Luzes do Oriente

1 Os Mistérios de Suzhou


Notas iniciais
Olá, simpáticos leitores! Essa fanfic é totalmente diferente de tudo o que eu já escrevi: é histórica, tem OCs (inevitável) e um monte de alusões à cultura chinesa, que muito me impressiona. Assumo que o enredo foi uma grande desculpa para eu juntar dois temas que me atraem - Saint Seiya e oriente! Alguns detalhes do texto são baseados em fatos, enquanto outros são invenção minha. Os capítulos que já escrevi são longos, mas a estória como um todo não é muito extensa. Todas as referências serão melhor explicadas no decorrer da fanfic, não se desesperem. A imagem que abre esse capítulo é o fragmento de uma pintura chamada "Suzhou Próspera", datada de meados do século XVIII e de autoria de Xu Yang. Espero que tenham uma boa leitura!

A água corria nos canais, levando pequenas embarcações por baixo de pontes de pedra onde transeuntes, carroças e riquixás¹ disputavam espaço. As ruas fervilhavam de gente no comércio e já despontava nas casas um cheiro de comida, que se misturava ora ao perfume de jasmins nas árvores, ora ao mau odor do esgoto lançado a céu aberto. Jovens vestidas em qipaos² vibrantes coloriam com suas sombrinhas a paisagem de templos imponentes e zonas portuárias em expansão — uma mistura de passado e modernidade.

Suzhou era um caldeirão cultural e a maior cidade sem função de capital de todo o oriente, encravada no extremo leste da China.

Da chalupa, Shion observava as pessoas nas margens andando apressadas, absortas em seus problemas comuns — dinheiro, família, saúde, trabalho. Amor. O cavaleiro de ouro de Áries entortou a boca num sorriso amargo. Admirava, como num aquário, o tipo de vida que ele nunca teria e também o tipo de vida pela qual se sacrificaria na guerra vindoura.

Salvar a humanidade ordinária, através da deusa Atena, era sua missão. Por causa dela, estava ali, tão longe de sua casa, buscando uma agulha num palheiro. Pela divindade e pela necessidade de reunir seus protetores, havia se deslocado do Santuário na Grécia até aquela metrópole chinesa, onde um certo cavaleiro de Libra aproveitava seus escassos dias de folga.

Não podia deixar de sentir alguma pena do amigo, que partira há cinco dias do Santuário rumo a um compromisso anual em sua terra. Sasha sempre dava-lhe a dispensa para suas viagens, todavia, aquela semana vinha se mostrando um bocado mais conturbada do que haviam previsto. Em caráter de urgência, necessitavam de todos os cavaleiros para deter uma possível invasão. Portanto, Shion se voluntariou para trazer Dohko de volta à Grécia. Havia aportado na China ao raiar do sol e pretendia ficar pouco — apenas o suficiente para que o encontrasse e lhe entregasse o aviso de revogação de sua dispensa.

O problema é que ninguém sabia exatamente o quê Libra fazia em suas jornadas, quanto mais como localizá-lo. É claro que todo cavaleiro que partisse de suas obrigações deveria disponibilizar um endereço e um contato, e Dohko não fugira à regra. Contudo, no caso dele, as informações eram imprecisas.

Com efeito, mais cedo naquele dia, Áries havia seguido as coordenadas deixadas por ele e foi parar num rincão pobre de Suzhou, ocupado por lavadeiras e estivadores. Lixo e moscas acumulavam-se nas ruas de terra enlameada pelas chuvas abundantes, onde crianças esqueléticas chafurdavam — a única brincadeira que conheciam. O fedor de chorume mesclado ao de água parada e dejetos impressionava tanto quanto as moradias paupérrimas de barro apertando-se nas diminutas vielas, nenhuma ostentando pintura. Tecidos ordinários faziam as vezes de janelas e portas, por onde mulheres desdentadas e com o rosto sujo debruçavam-se para admirá-lo como se fosse um deus. O cenário de miséria causava em Shion comoção e consciência de que era criatura muito afortunada.

Assim que chegara ao ponto final do mapa, viu-se diante de um casebre inabitado e dominado por ratos. Não era possível que aquele lugar fosse a referência de Dohko, concluiu com desgosto, depois de certificar-se de que não havia nada na vivenda além de uma sujeira insuportável e animais.

Decepcionado, esperou a manhã inteira por alguém, até que um vizinho apiedou-se dele e avisou-lhe que o garoto que ali morava tinha se mudado há meses. Quando questionado mais a fundo, o morador sumiu casa adentro e ignorou-o, assim como toda a vizinhança; ninguém queria falar sobre aquilo.

Contrariado, Shion partiu para o plano B. Ele tinha um palpite, e tomou um barco no canal mais próximo, pedindo ao condutor que o levasse ao pagode do Monte do Tigre.

Era muita sorte que o ariano fosse grande amigo de Dohko e soubesse dos destinos que frequentava alguns detalhes. Poucos, verdade, mas isso já era bastante além do que todos os outros cavaleiros conheciam sobre a intimidade do chinês. Libra não fazia o tipo discreto e sorrateiro, contudo, era especialmente silencioso a respeito de sua vida além do Santuário. O lemuriano orgulhava-se de ter a confiança dele e de receber confidências suas de quando em quando, e também...apreciava aquele companheirismo quase excessivo entre eles que muitos apontavam.

Não estavam errados. Dohko e Shion tinham uma conexão especial e antiga, de base sólida, cimentada pela convivência desde os primeiros treinamentos. Um havia sido o ombro e o braço direito do outro em todas as ocasiões, o que propiciou-lhes um sucesso compartilhado. Tornaram-se os melhores e mais próximos dentre os cavaleiros de bronze, e logo ganharam as atenções do Patriarca, que buscava as pessoas certas para preencher algumas das doze casas.

Ainda depois, quando se separaram para os treinos avançados, a fim de serem promovidos de patente, escreveram cartas contando suas angústias e alegrias, encurtando a distância física. Nunca esqueceram de reservar algum tempo em suas atribuladas rotinas para cultivar a antiga amizade.

Não à toa, já alçados ao título de cavaleiros de ouro e reunidos outra vez na Grécia, fizeram seu laço estreitar-se a um ponto quase incompreensível para os outros guerreiros. Shion considerava extraordinário como se comunicavam através de simples olhares, por vezes enlouquecendo os colegas, e como podiam permanecer por horas em quietude sem desconforto algum. Tranquilizava-o a certeza de que sempre teria alguém com quem contar e de quem cuidar.

O ariano estimava as qualidades de Libra e era correspondido com igual consideração...e, bem, talvez essa constatação fosse um tanto incorreta. Shion admitia para si mesmo — admirava Dohko além das fronteiras da própria admiração. Não culpava os comentários que faziam na Acrópole, sabia que eles eram fruto de sua própria atitude de sombra do outro. O que sentia por ele há muito ultrapassara a amizade e a fraternidade, e beirava as raias da obsessão. Amava-o, e muito mais de que poderia exigir dele em retorno.

A bem dizer, não sabia precisar há quanto tempo se flagrava com ideias intrusas sobre seu amigo. Desde o brotar da puberdade que passara a enxergá-lo de uma maneira distinta. De repente, Dohko havia se tornado mais bonito e interessante que tudo, e observá-lo em segredo convertera-se num ritual.

Espiá-lo no banho e nos treinos trazia uma sensação de culpa no início, que logo veio acompanhada de prazeres solitários e torturantes. Tão jovem e imerso num mundo alienado de batalhas, Shion não teve coragem de perguntar ao mestre como combater os arrepios que tiravam seu sono à noite; aprendera a resolvê-los sozinho, debaixo das cobertas do alojamento, enquanto abafava suspiros no travesseiro. Não entendia completamente o que fazia, mas reconhecia o que o levava à ebulição: Dohko. Ele por inteiro — seu sorriso insolente, sua pele morena, seus olhos determinados, sua estrutura pequena e atlética. Dormir no mesmo quarto que seu objeto de adoração, enquanto ainda aprendizes, era um suplício a Shion. Enlouquecia-o a maneira como os músculos das pernas dele contraíam-se ao subir a escada do beliche depois do jantar e como sua voz ganhava um timbre espesso pela manhã.

No começo, quando ainda se descobria, preocuparam-lhe muito os desejos que comandavam seu corpo e atrapalhavam seu rendimento. Todavia, tão focado e disciplinado, logou retomou o controle sobre si. O que restou foi o medo de ser desmascarado. A homossexualidade era mal vista na Europa no auge século XVIII e o próprio Santuário desestimulava seus guerreiros a envolverem-se entre si.

Apesar de tal, dificilmente faltava a um cavaleiro uma história sua entre homens para contar. O ambiente de guerras carecia de curvas tipicamente femininas, com tantas amazonas abrutalhadas e sem rosto. Indubitavelmente, as pessoas mais belas e poderosas da Acrópole faziam parte da elite dourada, composta por uma maioria de rapazes em boa forma. Talvez Yuzuriha fosse a figura mais representativa da feminilidade que Shion conhecesse, mas ainda estava na adolescência e era aparentada sua. Já em Rodório e em outras cidades, conhecera algumas moças comuns, só que não sentira nada por elas...pelo menos, não qualquer coisa similar ao que sentia por Dohko.

Shion tornou-se menos confuso e mais certo de suas necessidades com o desenrolar do tempo. Não deixou de querer seu melhor amigo, entretanto, priorizou a amizade sua com Libra e buscou outras formas de satisfazer suas curiosidades. De fato, teve sua cota de experiências com outros garotos; entregara-se aos poucos que lhe despertaram interesse, à exceção do que mais cobiçava. Em sua defesa, mantinha sempre a fachada serena e insuspeita, e a conversa fiada de sua suposta predileção pelas lemurianas — uma saída fácil, já que existia não mais que dúzias delas no mundo.

No entanto, a triste realidade é que seus olhos sempre estariam voltados para o cavaleiro da sétima casa.

Estar em Suzhou, a cidade natal de Dohko, invariavelmente aguçava mais o interesse de Shion sobre o passado e as crenças do homem que amava. Por mais que o ofendesse o histórico de invasão chinesa no Tibete³, culminando com sua anexação ao Império da China no século passado, não podia evitar criar ressalvas em nome do amor.

Perguntava ao dono do barco sobre os costumes locais, as festas típicas e os feriados religiosos. Imaginava que Libra retornasse para alguma festividade regional ou, talvez, um culto. Dohko, ainda que leal a Atena, não havia abandonado a religiosidade do país em que nascera. Lembrava-se de quando ele lhe confessou que costumava ir a um templo fazer oferendas a uma divindade do panteão chinês. Recordava-se também de alguma menção a uma torre no Monte do Tigre, um lugar que o companheiro considerava, em suas palavras, a materialização do poder de Buda. A fé do moreno era indiscutivelmente baseada em uma salada de referências, já que ela colhia ensinamentos tanto no monoteísmo budista quando no politeísmo pagão da China.

Era sobre a cultura local que queria ouvir durante a viagem, entretanto, foi frustrado em suas expectativas. Enquanto empurrava a barcaça, o barqueiro falava sem parar naquele dialeto que Shion pouco compreendia, mas nada ajudava no sentido de orientá-lo. Não lhe dava pistas sobre onde poderia encontrar Dohko; apenas sugeria onde o ariano deveria hospedar-se, onde desfrutaria de uma boa refeição e, também, onde poderia encontrar os serviços de uma bela prostituta. Ao notar o cenho franzido do passageiro, o homem adivinhou suas preferências e passou a listar endereços de diversões voltadas para o outro público. Citou as casas de entretenimento em que se apresentavam os xiaochang — garotos de programa que faziam apresentações de música.

— São lindos! Cantam como rouxinóis no palco e gemem como devassos na cama. — garantiu o barqueiro, entre remadas.

Shion assentiu vagamente, pouco entusiasmado.

— Fale-me mais sobre os templos de Suzhou. — pediu, encerrando aquele assunto.

O nativo deixou os ombros caírem e resignou-se a contar ao cliente sobre os pagodes mais famosos. Provavelmente se dava conta de que não lucraria muito com o turista ali; mesmo pensaria que Shion era um religioso que não se entregava aos prazeres do mundo nem quando em viagem. Suas roupas apontavam para sua procedência — os tibetanos costumavam ser muito espiritualizados. Aos olhos daquele barqueiro, Shion era um homem de magras posses. Mal ele sabia o que havia dentro da caixa de Pandora escondida numa mochila, a que o outro se abraçava, como se fosse um membro de sua família.

Disfarçaram a antipatia que se consolidava entre eles até chegarem ao fim do canal. Então, o ariano pagou o transporte, sem gorjetas, e pendurou a caixa nas costas antes de seguir a pé pelo Monte do Tigre. Buscava ali, no meio da civilização, uma das maiores edificações dedicadas a Buda e provável local de peregrinação do cavaleiro de Libra.

Atravessou um parque de árvores exuberantes e finalmente chegou à belíssima torre milenar e de formato octogonal, discretamente inclinada para a esquerda, à maneira da Torre de Pisa. A Torre de Huqiu era um pagode de quase cinquenta metros de altura, com sete andares esculpidos em pedra azul desgastada pelo tempo. A arquitetura budista estava fortemente presente nos detalhes de cada suntuoso terraço que sustentava os sete pisos e também no teto abobadado que arrematava o último e mais imponente andar.

Shion nunca havia visto nada sequer parecido. Nem mesmo o pagode de Jamiel era capaz de rivalizar com a majestade daquele monumento. Entretanto, quando tentou entrar no templo, notou que estava interditado — um aviso enorme pregado nas portas acorrentadas avisava dos perigos de entrar na construção ameaçada de desmoronamento.

Excelente.

O lemuriano agitou-se por dentro, tomado de susto pelo imprevisto. Não tinha outra aposta para o paradeiro de Dohko, estava sem alternativa. A verdade é que fora bastante ingênuo em achar que o amigo estaria no único ponto de Suzhou que lhe mencionara. Havia dezenas de templos na cidade, cada um mais distante do que o outro, e uma quantidade limitada de horas para encontrá-lo. Para piorar, não tinha cama onde pernoitar e poucas provisões.

Com as preocupações a mil, decidiu almoçar enquanto esfriava a cabeça. Assim, depois de satisfazer-se num restaurante próximo ao pagode, buscou primeiro saber quem atuava na Torre de Huqiu e para onde haviam se mudado com a interdição do templo. Talvez, se pudesse falar com o responsável pelo pagode, obtivesse alguma pista sobre Dohko.

O cozinheiro não sabia nada, nem a florista da esquina e muito menos o fiscal de riquixás. Shion, então, apelou para o absurdo e rodou a esmo pelo bairro, descrevendo o amigo a estranhos e perguntando por ele. Mandou diversas mensagens de cosmo também, sem resposta. Era como se Dohko não estivesse ali.

Passada a tarde inteira de buscas infrutíferas, ele tornou ao pagode e sentou-se sobre sua caixa de Pandora, desolado. De repente, sentia-se um ponto minúsculo naquela cidade selvagem e cheia de curvas e esquinas onde Libra pudesse esconder-se. Sem suas habilidades sobre-humanas, era quase impossível encontrá-lo.

Então, aconteceu uma confluência, destas que as pessoas comuns reconhecem como destino. Para Shion, era desígnio dos deuses. Como se atendendo às suas preces, um garotinho carregando uma pilha de tecidos quase mais alta que si próprio veio cambaleando até onde ele se sentava com sua armadura.

— Ei, senhor! Ouvi dizer que está buscando Dohko de Rozan, é mesmo? — o pequeno disse, esticando o queixo sobre seda de várias cores dobrada.

— Sim! — Shion sorriu, esperançoso. — Você o conhece?

— Pode me ajudar com essas compras?

Áries tomou o embrulho nas mãos como se fosse de papel, e só assim viu o menino de pés descalços e uma bata surrada. Seu rosto de pele curtida tinha olhos negros demasiado rasgados, além de um sorriso com dentes tortos.

— Lebre da Lua é amigo do senhor Dohko. — a criança começou a se explicar, como se falasse de algo universal e evidente. — E Lebre da Lua é meu amigo! Posso levar o senhor até ele, se quiser...Mas, primeiro, será que poderíamos comer alguma coisa? Ando pelas ruas desde o amanhecer e tenho fome!

O lemuriano estava muito longe de entender qualquer coisa, todavia, aceitou as condições sem pestanejar. Alguém que reconhecia o nome do cavaleiro de Libra ali era um milagre a ser celebrado.

Voltou ao restaurante, onde pagou a Jin — descobriu este ser seu nome — tudo o que ele tinha vontade e espaço no seu corpo para comer. Isso incluía montanhas de peixe frito, bolinhos de arroz e uma tigela inteira de macarrão. A conta não foi nada suave e Shion rezou para que o menino realmente soubesse como chegar a Dohko.

— O senhor não parece ser daqui. — o moleque comentou, olhos fixos nos sinais de Shion, enquanto diminuía o ritmo furioso das garfadas. — Conhece Lebre da Lua ou o meu amo, o Pavão da Noite?

Áries meneou a cabeça, sorrindo diante da ingenuidade daquela criança.

— Então, para seu conhecimento, sou empregado da escola de jovens artistas e casa de espetáculos Yutao*, que fica logo no fim do canal ali. — ele disse, com a boca cheia, apontando as águas que começavam a escurecer depois do poente. Aí, usou a manga da camisa para limpar a boca, escandalizando Shion e seus bons modos. — Pavão da Noite é o atual dirigente da casa. Ele foi o maior dan desta cidade e hoje é um grande professor para a nova geração. Lebre da Lua é seu aluno mais aplicado!

E foi quando Shion finalmente entendeu sobre quê ele falava. Os dan eram atores de teatro que se travestiam para representar papéis femininos, e que frequentemente vendiam favores sexuais aos seus mecenas. A profissão de ator e a prostituição confundiam-se na China há séculos. Os cavalheiros, ou xianggong, foi como ficaram conhecidos os rapazes de origem pobre que conseguiam ascender socialmente através de um ofício sórdido, derivado de uma combinação entre artes cênicas e meretrício. Performavam no teatro suas habilidades de canto e atuação; e, nos bastidores, um talento um tanto mais controvertido. Na capital, levavam hordas de fãs ao furor — uma grande fonte de renda para si mesmos e seus patrocinadores.

Lebre da Lua e Pavão da Noite eram nomes artísticos de cavalheiros. O estômago de Shion deu uma volta completa ao concluí-lo. Aquele menino de não mais de dez anos discursava abertamente sobre um monte de prostitutos e seus clientes como se fosse o assunto mais trivial na Terra. E pior: aparentemente seu amado também estava envolvido naquele submundo de perversão.

— Você disse que Dohko é amigo de Lebre da Lua? — ele perguntou com cuidado.

— São amigos de longa data! Dohko vem à Yutao assistir às apresentações de Lebre da Lua desde que ele começou seus estudos.

Um frio subiu pela espinha de Áries. Precisava perguntar...

— Eles são...íntimos?— até abaixou o tom de voz.

O menino abocanhou um bolinho de arroz inteiro e franziu o cenho:

— Como assim? — grãos voaram para fora de sua boca.

Shion torceu o guardanapo de pano inutilizado, corando. O menino era mais inocente do que se esperava para um serviçal de tal categoria de estabelecimento. — Eu quis dizer...Dohko e seu amigo ficam sozinhos depois dos espetáculos?

— Sempre! Eles sobem para o quarto de Lebre da Lua e ficam lá brincando por horas. — Shion sentiu suas faces perderem a cor. — Hoje tem apresentação na casa. Se o senhor estiver interessado, pode brincar com ele também. — Jin exclamou alegremente.

O lemuriano pigarreou, disfarçando seu constrangimento. Estava terrivelmente decepcionado com Libra, e aquele moleque ainda o convidava a conhecer de perto a libertinagem dos cavalheiros.

— Você já está terminando? — ele apressou o outro de uma maneira deselegante para qualquer um, menos aquele pobre diabo esfomeado.

— Quase! — engoliu o último bolo de arroz. — Podemos ir agora.

Assim, Shion levantou-se da mesa e recolheu a seda do garoto e a caixa de Pandora, amargamente incerto se gostaria de desvendar os segredos da vida particular de Dohko. Se antes acreditava que ele vinha à China para festividades religiosas, naquele momento, Áries não sabia mais o que pensar.

Notas finais
¹Riquixá: meio de transporte de duas rodas puxado por uma pessoa, popular no oriente como um todo até meados do século XIX. ²Qipao: indumentária típica das mulheres chinesas, ainda usada nos dias atuais. É o indefectível vestido chinês de gola fechada e com fendas nas laterais dos quadris. ³O Tibete era um reino poderoso e independente até ser invadido e anexado à China no século XVI. Uma luta por emancipação se prolongou até a vitória dos tibetanos no início do século XX, quando tiveram um breve período de independência. Foram ocupados violentamente outra vez em 1950, permanecendo sob controle chinês até hoje. *Yutao significa "pera mordida" e é uma referência à figura lendária Mizi Xia, que ofereceu a fruta como sinal de agradecimento a um favor ao seu amante, o duque Ling. "Amor da pera mordida ou dividida" é um eufemismo para homossexualidade na China. Reviews e pedradas são bem-vindos. Até o próximo capítulo!