Luzes da Rebelião
6 Capítulo 6- A Dama Verbena
Gus se dirigia para seu canto de estudos quando Cassie passou correndo por ele; mal se cumprimentaram, parecia ansiosa com alguma coisa. Quando o jovem se aproximou da entrada da biblioteca encontrou-a conversando com Petro.
—Bom dia! Disse-lhes.
Ambos responderam mecanicamente e quando tentou passar por eles, Cassie o chamou para acompanhá-la. Gus olhou curioso para Petro que disse-lhe não haver problema algum deixar os livros por um dia ou dois.
Aquilo o pegou de surpresa, até aquele momento, o estudo era o que havia de mais importante. Edward havia feito questão de deixar isso muito claro, mas agora Cassie e Petro o afastavam dos livros e ele não sabia o motivo.
Percebeu que, deliberadamente, Cassie o mantinha a parte do que estava acontecendo. Cada vez que tocava no assunto sobre as razões de Petro o liberar dos livros, ela dava uma desculpa esfarrapada e aquilo o estava incomodando bastante.
Já era próximo do almoço quando Petro chegou no jardim e veio conversar com eles.
—Estaria disposto a me ajudar em algo grande, garoto?
A pergunta que ele fez era muito estranha, mas a mesmice desde que chegara àquele lugar estava deixando-o maluco e sem pensar no que estava me metendo aceitou o convite.
Petro pareceu entender seu desespero, deu um sorriso e olhou para Cassie.
—Ele vai ficar bem, disse ela.
—Claro que vai, respondeu Petro, dando um tapinha nas costas do aprendiz.
Estava saindo do refeitório depois do almoço quando Edward procurou por Gus e pediu para conversarem.
Seguiram até seu escritório, lá estavam Petro e outros dois homens que Gus nunca antes havia visto no complexo.
—Gus, deixe-me apresentar o Leo. Ele é um grande colaborador.
Olhou para o homem, era alto, era forte, seu semblante era austero sob aquele bigode.
—E este é Jacó, falou Edward novamente indicando o outro homem. Ambos vão se juntar a você e a Petro numa missão imprescindível.
—Posso saber que missão é essa, perguntou.
—Certamente. Estamos retirando você daqui e o levaremos para outro local. Aqui já não é seguro para você. Ohana, neste momento está no local onde você vai permanecer por um tempo e estamos apenas aguardando o momento certo para fazer a sua transferência.
—O que há de errado com este lugar que não posso permanecer aqui?
—Eles estão mais perto agora, tememos que eles o encontrem.
—Por que eles me querem, retorquiu Gus.
—Eles não querem a você especificamente, eles querem impedir o que você representa, temem a pessoa que você está predestinado a se tornar. Querem destruí-lo.
A franqueza com que Edward proferiu aquelas palavras fez com que Gus engolisse em seco. Petro se aproximou dele e só então viu o que ele estava usando, o paletó do papai.
—Este paletó…
—O que tem ele, perguntou Petro.
— Meu pai tinha um igualzinho a este.
—É um paletó muito comum, tenho certeza que você já viu muitos como este.
Gus não estava certo de que fosse um paletó tão comum assim, aquela história lhe pareceu suspeita. Mais uma vez ficou com a pulga atrás da orelha. Olhou ao redor, olhou diretamente para Leo e Jacó.
—Achei que fosse ajudá-los numa missão e não que seria o objeto da missão.
O telefone da mesa soou e quando Edward atendeu, olhou para Petro e depois Gus. Deu ordens para que Leo e Jacó se colocassem a postos e os dois ficaram cada um de cada lado do batente da porta.
Sabia o que aquilo significava e perguntou ao Petro para onde iriam.
—Para seu apartamento é claro. Precisamos de algo que está lá antes de seguirmos viagem.
Um segundo depois a porta se abriu, Ohana apareceu diante dela chamando-os para seguí-la. Leo e Jacó atravessaram a porta, Petro e Gus os seguiram.
Achou que assim que passassem pela porta dariam diretamente em seu apartamento, mas não. Quando olhou para trás, havia a porta de vidro de um café que há na rua de seu prédio. Seguiram rapidamente pela calçada por quase um quarteirão até a porta do edifício.
—Olá, Petro, disse Zeca ao vê-lo. Quando viu Gus, abriu um sorriso e o abraçou com força.
—Ora vejam, achei que você estivesse longe daqui a esta altura.
—Como vocês se conhecem, perguntou ao Petro.
—Zeca é um de nós, ele tem mantido o maior sigilo sobre o seu desaparecimento e tem dado a maior força com o apartamento.
Gus não se surpreendeu com o que Petro lhe disse. Pelo que via, a rede de conexões dos despertos era bem maior que supunha.
Juntos seguiram até o elevador. Leo e Jacó sempre em seus calcanhares. Entraram pela porta e Petro foi direto ao quarto do pai de Gus e antes mesmo que ele abrisse a porta foi interrompido.
— O que quer aí? Este é o quarto do meu…
—Do Charles, você quer dizer. Eu sei disso.
Abriu a porta e foi diretamente para o guarda roupas. Sob a última gaveta havia um compartimento que o iniciado nunca antes tinha visto, retirou de lá um objeto e o guardou consigo.
—Pronto, estamos prontos.
—O que é isto que você pegou?
—Um artefato importante e raro que o Charles mantinha em segredo. Tivemos sorte em encontrá-lo. Por muito tempo achávamos que estivesse perdido, ou pior, nas mãos erradas. Agora cabe a nós guardá-lo. Vamos, não temos muito tempo, estamos sendo rastreados e se nos pegarem não teremos a menor chance.
Quando estavam saindo, Zeca olhou para o rapaz com os olhos marejados de lágrimas.
—Vá, meu amigo, disse-lhe Estarei a postos para garantir o seu sucesso.
Gus apenas olhou para o amigo porteiro e agradeceu, embora não soubesse exatamente pelo que agradecia.
Assim que deixaram o prédio entraram num carro. Jacó foi ao volante, Leo ao seu lado. Petro e Gus seguiram no banco do passageiro. As janelas escuras não permitiam que as pessoas lá fora os vissem. Seguiram com o carro por o que pareceu ao menos uma centena de quilômetros até um bairro afastado da cidade. O carro parou diante de uma casa antiga, o muro baixo permitia que se visse no quintal da frente um poço sob uma árvore enorme. As paredes da casa eram úmidas mesmo do lado de fora. As janelas de madeira corroídas por cupins. A porta da casa ficava em uma gélida varanda. Tudo era sombrio naquele lugar.
—Quem mora aqui, perguntou Gus.
—Valquíria e a dona deste lugar e a partir de hoje, você também vai morar aqui, pelo menos por um tempo.
A porta foi aberta por um ancião. A pele flácida de seu rosto caia-lhe pela face enrugada. As sobrancelhas grisalhas e desgrenhadas colaboravam para o aspecto ruim do velho homem. A roupa de mordomo, puída e empoeirada, davam a ele um ar fétido e horripilante, mas o que mais chamou a atenção de Gus foi o fogo que havia nos olhos dele.
—Entrem, por favor, disse o velho.
Assim que passaram pela porta, deparou com uma pequena câmara. Um aparador ao lado e um espelho apenas.
O velho passou adiante e Gus, por um instante, se perdeu ao olhar para o espelho emoldurado na parede. Só voltou a si por assim dizer, quando Petro o cutucou dizendo:
— Gus, esta é Valquíria, a sua nova tutora.
Olhou para ela. Uma mulher de uns trinta e poucos anos. A tez imaculada, as curvas de seu corpo indicavam toda a juventude e vigor. Usava um vestido longo e branco e o decote, bem, o decote permitia que parte do seus seios ficassem à mostra. Ela era fascinante.
—Como vai Gustavo, estava esperando há muito tempo por este momento. Venham, me acompanhem.
Ela levou-os para uma ante-sala, as paredes brancas peroladas, pareciam refletir as mais maravilhosas luzes, diáfanas e acolhedoras. Ao lado, uma mesa na qual repousava uma ânfora de cristal. Copos de hastes longas completavam o conjunto que convidava Gus a bebericar. Valquíria ofereceu a pura bebida e o garoto não ousou recusar. A água estava, de fato, maravilhosa, refrescou sua boca e caiu leve pela garganta. Em minutos estava sentindo-se renovado, sua mente estava mais livre e esta sensação lhe fazia sentir muito bem. Não reparou que havia sido deixado sozinho ali, também não viu o tempo passar.
Assim que Valquíria e Petro passaram pelo umbral da porta, um lugar muito diferente se apresentou a eles. Uma sala com o pé direito alto, bem iluminada, o sol entrava pelas grandes janelas vítreas. Valquíria o convidou para se sentar e assim que acabaram as formalidades triviais. Petro foi direto ao assunto.
—Não pretendíamos trazê-lo tão cedo. Acreditávamos que ele estivesse seguro conosco, mas as coisas mudaram, o cerco se fechou. Ele estava correndo perigo.
—Ele sabe?
Petro já esperava por aquela pergunta e decidiu ser cauteloso ao responder.
—Ele sabe o suficiente, disse Petro. Não está pronto ainda para saber mais do que sabe.
—Ele tem direito de saber a verdade e você, melhor que ninguém sabe disso.
Petro olhou de soslaio na direção da porta da sala contígua onde estava Gus.
—Ainda não está pronto, quando chegar a hora certa saberá de tudo.
—Sim, e cabe a você dizer. Disse Valquíria solene.
—Ele já desconfia de algo. Andou fazendo perguntas.
—Então prepare-se, pois o momento se aproxima.
Ela era uma anciã Verbena e tinha seu lugar no conselho Mágiko. Sabia muitas coisas, mas revelava sempre apenas o necessário. Sabia que toda a ordem mágika corria perigo nos dias atuais, A Firma queria não só ofuscar o poder dos despertos, mas também obter o poder sobre eles.
Assim que terminaram a conversa, Valquíria se levantou seguida por Petro. Ao vê-los passar, Gus levantou-se levemente atordoado. Petro se despediu do jovem aprendiz, aconselhando-o a fazer o máximo possível para aprender os ensinamentos da dama Verbena.
—Não se preocupe com isso Petro, posso sentir a natureza dentro dele, disse ela.
Gus olhou para ela e depois para o amigo, se despediram com promessas de se verem em breve. A porta se fechou atrás de Ptero e Gus não pôde ver o que aconteceu em seguida.
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