Lá E De Volta Outra Vez

65 A Primeira Fase da Operação


Notas iniciais
Olá pessoas, retornei rapidamente para mais um desenrolar. Eu to andando rápido porque eu simplesmente achei essa parte da história uma das mais bem discutidas do jogo, amei msm. Boa leitura ^~^

Eu ainda estava aninhada no abraço quente de Lysandre, deitada com minhas pernas entrelaçadas nas dele, em silêncio, quando meu celular começou a tocar. Sentei-me e o peguei no bolso, atendendo a chamada de Armin.

– Chegou em casa? – Perguntei, lembrando que tinha pedido para que ele me avisasse.

– São e salvo, como todos já esperávamos. Vamos nos encontrar na biblioteca amanhã?

– É, pode ser. Você conseguiu salvar tudo, certo?

– Confia, tudo no esquema. Te vejo amanhã, linda.

– Tchau, Armin. – Desliguei, olhando para Lysandre de volta, agora também sentado. Ele deu um sorriso, passando os braços ao meu redor de novo e me puxando contra seu peito.

– Eu tenho que ir. Seus pais não devem demorar agora.

– Desculpa.

– Pelo que?

– Por não ter a coragem de te apresentar pra eles ainda. É só que...

– Fica tranquila, eu sei que você tem medo da reação deles. E eu sei que você vai se resolver logo.

– Mesmo assim, desculpa. Obrigada por ter vindo.

Ele me deu mais um beijo, daqueles de tirar o fôlego, e ficou de pé finalmente. Ele calçou suas botas de volta e me esperou acompanha-lo até a porta. Pouco depois que ele se foi meus pais realmente chegaram, com uma pizza de janta.

No dia seguinte, na escola, eu ainda não tinha encontrado Armin. Pensei em passar pela biblioteca, mas Rosalya me encontrou no corredor e não demorou a começarmos a conversar.

– Anna. – Ela chamou, estalando os dedos na frente do meu rosto. Pisquei, virando a cabeça inteiramente para ela. – Poderia fingir melhor, sabia? Quando é sobre o SEU namorado, eu escuto.

– Fala baixo, Rosa. Desculpa, eu me distraí.

– Eu percebi. De todo jeito, como eu ia dizendo, finalmente estamos prontos para nossa pequena fuga.

– Para onde vão?

– Para a praia. Faz tempos que eu não vejo o mar, estou com saudades. E agora que a saúde do pai dele finalmente melhorou, imagino que seja o melhor momento. Ele precisa dum descanso.

– É, verdade. Confesso que fugir para uma praia agora seria ótimo. – Toda aquela história da Iris tinha tirado meu sono. Claro que nesse momento eu nunca fugiria dessa luta, mas depois...ah, que sonho.

– A gente com certeza vai viajar os quatro, algum dia, mas você podia se precipitar também. Você sabe que não deve esperar que a iniciativa seja sempre dele.

– Eu sei, eu sei. – Nada de Armin. Eu estava desesperada para ir atrás dele, mas Rosalya ficaria bem brava se eu simplesmente a deixasse ali. E como eu não podia divulgar minhas motivações, permaneci imóvel. Ele tinha prometido não me excluir. – Rosa, como é a relação dos seus pais com o Leigh?

– Boa, eu acho. Bom, pelo menos agora é, eles já se conhecem há anos.

– Ok, mas no início?

– Hum, pensando bem foi bem complicada. Sabe, meu pai sempre foi paciente e tudo, mas quando o Leigh apareceu ele foi super implicante. A primeira vez que eu convidei o Leigh para um almoço ele se atrasou e meu pai fez uma piada ridícula sobre não termos esperado. Imagina o climão.

– Deve ser normal para todos os pais da nação, não é? – Ela sorriu, concordando. Ela sabia da história do nosso jantar, quando meu pai pegou Lysandre quase me beijando e lhe passou um sabão. – E sua mãe?

– Ela foi mais sutil, mas também não foi muito fácil. Ela queria ter certeza de que ele era um cara sério e tudo, então foi quase uma entrevista de emprego. Pelo menos com ela, ele conseguia respirar. Isso tudo é medo de apresentar o Lys?

– É. – Suspirei, sabendo que não podia correr disso pra sempre. – Além do já existente trauma do meu pai, ele nunca levou garoto nenhum a sério. O eterno medo de eu me machucar. Eu entendo, mas...tem horas que eles acham que tudo vai acabar igual a ele.

– Olha, não seria fácil de qualquer forma. Mas sua mãe parece mais tranquila que a minha, já é um começo. Fica tranquila, não tem quem não goste do Lys.

– É, eu acredito. – Comentei. Nesse momento, vi Armin passando pelo corredor. Alexy veio na nossa, direção, já nos dando aquele famoso abraço. Sorri, retribuindo, antes de me soltar e dizer que ainda tinha algo a resolver.

Perdi meu amigo de vista, então sai procurando. Verifiquei a sala onde teríamos aula, onde vi Iris. Ela parecia um pouco mais tranquila hoje, só com seus fones de ouvido, sem responder mensagem alguma.

– Hey, Iris, como está?

– Hey, Anna. Melhor. Foi só uma bad ontem, sabe?

– Conheço bem. Fico feliz que esteja melhor. – Ela sorriu, agradecida. Pedi licença e voltei a procurar Armin. Aquela história continuava me dando arrepios. Voltei ao corredor, onde Alexy estava de braços cruzados, na frente do meu armário.

– Oi, flor. Você correu de mim.

– Desculpa, eu precisava falar com seu irmão. Você não o viu?

– Não. Não tenho visto meu irmão nem em casa direito. Não sei se saiu algum jogo novo, ou sei lá. Ele mal me dá bom dia e boa noite. Quando dá boa noite, só trancado naquele quarto.

– Não sabia que ele estava tão isolado assim. Você deveria falar com ele, se está te chateando tanto.

– Eu tentei. Entrou num ouvido e saiu no outro. Ele disse que estava ocupado, mas que ia prestar mais atenção em mim, mas não mudou em nada. Enfim, ele deve ter ido pra algum lugar isolado para fazer sabe-se lá o que.

Dei um abraço nele, sabendo que a ausência do irmão o deixava triste, antes de continuar minha busca, pensando num bom sermão para passar em Armin. Porque não era possível que todo esse afastamento era só por Iris.

O primeiro lugar foi o porão. Só encontrei uma nuvem de fumaça, e um grunhido mal humorado.

– Que que foi, hein?

– Bom dia, Castiel. – Tossi, a fumaça finalmente forçando seu caminho pela minha cabeça.

– Não é pra tanto, vai, nem tem tanta fumaça.

– Você não acha que está sendo imprudente não? Não é a primeira vez que eu te pego no pulo.

– Até onde eu sei você não vai me entregar. E outra, o que é que você tem a ver?

– Quanto a ser pego, nada. Quanto ao cigarro, você tinha opções melhores e que não vão te matar de enfisema aos 30 anos.

– Obrigado pela preocupação, mas precisa de mais esforço para abalar esse coração.

– Eu agradeço a dica. – Sai antes que ele dissesse mais qualquer coisa, subindo a escadaria. Entrei na sala de artes, ao que fui seguida logo por Ambre.

– Quanto tempo, não? O que você vai almoçar hoje? Só para saber se vale a pena eu pegar comida na cantina.

– Ambre, eu... – Fui interrompida pela voz calma de Patrick.

– Posso ajudar, meninas?

– Não vejo razão. – Ambre respondeu de pronto. O professor sorriu e apontou a porta.

– Logo, se puder me dar licença, preciso falar com Anna. Com licença, senhorita.

A loira descruzou os braços e saiu da sala, sem resmungos. Olhei para o professor, pronta para o que viesse. Menos para a pergunta que se seguiu.

– Anna, quer me contar algo?

– Senhor, todo mundo sabe que Ambre é quem começa.

– Eu também sei. Eu tomei conhecimento sobre o que aconteceu ontem no horário do almoço. O que me entristece, sabendo que não sou responsável pelos alunos fora da minha sala de aula. A não ser que sejamos procurados por quem sofre o bullying. – Abaixei os olhos. Pela primeira vez na história eu estava dando um nome para a atitude de Ambre comigo. Bullying. A necessidade de zombar de mim, me humilhar sempre, ao ponto de quase me machucar às vezes. – Posso lhe aconselhar algo? Nunca se cale. Você pode não gritar aos quatro ventos, mas às vezes é preciso saber que precisamos de ajuda.

– Obrigada, Patrick, de verdade. Pode deixar comigo, eu já aprendi que não aguento tudo sozinha. Se me der licença. – Ele concordou, finalmente me deixando sair. Se ele soubesse o quanto eu era a pessoa errada para ouvir esse discurso.

Nos poucos minutos antes do sinal tocar, sai correndo até o jardim, era o único lugar onde eu não tinha checado ainda. E bingo, lá estava ele. Pouco provável, mas acontecia raramente. Me sentei imediatamente do seu lado.

– Minha nossa, você ficou louca? Podia ter dito algo. – Ele tinha dado um pulo, quase derrubando seu celular. Revirei os olhos.

– Agradeço o elogio, vou aproveitar que sou tão assombrosa e assustar Ambre na próxima.

– Melhor mesmo.

– Quando vamos...você sabe?

– Quando não formos ser incomodados. Depois da aula, talvez. Sei lá.

– Ok, vou avisar Lys.

– Lysandre? Pra que?

– Ah, você sabe...a gente é bem amigo, eu acabei encontrando ele ontem e...

– Contou para ele?

– Foi, e ai ele ofereceu ajuda. Pode ficar tranquilo, ele não vai falar nada.

– Eu sei, ele não fala com praticamente ninguém. A não ser você, Rosa e o Castiel.

– Pois bem. Vou pegar minhas coisas antes da aula. Te vejo depois. – Ele acenou e voltou a mexer em seu celular. Voltei até o corredor quase vazio. Estava organizando um pouco meu armário, quando senti um tecido esfregando no meu braço. Lysandre, justo quem eu precisava.

– Oi. – Falei baixo, finalmente pegando o que precisava e pondo na mochila. Ele passou a mão pelo meu rosto, quase por um segundo e depois abaixou a mão. – Vamos ficar depois da aula, ok?

– Ah, claro. Na biblioteca?

– É. Está tudo bem? Você parece aéreo. Mais que o normal.

– Estou, é só...meu pai.

– Você quer ir visita-lo de novo?

– Você é um amor. Não quero te impor a isso. – Fechei meu armário na mesma hora e passei meu braço por trás dele, abraçando-o de lado. Ele apoiou a cabeça na minha. Na mesma hora vi uma sombra no chão e me afastei, sorrindo para ele antes de verificar quem nos olhava. Peggy e Melody.

– Alguém vai ter assunto no almoço.

– Está tudo bem, todo mundo sabe que sua situação em casa não é das melhores. E que somos bem amigos. – O sinal me interrompeu, ao que eu aproveitei e simplesmente apertei sua mão antes de subir para a aula de ciências.

A professora Delanay estava no pior humor possível, ou seja, a sala estava em absoluto silêncio. O resto do dia passou voando, e logo eu estava indo encontrar Armin na biblioteca. Lysandre me achou na porta e entramos juntos.

Armin já estava num dos computadores mais afastados. Corri até lá, puxando duas cadeiras para perto da tela e me sentando.

– Já começou?

– Não, estava apenas adiantando tudo. Não quero ficar preso aqui. – Ele finalmente conectou o pen drive e começou a nos mostrar o que fazia. – Eu já tinha lido os primeiros e-mails, foi o que eu já resumi para você. Num resumo, Lysandre, essa pessoa que a ameaça parece não ganhar nada além de ver a Iris aterrorizada. Manda ela ficar em ruas desertas de noite e ir mal em algumas provas.

– Imagino que ela tenha algo para usar contra Iris.

– Exatamente, não sabemos o que. – Armin complementou o que Lysandre disse. Aproveitei a deixa e falei também.

– Também não sabemos porque fazem isso. Ninguém tem razões para ter nada contra a Iris. Quanto mais alguém a fazer coisas desse nível.

– E é isso que vamos fazer, imagino. Bom, vamos começar. – Nosso trabalho da tarde se iniciou. Algumas poucas vezes alguém passava no corredor atrás de nós. Na terceira vez, Armin apertou minha coxa pouco em cima do meu joelho. Vi os olhos de Lysandre sobre os dedos magrelos do outro na mesma hora, de instinto o afastei. – Relaxa, você vai acabar dando na cara. Só parece que estamos fazendo algum trabalho.

– Desculpa, eu fico nervosa.

– Não somos os vilões, você sabe bem o que é agir contra a vontade de alguém pelo bem maior.

– É, e a gente viu o rolo que foi. – Até hoje o assunto família era sensível entre eu e Nathaniel. Eu continuava sendo com quem ele se abria, mas era como se fosse por falta de opção. E não era por mal, eu entendia, mas ainda assim era estranho. – Enfim, desculpa.

Continuamos nosso serviço, até que ele verificou um último. Era de hoje de manhã.

– Quando você pegou esse? – Olhei para ele, meio confusa. Ele deu um sorriso triunfante.

– Antes de me procurarem ontem eu consegui linkar o email dela na rede do meu celular.

– Isso é legal?

– A gente discute isso depois, isso aqui é mais importante. Presta atenção. – Dessa vez ele finalmente olhou pela biblioteca antes de falar, num volume bem baixo. – Já te avisei para parar de bancar a esperta comigo. Eu posso revelar seu segredo quando eu quiser, esqueceu quem está dando as cartas? Não acho que é isso que você quer, não é? Quero que me encontre hoje, a meia noite, no clube de jardinagem da sua escolinha. Vou deixar uma encomenda para você.

– Podemos voltar a legalidade disso?

– Anna, minha princesa, dona da minha vida. E você, cara, se ninguém falar nada, vai ficar tudo bem. Respirem, pode ser?

– Eu não pretendo falar sobre isso, mas não estamos seguros de imprevistos. – Pelo menos com os apelidos que Armin me dava Lysandre já estava aprendendo a lidar.

– A rede da escola é a melhor para isso, não vão me rastrear. O máximo a que vão chegar vai ser essa máquina. Eu pensei nisso, obrigado.

– Ok, a gente acredita. E sobre esse encontro de hoje?

– Simples, nós vamos estar aqui. – Armin deu de ombros.

– Ótimo, concordamos aqui. – Respirei fundo.

– Concordamos, mas também precisamos nos preparar. – Lysandre se adiantou. – Precisamos de um plano concreto.

– O melhor me parece ser estarmos aqui antes da hora marcada. Nos escondemos no jardim antes de Iris chegar. A pior parte vai ser sair de casa depois do jantar.

– Eu moro com o Leigh, ele me questiona mas não me impede de nada. – Lysandre respondeu. Armin explicou que a mãe dele não ligava desde que ele voltasse relativamente cedo. – Anna?

– Meus pais me botaram de castigo faz pouco tempo por sair sem permissão. Logo, vai ser difícil.

– Você pode dizer que vai dormir fora, por que não?

– É, e ai eu durmo onde? No banco do jardim?

– Você pode dormir lá em casa, o Alexy ainda mora lá, sabia?

– Eu acho melhor não. – O Lysandre quase se engasgou num gole de água que estava tomando. Armin pareceu não notar a urgência na voz dele.

– E por que? Foi só uma proposta, você já dormiu lá antes. – Lysandre me olhou de lado. Verdade que ele ainda não tinha voltado do seu acidente quando eu dormi lá. – Inclusive, que baby-doll...

– Cala a boca, Armin. – Empurrei a cabeça dele com força, vendo Lysandre ficando cada vez mais tenso. – Enfim, eu vou dar um jeito. Eu posso convencê-los, eu acho.

– Ok, se você prefere. Nos encontramos então. – Ele olhou as horas no celular antes de desligar o computador e apanhar suas coisas. – Já está ficando tarde, vejo vocês mais tarde.

Assim que ele saiu do cômodo, o elefante que ele deixou pra trás deu um berro. Tentei fingir que estava tudo normal, apanhando minha mochila no chão, mas Lysandre apenas me encarava. Olhei para ele, finalmente recebendo a pergunta.

– Baby-doll? – Ele parecia estar chocado. Ele já sabia o quanto eu amava meus pijaminhas bem comportados.

– Veja bem, não era tão curto.

– Baby-doll? Numa casa onde o Armin dorme?

– Ele não dormiu com a gente, eu juro. Ele mal teve tempo de me ver. E a Rosa quem me mandou levar, eu ia com meu lindo pijama de gatinho. – Não melhorou nem um pouco o humor dele. – Escuta, a gente pode discutir isso depois? Não que eu ache que tenha muito mais que ser dito além de que o Armin é grudento mas nunca fez nada demais.

– Eu sei, mas mesmo assim... – Ele começou a resmungar, mas eu dei um selinho rápido nele. Ele nunca precisava saber da suspeita que nós tínhamos de que talvez a baby-doll tivesse sido sim um pouco curta. – Vamos para casa, vai?

Concordei e saímos da escola, indo para casa. Eu não parava de tentar bolar uma desculpa para dar para meus pais. Claro que eu podia explicar a história inteira, mas ai que eles não iam querer me deixar ir mesmo. No fim eu conclui que teria que escapar, de novo.

Os dois me receberam na sala, já preparando o jantar. Meu pai me deu um beijo e questionou minha demora. Disse que tinha ficado estudando na biblioteca, e ele engoliu direitinho. Acabamos de jantar e fui convocada para lavar a louça. Eram quase nove e meia. Suspirei.

Quando acabei já eram dez. Subi correndo para meu quarto, avisando que estava cansada e que já ia para a cama. Meus pais concordaram, dizendo que também não demorariam muito.

Peguei meu pijama debaixo do travesseiro. Bom, na verdade era a bendita baby-doll. Lembrei que minha mãe tinha dito que queria me ver assim, me sentido mais sexy. Pensei em pegar outra coisa, mas eu ia acabar fazendo barulho desnecessário. Eu já estava me atrasando pro nosso encontro no parque também.

Apaguei a luz e me deitei por baixo da colcha, com o celular escondido debaixo do travesseiro. Esperei, contando os segundos. Meus pais realmente não demoraram e foram logo para o quarto, abrindo minha porta devagar só para garantir que eu já tinha ido dormir. Por sorte eu estava de costas para a porta, logo eles acreditaram fácil.

Esperei mais dez minutos. A casa estava tão quieta que não era possível que eles fossem sair mais daquele quarto. Apanhei um casaco comprido, me cobri e fechei os botões, sempre vigiando a porta do quarto. Quando finalmente fechei o último, peguei minhas chaves evitando fazer qualquer barulho e sai.

A porta deles estava fechada. Por sorte eu já sabia quais pontos dos degraus rangiam, então os evitei ao máximo, descendo na ponta dos pés. Atravessei a sala, vigiando o alto da escada. Meu coração estava disparado com tanta adrenalina correndo no meu sangue. Quando ouvi o clique baixo da porta se trancando, respirei fundo e sai correndo de perto do prédio.

Assim que cheguei ao parque, Armin me mandou uma mensagem.

“Já entramos na escola. Não demore em nos encontrar, o parque não me pareceu muito seguro”

Guardei o celular no bolso do casaco e voltei a correr. Finalmente vi a escola. A iluminação estava me deixando tensa, pensando em como o suposto fantasma no passado era uma lembrança boa. Uma que eu queria que continuasse sendo a única.

– Trancado. Como eles entraram? – Pensei em chamar, mas e se o suposto chantagista já estivesse lá dentro. Sai rodando o terreno, até encontrar um ponto do muro onde seria mais fácil subir por causa da lata de lixo. Respirei fundo, subindo com cuidado na lata e finalmente segurando no muro e me puxando para cima. O outro lado parecia mais alto, mas tomei coragem e pulei. Fora o barulho da minha queda, tudo quieto. Peguei o celular.

“Entrei. Onde estão vocês?” Esperei por um minuto cronometrado e nada. Fui direto ao jardim, sentindo toda a tensão do momento me deixando com os nervos à flor da pele. Nada deles. Droga.

Empurrei a porta do corredor no maior cuidado e entrei, arrepiada pela visão do corredor todo apagado. Sai procurando as salas, com cuidado, e só achei a minha cara de terror. Os dois não estavam em lugar nenhum. Parecia quase uma piada de mau gosto.

Um estrondo alto ecoou pelo corredor do andar de cima. Eu estava com a mão na maçaneta da sala de artes, mas dei um passo para trás e me abaixei. Peguei meu celular, o brilho já no mínimo, e mandei outra mensagem, mais urgente.

“Estou na sala de artes, ouvi um barulho. SÃO VOCÊS?”

Escutei, esperando identificar as duas vozes familiares, mas quem quer que tenha feito o som parecia tão cauteloso quanto. Depois de uns bons minutos, abri a porta devagar, pronta para socar alguém se precisasse. Vazio.

Desci as escadas sempre olhando ao redor, ainda procurando quem tinha feito o barulho. Pelo silêncio absurdo, se não era um dos dois depois de terem feito uma cagada, era o tal agressor. Botei meus pés no piso do primeiro andar, olhando pelo vidro da porta da biblioteca, quando escutei uma risada baixa atrás de mim. Fechei as mãos e me virei, o soco já preparado.

– Ei, para, era piada. – Armin ergueu as mãos na mesma hora. Quase desabei no mesmo instante.

– Armin, idiota.

– Tudo bem? – Ele olhou para minhas mãos antes de voltar a olhar no meu rosto. É verdade que eu estava tremendo bastante. – Anna.

– Foi você no andar de cima?

– Andar de cima? – Ele olhou para a escada.

– Armin, eu não estou pra brincadeira.

– Eu não subi hora nenhuma, juro.

– Lysandre está aqui?

– Eu não o encontrei na verdade. Mandei a mesma mensagem pra vocês dois. Você acha...

– Só pode ter sido ele então.

– Merda, ele te viu?

– Acho que não, mas depois do barulho ficou tudo quieto demais. Pensando bem, se ele soubesse que estaria sozinho ele não se preocuparia tanto.

– A gente precisa correr pro jardim agora. Vem. – Ele pegou minha mão e me puxou com cuidado atrás dele. Quando estávamos para sair do corredor, ouvi uma porta se abrindo. Virei de prontidão, vendo o casaco escuro familiar.

– Vocês demoraram. Eu vim assim que o Armin mandou a mensagem, onde estavam?

– Nos desencontramos. – Comecei a explicar, mas Armin nos mandou calar a boca e apontou para a porta. Lysandre entendeu e nos acompanhou, calado. Chegamos ao jardim, ainda tensos.

– Como sabiam que ele já estaria aqui?

– Eu o escutei no andar de cima. Não sei se ele me viu, mas...

– Está tudo bem?

– É, eu ainda não tinha saído da sala de artes, por sorte. Um segundo a menos e eu tinha esbarrado nele. O que é uma pena, talvez eu pudesse vê-lo.

– Seria risco demais. – Armin olhou para o lado e, na mesma hora, mudou a postura.

– O que foi?

– Parece que perdemos ele. Pelo menos achamos a tal encomenda. – Ele ia caminhar na direção da caixa de sapato, mas eu o puxei para trás. Ele me olhou, curioso. Ainda tínhamos cinco minutos.

– Eu olho.

– A gente não sabe se é algo perigoso. – Lysandre me segurou. O que eles consideravam perigoso dentro duma caixa de sapato eu não sabia. Assim que Armin pegou-a, ele a sacudiu. – O que é?

– Parece papel. Deixa eu ver...puta merda. – Ele fechou a caixa na mesma hora, mais que sem graça. Parecia que ele tinha acabado de ver uma coisa que ele nunca, nem em sonho, poderia ter visto. Lysandre me soltou e foi até Armin, tendo praticamente a mesma reação.

– O que há com vocês? – Peguei a caixa das mãos de Armin e abri a tampa, com mais coragem do que os dois. Fotos. Umas seis fotos da Iris, mais ou menos. Logo na do topo, ela estava deitada na cama, numa lingerie de renda vermelha. Ao contrário deles, eu enfiei a mão na caixa e peguei as outras. E como eu tinha imaginado, a última era a pior. Nessa, ela não usava nada, e seu rosto não aparecia por inteiro, mas era possível ver a cabeleira ruiva e sua boca. Enfiei tudo de volta na caixa. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Armin me puxou para trás de um arbusto enorme.

– Tem alguém ai? Ei? – A voz doce de Iris. Apertei meus olhos bem fechados, controlando minhas lágrimas, mas não suportei ignorar a cena depois de ouvi-la questionando a caixa no chão. – Só pode ser isso.

Assim que a tampa foi erguida, o soluço abafado e o choro engasgado. E daí eu só consegui chorar junto, de tanta raiva que eu sentia de quem quer que fosse aquele cretino.

Ela apertou a caixa com força contra o peito e saiu correndo da escola, ainda em prantos. Lysandre me deu um abraço fraco, também observando a menina correndo. Assim que ela estava fora de alcance, Armin suspirou.

– Faz sentido ela estar lutando tanto para defender aquilo...

– Ela deve ter enviado isso para algum cretino nojento e ele se aproveitou dela, eu não acredito. Eu juro que eu o mato se ele passar perto de mim. Eu juro.

– Podia ser pior, ela podia...

– Não podia não, Armin, já é.

– Como assim?

– Na última ela não está usando nada.

– Okay, isso é um pouco mais difícil de abafar. Tem o rosto dela?

– Não, mas dá pra ver o cabelo e a boca dela, todo mundo que conhece a Iris mata na hora quem é. Ela tem uma marquinha bem leve no queixo, dá pra ver na foto.

– Precisamos ir. Agora. Qualquer momento agora é nos colocar em risco.

– Concordo. Eu preciso voltar antes que meus pais sonhem em ir ao banheiro ou algo assim. E está frio.

– Onde estão suas calças, por falar nisso? – Armin perguntou, como se só agora ele tivesse reparado minhas pernas nuas.

– Eu tive que fingir que já estava dormindo, ai vesti a camisola e vim.

– Está de camisola? Ficou maluca? – Lysandre questionou. Achei que Armin ia fazer alguma piada infame, mas ele olhou ao redor e se virou para mim.

– É melhor irmos logo então. Se esse cara estiver por aqui, você fica mais vulnerável. Mesmo que estejamos do seu lado, não queremos dar a chance para ele conseguir munição contra mais alguém.

– Ele tem razão, vamos.

Ficamos de pé e saímos os três do colégio, pelo lugar onde eu tinha entrado. Pelo visto tinha sido a escolha de todos nós, pela lixeira. Lysandre ajudou Armin a subir primeiro e logo em seguida me levantou, ao que Armin prontamente esticou as mãos e me puxou para cima do muro. Eu desci primeiro, esperando Lysandre. Ele deu um pulo e, aproveitando que era o mais alto, simplesmente conseguiu apanhar a mão de Armin. O moreno teve que fazer um certo esforço, mas os dois conseguiram sair também.

Os dois insistiram em me escoltar até em casa, e só depois que me viram subir as escadas é que foram os dois embora também. Entrei no apartamento devagar, guardei o casaco e me deitei de novo, sabendo que não dormiria tão cedo. O relógio já marcava 1 hora da manhã.

Notas finais
Boa noite e boa semana ♥