Notas iniciais
boa leitura!

Será pedir demais acordar assim todos os dias? Apenas uma janela de vidro me separando desse céu azul imenso que parece tão próximo? Os primeiros raios do sol estão me chamando pra brincar logo cedo, e eu nem me sinto estressada de acordar a essa hora! Eu queria ser rica de doer, pra morar nessa cobertura a vida toda. Imagina só, residir no último andar de um hotelzão desse?? Não dá pra negar que é maravilhoso saber que você pode ir na rua que quando voltar todo seu quarto vai estar impecavelmente arrumado com um chocolatinho de menta em cima do travesseiro. Umpf, meu fascínio por umas coisas tão vulgares constrange até mesmo a mim.

É uma pena que esses dias de mordomia vão terminar logo. As férias do meu pai acabam em alguns dias e o feitiço termina. A Lady vira empregada de novo e o café da manhã de telenovela que me espera no térreo vai ser substituído por café com leite e pão com margarina (não que não seja gostoso, mas...), sem contar os pratos pra lavar depois do almoço: uma morte horrível. Porém eu decidi viver esses dias bem plena e fina, curtindo o dia bem serena, sem pensar em como vai ser quando acabar -nossa como eu ‘tô’ trabalhada na inteligência emocional, nem parece que vai tudo por água a baixo na semana de provas-.

— Luíza, já acordou? levanta logo e chama sua irmã! Eu quero fazer o máximo de coisas possíveis hoje! Isso inclui museu e shopping antes do meio dia ainda! — ecoou uma voz do outro lado da porta. Era Definitivamente minha mãe, dona Lúcia, querendo transformar o dia numa correria que nem os caras que deram a volta ao mundo em 80 dias passaram. Mas até que é divertido no fim das contas. A irmã que ela menciona? Vitória, na cama do lado. Tem apenas 9 anos mas o sono é de gente grande, a gente tem que sacudir ela violentamente pra acordar. Tenho até medo de quebrar essa magrela sem querer qualquer dia.

Levantar daquela cama hiper macia foi um desafio, mas o sol na cara já estava mesmo incomodando então o jeito foi se render e despertar de vez. Luíza e vitória já estavam de banho tomado e devidamente vestidas meia hora depois, sendo que os primeiros quinze minutos foram decorridos das tentativas da irmã maior acordar a outra, tentativas essas que variavam de cócegas violentas à puxões no pé, até que vitória também se rendesse ao despertar.

Apreciar o café da manhã dos deuses não foi uma tarefa difícil. Depois veio a caminhada na orla da praia em frente ao hotel com o pai (Inácio, mas Luíza chama de papai. Pelo menos quando estão a sós). Era sempre um momento especial, só eles dois, livres pra falar as besteiras que quisessem. Na ausência de Lúcia, Inácio se dava a liberdade de ser mais idiota. Falava besteira e ria de memes junto com a filha mais velha. Coisas que Lúcia repudiava.

— Então, como foi ontem à noite? Aposto que pegou dona Lúcia de jeito Hein? Hein? — Luíza fazia uma careta sexy. Ela sabia que o pai não iria resistir àquela idiotice.

— Hahahaha! Quem me dera filhota, ontem à noite eu usei a desculpa de que meus pés estavam frios e tentei me enroscar nela. Ela virou para outro lado e soltou só um: “Frio no pé, é? Amanhã lhe compro meias novas”. Tô rindo mas tô preocupado.

Vitória, a filha caçula, não entendia, claro. Mas essa viagem de férias era uma tentativa de Inácio de salvar seu casamento em crise. Obviamente ele não precisou comentar isso com Luíza, ela já tinha subintendido isso pelo jeito como as coisas estavam em casa. Brigas e silêncios intermináveis entre seus pais.

— Não creio! ... A mamãe as vezes... Me assusta. — disse Luíza pausadamente por causa do esforço da caminhada, embora só estivessem no percurso à 20 minutos.

— Nem me diga. E você tá precisando de mais condicionamento físico hein filhota? Já está toda acaba e mal começamos! — disse Inácio desviando a conversa para outros assuntos temporariamente.

Muitas pessoas ficariam no mínimo surpreendidas pelo jeito como Luíza e o pai eram íntimos. Se davam liberdade e conversavam até mesmo sobre vida sexual. Luíza sempre se gabou para as amigas de que o pai dela era seu melhor amigo. E Realmente era. Ela contava tudo, até as coisas que fazia de errado para o pai, que sempre soube corrigir e instruir com vigor, porém com amor. Todos podiam Ver o Orgulho brilhar nos olhos de Inácio quando ele falava de suas filhas. Embora com apenas 22 anos, Luíza demostrava uma maturidade que fazia inveja à muita gente de trinta e cinco, e Vitória podia não ser astuta como Luíza era na idade dela, mas tinha uma doçura incomparável.

— E o Vini, como vocês estão? — Perguntou o Pai, depois de perpassar vários assuntos aleatórios. A essa Altura eles já faziam o percurso de volta, num ritmo mais lento. Admirando a beleza da praia e parando aqui e ali para admirar a arquitetura dos edifícios que se impunham solenes do outro lado da rua.

— Na mesma papai. Eu nem sei mais o que fazer. Ontem à noite ele me mandou mensagem. Perguntou como estava tudo por aqui. Eu respondi e perguntei como estava tudo por lá. Ele falou que estava tudo bem também e morreu o assunto. Eu não entendo. Já houveram dias em que nós fomos os melhores amantes na terra. Parecia que eu não ia conseguir viver longe dele por um minuto sequer e vice-versa. E agora... sei lá, as vezes a gente parece dois estranhos. Às vezes é como se eu convivesse com Dois Vinícius. Um que me ama e adora me abraçar, outro que não tá nem aí nem vai chegando pra nada, eu fico tão aborrecida com isso. Mas sinceramente, o que me mata é conversar com ele e meu coração não se alegrar mais por causa de tudo isso. Parece que eu tô conversando com um estranho, sabe? — Nem mesmo a própria Luíza tinha se dado conta de como estava precisando falar isso, até fazer esse desabafo. Seu pai era seu eterno psicólogo. Se ele não tivesse um bom conselho, ninguém mais teria.

— Filhota, Você tem que ter em mente que nada fica pra sempre do mesmo jeito. Mudanças acontecem quer você queira ou não. Você não namora o mesmo Vinícius do começo do namoro, lembre-se disso. De lá pra cá aconteceu muita coisa e vocês são pessoas diferentes. Quanto as alterações de Humor ou personalidade dele.... Você devia conversar com ele. Chama-lo pra realidade, sebe? Se imponha! Exija o amor que você merece, mas na mesma medida que você pode dar, não exagere. Lembre-se que você também não é mais a mesma de antes, e tem que buscar melhorar. E pra fechar, não esqueça de que todo mundo precisa de espaço as vezes, não é bom pressionar alguém a querer falar toda hora. Alguns Homens só querem ficar um pouco sós quando estão sob pressão pra colocar a cabeça no lugar. Vai por mim. E o Vini tá terminando o curso, pura pressão.

— Tá, quer dizer que sempre que o bonitinho passar por problemas ele vai descontar isso na nossa relação sendo frio? Desculpa, eu discordo dessa parte pai. Me poupe!

— Ninguém é perfeito Luíza. Por isso eu falei pra você conversar com ele. Mas relacionamento é isso filha. Altos e baixos. Cabe a você decidir se vai ou não continuar se equilibrando na montanha russa do amor.

— Obrigado papai. Vou pensar nisso tudo. Sabe, Todo mundo devia poder conversar com você, seu lindo! — Luíza exibia seu sorriso enquanto pulava nas costas do pai, tentando bagunçar o cabelo dele enquanto ele lutava pra manter seu penteado. Era uma brincadeira interna, um sempre tentava bagunçar o cabelo do outro.

Luíza não entendia como sua mãe podia “desprezar” um cara como o pai. Alto, forte, Pele da cor de amêndoas, olhos negros e serenos, cabelo impecável do William Bonner com aquele grisalho charmoso dos lados... “Tomara que o Vini fique assim quando envelhecer”, pensava Luíza. Que mesmo com todas as intercorrências, ainda sonhava casando com aquele energúmeno/menino mais fofo do mundo.

— Vamos, pare com isso! Haha. Chegamos no Hotel. Pare de pular em cima de mim ou os funcionários vão nos achar uns loucos. Foi sorte eu ganhar essa Hospedagem no sorteio da empresa, mas não vamos dar na pinta para os outros hóspedes que esse não é o nosso Habitat natural— disse o pai da família passando pelas portas rolantes do saguão com o cabelo todo bagunçado.

Luíza não se cansava de passar por ali. A recepção possuía um teto de gesso coberto de arabescos dourados e o Tapete Vermelho fazia ela se sentir entrando numa noite de Gala de Hollywood. Todos os lustres eram um show de luzes a parte e as paredes combinavam perfeitamente com o tema decorativo tropical do Hotel, escolhido pela proximidade com a praia. Os cantos do saguão possuíam sempre plantas ou mini jardins suspensos, e as colunas de sustentação do edifício eram contornadas com aquários que exibiam os mais exóticos peixes. Vitória e Luíza certamente sentiriam muita falta daquele lugar.

— Não Ligo pra esses ricaços, podem pensar o que quiserem. — Disse Luiza, com o orgulho falando mais alto, mas que esperava com muita intensidade que não passasse nenhum boy gatinho para vê-la suada, descabelada (culpa do pai que retribuiu à brincadeira) e com roupa de academia no Hall de entrada.

— Ainda bem que vocês chegaram. A mamãe não para de reclamar. — Disse Vitória chegando perto para abraçar o pai e a irmã. As duas irmãs foram viciadas desde cedo com os abraços dos pais assim que se reencontravam, mesmo que com pouco tempo decorrido.

— Andem, andem! Estão 10 minutos atrasados! Lu, vai se cuidar, temos museu em cinquenta minutos! — Verbalizou dona Lúcia, chegando próximo de onde estavam os outros integrantes da família e dando o abraço de Luíza. — Leva a Vitória lá pra cima e faz uma trança no cabelo dela por favor? Ela não me deixa desembaraçar essa juba dela! — completou.

— Claro, a senhora quer me deixar careca! — protestou a pequena, que sempre reclamava da força que a mãe fazia ao pentear seus cabelos. Não que fosse uma força fora do normal, o que a caçula gostava mesmo era de inventar desculpas para não arrumar o cabelo.

A filha mais velha se afastava em direção ao elevador rindo dos peripécias de Vitória junto com a pequena, mas ainda conseguia ouvir os pais, falando baixo um para o outro.

“Poxa vida, você faz de propósito, né? Tinha que atrasar tudo...”

“Eu não vim pra cá seguir horário feito maluco, isso é defeito seu...”

Luíza só queria que tudo isso não passasse de mais uma crise, temendo um desgaste mental que Vitória poderia ter caso ouvisse sobre divórcio.

...

Horas depois de muita bagunça e risada em família, todos se encontravam no final da visita ao shopping, prontos para voltar à barraca de praia do Hotel e provarem iguarias marinhas no almoço. Luíza agradecia aos céus os pais saberem relaxar e manterem as brigas o mais discretos possíveis. Na verdade quem olhava de fora não via nada se não a família perfeita.

— acho que é por isso que dizem que não se deve julgar um livro pela capa, nunca se sabe como realmente anda a vida de alguém. — sussurrava Luíza em voz baixa enquanto admirava os batons da última moda numa vitrine no caminho. Aproveitou o reflexo do vidro pra ver se a franja estava no lugar e observar discretamente se não tinha farelo de lanche no queixo, nunca se sabe, né?

— Olha só, se você entrar e conferir mais de perto, eu posso oferecer amostras grátis de perfume, que tal? — e de repente uma jovem simpática estava do outro lado do vidro acenando.

“Meu Pai, que vergonha! A quanto tempo essa menina tá aí e vendo eu me ajeitar na vitrine dela? Socorro!”

Um pouco sem graça, e realmente interessada nos batons, Luíza aceitou.

— Pai, Mãe, podem ir para a saída do shopping, eu vou passar aqui rapidinho! — comunicou à família, que já estava um pouco mais a frente, pois não tinham percebido que Luíza havia parado no caminho.

— Ok, mas não demore! — Sua mãe respondeu.

— A vendedora era uma jovem muito simpática. Parecia ser da idade dela. Possuía cabelos longos e levemente ondulados, no tom loiro claro, um uniforme laranja chique com lencinho no pescoço. E parecia ser a única funcionária que sabia o que era esfumar uma sobra para os olhos, pois as demais vendedoras tinham uns faróis sinistros na cara, que elas deviam chamar de maquiagem.

Luíza entrou já começando a se arrepender, pois sabia que ia entrar procurando um batom e ia sair com um delineador, um iluminador e um blush pra combinar, e lá se iam suas economias...

... mas foi ali, entrando numa loja qualquer que Luíza o avistou. Ele tinha 1,90 de altura, pele marrom bronzeada e vibrante, um cabelo despojado que formava um Black Power discreto, com uma franjinha dos cabelos cacheados na testa. Luíza mal sabia que essa olhada detalhista dela havia despertado os interesses do garoto, afinal ela só conseguia reparar agora nos olhos cor de mel e nos lábios grossos do rapaz. Quem se importava se ele era magrinho e não tinha muitos músculos? Aqueles lábios compensavam muita coisa.

“— se segura Luíza, você tem namorado! Olhar não tira pedaço mas não vamos exagerar. Se concentra no Batom, foco no batom.”

Mal sabia ela que aquele encontro renderia emoções pelo resto das férias.

Continua...

Notas finais
As músicas que me inspirei para criar o capítulo foram "guanabara" e "Gigi", ambas da cantora Mallu magalhães. Espero que tenham gostado. por favor, deem dicas nos comentários de como melhorar. toda sugestão é válida.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.