Lá E De Volta Outra Vez

18 Algumas Boas Ideias


Notas iniciais
Olá, pessoas :3 Espero que gostem do capítulo, um abraço :)

Antes mesmo de chegar perto da porta do porão, eu conseguia ouvir a voz irritada de Castiel. Ele parecia preferir a morte do que passar algum tempo comigo e Nathaniel. E Nathaniel também não ficava satisfeito.

– Já cheguei, garoto. – Empurrei a porta, ouvindo ele me chamando de folgada por achar que todo mundo dependia de mim. Eu tive que ir ao banheiro tirar a maquiagem depois de esquecer que estava usando e esfreguei os olhos.

– Tudo bem? – Nathaniel perguntou, fechando sua garrafa de água. Concordei, sem muita convicção. Vi que Lysandre me lançou um olhar preocupado, mas não falou nada. – Ok, o que vamos apresentar essa semana?

– Pediram uma música que nos descreva, como grupo. Eu sugiro uma música que descreva ódio. – Castiel resmungou, voltando a prestar atenção em sua guitarra.

– Falando sério, o que a gente apresenta? – Perguntei, pegando a água de Nathaniel.

– Bom, digamos que o grupo não é exatamente harmônico, mas trabalhamos bem juntos. – Lysandre apontou, coçando um olho.

– Can’t Hold Us. – Sugeri. O grupo podia não ser pacífico, mas tínhamos ganhado a nota mais alta na primeira apresentação. A gente tinha todo o potencial se a gente conseguisse parar de se garfar o tempo todo.

– Vai ter que cantar bem rápido, velho. – Castiel comentou, olhando na direção de Lysandre.

– Vai ser essa, então? – Concordância geral. Fiquei de pé, devolvi a garrafa para Nathaniel e indo para o lado de Lysandre. Os ensaios estavam se tornando mais práticos. Nathaniel tinha começado a treinar na bateria sozinho nos horários livres.

Lysandre dividiu a letra para nós dois. Ele ficava com uma parte de rap, eu a outra. Estava tudo indo bem, como eu não imaginava que iria acontecer. Nem mesmo Castiel e Nathaniel estavam se estranhando.

– Hey, Nath. – Ele me olhou, esticando as pernas depois de quase uma hora sentado atrás da bateria. – Poderia propôr um show.

– Para a diretora?

– É. Digo, Castiel e Lysandre realmente são uma dupla imbatível. E se você marcar o tempo na bateria e conseguirmos outro guitarrista, vocês podem se apresentar cobrando uma entrada razoável.

– Alguém podia nos perguntar antes, saber se vamos querer... – Castiel comentou, sarcástico.

– Não me lembro de sussurrar e nem de você ser surdo. – Respondi, sorrindo para ele. – Só estou falando porque depois que nos perdemos a escola teve um prejuízo. Achei que a gente podia dar um jeito de tentar amenizar.

– Não, a ideia é boa. Excelente. A gente pode ir falar com a senhora Shermansky quando tivermos acabado aqui.

– Hum, acho que já ensaiamos bem. Podem ir, se quiserem. – Lysandre desligou o seu microfone e pegou o bloco de notas dentro da mochila. Nathaniel estendeu o braço, me puxando com ele.

A escola naquele horário já era bem estranha. Eu me lembrava sempre dos dia em que eu tive que limpar as pichações, a primeira vez que ouvi Lysandre, sem saber que era ele. Agora eu sabia que não tinha fantasma ali, mas ainda era estranho.

Nathaniel bateu na porta e esperou a diretora deixá-lo entrar. Eu quis esperar do lado de fora, mas ele me puxou junto. Fiquei parada, olhando o escritório organizado, com o bendito cachorro dormindo num cesto. Dormindo, por sorte.

– Pois não, Nathaniel? E a senhorita...

– Eu vim lhe fazer uma proposta, senhora. – Eu comecei depois de perceber que Nathaniel não ia falar. – Bom, eu peço desculpas pelo prejuízo com a corrida de orientação e é por isso que eu pensei em algo para repor o dinheiro.

– Ah é?

– Eu estive pensando que poderíamos organizar um show, senhora. Os alunos tocariam, faríamos toda a organização sem tirar um centavo que seja da escola.

– Ora, por mim, tudo bem. Acredito que já tenham idade para conseguirem organizar eventos por conta própria. Vou conseguir para vocês um alvará, assim que me disserem onde será o show.

– Obrigada, senhora. Informaremos assim que tivermos a informação. – Nathaniel sorriu e abriu a porta, me deixando sair primeiro. Eu estava até tremendo por falar com a diretora. – Ela não é um monstro de sete cabeças.

– São só três. – Ele riu, indo na direção do grêmio. – Vou começar a falar com a turma amanhã. E seria legal conseguirmos um lugar que não fosse o pátio. O barulho vai atrapalhar os vizinhos.

– É, eu vou dar uma olhada nisso amanhã. Pode confirmar com Lysandre e Castiel do que eles vão precisar?

– Sim, sim. Eu vou falar com eles e tentar achar aquela segunda guitarra. Vai ficar na bateria, sim?

– Vou, pode ficar tranquila. – Ele respirou fundo, com o olhar distante, antes de continuar. – Vamos precisar de toda a ajuda que pudermos juntar. Bom, mas amanhã vamos organizar tudo.

– Sim, eu sei. Bom, eu vou para casa. Se cuida.

– Ei, Anna. Uma última coisa. – Olhei para ele, sorridente. – Está mesmo tudo bem?

– Eu toquei de novo ontem. – Comentei, depois de um suspiro demorado. Ele ficou calado, esperando eu terminar. – E é estranho estar num lugar que antes era o dele.

– Viktor ficaria orgulhoso em te ver assim, tocando, cantando. Ele sempre te disse que precisava se soltar da timidez.

– Ele dizia mesmo. Bom, eu vou indo. Obrigada por insistir.

– Achei que não quisesse falar perto do rapaz na menopausa. – Ri. – E nem do seu par no baile de debutante.

– Podia ser você, mas...

– Eu sei. Bom, pode ir. Já vai escurecer, não devia demorar muito mais. – Concordei e deixei a escola, com a mochila nas costas e os fones nos ouvidos. A empolgação me consumia.

Cheguei em casa com um sorriso no rosto. Minha mãe e meu pai repararam, obviamente, perguntaram o que tinha acontecido. Comentei da minha ideia brilhante, me sentando para jantar.

– Só não marque para esse fim de semana. Vou precisar de ajuda na inauguração.

– Hum, sério? Agora vai mesmo abrir?

– As caixas já chegaram, só preciso organizar nossas prateleiras. Uma renda a mais vai surgir.

– Incrível. Eu vou conseguir ler de graça agora. – Ele riu com minha empolgação, servindo-se de mais suco. Aquele jantar foi tão relaxante que, assim que acabou, eu fui ajudar minha mãe com a louça.

Eu guardei tudo nos armários e subi pro meu quarto, cansada. Queria tomar um banho e cair na minha cama, apagar. Foi mais ou menos o que eu fiz.

Acordei no outro dia com o despertador tocando do meu lado. Meio lerda com o sono, desliguei o barulho e virei para a parede, quase dormindo de volta. Até que minha cabeça começou a pensar sozinha.

“Vamos, Anna, precisa arrumar tudo para o show. Vamos, agiliza.”

Fiquei de pé e troquei de roupa. Uma calça jeans velha, uma camiseta mais larga, os tênis vermelhos. Fim, estava pronta para ir para a escola. Assim que eu conseguisse acordar direito.

Só acordei mesmo quando cheguei na escola. Lavei o rosto mais uma vez no banheiro, antes de ir para o corredor. E o trabalho começou. A notícia do tal show começou a se espalhar depois que eu comentei com Alexy. Eu sabia que ele ia abrir a boca, mais cedo ou mais tarde.

Na hora do almoço, a mesa estava muito empolgada. As meninas me fizeram uma tonelada de perguntas, as que eu ainda não conseguia responder. Eu disse que primeiro eu ia precisar encontrar um outro guitarrista, ai podia decidir tudo.

– Eu toco.

– Guitar Hero não conta, Armin. – Alexy o repreendeu, sério. Ignorei a sugestão, esperando alguém se prontificar. – Olha, eu e a Vi poderíamos pensar em algum jeito de divulgar o show. Cartazes, algum painel... E você pode ajudar, Peggy.

– Claro que posso. Por incrível que pareça, eu até tenho alguns conhecidos fora da escola que poderiam espalhar pela cidade.

– Ok, já temos a publicidade montada. Vocês três podem pedir ajudar dos outros.

– Pois bem, vamos ao próximo detalhe. Figurino. Pode deixar que eu resolvo essa parte, Alexy pode até me ajudar, ou uma de vocês meninas.

– Vai pedir para o Leigh? – Eu até tinha dó do namorado de Rosalya, fazendo tanta coisa para ela. Não que eu fosse reclamar.

– Ele vai me vender os panos e me emprestar a máquina de costura, o resto eu faço. – Ela deu de ombros.

– Ok, eu vou falar com Nathaniel, precisamos encontrar um lugar para montar isso tudo.

– Não vai ser no pátio?

– Não, o barulho ia ser muito alto. Não queremos problemas na vizinhança.

– Verdade. – Rosalya concordou, antes de parar de tomar seu suco e me encarar. – E qual vai ser a data? Porque, apenas de lembrete, a cidade inteira está ocupada com o baile de debutantes.

– A banda vai precisar ensaiar por algum tempo, precisamos fazer as roupas, os cartazes. Podemos fazer o show depois. A festa é em dois meses.

– É mesmo. A primeira reunião já é amanhã de tarde. – Iris comentou. Ela parecia ter se esquecido daquele detalhe. Confirmei, respirando fundo. Eu precisava avisar Lysandre. – E eu posso tocar, se não encontrarem ninguém. Faço o dever do Thomas, ele me empresta a guitarra dele.

– Ok, vai quebrar um galho imenso. Bem garotas, lá vou eu. Beijos, fui. – Deixei a mesa e fui atrás do representante, passar todas as informações novas.

– Ok, parece estar tudo indo bem. – Ele comentou, anotando tudo que eu lhe disse. – Olha com Rosalya o custo das roupas?

– Sim, sem problema.

– Eu estive pensando, o porão é bem espaçoso, sem todas as caixas e o amontoado de sucata lá dentro. A gente podia dar uma limpeza e ver se seria grande o suficiente.

– Eu vou ver com as meninas o que elas acham, te falo. Pode até ser uma ajuda braçal a mais. – Ele concordou. Fui avisar Castiel e Lysandre sobre o que já tinha sido decidido, até então.

– Está bom para vocês?

– Oh, claro. Vamos ter tempo o suficiente para ensaiarmos. A Iris vai poder comparecer, sim? – Confirmei com a cabeça. Era até divertido ver Lysandre tão profissional. Queria eu ter aquela certeza sobre o que eu queria na vida. Castiel levantou a mão antes de falar.

– Eu vou precisar de uma ajudinha. Não tenho um amplificador que possa ser usado. Eu consegui estourar o meu, então...

– Quanto você acha que vai precisar? – Perguntei, já pensando em como ganhar aquele dinheiro todo.

– O mais barato deve ser uns duzentos. Eu tenho uns cem guardados, mas minha próxima mesada já está reservada para pagar minhas contas e o veterinário do Dragon. O cachorro é tão idiota que conseguiu engolir um vidro quase inteiro de remédio.

– Bom, eu consigo juntar os cem reais numa boa. – Não sabia bem o quão aquilo era verdade, mas eu podia tentar. Ele concordou. – Bom, mais algum problema?

– Não que eu saiba.

Foi daquele jeito que eu acabei o dia, pensando em formas de juntar dinheiro. Depois de passar o plano todo para a turma, Nathaniel conseguiu convencer cada aluno a dar uma pequena contribuição. Quase todo mundo aceitou participar, deram entre dez e cinco reais, por ai. Só a peste da Ambre e suas amigas é que nem se mexeram. Problema inteiramente delas.

Com o dinheiro em mãos, eu ia no dia seguinte comprar o tal amplificador. Antes de sair da escola, lembrei Lysandre da reunião da festa. Ele me mostrou a anotação em seu bloquinho. Sorri.

– Tudo bem, te vejo lá. Obrigada.

Fui para casa, com o dinheiro todo guardado na mochila. Vi Ambre andando na minha direção pelo corredor. Respirei fundo, cheia de preguiça daquela provocação infantil.

Ela simplesmente passou por mim e continuou conversando com as duas amigas peçonhentas. Fiquei bem feliz com aquilo, na verdade. Continuei meu caminho, protegendo a mochila.

Cheguei em casa, deixei a mochila no meu quarto e fui me preparar psicologicamente para a tal reunião no dia seguinte. Tomei um banho, lavei os cabelos, fiquei sentada na escada do lado de fora da janela, enquanto desfazia os nós com um pente.

Estava ansiosa. Eu costumava achar que Viktor ia me ajudar naquilo tudo, mas agora eu tinha que me virar sozinha. Bom, Lysandre me ajudaria, claro, mas era diferente.

– Nada a fazer, você aceitou... – Comentei comigo mesma, deixando o cabelo solto no vento. Fechei os olhos, respirando fundo. Era melhor deixar para sofrer na hora.

Notas finais
Até o próximo, meus amores < 3