. – Bom, voltando. O material deixado em cada mesa trata sobre ainda mais métodos de prevenção, suas vantagens e desvantagens e sua eficácia. Ela fala também sobre mitos e verdades das DSTs e da gravidez.
De fato, Alexy pegou os livretos e nos entregou, folheando rapidamente o material. Parecia bastante completo. E vi que, dessa vez, este falava sobre orientação e sobre prevenção de forma mais ampla. Priya me deu um sorriso, percebendo aquilo também.
— Bem, muito bom. Bom, vamos à parte prática. – Oi? Claramente não fui só eu quem pensou aquilo. Acho que até Delanay estava constrangida com aquela parte em específico. – Muito bem.
Ela tirou de dentro da caixa um preservativo e...bom, o pênis de borracha. O silêncio durou meio segundo antes de todo mundo explodir em riso. Delanay suspirou e tentou se manter séria.
— Eu avisei que vocês não teriam maturidade para isso. Bom, isto aqui é um preservativo masculino, provavelmente o mais comum. – Ela tinha levantado a mão errada. Lysandre, que eu às vezes esquecia ter um humor um pouco peculiar, falou um pouco alto.
— Daqui parece outra coisa. – Delanay percebeu o erro então e trocou as mãos de posição. Eu confesso que não esperava nunca ver aquilo numa sala de aula, mas convenhamos era o melhor jeito de exemplificar. Uma banana não faria o serviço. – Agora sim.
— Muito bem. Este é o preservativo masculino, o único dos métodos que é utilizado de forma externa. Por esta razão, é com ele que faremos esta demonstração. – Ela finalmente pôs seu modelo na mesa e pegou o preservativo com as duas mãos. – Prestem bastante atenção. É essencial que vocês abram a embalagem com cuidado, sem utilizar os dentes ou tesouras, já que pode acabar perfurando o preservativo.
— E ai sim teríamos riscos iguais de herpes e bebês. – Rosalya repetiu sua piadinha. Delanay ouviu e, por incrível que pareça, concordou com a afirmação. Até Rosa pareceu meio chocada.
— Bem, vou demonstrar como devem colocar corretamente o preservativo. Colocá-lo de forma errada pode acabar equivalendo a sexo desprotegido. – De novo, ela teve que pegar seu amigo objeto, meio sem jeito, para a tal demonstração. Era difícil assistir aquilo tudo sem sofrer um pouco com o sofrimento dela.
A cena toda era quase inacreditável. O preservativo vinha lubrificado e Delanay no seu nervosismo tinha passado as mãos com o óleo no cabelo. Dava para ver os fios brilhantes de lubrificante, enquanto ela respirava fundo para executar sua demonstração no falo plástico sobre a mesa.
— Bem, é preciso apertar o reservatório na ponta do preservativo, posicioná-lo e em seguida desenrolar até o fim. – Ela fez o movimento logo que acabou de falar, tão rápido que eu quase quis ver de novo. Contive a pergunta, enquanto ela nos mostrava seu amigo encapado.
— Ver a Delanay fazer isso com tanta naturalidade me fez desistir de transar pelos próximos dez anos. – Alexy resmungou do meu lado, ao que eu nem tive reação. Ela revisou os três passos antes de perguntar se tínhamos dúvidas. Claro que ninguém deu um pio.
— Muito bem, dessa forma, quero um voluntário para revisarmos nossa demonstração, sim? Duas vezes é melhor que uma. – Pânico geral. Eu e Alexy olhamos um na direção do outro sutilmente, com o rosto abaixado. Ninguém queria correr o risco de fazer contato visual. Todo mundo estava com vergonha, mas eu estava plenamente apavorada. O ar quase me faltava enquanto eu sentia o calor subindo na minha nuca. – Sem voluntários, ok. Eu vou escolher alguém então.
Ela correu os olhos pela sala, e eu cometi o erro de verificar se já estava a salvo quando ela se virou para mim. Ela pareceu hesitar, talvez pensando em todas as piadinhas maldosas que já tinham sido feitas, e antes de mudar seu alvo, Rosa ficou de pé.
— Meu deus, quantos anos vocês têm? Não é possível que vocês sejam mesmo tão bobos. – Ela caminhou até a mesa de Delanay, que já tinha despido o outro preservativo do modelo. – Eu faço.
— Aqui. Prestem atenção na senhorita Rosalya. – Delanay a entregou um novo preservativo e deu um passo para trás. Eu estava orgulhosa da coragem de Rosa ao mesmo tempo que um pouco chocada pela atitude.
— Ela é incrível. – Murmurei, e Alexy concordou. Um pensamento me ocorreu. – Delanay estava pensando em me chamar, mas não sei se eu ia conseguir.
— Eu vi. Acho que ela me considerou em seguida, mas… – Ele deu de ombros, me encarando. Alexy tinha ouvido as piadinhas tanto quanto eu, principalmente as que vinham da dupla atrás de nós. Seria a pura humilhação.
Voltamos nossa atenção para Rosalya, abrindo com todo o cuidado do mundo a embalagem quadrada. E em seguida, ela respirou fundo antes de seguir o passo a passo de Delanay e pegar o modelo de borracha em seguida, levantando-o acima de sua cabeça.
— Prontinho. Sem herpes e nem bebês. – Ela devolveu o objeto à mesa e voltou ao seu lugar. Depois disso, Delanay conseguiu encerrar sua aula e, finalmente fomos dispensados. Sai da sala quase correndo, não querendo correr o risco de ficar perto de Lysandre ainda no meio dos comentários.
— Tomou notas? – Eu estava no pé da escada quando ouvi a voz atrás de mim. Ambre. Virei-me, esperando ela continuar. – Não que eu ache que você vá precisar pelos próximos anos...
— Curioso, eu ainda estou mais perto de fazer qualquer coisa minimamente sexual do que você. Licença.
— Não viaja. O Lysandre parecia bem pouco interessado na aula, pra ser honesta. Senti pena dele. Não que eu fosse sentir alguma atração sexual se também estivesse com você.
— Sim, ok, dá licença, temos aula de história. – Dei as costas e entrei na sala, me sentando no canto mais distante possível. Pus meus fones de ouvido e fui rabiscar alguma coisa no fundo do caderno.
Aquela aula tinha sido pior do que o esperado. Não do ponto de vista educativo, aquele tinha sido exatamente o que se imaginava, mas do ponto de vista íntimo. Aquilo tudo tinha acentuado inseguranças que eu já tinha há muito tempo. As piadinhas de Ambre simplesmente remexiam algo dentro de mim que eu não precisava de ajuda para achar. Será que ele sentia alguma atração por mim? Ou pelo menos no mesmo nível que eu sentia por ele? Eu sabia que era errado pensar daquele jeito, mas eu simplesmente não conseguia acreditar que um cara tão lindo daqueles se interessaria logo por mim. E, se o argumento fosse que ele gosta de mim pelo meu caráter, isso não implicaria que eu não era atraente, certo?
E tinha outra questão, bem diferente. Todo mundo estava zoando e me perguntando sobre nossos momentos picantes, mas eu realmente nem tinha pensado naquilo ainda. E não era por falso recato, era realmente algo que não tinha me surgido ainda. Claro, a gente se dava uns amassos de vez em quando, mas nada que ultrapassasse uma mão um pouco mais baixa ou um abraço mais apertado. Eu nem sabia se eu queria dar aquele passo, se eu estava pronta. E se eu não estivesse, mas ele sim? Ou o contrário, e se quando eu quiser ele ainda não quiser? Já estávamos envolvidos há algum tempo, mas talvez não o suficiente ainda. Porém, se as coisas continuassem, iríamos dar aquele passo em algum momento, sim?
Era uma sensação estranha, quando estávamos muito próximos. Havia uma curiosidade, uma vontade de descobrir aquilo tudo que todo mundo sempre falava. Por outro lado, uma ansiedade que se assemelhava a um bicho nas minhas entranhas sempre me fazia recuar. A única certeza que eu tinha é que eu confiava em Lysandre, e queria dividir aquela experiência com ele. Ele era minha única opção, a única que eu sequer consideraria. Era só ele quem eu queria.
— Anna? – Faraize me chamou. Por algum motivo eu já estava sem meus fones, então ele simplesmente tinha reparado que eu estava viajando. – Tenho sua atenção?
— Sim, senhor. Estávamos falando sobre o capítulo atual, sim? O que trata dos trinta gloriosos. – Ele percebeu que eu estava tentando me safar de um puxão de orelha e acabou cedendo.
— Mais especificamente do movimento da liberação sexual nos países ocidentais da década de 60. – Concordei com a cabeça, como se fosse exatamente o que eu tinha pensado. Lógico que aquilo acarretou algumas risadinhas abafadas, mas Faraize me deixou e retomou sua aula. Olhei para o lado, vendo a malha azul de Nathaniel e seu rosto concentrado em Faraize. Peguei uma caneta azul dentro do estojo e peguei sua mão, mas ele ainda não me olhou. Desenhei um coraçãozinho e escrevi obrigada bem pequeno, soltando sua mão em seguida.
Vi que ele abaixou os olhos rapidamente para suas mãos, dando um sorrisinho fraco em seguida, sem me fitar. Tentei ao máximo manter minha concentração na aula, mas por fim, quando Faraize nos liberou fiquei de pé correndo e sai da sala. Eu precisava de ar fresco depois daquelas horas maçantes.
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