Lythian - The Warbringer
5 Capítulo 4 - Acaso
Notas iniciais
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A imagem da garota nobre não saía da mente de Lílian. ‘Sarah’, sussurra para si mesma mais uma vez, olhando o pingente que pendia de sua mão, enquanto segurava a corrente de prata...
A pedra azulada reluzia e parecia perfeitamente lapidada aos olhos de Lílian. É claro que ela não era uma profunda conhecedora de jóias. De fato, era a primeira vez que segurava um pingente como aquele em suas mãos...
- Lílian!!
- Hm!!? – Lílian se sobressalta ao escutar seu nome sendo chamado, saindo de seu devaneio...
- Você estava me escutando? – Seu pai a olhava, de pé, ao lado da fornalha, segurando seu almoço na mão, com um olhar inquisidor.
- Er... Desculpa pai... – Lílian dá um sorriso sem graça, olhando-o de volta, abaixando a mão que segurava o pingente e apoiando-a na mesa. – Estava longe...
Seu pai ergue uma sobrancelha...
- Eu percebi... – Responde, sustentando seu olhar por um momento. Por fim, suspira resignado, fechando os olhos... – O que que eu vou fazer com você?, filha...
Lílian dá outro sorriso sem graça, e seu pai sorri de volta, com um olhar carinhoso. Ele se aproxima da mesa, limpando sua mão livre na estopa de lã que trazia na cintura, fazendo um cafuné paternal em Lílian...
- Você precisa começar a ficar mais atenta, Lílian... – Ele começa a falar, com a voz séria. — Tem muitos estrangeiros chegando à vila ultimamente, e não podemos confiar neles... – Dá um leve sorriso, olhando para Lílian. – Não quero que nada de ruim aconteça com você, minha filha...
As palavras de seu pai fizeram Lílian lembrar o que havia acontecido mais cedo, que não havia contado para ninguém. Lembrou do pingente em sua mão. Enquanto pensava se devia contar sobre a garota nobre que havia conhecido, um grito estridente, de dor, cortou o ar, vindo do lado de fora da oficina. Lílian e seu pai reconheceram imediatamente de quem era o grito: Christian, o irmão mais novo de Lílian. Sem demora, seu pai deixou o prato sobre a mesa e correu para a porta, com Lílian ao seu encalço, preocupados.
- Seu idiota!! – O irmão mais velho gritava com Christian do lado de fora, enquanto segurava a mão dele, estacando o ferimento com uma estopa, de costas para a porta, sentados ao lado do esmeril, quando Lílian e seu pai saíram da oficina. – Quantas vezes preciso dizer para tomar cuidado!!
- O que aconteceu!?
- Esse burro meteu a mão no esmeril de novo!...
- Pobres burros... – Lílian comenta, sem conseguir conter um riso...
- De fato, Christian!... Você amola mais a mão do que as ferramentas... – fala o pai de Lílian, se aproximando dos dois filhos com passos rápidos. – Me deixa ver...
Christian não conseguia falar nada, tentando se conter para não chorar com a dor e não xingar ao mesmo tempo. Apenas solta um gemido dolorido quando seu pai agarra sua mão com a brutalidade comum de um ferreiro, vendo seu ferimento.
- Bom! Você ainda não conseguiu chegar ao osso... Quem sabe na próxima... – Comenta o ferreiro com um tom sarcástico, soltando a mão de Christian, achando graça. Christian, por sua vez, enrola sua mão ferida de volta na estopa, não achando graça alguma, e xingando baixo, enquanto seu pai se voltava para Lílian. – Filha. Acompanhe seu irmão no caminho de volta para casa e peça para sua mãe cuidar da mão dele. E lembre-a que preciso dele com as duas mãos inteiras para continuar me ajudando aqui. Eu e Charles levamos os pratos quando voltarmos...
- Sim, pai... – Lílian se aproxima de Christian e o ajuda a levantar do banco onde estava sentado, segurando o outro braço dele. – Vamos cuidar desta mão, descuidado... – Ela fala enquanto levanta seu irmão, com um tom de riso e, ao mesmo tempo, carinhoso, se dirigindo para a rua em seguida. – Até mais tarde, pai! Charles! – Acena com a mão livre, olhando para eles por cima do ombro. Eles apenas acenam de volta, retornando ao trabalho...
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Christian ficou calado a maior parte do caminho. Ou pelo menos não falara nada além de esbravejar bem baixo. Quando já estavam na metade, Lílian percebera que ele havia parado de xingar.
Christian era um jovem rapaz em seus 17 anos, apenas 1 ano e alguns meses mais velho que Lílian. Era mais alto que Lílian e tinha um físico trabalh]ado graças ao seu trabalho na oficina com seu pai. Seus olhos eram verdes, mais claros que os de Lílian, e mais opacos também, e tinha cabelos castanhos claros, amarrados num curto rabo-de-cavalo que chegava um pouco acima de seus ombros. Sua barba era rala, ainda em desenvolvimento.
- Como está sua mão? – Ela pergunta, parecendo preocupada, mas, ao mesmo tempo, sem conseguir esconder que achava graça. Ao olhar para a mão de Christian, porém, percebe que a estopa estava muito vermelha, o que a faz perder o sorriso por um momento e ficando realmente preocupada...
- Ardendo menos agora... – Ele responde, tentando parecer mais calmo. – Dói demais...
- Eu imagino... Aquela coisa raspa ferro! Você precisa ser mais cuidadoso, maninho...
- Eu tento, acredite. Mas simplesmente não consigo gostar de trabalhar na oficina da mesma forma que Charles...
- Quer trocar?
- E ter que limpar a casa e aturar a mãe a manhã inteira!?... Não... Prefiro amolar minha mão no esmeril...
Os dois caíram na risada.
- Então?... Você já descobriu o que gosta de fazer?... – Lílian pergunta por fim.
Várias vezes já havia feito aquela pergunta, e por vezes Christian respondia que ainda não sabia, mas não queria continuar sendo ferreiro a vida toda. Algumas vezes ele respondia, na brincadeira, que queria se tornar um cavaleiro. Claro que isto era impossível para ele, já que apenas membros da nobreza podiam ser treinados como cavaleiros. Desta vez, contudo, a resposta foi diferente.
- Ourives... – ele responde, com o olhar um pouco pensativo.
- O quê? – Lílian pergunta, não entendendo o que Christian queria dizer.
- Ourives! Aqueles artesãos que trabalham com metais e pedras preciosas... Um ourives chegou na vila alguns dias atrás e montou uma tenda no mercado. Eu o conheci quando fui fazer uma entrega de ferraduras no estábulo e voltei pelo caminho do mercado hoje de manhã... Eu também não sabia como se chamavam esses artesãos...
- Hm... Legal! Então você vai trabalhar com ouro?
- Não apenas com ouro, mas com outros metais e pedras preciosas também, como prata... Acho a prata mais linda que o ouro. – Então Christian suspira, resignado. – Mas eu teria que treinar muito para me tornar um ourives, e não tenho tempo para isso...
- E de preferência, manter as mãos inteiras...
Os dois caíram na risada novamente.
- Isso me lembra o que aconteceu hoje de manhã... – Lílian voltou a falar depois de alguns segundos.
Ela contou tudo o que acontecera para Christian, se demorando muito mais na parte em que Sarah lhe salvara. Falara sobre a linda tiara que ela usava e sobre o pingente que lhe entregara, pedindo para guardá-lo e avisando que voltaria mais tarde para buscá-lo. Quando Lílian fez menção de pegar a jóia no bolso do seu vestido, Christian a alertara para esperar chegarem a casa, longe de olhos desconhecidos, para evitar mais problemas. Coisa que Lílian concordou.
Entre Charles e Christian, Lílian preferia passar seu tempo com Christian. Charles muitas vezes a fazia se sentir criança demais, enquanto Christian, talvez por ser o mais novo dos seus irmãos, a tratava como se fossem da mesma idade. De fato, a diferença de idade era pequena, e ambos cresceram praticamente juntos. Enquanto com Charles Lílian era mais reservada, com Christian não tinha segredos. Ambos eram confidentes um do outro, e sempre se procuravam quando precisavam dividir algo. Além de irmãos, eram seus melhores amigos.
Logo chegaram em casa e Lílian ajudou sua mãe a cuidar do ferimento na mão de Christian. Estava pior do que seu pai havia feito parecer...
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Depois que haviam cuidado do curativo, Lílian ficou responsável por cuidar para que seu irmão não piorasse o ferimento e pudesse voltar ao trabalho logo...
- Isso arde pra burro...
- Isso é bom... Quer dizer que está curando... – Responde Lílian, enquanto caminhavam para o lado de fora da casa. – Você já devia estar acostumado, já que costuma “amolar” a mão quase toda semana... – Lílian ri, enquanto Christian fecha a cara, parecendo zangado...
- Posso estar acostumado, mas arde do mesmo jeito...
- Tenta não socar mais o esmeril!...
Os dois caem na gargalhada, se sentando em dois tocos de madeira, à frente da casa.
- Me mostra o pingente que a nobre deixou contigo... – Lembra Christian, falando baixo. – Quero ver se ele é tão bem feito como você disse...
Lílian coloca a mão no bolso do vestido, procurando a jóia. De repente solta uma exclamação, se levantando em seguida, assustada.
- Perdi o pingente!! – Exclama, apavorada.
- Como é!? Você perdeu a jóia que a nobre confiou a você!?
- Não está no meu bolso! – Lílian responde, apalpando seu vestido, verificando se seu bolso estava rasgado ou se havia colocado ou caído em alguma dobra ou costura, sem achar nada.
- E se ela chegar perguntando da jóia!?
Lílian não queria nem pensar nisso. Precisava encontrar o pingente ou estaria perdida. A garota havia sido compreensiva uma vez, mas provavelmente não o seria de novo. A menina ruiva se senta de volta no toco de madeira, com uma mão de cada lado da cabeça, tentando lembrar quando fora que estivera com a jóia pela última vez...
- Na oficina!! – Lílian exclama, se levantando novamente num pulo.
- O que?
- Eu estava com o pingente na minha mão enquanto o pai estava almoçando, pouco antes de você estourar a mão no esmeril... Devo tê-lo deixado na mesa quando saí da oficina para ver se você estava bem...
- Espera!... Por que raios você estava com a jóia na mão? – Christian retorna, irritado...
- Eu não sei... Mas isso não importa! Precisamos correr de volta para a oficina antes que Sarah chegue!
- Espera! – Christian se exasperara – “Precisamos”!? Você quer dizer que eu TENHO que ir com você?
- Você deixaria sua irmãzinha cruzar a vila sozinha de novo? – Lílian responde, se voltando para seu irmão.
- Mas está quase anoitecendo!
- Mais um motivo para você vir comigo!
- Não podemos ir lá agora. Não voltaríamos antes de anoitecer e se nossos pais nos pegarem, ficaremos de castigo, pelo que?, o resto da vida!?
- Acorda Christian! – Lílian se irritara. — Uma garota nobre salvou minha vida e pediu para mim cuidar de uma jóia valiosa para ela em troca. Se eu não estiver com a jóia quando ela chegar, vai pensar que eu a vendi e provavelmente vai me mandar para a forca! Você acha que estou preocupada em ficar de castigo?!
- É... – Christian responde, depois de alguns segundos – Vendo por este lado...
- Além disso, a culpa é sua!
- Minha!?
- É! Se não fosse tão descuidado eu não teria tido que sair às pressas da oficina e não teria esquecido o pingente lá...
- Ah Tah! Obrigado por jogar a culpa em mim por você ser uma cabeça de vento!...
- Pára de reclamar e vamos logo!
- Ai! – Na pressa, Lílian agarrara e puxara a mão machucada de Christian, o fazendo gritar. Ela solta assim que percebe o que fizera, levando a outra mão a boca, enquanto Christian volta a esbravejar... – Sua avoada!! Preciso das duas mãos!
- Desculpa...
- Tah desculpada... – Retorna Christian, se levantando sozinho. – Agora vamos... Quanto mais rápido nós formos, mais cedo voltamos... Se corrermos, talvez consigamos voltar antes de anoitecer completamente... – E, dizendo isso, segurava na mão de Lílian com sua mão boa e a puxava, forçando-a a começar a correr, acelerados...
Lílian duvidava que conseguissem voltar antes do céu ficar realmente escuro. Enquanto começavam a correr, começava a temer o que pudesse acontecer. Estava tão agitada e apavorada com o pensamento de ser enforcada que se esquecera de que nunca havia estado fora de casa de noite, pensamento este que vinha à tona agora. Começava a sentir medo...
Notas finais
Peço desculpas pela demora na postagem dos próximos capítulos, mas estive realmente atarefado nos últimos meses... Para compensar, estou postando os 3 capítulos que produzi nas últimas semanas... Talvez se alguns dos leitores me dessem algum feedback (resposta) em forma de review ou de alguma outra forma, me incentivaria a continaur postando... Não tenho como adivinhar quantos estão gostando se não me contarem...
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