Luz entre as sombras
2 II
Antes que a Sombra caísse sobre Gondolin, Nimrien já sentia o chamado do mundo além dos portões ocultos. Embora os salões da Cidade Escondida fossem belos e seguros, o espírito inquieto da jovem elfa ansiava por mais.
Ela crescera sob os céus de Nevrast, cercada pelo sussurro do mar e pelos relatos sagrados de um passado que não vivera. Mas mesmo ali, em meio à liberdade das praias e dos vales, nunca se aventurara além do que os guardas consideravam seguro. Depois, veio Gondolin, a cidade branca e perfeita, escondida entre as montanhas, onde as muralhas não apenas protegiam, mas isolavam.
. Ali, tudo lhe parecia ser belo e seguro, sim… porém monótono e, de alguma forma, insuportavelmente imutável.
E mesmo que jamais tivesse pisado em outros lugares da terra média, Nimrien sentia que algo em si clamava por mais do que a quietude dourada dos salões élficos. Havia uma inquietação antiga em seu coração, um chamado suave, porém constante, que lhe dizia que o mundo era vasto, perigoso, e que ela precisava conhecê-lo.
Queria ver com os próprios olhos as terras que tantos temiam. Queria sentir o vento do norte em seu rosto, ouvir as vozes de outras povos élficos, aprender com o mundo, e com o risco de viver fora dos muros.
Por isso, quando Aredhel, a Senhora Branca de Gondolin, anunciou sua partida para visitar os parentes em Hithlum, Nimrien não hesitou.
— Por favor, deixem-me ir com vocês. Suplicou Nimrien. Quero ver os filhos de nossa Casa que vivem no norte.
Os membros da grupo se entreolharam, hesitantes. Então, uma voz se ergueu entre eles.
Era Egalmoth, Senhor da Casa do Arco Celestial. Seu semblante era o de um guerreiro forjado tanto pela beleza quanto pela batalha. Os cabelos, negros como as noites sem lua, caíam sobre os ombros largos; e em sua túnica reluziam os símbolos prateados da sua Casa: arcos entrelaçados como constelações.
Primo de Nimrien, companheiro de longas conversas nos jardins de Gondolin, e aquele que lhe ensinara a empunhar uma lâmina e a enfrentar o mundo com coragem. Ele a fitou com intensidade.
— Nimrien... — começou, cruzando os braços sobre o peito, num gesto que ela já conhecia bem — ...as terras além de Gondolin não são jardins de paz. São domínios de ventos frios... e de sombras que crescem a cada dia.
Ela não desviou o olhar. A resposta veio firme, com o brilho obstinado dos Noldor.
— Mesmo assim, desejo ir.
Por um instante, algo nos olhos de Egalmoth vacilou... fosse uma preocupação genuína que ela não compreendia, ou algo mais profundo que ele não ousava nomear, um lamento silencioso. Mas logo recuperou a expressão de comando.
— Tens a teimosia dos que partilham meu sangue... — disse, com um leve sorriso que apenas ela percebeu. — Talvez seja chegada a hora de começares a compreender o mundo como ele é... e não apenas como o imaginas.
Então voltou-se para os demais.
— Ela irá — decretou. — Mas sob minha proteção.
Com isso, não houve mais discussão.
A viagem seguiu sob céus cinzentos. Cortaram vales, florestas e encostas geladas. Nimrien, mesmo entre o cansaço e o frio, absorvia cada detalhe: o brilho das estrelas sem as barreiras das muralhas, o aroma da terra molhada e as histórias que Egalmoth lhe contava à beira das fogueiras.
— Muito antes da escuridão cair sobre Valinor, antes mesmo dos Silmarils serem forjados, nossos ancestrais já cruzavam essas trilhas — disse ele, a voz baixa como se falasse mais para as estrelas do que para ela, enquanto apontava para as montanhas que cortavam o céu. — O sangue que corre em nossas veias nasceu da luz verdadeira... e também sobreviveu ao gelo, à traição, à perda. Lembra-te disso, há força nas nossas raízes, mesmo quando o mundo tenta arrancá-las.
Às vezes, nas longas noites ao redor do fogo, os olhos de Egalmoth a buscavam com uma frequência que ia além do zelo de um primo ou de um comandante. Mas se havia algo mais naquela atenção constante, ele o escondia sob a máscara da responsabilidade.
Nimrien, por sua vez, não parecia dar-se conta... ou talvez apenas fingisse. De quando em quando, seus olhares escapavam discretos na direção de outro membro da comitiva: Glorfindel, cujos cabelos dourados refletiam a luz da fogueira como se guardassem os raios de Laurelin.
Egalmoth notava... ainda que nunca dissesse palavra alguma.
Assim, cada um guardava seus próprios silêncios.
X X X
Pouco antes de cruzarem as terras de Dorthonion, quando os ventos frios ainda traziam o cheiro das montanhas de Hithlum, Aredhel deteve sua montaria no alto de uma colina enevoada.
Por um instante, permaneceu em silêncio, os olhos perdidos na direção leste, como se buscasse algo invisível ao olhar dos demais.
Então, com uma voz carregada de antiga saudade... e de uma teimosia que muitos conheciam bem, ela declarou:
— Não. Não mais Hithlum. — As palavras cortaram o ar como lâminas finas. — Iremos ver os filhos de Fëanor.
Os elfos da escolta trocaram olhares tensos. Nenhum deles ousou contestar a vontade da irmã de Turgon. Havia, em sua decisão, um peso que todos reconheceram.
E assim, sob ordem dela, mudaram a rota.
Seguiram então para o leste, cortando florestas densas e colinas envoltas em névoa. Mas a estrada não tardou a revelar seus perigos.
Em dado momento, enquanto avançavam por uma trilha estreita à margem de um bosque retorcido, Aredhel, inquieta como sempre fora, avançou à frente, cavalgando com pressa... e, em pouco tempo, sumiu de vista da comitiva.
— Aredhel! — chamou Glorfindel, esporeando sua montaria. Mas o som de cascos dela já se perdiam na distância.
Egalmoth franziu o cenho, os olhos buscando entre as sombras.
— Ela não deve ter ido longe… — disse, mas sua voz já carregava preocupação.
Por horas, os elfos vasculharam os arredores. Nimrien, apesar de menos experiente em rastrear, seguiu ao lado de Egalmoth, determinada a ajudar, mesmo com o peso ainda recente de sua primeira viagem após anos sem sair dos limites das muralhas..
Ao atravessarem os limites de Nan Dungortheb, a paisagem tornou-se um presságio em si. Árvores mortas estendiam galhos como dedos retorcidos, a névoa era densa e sufocante, e o próprio ar parecia carregado de veneno.
Foi ali que o horror se revelou.
Sem aviso, das sombras espessas entre os troncos e das teias negras como o próprio vazio, surgiram as criaturas cruéis de Ungoliant. Sombrias, terríveis, de olhos vermelhos como brasas e corpos de aranha distorcidos por uma malícia primitiva.
Desceram como uma praga, silenciosas e implacáveis, tecendo armadilhas ao redor dos elfos que agora lutavam pela própria sobrevivência.
Os gritos se perderam no ar opaco. O clangor de aço contra membros retorcidos ecoou por entre as árvores.
— Formação! bradou Egalmoth, sacando sua espada.
Nimrien, com o arco em mãos, disparava flechas com toda a precisão que o medo e a adrenalina permitiam… mas era jovem, e os monstros eram muitos.
Em meio ao caos, uma das criaturas lançou-se sobre ela com fúria. Antes que pudesse recuar, sentiu o rasgo quente de uma garra atravessar-lhe a lateral do corpo.
A dor foi súbita, lancinante… e o mundo girou.
— Nimrien! — bradou Egalmoth, a voz rompendo a escuridão como uma espada.
Com fúria que desafiava o cansaço, ele avançou sobre a criatura, cortando-a com um golpe limpo e mortal. Agachou-se ao lado dela, os braços firmes envolvendo-a com cuidado, o olhar duro e ao mesmo tempo tomado por um temor que ele jamais confessaria.
— Fique comigo… — murmurou, enquanto a arrastava para longe das garras de outro monstro que já avançava.
Por três dias e três noites, o pequeno grupo lutou, fugiu e lutou novamente. Quando conseguiam montar, cavalgavam com pressa, e Nimrien seguia inconsciente nos braços firmes de Egalmoth, protegida. Descansavam apenas em breves intervalos, escondidos sob raízes antigas ou entre pedras partidas, mas mesmo então, Egalmoth, não soltava Nimrien.
Quando finalmente escaparam das fronteiras amaldiçoadas de Nan Dungortheb, estavam exaustos, cobertos de sangue… e sem Aredhel.
Ela já havia seguido, sozinha, rumo ao destino que a aguardava nas florestas de Nan Elmoth.
X X X
Dias depois, já em segurança nos muros da Cidade Oculta, ela observava a noite estrelada, sozinha no jardim suspenso, imersa em sua dor e frustração.
— Por que não consegui proteger a mim mesma e também aos outros? Murmurou, apertando os punhos.
A dor física diminuía aos poucos, mas a ferida em seu orgulho ardia como se ainda estivesse aberta. Recusava-se a ser lembrada como um fardo. A imagem das garras da criatura se aproximando, e a sensação de impotência, a perseguiam mesmo nos breves momentos de descanso. Assim, mesmo com os membros ainda pesados, começou a treinar em segredo. Às vezes no pátio das fontes, outras vezes no alto das muralhas ou nos terraços silenciosos. Cada flecha lançada no escuro era uma promessa de superação e um juramento mudo de que jamais voltaria a cair indefesa diante da sombra.
Foi então que Glorfindel, durante suas patrulhas noturnas, a viu pela primeira vez naquele estado de obstinação. A princípio, apenas notou a figura solitária movendo-se sob a luz pálida da lua. Mas com o passar das semanas, começou a observar os detalhes: o modo como ela corrigia seus próprios movimentos após cada erro, a forma como mordeu os lábios ao errar um alvo, o olhar de fúria e determinação estampado em seu rosto cada vez que tropeçava ou vacilava.
Ela não estava ali para aprender. Ela estava se aperfeiçoando. Lapidando-se como pedra bruta, como alguém que não aceitava a lembrança da queda. Ela já conhecia a técnica, mas buscava algo além da forma: buscava domínio, controle... redenção.
Glorfindel conhecia bem aquele tipo de batalha.
Nos meses seguintes, ele continuou a observá-la de longe. Havia algo nela que o intrigava. Não era apenas o fato de ela ser jovem ou promissora. Havia nela uma luz crua, não polida, mas intensa. Ela lhe lembrava os jovens guerreiros de tempos antigos, mas também algo mais profundo. A recusa em se curvar, o desejo de ser mais do que esperavam dela. Um reflexo, talvez, daquilo que ele próprio carregava no íntimo.
Um dia, enquanto conversava com Egalmoth à sombra de uma oliveira no pátio superior, seu olhar se desviou, quase involuntariamente, ao vê-la atravessando o campo de treino com o arco nas mãos.
— Ela é teimosa... — comentou Egalmoth, seguindo o olhar do amigo. — Mais do que qualquer outro que eu já tenha visto. Havia um tom de orgulho velado em sua voz, misturado a uma preocupação persistente.
Glorfindel sorriu de canto, sem tirar os olhos dela.
— Teimosia... — murmurou, quase para si mesmo. — Às vezes, é disso que a luz precisa para não se apagar.
Naquela noite, enquanto Nimrien mais uma vez treinava sozinha, ele finalmente se aproximou. O som de suas botas foi discreto, mas deliberado. Ela ouviu os passos atrás de si, girou rapidamente, com a flecha já engatada, os olhos faiscando em alerta.
— Calma. — disse ele, erguendo uma das mãos, num gesto de paz. — Não sou teu inimigo.
A vergonha tingiu as faces dela, mas ela se recompôs depressa.
— Senhor Glorfindel... — disse ela, abaixando o arco. — Não esperava...
— Que eu te visse? — ele completou com suavidade, mas havia um brilho discreto de humor em seus olhos. — Eu vejo você há meses, Nimrien.
Ela abriu a boca para responder, mas não encontrou palavras.
— Por que insiste em treinar sozinha? — ele perguntou, com a voz baixa, como quem conversa com alguém diante de uma ferida aberta.
Nimrien respirou fundo, tentando manter a compostura.
— Porque não quero falhar outra vez. Nem comigo... nem com os outros.. — respondeu.
Glorfindel permaneceu em silêncio por um momento, como se pesasse as palavras dela com cuidado.
— Uma razão nobre... — disse por fim. — Mas a coragem precisa de direção, e a força precisa de propósito. Sozinha, tudo isso pode se transformar em teimosia cega… e até autodestruição.
Ele avançou mais um passo, ficando a apenas alguns metros dela.
— Permita-me treiná-la. — disse com uma firmeza serena, mas que carregava uma decisão já tomada. — Não para que lute como os outros... mas para que encontre sua própria forma de lutar.
Nimrien hesitou. O convite era inesperado, a oportunidade imensa, mas também aterrorizante. Aceitar era admitir sua própria vulnerabilidade, sua necessidade. Era abrir-se àquele que observara seus tropeços na escuridão. Mas ela viu, no fundo do olhar dele, não pena, mas algo mais raro: respeito. E ali, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que não estava sozinha. Que havia alguém que via não só suas falhas, mas sua força interior.
— Aceito. — disse ela, com voz firme.
Glorfindel assentiu, e por um breve instante, um sorriso discreto iluminou seus traços.
— Amanhã ao nascer do sol. No campo leste. Não se atrase.
E foi assim que começou. Não como um conto de mestre e discípula apenas, mas como o início de uma ligação profunda, que ganharia raízes com o tempo, em cada golpe trocado, em cada queda e em cada vitória. Um vínculo que nem mesmo o destino ousaria quebrar facilmente.
Assim, no silêncio das manhãs douradas de Gondolin, começou um vínculo forjado na disciplina, na confiança, na dor e no silêncio partilhado. Um fio sutil, dourado e prateado, que o tempo, os treinos e a guerra trançariam com firmeza, até torná-lo inquebrável.
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