Luz e Trevas
11 Capítulo 10
Notas iniciais
–Porque quer ir embora, princesa?
–Estou entediada, essa casa pode ser gigantesca, mas não tem nada para uma jovem de 19 anos, como eu, fazer!
–É claro que tem!
–Tipo o que, pai?
–Olhe a sua volta, você tem essa biblioteca gigantesca para explorar, um jardim enorme la fora, você pode fazer o que quiser!
–Eu não quero ler, não quero passear no quintal, eu quero a minha casa!
Samuel encarou a sua filha, a menina que estava ali na sua frente fazendo birra igual a uma criancinha que não ganhou o presente que queria no natal, aquilo o fez sorrir, sua filha raramente deixava que as pessoas vissem seu lado infantil.
–Filha entenda, agora eu não posso te levar, sua mãe fica monstruosamente irritada quando eu faço algo contra a vontade dela ou sem seu consentimento, ir agora, enquanto ela esta fora ira a deixar irritada, então filha, por favor, aguente até ela chegar!
–Mas pai...
–Sem “mas”, pode tratar de desemburrar e ir fazer alguma coisa, antes que sua avó apareça por aqui e veja que eu estou te dando uma bronca!
Dianna saiu da biblioteca saiu da sala pisando dura e chateada ela sentou-se no ultimo degrau da escada.
–Mas que merda!
Dianna encarava um ponto fixo na parede até que tudo ao seu redor começou a girar rapidamente, quando sua visão estabilizou e nada mais se movia, de alguma forma ela estava na mesma casa, no mesmo lugar, mas havia alguma coisa diferente, o ar daquele lugar parecia mais leve, a casa finalmente parecia ser um lar. Dianna olhou para o topo da escada e la viu uma garota de uns dezenove anos descendo as escadas correndo, em sua mão ela segurava um colar com um pingente que possuía a forma de um coração alado feito em ouro branco, um pouco atras da adolescente, descia uma garota de aparência mais nova, na faixa dos dezessete anos, ela estava vermelha de raiva.
–Ágatha volte aqui, me devolva, esse colar é meu!
Assim que a mais velha desceu o ultimo degrau a mais nova tropeçou e saiu rolando escada a baixo, como em um reflexo a menina protegeu a cabeça e assim que seu corpo parou de rolar ela se levantou e saiu correndo novamente atras da mais velha. Ághata ria a plenos pulmões enquanto corria, Yara mau havia virado no corredor quando escorregou e bateu com tudo o joelho no chão, frustrada ela começou a chorar, o que atraiu a atenção de sua mãe, que apareceu no corredor por uma porta que levaria a cozinha.
–Filha o que aconteceu com você? Porque esta chorando?
–A Ágatha mãe, ela pegou o colar que eu ganhei e não quer me devolver!
Karen ajudou sua filha a se levantar e suspirou, suas filhas pareciam crianças, já em pé a mulher se dirigiu para os fundos da casa com sua caçula lhe seguindo quietamente. Assim que pôs seus pés no quintar a matriarca viu sua filha mais velha no balanço perto do lago, a mulher fechou os olhos e respirou fundo, ela se encaminhou até a filha mais velha, pôs as mãos na cintura e encarou a filha seriamente.
–Ágatha, você já não é mais criança para pegar as coisas da sua irma e simplesmente fugir, então devolva o colar da sua irma!
–Mãe, esse colar é delicado demais para a cavala da Yara, ela vai perder ou quebrar esse colar em uma semana!
–Mesmo assim Ágatha Lê Fey, isso não lhe da o direito de rouba-lo da sua irmã, devolva-o agora!
Mesmo a contra gosto Ágatha devolve o colar e saiu correndo para o seu quarto onde se trancou e em plena fúria começou a jogar tudo nas paredes. Yara apenas suspira ao lado da mãe, feliz por ter seu colar de volta.
–Obrigado mãe!
–De nada filha, só tome mais cuidado e não desgrude mais deste colar!
–Sim senhora!
Karen acariciou o rosto da filha e começou a ir em direção da cozinha, quando uma empregada apareceu na porta toda agoniada.
–Senhora Karen...
–Já sei, a Ágatha destruindo o quarto, eu conheço minhas filhas Sarah, não se preocupe, logo ela se cansa de quebrar tudo e se acalma!
Karen suspirou profundamente, nos últimos anos sua filha mais velha se tornara mais mimada e quando não conseguia o que queria reagia daquela forma, destruindo tudo ao seu alcance.
Mesmo não podendo ser vista, se é que ela era visível, Dianna se aproximou da Yara e realmente deveria concordar com a avó, as duas eram parecidas demais.
–Porque eu me pareço tanto com você?
Dianna tocou levemente o rosto da outra garota e nesse momento tudo a sua volta novamente voltou a rodar e la estava ela no mesmo lugar, sentada no final da escada encarando o nada, pelo menos era o que achava, ate que este nada começou a tomar o rosto de sua irmã mais nova.
–Katrina?
–Não, sou Maria Madalena, é claro que sou eu, quem mais poderia ser?
Dianna levou a mão ao coração, seu pulso acelerada no susto de ver o rosto da irmã.
–Não começa Katrina!
–No que você tanto pensava enquanto olhava o nada? Por acaso era no Dylan? Em Dianna? Me conta!
–Não é da sua conta Katrina, largue mão de ser intrometida, mas para que saiba, eu nunca, jamais, em nenhum momento da minha perderia meu tempo pensando neste traste!
–Vamos lá Dianna, me conta!
–Katrinha, vá caçar o que fazer e me deixa em paz!
Dianna se levantou bruscamente, fazendo com que sua irmã, que estava agachada, acabasse caindo de bunda no chão. A ruiva deixa a irma la caída e volta para o seu quarto, trancando-se la dentro ela deita-se em sua cama e antes de adormecer um pesamento cruza sua mente.
“Porque somos tao parecidas?”
Dianna estava toda esparramada na cama quando acordara assustada, seu pai esmurrava sua porta e este fora o motivo de seu susto.
–Dianna abra logo esta porta, estou preocupado com você filha!
Lentamente a ruiva se espreguiçou, coçou o olho e no meio de um bocejo foi em direção a porta afim de abri-la para seu pai.
–Pra que tanto estardalhaço, pai?
Samuel encarou a filha claramente aliviado.
–Porque não abriu esta porta logo? Pensei que você estivesse desmaiada ai dentro!
–Não seja exagerado pai, eu só não escutei o senhor batendo na porta!
Samuel suspirou e Dianna apenas deu mais um bocejo.
–Então, vamos?
–Pra onde?
Dianna encarava o pai confusa, sua mente ainda não estava funcionando direito e assim não conseguia acompanhar o raciocínio do pai.
–Para casa, filha, não era isso que você queria?
–Claro, só preciso pegar minha mochila e arrumar umas coisinhas aqui!
–Certo, quando você terminar vá me procurar, provavelmente estarei na biblioteca!
–Sim senhor!
Dianna mau havia fechado a porta e já estava correndo de um lado para o outro no quarto, arrumando toda a bagunça que fizera ali, arrumou a escrivaninha, a penteadeira e o armário, ao colocar um livro no lugar um estranho caderno de capa de couro branco caiu, na capa não havia o nome do dono ou qualquer outra informação, ele possuía um tipo de tranca em outro branco e sua chave possuía o formato de um coração, ele parecia ser escrito a mão, porem não se dava para ler nada, só se dava para ver borrões de tinta pela frente da parte lateral. Sendo curiosa como era Dianna acabou enfiando aquele caderno em sua mochila junto ao diário que encontrara mais cedo.
Dianna olhou a sua volta para verificar se deixara qualquer coisa fora de seu devido lugar, sorriu ao constar que nada estava fora do lugar e assim o deixara com a porta fechada, ela caminhava tranquilamente até chegar no topo da escada, ao final desta estava seu pai, mas ele parecia ter o olhar perdido.
–Pai? Podemos ir? Eu já estou pronta!
Como se sua voz o tivesse o trazido novamente para a realidade ele a encarou de forma encabulada, envergonhado de algo.
–Sim princesa, já podemos ir!
Samuel saiu em direção a porta de entrada, Dianna o seguia quando olhou para trás e viu sua avó parada no meio do corredor.
–Até mais vovó!
–Até mais querida!
Dianna sorriu docemente, ela sentia que aquela senhora era sim era sua família de verdade, afinal aquela senhora que ela conhecera em tao pouco tempo se preocupou mais e a tratou melhor que os seus pais fizeram em sua vida inteira. Dianna entrou no carro e durante toda a viagem ficou pensando o que faria quando chegasse em sua casa, ao ver sua casa se aproximando a felicidade de poder voltar a sua velha rotina, para se liberar da tensão que viajar dentro de um carro lhe causava ela se espreguiçou calmamente.
–Até mais pai, avise quando decidir voltar para casa!
–Está bem!
Samuel percebeu que fora grosso com a garota e lhe magoara com sua forma fria de falar, mas não se importou, queria voltar logo para sua família, sua verdadeira família. Apesar de amar aquela casa, ela não lhe trazia tanto aconchego quanto a casa de sua avó, agora fora perceber o quanto aquela era fria, desprovida de sentimentos, mas ainda era seu lar, lugar onde crescera.
A garota logo subira para o seu quarto e ao ver seu quarto da mesma forma em que deixara suspirou aliviada, sua mochila ela jogou de qualquer jeito em um canto qualquer e aproveitou para se jogar na sua cama. Mesmo sem sono Dianna fazia de tudo para adormecer, mas por mais que tentasse o sono não vinha e ela não podia entrar no mundo dos sonhos, frustrada ela resolve se entreter com algo, uma boa leitura deveria, mexendo na sua bolsa ela pegou o diário e se pôs a ler.
“Droga, acabei de perceber que perdi meu caderno de desenho, provavelmente foi no dia que cometi a loucura de desbravar o lado negro, infelizmente esse caderno é precioso demais para mim, la desenho tudo que significa muito para mim, tudo o que mais amo registro la na forma de desenhos, claro que minha mãe não sabe da existência desse caderno e nem poderia saber, ela arrancaria meu coro e queimaria o caderno, e se eu contar para alguém que perdi esse bendito caderno no outro lado tenho até medo do que poderia acontecer comigo.
Enfim eu criei coragem e fui atras do meu caderno, eu novamente quebrei as regras, estava novamente naquele lugar, desta vez com um objetivo, e este era encontrar meu caderno e sair de la o mais rápido possível.
Estava chovendo de novo, eu não sei, mas acho que alguém no céu não gosta de mim, afinal em dias normais já não tenho um bom senso de direção em dias de chuva então, nem se fala, e la estava eu perdida novamente em um lugar em que eu nem deveria estar, algo ou alguém anda conspirando contra mim, entre trancos e barrancos, literalmente, perdi a conta de quantas vezes cai naquela terra molhada, me sujei inteira e previa mais uma bronca daquela vinda da minha mãe. E o no meio de tantos tombos eu acho que me ralei e cortei algumas partes do meu corpo. Acabei perdendo a noção do tempo ali, afinal naquele lugar sempre esta de noite, nunca a um feixe de luz, ou qualquer coisa que indique a passagem de tempo.
Algum tempo depois eu me cansei de andar, minhas pernas doíam, meu corpo estava coberto de barro e machucados, não percebi, mas eu acabei chorando, eu não deveria ter entrado la novamente, tudo por causa de um maldito caderno.
Foi quando ele apareceu, como um príncipe das trevas, alguém que poderia ceifar minha vida se quisesse, foi tao sorrateiro e silencioso que não havia percebido sua presença, quando o percebi ali, ele já se sentara ao meu lado.
–Novamente perdida princesa?
Eu não tenho muita certeza, mas acho que corei com suas palavras, aquela voz baixa e rouca, quase como o ronronar de uma fera prestes a dar o bote, algo entre o gracioso e feroz e ainda por cima me chamando de princesa, coisa que só meu pai faz, não tinha como eu não corar e aquele cara tinha realmente algo que mexia comigo por dentro.
–Mais ou menos!
–Então esta procurando algo!
O encarei assustada, mas depois olhei para os meus joelhos, novamente ele conseguiu me encabular.
–Si-Sim e-eu estou procurando algo, mas como você sabe?
Eu o observava de canto de olhos e ele sorriu de canto com uma sobrancelha levantada.
–Porque eu encontrei isso aqui caído por ai!
Ele trazia em sua mão um caderno de desenho, eu acabei engolindo em seco.
–O meu caderno, você encontrou!
Ele sorriu de verdade e me entregou o caderno, mas assim que minhas mãos tocaram nele um pequeno embrulho apareceu em cima, lentamente eu levantei meus olhos para encara-lo e sorri verdadeiramente, pela primeira vez na vida eu consegui deixar alguém constrangido, ele ficou vermelho e desviou o olhar, por alguma estranha razão eu fiquei feliz com o efeito que meu sorriso causou nele, não aguentei e acabei rindo e ele se voltou, nervoso.
–Porque esta rindo?
–Porque é engraçado ver você corando!
–Eu não vejo graça nenhuma nisso!
–Certo, eu paro, mas o que é isso?
–Um presente para uma princesa!
Eu não queria sorrir, por isso acabei mordendo o canto do meu lábio inferior e percebi que ele ficou olhando, era tao engraçado ver as reações dele, mas ainda não sabia seu nome e não poderia ficar criando apelidos para poder ficar chamando-o em pensamentos.
–Mas uma princesa não deveria aceitar presentes de estranhos, não acha?
–Você esta certa pequena, então deixe que eu me apresente, sou Thomas Amom e como se chama a minha pequena princesa?
–Yara Lê Fey!
–Um belo nome para uma linda princesa!
–Você é bem galanteador, não?
–Só um pouco!
Thomas era divertido, seu sorriso era encantador e perto dele eu me sentia tao bem, o sorriso dele me derretia por dentro.
–Pena que a princesa aqui não possa ficar mais, tenho que voltar para casa!
Eu realmente sentia muito por não poder ficar perto dele, eu gostava de sua presença, mas algo em seu jeito galanteador me dizia que eu não deveria confiar muito, afinal me apegar a um tipo desse não me traria boas coisas e esse sentimento de perda ao deixa-lo não me faria nada bem.
–Então deixe que eu lhe guie até o portão, linda princesa!
–Pare de me chamar de princesa, eu não gosto disso!
–Esta bem, eu paro, mas para mim você continuara a ser uma princesa, uma princesa linda e desastrada!
Certo, o cara podia ser lindo, boa pinta, me derreter por dentro e eu já devia ter ficado irritada com ele antes, porem agora eu realmente deixei minha raiva me levar, minha paciência tinha limite e eu explodi.
–Tudo bem que você me ajudou nas duas vezes em que entrei aqui, mas isso não lhe da o direito ou a intimidade suficiente para me chamar de princesa, ou de linda, ou de desastrada, por mais que eu seja, você não tem esse direito!
O caminho inteiro percorremos calados, eu podia sentir que ele queria falar algo, mas eu não lhe dei brechas, estava irritada demais para mais galanteios ou insultos escondidos em meio a elogios. Passei pelo portal sem olhar para trás, se eu soubesse o quanto eu me arrependeria de não ter olhado mais uma vez para aqueles lindos olhos eu não teria ido sem nem ao menos me despedir apropriadamente.
Quando entrei em casa dei de cara com a minha mãe e la ela me deu outro sermão por chegar suja e machucada, novamente fiquei de castigo, mas desta vez não possuía um caderno de desenho para desabafar enquanto desenhava, porem fui rápida o suficiente para esconder a caixinha que eu ganhei.
Fui direto para o banho, meus machucados se curaram imediatamente, mas ao me olhar no espelho eu vi aquele olhos verdes que me derretiam, porem em minha mente eu pude ouvi-lo me chamar de desastrada, minha raiva me invadiu e por causa dela eu soquei o espelho com toda a minha força, sem medir as consequências. Vendo meu sangue pingando no chão apenas bufei e a enrolei de qualquer jeito com um esparadrapo, me joguei em minha cama e peguei a caixinha, fiquei a observando por um tempo, eu não queria um presente daquele tipo, mas ao mesmo tempo eu queria, eu achei que estava ficando louca.
–Mas que ódio!
Eu não o odiava de verdade, mas também não conseguia entender o que de fato sentia e isso me frustrava, assim eu acabei jogando tudo em cima do coitado. Receosa sobre o que eu poderia encontrar no pacote eu o abri, fiquei alguns segundos sem folego, dentro daquela pequena caixa havia uma linda gargantilha, seu pingente era de ouro branco e sua forma era a de um coração alado. Sorri, ele realmente sabia presentear uma garota e aquele presente seria o meu tesouro, tesouro que eu não deixaria que a minha irma tirasse de mim, ela poderia me tirar tudo, como sempre faz, mas não este, esta gargantilha vai ser o único e mais valioso tesouro que eu tenho.
Finalmente o sono chegara, Dianna por fim interrompe sua leitura para poder finalmente dormir, dormiria com um sorriso nos lábios, estava feliz, poderia não saber o porque daquela chama em seu coração se acender e lhe dar um sensação tao boa, mas ainda assim estava feliz e ninguém poderia impedi-la de se sentir assim.
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