Luz Negra I - Oculta

3 Capítulo 3 - As rosas de Roseburg


O trajeto da nova casa até o Pasta Di Angelo não era nada longo, ficava à apenas 3 quadras. Isso era uma vantagem para mim já que era meu restaurante favorito. Porém, quando chegamos lá havia algo bem diferente no lugar do restaurante. O muro de tijolinhos aparentes não havia mudado, porém no lugar da placa de "Bon Apettit" estava um letreiro com vários sabores de bolos. Olhando pela janela, pudemos ver que o interior também já não era o mesmo. Estava claro que seja o que fora que aconteceu, aconteceu muito rápido e sumiu com o meu amado restaurante.
–- Tem certeza de que esse é o lugar?- Perguntou Andy --Eu devo ter errado o caminho.
–- Tenho certeza, eu venho aqui a anos. Nós já viemos, lembra? Tenho certeza de que é aqui. Algo aconteceu.
Um sino soou com a abertura da porta do restaurante, o que nos fez olhar por reflexo. Estava passando pela porta um homem, nos milésimos de segundo que se passaram desde o soar do sino, ele olhou pra mim, deu um leve sorriso e desviou o rosto.
–- Aqui está. Bolo de nozes. — Ele disse, colocando um prato á frente da criança que estava com os pais em uma das mesinhas na calçada. Aproximou-se dela e disse- Tomei a liberdade de colocar sorvete e calda quente, acho que você vai gostar.
O sorriso da menina contagiaria qualquer um. Não posso negar que o dele também despertaria algumas atenções.
–- Ei, cara. Você trabalha aqui?-- perguntou o Andrew.
–- Sou o dono e chef daqui.
Ele respondeu olhando pra mim, quando na verdade a pergunta fora de Andy. Qualquer um diria que foi uma frase um tanto arrogante, mas Andrew não dava a mínima pra essas coisas, o que parecia lhe encomodar era o olhar daquele recém chegado. O cara deveria ter seus 20 e poucos anos. Homens sempre ficam intimidados com homens mais velhos.
–- O Pasta Di Angelo era aqui, não era?- Perguntei, desviando o olhar.
–- Sim, era. Porém, não existe mais. Eu o comprei. — Em seguida apontou para o letreiro onde estava escrito "Laura's".
–- Andy! Mel! Ei!- Era Luna com seus cabelos pretos e curtos, que vinha saltitando como um grilo em nossa direção. O nome real dela é Gabrielle, porém gostava de ser chamada de Luna. Ela tinha um estilo tão hippie, muito mais hippie do que minha mãe. Fiquei imaginando o que tia Amanda diria quando a visse. Ao seu lado estava Daniel. Apesar de já ter causado muitas confusões, ele é um cara inteligente e de família importante em nossa pequena cidade de Roseburg que fica no Oregon e é famosa por suas belas rosas, que enfeitam grande parte da cidade. Daniel era largo e forte, mais forte do que Andrew. Ambos eram do time de futebol americano do colégio. "Estrelas nas quais devemos manter nossa atenção", dissera o jornal local, em uma reportagem.
–- Rodamos o quarteirão e nada desse Pasta Di Angelo.-- era Daniel.
–- Não existe mais, ele foi vendido. -- eu respondi enquanto Luna franzia o cenho. -- O...- Eu ia dizer que aquele cara havia comprado, porém percebi que no meio disso tudo ainda não haviamos perguntado seu nome.
–- Enzo. Enzo Portocallo.
–- Isso é Grego?- Perguntou Andy, com tom de zombaria.
–- Esse lugar tem uma energia muito forte.-- disse Luna, algo no tom dela não me agradou, mas estávamos acostumados a esses seus comentários místicos.
–- Espero que isso seja bom.- respondeu Enzo, ignorando Andy completamente. O sorriso dele era diferente, ele parecia sorrir apenas com o olhar, o que lhe causava pequenas rugas no canto dos olhos. -- Por que não entram?
–- É, vamos. Eu estou com fome, estávamos procurando aquele maldito restaurante á uns 20 minutos! -- disse Daniel, seguindo Enzo para dentro da confeitaria.
–- Qual é Daniel, essa deve ser sua nona refeição de hoje!- Brincou Andy, seguindo-os.
Naquele dia, apesar de o sol brilhar forte, era outono e o clima era ameno. Eu estava usando um vestido azul e cardigã preto. Enquanto eu seguia para a porta, Luna puxou minha manga.
–- Você sentiu a aura desse lugar?
–- Você sabe que eu não sinto essas coisas Luna.
–- Sinto uma aura negra aqui. As pedras não mentem!-- ela disse, segurando o pingente de seu colar, era uma pedra de turmalina negra. Ela me dera um ha muitos anos atrás. -- Você está com o seu colar?
–- Estou mãe...- Eu disse em falso tom de desdém e logo entramos na confeitaria onde Daniel e Andy nos aguardavam já á mesa.
–- Poxa, vocês já estão comendo! Mas que falta de educação.
–- Dá um desconto Luna, esse bolo é bom demais. Conseguiu ser melhor do que o do chef lá de casa.
–- Você e esse seu chef. Fala tão mal dele, mas é só ele avisar que vai fazer algo gostoso que você me abandona num piscar.
–- Para com isso Pequena, agora você vai ter ciúmes de comida?!
Todos começamos a rir.

Daniel e Luna começaram a namorar quando eu e Andrew os apresentamos, poucos meses após nós começarmos o nosso namoro. Era muito bom que nossos melhores amigos se amassem tanto, eles três, Abby e o Vovô eram minha verdadeira família. O vovô... a ultima vez que o vi fora no enterro de minha mãe, ele estava tão infeliz. Perdemos a vovó apenas um ano antes. Após a morte de minha mãe a um ano atrás eu e Abby ficamos aos cuidados de nossa vizinha Deborah que era a melhor amiga de minha mãe. Ela era uma mulher muito bondosa, nunca tivera filhos. Seu grande amor eram os gatos. Eu teria ficado morando com ela para sempre, era como uma segunda mãe. Mas então, meu pai e tia Amanda chegaram reinvidicando minha guarda e a de Abby.

Enquanto comíamos e conversávamos, em nenhum momento vi aquele homem novamente. Enzo parecia ter desaparecido da confeitaria. Afinal, que diferença faria pra mim onde ele estava? Pensei. Eu nem o conheço. Enquanto eu pensava, Andy, Daniel e Luna terminavam de comer. Decidi ir ao caixa pagar nossa conta, antes que meus pensamentos me deprimissem. Porém, para minha surpresa, enquanto lia nossa conta a garota disse:
–-Hmm, não precisa pagar senhora, é por conta da casa.- Ela parecia tão surpresa quanto eu.
–- Por conta da casa? Deve haver algum engano, nossa conta deu 36 Dólares.- eu disse, estendendo uma nota de 50 para ela quando de repente uma mão erguendo uma pequena caixinha decorada passou por cima de minha cabeça e deixou a caixa estendida á frente de meu rosto. Quando me virei em direção ao dono daquele braço, dei de cara com Enzo.
–- É por conta da casa, aos novos fregueses.- ele disse, com aquele olhar apaziguador.
–- Muito obrigada, mas não é necessário.
–- Eu faço questão.- ele disse. Havia algo em sua voz que, apesar de leve, indicava uma ordem. — E, pegue. Acabei de fazer pra você.- ele me disse erguendo a caixinha em minha frente novamente. Eu juntei as mãos e ele a deixou ali.
Eu sabia que deveria dizer algo, mas meu cérebro não conseguia mentalizar uma frase descente, mas ao invés disso, mordi o lábio. Era o que eu fazia sempre que não sabia o que dizer, ou quando estava pensando em algo. Eu não queria dizer nada que me fizesse parecer boba, apesar de minha expressão facial não estar ajudando.
–- Nós agradecemos muito. — disse Andy, pegando a caixa de minhas mãos. Eu estivera tão distraída com o momento, que nem se quer notei sua aproximação. -- Vamos Any, está começando a chover. -- Andy falava comigo, mas seus olhos fuzilaram Enzo, que prosseguia sem mudar a expressão.

As primeiras gotas não denúnciaram a tempestade que veio a seguir. Após nos despedirmos de Luna e Daniel, eu e Andy corremos para o seu carro que estava a poucos metros da confeitaria. Chovia forte quando entramos no carro. Andy estava a ponto de jogar a caixinha para o banco de trás, quando eu a peguei de suas mãos.
–- Ei, isso é meu! Cuidado.
–- Ah, então quer dizer que você estava dando bola pra aquele padeiro.
–- Ele é um confeiteiro, e não, eu não estava. Eu só quero saber o que há dentro.
Era uma caixa pequena, coberta com uma estampa de rosas e fechada com uma fita vermelha. Dentro dela havia um cup cake decorado com uma linda rosa por cima.
–- Nossa.
Foi o máximo que eu consegui dizer. Toda molhada, com os cabelos dessarrumados e pingando, continuei olhando para aquele pequeno bolo. O que ele queria dizer? Mas enquanto eu pensava, Andy pegou o bolo da caixa e em uma fração de segundo arrancou metade dele com uma mordida.
–- Pronto, vamos pra casa.
–- Eu não acredito que você fez isso!- eu disse, rindo. -- Você está com ciumes de comidas, igual a Luna? Onde vocês pegaram essa doença heim?! Me fale onde foi, pra eu não ir lá.
–- Ainda tem metade, você quer?- ele disse zombeiro, enquanto ligava o carro para irmos pra casa.
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Notas finais
Obrigada a todos que lerem.