Luzes da Rebelião
10 Capítulo 10 - A Casa da Encosta.
Notas iniciais
Assim que dobraram a esquina, Petro acelerou o carro o mais que pode no sentido da autoestrada, mas sempre tomando cuidado para que ninguém os seguisse. Procurou caminhos alternativos para se assegurar de que nada saísse errado, afinal Leo estava sob cuidado deles e era imprescindível que conseguissem dar a ele o melhor tratamento possível.
Enquanto Petro guiava o carro, Cassie auxiliava Gus a manter Leo o mais estável possível. A ferida causada pelo projétil estava estanque, mas as habilidades de Gus ainda não eram perfeitas, tampouco Cassie podia ajudá-lo, afinal “Vida” não era a sua especialidade. Corriam o risco que Leo tivesse algum problema mais grave e portanto deveriam ser precisos. O sucesso na remoção estava todo nas ações que estavam prestes a acontecer e não poderiam hesitar. Assim que alcançaram a rodovia, Petro pegou a saída para o litoral, de acordo com o que supunha demorariam cerca de duas horas até chegar ao seu destino. Foi neste momento que Gus perguntou para onde iriam.
Petro não teve tempo de responder porque Cassie chegou a cogitar que talvez devessem levar Leo para o hospital e deixar que os médicos tomassem conta dele, mas o irmão diligente sabia que se assim fizessem, ele certamente corria o risco de ser encontrado com muita facilidade e a Firma não hesitaria em eliminado.
—Não podemos deixá-lo a mercê do inimigo. Temos que tirá-lo de circulação e escondê-lo, disse Petro. Assim que chegarmos ele terá o tratamento que precisa e estará fora de perigo.
—Chegarmos aonde, perguntou Gus.
—Em casa, respondeu Cassie ao olhar pela janela e sair do torpor que a situação lhes causava e pela primeira vez ver para onde o irmão os conduzia.
—Não devemos voltar à sede por enquanto. Depois que descobrimos que a Firma tem um mapa, podem invadir o local a qualquer momento. Espero que Ohana tenha conseguido avisar ao Edward sobre isso como lhe pedi. Assim terão tempo para se organizarem e reforçarem as barreiras de proteção.
Petro dirigia em alta velocidade, mudando constantemente de pista e ultrapassando os veículos. Cerca de uma hora depois chegaram a Caraguatatuba. Há muitos anos Gus não ia àquele lugar. Lembrou-se que o pai o levara certa vez em viagem e passaram por ali rumo a cidade vizinha.
Já estava anoitecendo quando cruzaram o limite entre Caraguá e Ubatuba. A estrada que antes era larga e segura tornou-se uma via única de mão dupla. Petro sabia que teriam ao menos mais quarenta minutos de viagem até seu destino e continuou acelerando o veículo o máximo que pode.
Depois de uma curva fechada à direita, num trecho completamente sem iluminação, Petro não viu um carro que vinha no sentido oposto e dum átimo de segundo girou o volante para evitar a colisão, mas acabou perdendo o controle do veículo, batendo contra o guard-rail e projetando o veículo mato adentro. A única coisa que pode fazer em meio ao desespero foi pedir à Cassie que fizesse alguma coisa para tentar estabilizar o carro.
Gus estava ocupado demais para interferir e Cassie, desesperada, realizou um feitiço de Forças usando a cinética e frenando o veículo na tentativa de minimizar o dano no veículo, impedir que o veículo descambasse morro abaixo ao mesmo tempo assegurar que o doente não ficasse ainda pior; ela fez o melhor que pode, mas não esperava que atrás do carro deles houvesse outros veículos cujos motoristas e passageiros testemunharam o ocorrido. Depois do carro ter parado, algumas pessoas se aproximaram para saber se estavam bem e foi inevitável que ela sentisse uma forte dor de cabeça e as imagens do acidente lhe virem à mente como um funesto fantasta. O choque havia lhe atingido em cheio.
Assim que conseguiram se desvencilhar das pessoas, Petro deu a marcha a ré no carro com a frente toda avariada e voltaram à estrada. A ferida de Leo havia voltado a sangrar e devido os últimos acontecimentos, Gus não encontrava mais meios de ajudá-lo, pois também se sentia praticamente esgotado. Cassie, a todo momento reclamava das dores de cabeça terríveis que a acometiam.
Quando Petro fez a conversão à direita numa pequena estrada de terra e parou o carro ao lado de um muro velho de tijolos à mostra, deu ordens para que todos descessem do carro e ajudassem Leo a descer. Gus não entendia o motivo porque Petro havia parado naquele local inóspito, mas quando Cassie correu diante do muro e fez alguns gestos, uma porta de aço surgiu diante deles. Petro destrancou a fechadura mágica e a porta se abriu para uma escadaria larga que descia alguns metros e virava à direita.
—Vamos, entrem rápido, disse Petro.
Assim que Cassie entrou pela porta, Petro e Gus apoiaram o enfermo com os braços e o conduziram escada abaixo.
—Cassie, acenda as luzes!
Assim que a irmã acendeu as luzes, os dois irmãos que amparavam Leo terminaram de descer a escadaria e seguiram pelo corredor por uns quinze metros até que chegaram a uma sala médica toda preparada.
—Ajude-me a tirar suas roupas e colocá-lo na cama.
Gus o ajudou a tirar as roupas do homem deixando-o apenas com a roupa de baixo. Com certeza o impacto que sofreram com o veículo fez com que o remendo que Gus fez com sua magia havia rompido e por isso voltou a sangrar.
Assim que o homem estava devidamente acomodado na cama. Ligaram alguns aparelhos para monitorá-lo. Porém o que aconteceu em seguida fez com que Gus sobressaltasse; na cabeceira da cama e nas laterais foram acionadas luzes claras e azuladas e percebeu que o corpo de Leo estava sendo escaneado. Cinco minutos depois a máquina lhes forneceu um relatório geral das condições fisicas do examinado bem como do trauma que sofreu. Ele tinha a saúde boa em geral, o relatório mostrava com maior urgência desgaste nos pulmões e todos sabiam que tal fato era devido ao uso excessivo de cigarros e quanto ao trauma explicou que o ferimento havia sido causado por instrumento pérfuro-contundente como todos já sabiam. Foi feita a assepsia do ferimento e o ambiente climatizado. Uma leve sedação foi aplicada para que o Leo pudesse descansar e se refazer o mais rápido possível. Foram-lhe ministrados alguns medicamentos e quando o homem já estava tratado e seu estado estabilizado. Gus voltou-se para a irmã que sofria as fortes dores de cabeça. Deu-lhe um comprimido e tentou ajudá-la através da sua força de vontade mágica e foi então que descobriu que as dores que a afligiam eram causadas pelo choque de retorno paradoxal e quanto a isso não podia fazer nada. Enfim olho ao redor e indagou:
—Que lugar é esse?
—Estamos em casa Gus, nossa verdadeira casa, disse Petro.
—Foi o papai que construiu há alguns anos. Usou mágika para conseguir instalar a construção num lugar tão difícil e a casa é guarnecida de muitos aparatos que ele trouxe do futuro.
—Inclusive a cama que encapsula a pessoa e escaneia o paciente apontando um diagnóstico e as as dimensões dos feimentos, disse Gus.
—Foi ideia do papai. Disse que seria útil. Ele demorou meses até terminar a casa e deixá-la do jeito que está.
—E porque não vieram viver aqui e permaneceram na sede? _A casa é reclusa, é nosso refúgio. Ficamos na sede porque esse é o nosso papel, ou pelo menos era. O papai disse que ninguém mais poderia vir para cá.
—Então porque trouxeram o Leo para cá.
—Porque ele também é da família. Ele também é nosso meio-irmão. O mais velho. Disse Petro.
—Eu ainda nasci primeiro. Eu sou a mais velha, disse Cassie.
—Ele é nosso irmão também, falou Gus confuso mais consigo mesmo do que com os outros. Porque não me disseram nada?
—Porque temos que tomar o maior cuidado. Leo estava infiltrado na Firma e correu riscos ao tirar Jacó de lá. Ninguém mais sabe desde grau de parentesco.
—Nem mesmo Edward?
—Não, nem mesmo ele. Pelo que sei o papai sempre fez quentão de manter seus filhos com seus poderes mágicos sob o mais completo sigilo. O único de nós que, ao que parece, é conhecido pela Firma como filho do papai é você Gus, e é por essa razão que nos o resgatamos.
—Quantos outros meio-irmãos temos, perguntou Gus com uma certa ironia.
—Nenhum mais.
—Oh novato!, disse Cassie. Que conhecer a casa?
—Sim, claro.
Os irmãos começaram a andar pela casa construída no formato semi-circular. No centro do circulo estava uma enorme sala de estar, com grandes portas de vidro que davam acesso a uma varanda a trinta metros de altura. Lá embaixo havia uma baia onde as ondas do mar quebravam suaves Era possível sentir o aroma do mar e sentir a brisa. O ambiente era muito bem iluminado, um tapete felpudo acinzentado cobria quase todo chão, os grandes sofás de couro branco foram dispostos de maneira que a pessoa que se sentasse em qualquer um deles pudesse ter a visão do lado de fora. Uma luminária também havia ali. Alguns quadros na parede davam um pouco de cor ao ambiente quase estéril, na sala havia ainda uma porta que dava acesso a uma biblioteca onde havia muitos tomos de magia e na escrivaninha havia muitas cadernetas com escritos cuja caligrafia reconheceu como de seu pai.
Ao sairem da biblioteca, Cassie mostrou a ele a cozinha bem menor, a qual ficava praticamente conjugada a sala, os armários até o teto, também todos brancos com detalhes cinza davam ao local uma sobriedade incomum. As pedras de mármore dos tampos dos armários feitos sob medida acompanhavam as paredes da cozinha em semi-circulo. Do lado Esquerdo havia uma escadaria e por baixo e atrás das paredes da sala, haviam dois corredores largos, Haviam duas suites em um corredor e outras duas no corredor do outro lado da casa.
—Deste lado ficam os quartos de Petro e Leo e do outro lado o meu e o seu Gus.
Gus correu até o outro lado, abriu a porta do seu quarto e não acreditou no que estava vendo. Um lugar grande o suficiente para duas pessoas era só seu. Uma cama grande e macia, com lençóis brancos de puro linho. Travesseiros confortáveis e um armário embutido. Na suite havia uma banheira diante da janela e as louças eram da melhor qualidade.
Os quartos dos irmãos eram todos no mesmo padrão de cor e qualidade, todos dignos dos melhores quartos de hotel que se vê em revistas. Ficou pensando como o pai pode construir e pensar em cada detalhe.
—O que há na parte superior da casa, perguntou Gus.
—O quarto do papai, respondeu Petro.
—E ele chegou a usá-lo?
—Claro que sim. Espero que você goste de viver aqui, meu irmão. Agora venha até aqui que quero mostrar-lhe algo interessante.
Por trás da cozinha havia um corredor circular que havia passado despercebido para Gus. Petro o conduziu até o fundo do corredor. Ali havia uma fonte com águas cristalinas, mas não era só uma fonte. As pedras encrustadas na parede tinham um brilho azulado e os peixes na água pareciam brilhar suavemente.
—Porque as pedras brilham, perguntou o irmão mais novo.
—Porque esta não é uma fonte comum. Esta é uma fonte de quintessência. É por essa razão que o papai escolheu este local. Além de ser um refúgio, é também um local onde podemos revitalizar nossos poderes. Bem, agora vamos dar uma olhada em Leo.
Voltaram á pequena ala hospitalar e reavaliaram o “novo” irmão. Depois que tudo estava nos seus devidos lugares, retornaram à sala e se sentaram para conversar.
Conversaram sobre vários assuntos, mas o principal era o fato de Leo ser seu irmão. Gus não entendia como o pai pode ter tido tantos filhos e tê-los mantido seguros por tanto tempo sem que ninguém soubesse deles.
Cassie que estava sentada na sala com eles tentou falar, mas foi interrompida.
—Talvez eu seja a pessoa adequada para responder as perguntas de seu irmão Cássia.
Gus não podia acreditar no que estava ouvindo. Ouviu claramente a voz do seu velho pai atrás de si. Antes de olhar para trás olhou de um irmão para o outro e só então voltou-se para o local de onde a voz veio e viu o seu pai em pé, vivo, firme e forte compartilhando o mesmo ambiente que eles.
Venham Pedro, Cássia e Gustavo dar um abraço no seu velho pai que está cheio de saudade e satisfeito por ver sua família completa como nunca antes.
Gus se levantou do sofá logo depois dos irmãos e abraçou seu velho podendo dizer novamente a palavra:
—Papai!
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