Luz do Luar

14 No Café V


A sobremesa foi capaz de satisfazer a Youko.

"Delicioso" elogiou enquanto finalizava alegremente seu café e sua torta de maçã sem deixar nenhuma sobra.

Fui até sua mesa para limpar.

"Tudo estava ao seu gosto?" Minha pergunta fez Youko lançar-me um olhar descontente.

"Está me dizendo para ir embora?"

"Vejo que você entende rápido."

"Eu realmente gostei deste café." Ela sorriu como se fosse começar a cantarolar a qualquer momento.

"Ah, obrigado por dizer isso. Mas não esqueça de que há vários cafés diferentes pelo mundo. Você deveria experimentá-los também."

"Eu REALMENTE gostei deste café." repetiu Youko exatamente com o mesmo sorriso e com as mesmas palavras.

"Vejo que às vezes você não entende tão rápido." repeti maioria de minhas palavras também.

Youko levantou-se de repente e avançou em direção ao interior da loja, aparentemente na direção da cozinha. Quando eu, por curiosidade, a segui, ela estava naturalmente cumprimentando o pessoal e sorrindo como uma flor desabrochando.

"Prazer em conhecê-los."

Estava na cara que sua rosada saudação aturdiu o pessoal. Aparentemente todos estavam um pouco excitados com relação a ela. Bem, exceto a Suenaga, que permanecia indiferente.

"Eu sou Youko, uma colega de classe do Nonomiya." Ela se apresentou com boas maneiras.

"Ah, sim, o Nonomiya nos contou." respondeu o gerente respeitosamente, mesmo sendo bem mais velho que ela.

"Tenho que dizer que este pequeno café é adorável."

"Muito obrigado!"

O gerente corou de leve, comovido pelo seu sorriso radiante.

"Eu tenho tanta inveja de vocês..."

O pessoal olhou para ela surpreso. Uma garota, a quem parecia não existir nada que pudesse invejar, estava com inveja deles.

"Pois vocês têm o privilégio de trabalhar em um café maravilhoso como esse."

Youko parecia simplesmente deslumbrante, radiante naquele entardecer. Talvez fosse apenas por causa da luz de fundo do pôr do sol, mas naquele exato momento todos estavam fascinados por sua aura excepcional.

"Eu não consigo nem ao menos imaginar quão prazeroso deve ser trabalhar num lugar tão formidável."

Sendo a pessoa naquela sala que tinha mais resistência a ela, sorri ironicamente para aquela atitude de estrela. Além disso passou também pela minha cabeça que ela foi longe demais com aquele exagero exorbitante.

Contudo, as próximas palavras do gerente apagaram o sorriso dos meus lábios:

"Hum, Youko, você estava querendo dizer que..."

"Sim?"

"Você gostaria de trabalhar aqui?"

"Senhor Kousuke..."

Eu não podia ficar calado. Eu precisava preveni-lo de cometer um grande erro. Johnny, você está barganhando com Mephisto!

Porém, alguém segurou meu ombro e me puxou de volta. O cheiro de chocolate pairava no ar.

"Apenas assista." disse Suenaga com um sorriso maligno. Aqui estava outro demônio.

"Err, na verdade, nós temos uma vaga no momento. E já que você é colega do Nonomiya, não temos que nos preocupar com sua procedência. Então, se você quiser, será um prazer admiti-la, Youko."

Os outros funcionários também acenaram com suas cabeças em sinal de acordo. Foi exatamente como hipnose em grupo. Eles provavelmente foram mesmerizados pelo demônio e perderam suas mentes.

"Eu estou realmente muito feliz pela sua oferta, mas... Eu seria de alguma serventia? Para falar a verdade, e nunca trabalhei em lugar nenhum antes." respondeu Youko hesitantemente.

"Não, não, não se preocupe! Todo o mundo tem que começar em algum lugar. Além disso, eu estou confiante de que você, alguém com uma educação extraordinária, é perfeita para esse tipo de negócio!"

É claro que a sua aceitação entre os clientes seria fora de série! Eles conseguiriam ver apenas seu lado superficial, afinal de contas.

"Eu, com muito prazer, aceitarei sua oferta, já que tem tanta confiança assim em mim." respondeu Youko com um sorriso brilhante.

Todos a cumprimentaram calorosamente sorrindo também. Fui o único que fez uma cara azeda ao mesmo tempo que me sentia terrivelmente excluído do grupinho de boas vindas.

Pois eu sabia melhor do que ninguém.

Sabia que havia uma personalidade ousada e determinada escondida por trás de sua aparência, que mostrava apenas uma bela garota com seu excelente caráter, e que, desse modo, era amada por todos.

Para piorar as coisas, a brilhante Youko estava bem ciente de sua própria atratividade. E só agora eu compreendera que ela também sabia como usar isso corretamente.

"Por que os homens são tão fracos se tratando de garotas bonitas?" sussurrou Suenaga ao meu ouvido depois de me puxar pelo ombro, com o balcão entre nós.

"Boa pergunta. Afinal de contas, os caras desse café também são todos uns “fracos” contra você." respondi casualmente.

"Quando é você que elogia, parece que tem algo errado. Mas não é uma coisa ruim, deixe-me acariciar a sua cabeça como recompensa."

A mão da Suenaga aproximou-se da minha cabeça, mas recusei melancolicamente.

"Não estou com humor para isso. Por favor, não me constranja ainda mais."

"Não precisa ser tão fechado! Se quiser, posso até lhe dar um pedaço de chocolate, quer?"

"Está tudo bem para você? Você não é contra a contratação da Youko?"

"Você queria que eu me opusesse, não é?"

"Bem, apenas sua oposição seria capaz de acabar com esse clima de acolhida."

"Não há por que se incomodar. Não existem razões para me opor."

"Por quê?" Eu estava surpreso de que Suenaga permitiria tal farsa.

"Porque é divertido pra cacete ver você protestar abertamente quando normalmente age de maneira tão fria!"

Suenaga gargalhou.

"Está ciente de quão cruel sua personalidade é?"

"Você é pior que eu, certo? Se minha intuição não me falha, Youko não é do tipo de mulher que um cara fraco como você conseguiria lidar."

"Isso não me aborrece. Não estou planejando fazer nada com ela."

"Você pensa assim, mas e quanto a ela?"

Suenaga apertou seus olhos e examinou profundamente meu rosto a uma curta distância.

"Para sua informação, não adianta me socar."

"Certo, certo. Estou ansiosa pelos próximos dias."

Sem se importar com minha forte recusa, Suenaga acenou com a mão e voltou para a cozinha.

Parecia que era só uma questão de tempo até ela descobrir sobre nossa relação."... Seria intuição feminina?"

Disse a mim mesmo que deveria me certificar de que Youko não diria coisas desnecessárias a Suenaga.

"Eu trabalho aqui agora."

A garota em questão, Youko, aproximou-se alegremente de mim a despeito de todas as dores de cabeça que ela estava me causando.

"Ainda não é tarde. Não quer reconsiderar?" Minha resposta foi fria, mas meu coração estava ainda mais frio.

"Obrigada por se preocupar comigo, mas já que o gerente foi tão gentil a ponto de me oferecer um cargo, eu darei o meu melhor!"

Ela graciosamente cerrou seu punho, repleta de confiança.

"Não estou preocupado. Estou incomodado."

"Estou ansiosa para trabalhar com você, colega." O sorriso de Youko não se desfizera uma vez sequer.

Suenaga havia mencionado que eu não era alguém capaz de lidar com ela. Eu me encontrava bem em curso de experimentar o quão correta ela estava.

Na manhã seguinte na sala de aula.

Subitamente Youko veio até a minha mesa, com um sorriso terno como os raios de sol que brilham através das folhas das árvores, e, com uma voz suave como uma gentil brisa de verão, disse a Chizuru:

"Eu estou empregada no café para o qual o Nonomiya trabalha."

O tempo parou na sala de aula barulhenta. Ao menos Chizuru parou, como um relógio cuja bateria acabou.

"Hein? Youko? Você trabalha junto com o Nonomiya? Por quê? Hã?"

Sua perplexidade fazia com que ela parecesse com um daqueles cucos que pulam de hora em hora naqueles relógios. Era como um déjà-vu de ontem.

"O gerente da loja me pediu para ajudá-los, pois estavam com pouco pessoal. Eu fiquei um pouco apreensiva. Bem, eu nunca trabalhei em lugar algum antes. Mas o gerente assegurou-me de que eu ficaria bem." explicou Youko com muita naturalidade.

"Confesse! Foi você quem fez ele dizer isso."

Fui eu quem, naturalmente, cuspi aquelas palavras em um volume que ninguém conseguiria ouvir.

"Talvez eu devesse me juntar a vocês..."

"Não ignore seu clube. Você deve fazer seu melhor e se tornar uma titular." Eu era capaz de prever o rumo que essa conversa iria tomar, então pus logo um fim nela.

"Por que você não passa por lá nesse final de semana, Chizuru? Talvez eu não seja capaz de lhe fazer companhia, já que ainda há muitas coisas que tenho de aprender, mas ainda há o Nonomiya. Certo, Nonomiya?"

Olhei furiosamente para seu rosto sorridente por um milésimo de segundo. Ela inclinou sua cabeça de leve, perguntando “Hm?” e mantendo seu inquebrável sorriso.

"Sim, você é sempre bem-vinda ao nosso café, Chizuru."

Jurei a mim mesmo que reclamaria com Youko depois.

"Está bem! Eu irei! Eu definitivamente irei!"

Chizuru alegrou-se imensamente, com seus olhos brilhando. Sua atitude sincera fez boa parte do meu mau humor sumir.

Mas ainda havia um sério problema. Jugando pelos olhares dos meus colegas, era óbvio que eles invadiriam o café nesse fim de semana. E desta vez parecia que seria bem difícil impedi-los.

"Escute pessoal! O Nonomiya irá nos dar algumas explicações!"

Genji veio bater no meu ombro com um sorriso repugnantemente gentil. Atrás dele estava de pé um grupo de rapazes com o mesmo sorriso repugnante no rosto. Eram os rapazes da aliança e eles clamavam justiça daquele que roubara o seu propósito. Aquilo era doentio.

"Eu certamente reclamarei com a Youko." jurei determinadamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.