Luzata
2 O Despertar
Notas iniciais
Marcus respirava lentamente, ainda de olhos cerrados apesar de ter recobrado a consciência algum tempo atrás. Sua mente estava tão confusa, mal conseguia por ordem em seus pensamentos, naquele momento só conseguia ouvir o doce cantar dos pássaros no horizonte, o som das folhas ao vento, sentir os estranhos odores do orvalho e das plantas ao seu redor. Estranhamente sentia o calor dos raios de sol ao contato com sua pele, sentia a umidade da grama, sentia os pequenos insetos caminharem sobre seu corpo. Instintivamente levantou-se e foi então que lembrou-se de tudo, da batalha, dos ferimentos, do mercenário, da garota.
Ele passou os olhos por si mesmo inquieto tocando nas finas cicatrizes que agora preenchiam o seu corpo e mexendo lentamente sua perna, como se andasse pela primeira vez. Sua perna parecia nunca ter estado quebrada, e todos os seus ferimentos haviam sumido ou se tornado finas e imperceptíveis cicatrizes. Foi então que se lembrou da garota e virou-se bruscamente em uma tentativa de encontra-la foi quando se deparou com grandes olhos carmesins que o vigiavam intrigados. Ele enrubesceu, ela esteve observando toda essa esquisitice.
– Imaginei que nunca acordaria – Seu semblante tornou-se impenetrável novamente.
Ele ignorou a provocação e apenas olhou ao redor, encontrava-se em uma vasta circular clareira, circundada por árvores de copas densas e verdes, diferentemente do mundo dos homens que se encontrava em completo caos,esta clareira permanecia intocada, inviolada, tão obstante de toda aquela guerra.
A garota segurava uma grande folha firmemente com as duas mãos, a folha estava cheia de água e foi então que Marcus notou a tamanha sede que estava. Depois de beber todo o conteúdo da folha, saciado, olhou na direção dela e agradeceu-a.
–Gostaria de dizer que sou muito grato a tudo que fizeste por mim, mesmo sem saber ao certo como o fez, agradeço por ter salvo a minha vida – Ele queria perguntar tantas coisas, ele queria saber se ela havia sentido se havia mais alguém vivo, qualquer esperança, ele queria entender o que estava acontecendo, mas algo o fez hesitar, ele preferiu permanecer calado.
–Não me agradeça, fiz o que senti que deveria ser feito – Ela respondeu de forma sincera.
Os dois permaneceram calados depois disso. Marcus sentou-se em silêncio na clareira, ele ainda estava exausto e faminto, foi como que por telepatia a garota parecia saber de suas necessidades, porque segundos depois ela ofereceu-o estranhas ervas e a ele aceitou-as sem pensar duas vezes.
O dia passou lentamente, os dois trocaram poucas palavras o jovem ainda estava um tanto quanto atordoado com tudo que acontecera. E o ambiente estava de certa maneira tão harmônico que ele tinha medo que suas palavras fossem perturbar toda sintonia das coisas que estavam ao seu redor. O crepúsculo finalmente chegou e logo em seu encalce a lua cheia surgiu anunciando o anoitecer.
Foi só com o som de folhas secas sendo comprimidas contra o solo que a serenidade da clareira foi extinta. Alguém se aproximava e embora os instintos de Marcus lhe alertassem que havia perigo, sua salvadora mostrava-se pouco apreensiva, contudo não ameaçada, como se estivesse para receber uma visita de um velho amigo inconveniente.
–Marcus peço que permaneça em silêncio e me deixa lidar com a situação– Ela possuía um semblante sério, o jovem apenas assentiu com a cabeça assustado.
O farfalhar das folhas foi se tornando cada vez mais próximo, e mais intenso, como se o usurpador do silêncio estivesse correndo. Até que de um dos cantos da clareira um jovem surgiu rápido como um raio, e como uma forte ventania parou entre Marcus e a garota. Ele olhou Marcus com desdém e virou-se para ela.
– O que ele faz aqui Kesiah? Como ousa trazer um humano para nosso refúgio? Perdeste o juízo?
–Acalme-se Kalebh, ele não é uma ameaça, posso assegurar-te.
“Kesiah” então esse era o nome de sua misteriosa salvadora, era um nome incomum pensou Marcus, tão incomum como o nome do outro “Kalebh”, pareciam ser nomes de outras eras, nomes que talvez seus antepassados usassem. Ele então percebeu que os dois jovens eram um tanto quanto semelhantes, quase como se fossem irmãos, ambos possuíam o aspecto angelical que ele havia notado anteriormente e agora a luz do sol ele notara que possuíam cabelos brancos e o que achou mais sinistro,intensos olhos rubros.
–Como espera que eu me acalme quando você trouxe um humano para cá? Não entendo como você nunca consegue agir com prudência depois de todos esses anos.
–Irmão, eu precisei salvá-lo, você não entenderia, sequer eu consigo entender.
–Irmã, depois de tudo que nosso povo passou você não entende que não devemos interferir em assuntos humanos? Você sabe muito bem quais foram a consequências da ultima vez que interferirmos.
–Como eu poderia me esquecer.
Pela primeira vez a máscara de indiferença que encobria os sentimentos de Kesiah se dissolveu, e toda indiferença foi substituída por dor. Marcus podia sentir todo aquele sofrimento que as memórias quer que elas fossem traziam para a garota, ele não sabia como, nem porque, entretanto agora ele conseguia sentir como se fosse sua própria dor, como se uma névoa de dor houvesse preenchido o ambiente.
– Você sabe o que deve fazer. Ao entrar em contato com ele você o condenou. Humanos não devem saber sobre nós – Sibilou Kalebh.
– Você fala como Demétrius, fomos manipulados Kalebh, você precisa abrir seus olhos, esse ódio não é racional.
– Realmente você perdeu o juízo irmã, se você não o fizer eu o farei, não deixarei com que sua misericórdia por uma escória humana ameasse tudo que construímos até agora.
Em uma velocidade desumana Kalebh virou em direção a Marcus, e estendeu seu braço em direção ao coração dele como se fosse arranca-lo de seu peito. Contudo antes que o fizesse Kesiah igualmente atroz agarrou o braço do irmão imobilizando-o e o derrubou para longe de Marcus.
Com elegância de um felino Kalebh levantou-se, tinha um aparência selvagem uma mistura entre homem e animal, seus movimentos eram como os de um tigre sedento pela sua presa, Marcus estava chocado, nunca havia visto alguém se mover tão rápido, contudo Kesiah apenas permaneceu a sua frente apática como se Kalebh não representa-se ameaça alguma.
–Não ouse. Kalebh você não consegue enxergar, desde aquela época não construímos nada, estamos destruindo a ordem natural deste mundo, todos os planos que Demétrius tem são pra produzir caos, isso é contra nossa natureza. Como espectros nosso dever era garantir a ordem e o equilíbrio das forças naturais.
– E o que a vida deste humano tem haver com tudo isso? Ao deixá-lo com vida nossas identidades estão ameaçadas.
–Ele clareou-me a visão, não faço idéia ainda do que há nele o faz diferente dos outros, mas depois de lê-lo eu vejo as coisas com um pouco mais de clareza.
–Não posso dizer que eu concordo com os métodos de Demétrius irmã, mas depois de tudo que os humanos fizeram a nós, eles merecem sofrer. E se você não aspira participar dos planos de Demétrius podemos simplesmente fugir, não precisamos nos envolver mais, já fizemos nossa parte.
–Kalebh este é o problema, não sei quanto a você, mas não consigo ficar de braços cruzados, enquanto sei que milhares de vidas, não apenas humanas estão em jogo.Eu aceitarei o risco irmão de manter este humano comigo, e peço para que confie em mim. Você não percebeu? Há algo diferente acontecendo, as forças deste planeta que estavam tão desorientadas estão em harmonia ao nosso redor, tenho o pressentimento que é o prelúdio para algo.
O espectro voltou seu olhar pela primeira vez ao humano, seus olhos rubros avaliaram-no de forma ríspida de cima à baixo, percebeu que havia algo diferente emanava de Marcus, algo que certamente não era humano. Marcus sentiu-se incomodado com a forma que os dois falavam sobre ele, era como se ele nem estivesse ali, era como ele fosse apenas um objeto, ele queria se impor dizer algo , mas o medo não deixava com que as palavras fluíssem pelos seus lábios, Era mais do que claro que o nível de forças entre eles era incomparável, ele era um misero inseto nas mãos de duas panteras ferozes.
–O que fizeste com ele?
–Eu não faço idéia, é como se meus poderes tivessem me ligado a ele.
–Conexões eram comuns entre o nosso povo a tempos atrás, mas não fazia idéia de que elas poderiam ser feitas entre humanos também.
–Talvez elas não pudessem.
–Se ele está conectado a você, é uma ameaça ainda maior pois da mesma forma que ele torna-te mais vulnerável , ele se torna mais forte.
–Ele nem sabe ao menos como controlar a nossa conexão.
–Por hora.
–Sua falta de fé é perturbadora.
–Como consegue acreditar que este humano não é uma ameaça pra você, mesmo sabendo que ele poderá torna-se sua própria ruína.
–Irmão, eu nunca vou acreditar em coincidências, pressuponho que existe uma razão para que essa conexão foi permitida, há algo de especial nela.
Tanto Kalebh quanto Marcus ficaram perplexos com a convicção com que falara Kesiah, Marcus nunca se vira como alguém especial, talvez um pouco mais inteligente, mas fora a isso tão comum quanto qualquer outro. Contudo a garota se manifestava de uma forma como se estivesse completamente convencida do que dizia, para ela ele era especial, uma peça importante do que fosse estar por vir.
Ω
O vento uivava uma graciosa música inaudível ao ouvidos humanos, delicada, talvez fosse o som mais melodioso que Marcus jamais houvera escutado em toda sua vida. Eram aqueles novos pequenos detalhes em todas as coisas que o cercavam que o levaram ter uma das noites mais longas de toda sua vida, seus ouvidos e olhos viam coisas que antes o passavam desapercebidos e dessa forma processavam o mundo de uma forma completamente diferente levando com que pensamentos novos nunca parassem de ser recebidos e conseqüentemente a insônia o dominou. Arfou lentamente, e assustou-se ao perceber que estivera sendo observado todo esse tempo.
‒Ainda acordado? Sempre achei que humanos dormiam facilmente.‒ debochou Kalebh.
‒Não há porque você ser tão ríspido comigo, sabe? Não sei qual é o seu problema com a minha gente mas eu não estou envolvido nisso , seria bom que você parasse de direcionar seu ódio para mim soa tão infantil e irracional.
O espectro apenas soltou uma risada abafada, de repente Marcus sentiu uma respiração bem baixa em suas orelhas ,e então Kalebh sussurrou em seus ouvidos uma pequena ameaça.
‒Por mais que minha irmã não o veja como uma ameaça, por mais que eu também não o veja como mais do que um inseto insignificante, não pense que não posso facilmente acabar com a sua vida, porque eu não hesitaria nenhum segundo para realizar isto. Experimente me responder assim novamente.
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