Luz Negra I - Oculta
13 Capítulo 13 - A Rede
Luna, Maggie e eu nos despedimos de Andrew e Daniel. A rotina escolar dos jogadores era diferente dos demais alunos; todas as segundas-feiras eles se aqueciam e corriam envolta da quadra dezenas de vezes.
–- Não sei como eles aguentam, sério. — eu disse, enquanto entravamos na sala. – Logo de manhã, ouvir o treinador gritando daquela forma e ter de correr sem parar como baratas tontas...
–- Como você quer que eles mantenham aquele corpo que nós tanto adoramos? Isso requer trabalho, querida. – Maggie disse.
Quando entramos na sala, todos me encararam. As notícias corriam rápidas em Roseburg, a mais nova fofoca deveria ser sobre como o pai ausente retornara a cidade. -- Maggie, por que não vai passear? Você é uma nuvem negra ambulante. Não irrite meus chakras logo de manhã. – Luna sempre era direta quando o assunto era Maggie.
–- Veja lá como você me trata heim. Seremos da mesma família, se meu priminho não arranjar outra antes.
–- Olha aqui, sua... — Luna estava prestes a dizer coisas que Maggie merecia ouvir, mas foi interrompida com a chegada de seu pai. Sim, o professor de história Sr. John Mavis, é pai de Luna.
–- Que comportamento hostil é esse Gabrielle?- Ele chamou Luna por seu nome verdadeiro. – Logo no primeiro dia de aula, vamos acalmar os ânimos, sim?- Mavis colocou as mãos nos ombros de Luna e fechou os olhos. Ela também fechou os seus, eles respiraram fundo e ambos pareceram meditar juntos por alguns segundos.
A família de Luna era exatamente como ela, entre eles não haviam conflitos e todos falavam muito baixo. Mas, apesar do temperamento zen de seu pai, ele nunca a tratava diferente no colégio e até já havia lhe dado algumas advertências. Sua mãe, Sarah, dava aulas extracurriculares de Ioga no colégio e em sua casa.
–- Tudo bem. — o Sr. Mavis bateu palmas e mandou que todos se sentassem. – Como todos já devem saber, me chamo John, mas a escola impõe que vocês me chamem de Sr. Mavis, e eles acham que hoje nos deveríamos ter uma provinha de revisão. – Algumas pessoas fizeram sons de discordância e outras seguiram em silêncio olhando pra ele. – Mas, eu faço as minhas regras e dentro de sala todos podem me chamar de John, e o John aprendeu desde criança a não falar com estranhos. Então, nada de prova. Hoje vou conhecer vocês. – Todos ficaram satisfeitos e alguns garotos bateram palmas e assoviaram. – Só uma coisa. Eu não gosto de algazarras. Não precisam ser defuntos não, ok? Mas nada de gritar, correr ou morder o coleguinha! – todos riram, não era novidade. O Sr Mavis sempre era o professor favorito de todos. – Vocês estão achando que é brincadeira?! Terceiro ano é quando todo mundo pira!
A aula seguiu com as apresentações de cada aluno. Deveríamos dizer nossos nomes, idade e coisas favoritas.
–- Mellany, já nos conhecemos de longa data, não é?
–- Sim, você já leu até minha mão. — Todos riram, mas era verdade. Ele lera minha mão, Sarah tirou meu tarô e tudo mais em uma das vezes que dormi na casa de Luna. – Bom, eu me chamo Mellany. Tenho 17 anos, gosto de púrpura, lírios e Elvis Presley.
–- Elvis? Sério?- um garoto chamado Bernardo, rechonchudo e cheio de espinhas me interrompeu. – Ainda existem fãs de Elvis?
–- Sim, ainda existem pessoas com bom gosto. – Sério que ele estava tentando caçoar de mim com o Elvis? Hoje em dia, se você não é fã de algum cantor que começou na Disney, as pessoas te consideram um Alien. – E quero ser arquiteta.
Uma arquiteta que não gosta de cálculos. Ok, talvez eles estejam certos. Eu sou uma Alien.··.
Nossa segunda aula era Artes, minha favorita. As terceira e quarta aulas eram de física, meu pesadelo particular. Era estranho ir do “céu” ao “inferno” em 50 minutos. Tanto a matéria quanto a pessoa que a lecionava eram desagradáveis. O sentimento da Sra. Dalle era recíproco e ela fazia questão de deixar isso exposto á quem quisesse ver. Logo de cara mudou-me de lugar. Deixou-me sentada bem á frente de sua mesa. Ironicamente, Maggie era sua aluna favorita.
–- Isso é um amor mascarado de ódio. Não deixamos quem odiamos por perto. – Luna disse. Fazendo-me rir enquanto seguíamos rumo á quarta aula.
–- Ah, claro. A senhora Dalle tem um super amor lésbico secreto por mim. Isso explica tudo que me fez desde o primeiro ano. – Aquele pensamento me fez tremer.
–- Urrrrgh, agora imaginei ela pegando nas suas mãos com aquelas mãos enrugadas. – Luna e eu fizemos sinal de ânsias. – Para, por favor daqui a pouco temos que almoçar!
–- Depois vocês falam do Andrew e do Daniel, eles podem parecer bobos, mas vocês que são. É, é vocês que são. – Era Albert, ele era um garoto magro e tinha problemas mentais. Mas, por ser filho do treinador, estava no time junto de Andy e Daniel. – Como vai minha Luazinha?
Albert era fissurado em Luna e a perseguia desde o ensino fundamental. De vez em quando Daniel pensava em reagir a isso, mas graças aos problemas de Albert, Luna o empedia.
–- Bem. Esperando o Daniel para irmos almoçar no prédio um. — Luna sorriu, ela tentava não ser grossa ou magoar Albert, mas seu recado estava dado. Daniel estava a caminho e Albert deveria pegar seu barquinho e partir.
–- Também vou almoçar. Ele já deveria ter chego, por que não vamos? Por que não vamos indo?
Luna olhou-me com olhar perplexo de descrença. Cada dia que se passava, Albert se tornava mais ousado. Foi então que Daniel chegou, passando o braço ao redor de Luna.
Nos despedimos de Albert e seguiamos rumo ao prédio um.
Enquanto caminhávamos, Luna desabafou.
–- Eu juro que não sei mais como reagir ao Albert.
–- Nem eu, um dia ainda perco a paciência. – Daniel falou, sério.
–- O que não pode acontecer é isso. Se você fizer qualquer coisa contra o Albert, o errado será você. Pelo menos é assim que vão pensar...- Eu disse, e era verdade.
Foi então que meu celular tocou. Era Rick.
–- Mellany? – Ele perguntou.
Pude ouvir várias vozes de fundo. Provavelmente ele estava em uma reunião.
–- Oi, pode falar pai.
–- Sinto muito filha,vou ficar preso no trabalho. Será que seu namorado pode te levar pra casa dessa vez?
Sinto muito? Eu não sentia nem um pouco.
–- Claro, sem problemas.
–- Ah, ele teria de buscar Abgail também. Vocês conseguem chegar a tempo?
–- Do jeito que Andrew corre, vamos chegar antes do portão abrir.
–- O que?
–- Nada. Chegaremos lá em tempo. Não se preocupe.
–- Espero chegar em tempo para o jantar, mas não precisam me esperar.
–- Ok.
–- Te amo filha.
–- Hmm... Até. – eu disse, antes de desligar.
Eu poderia até chama-lo de pai. Mas, dizer que o amava era um passo bem maior.
–- Mel, até quando você vai tratar seu pai assim? – Daniel perguntou.
– Não é tão simples. – me esquivei. — Onde está o Andy?
–- Esqueci de avisar. Ele passou mal, por causa do treinamento. Aquele branquelo não tem o sangue forte que nem o negão aqui! – Daniel riu.
–- Como assim? Como ele está?- perguntei, com urgência.
–- Calma, foi só um enjoo. O sol veio e você sabe como o treinador Carter é. Ele não aguentou correr debaixo daquele sol. – Daniel explicou.
–- Ele deve estar na enfermaria. – Luna disse – Por que não vai lá ver ele? Vamos guardar uma mesa e esperamos vocês pra comer.
–- Fale só por você. – Daniel brincou. Apesar de poder estar falando sério.
A enfermaria ficava no prédio central, onde também estava a sala dos professores e a quadra de esportes coberta. Eu não poderia estar ali, pois alunos não podem entrar na enfermaria sem terem sido chamados ou estarem acompanhados de algum funcionário.
–- Com licença. – chamei a jovem secretaria que estava no começo do corredor. Ela desviou brevemente seu olhar para mim, então voltou a encarar o monitor de seu computador. – Estou procurando meu... Hmm... Meu amigo. Ele passou mal no treino hoje.
–- Ah, sei. Ele está no quarto, repousando.
–- Posso vê-lo? – perguntei. Ela me encarou por alguns instantes. Nós sabíamos que isso quebraria as regras. – Por favor. Eu juro que saio super rápido. Ninguém irá me ver, qualquer coisa eu digo que entrei escondida.
Ela parou para pensar um pouco.
–- Ai menina... Você vai me causar problemas. Ok, cinco minutos e então irei atrás de você!
–- Obrigada!
Fui pelo corredor direto á única porta entreaberta.
–- Andy?- empurrei a porta.
–- Any! Que bom ver você. Tô aqui há mais de 3 horas! Achei que ia mofar aqui, se o tédio não me matasse antes. – Andy reclamou. Ele estava suado e ainda com o uniforme de treinamento do time. Apesar de parecer animado a me ver, o olhar abatido entregava seu estado.
–- Você está péssimo Andy! Vai ver é porque você não me ouviu e continua comendo mal.
–- Eu como muito bem. Só proteínas. – ele retrucou.
–- Tão bem que quase morre.
–- Não seja exagerada. — Ele me olhou cético.
–- Ok, eu exagerei, mas essas coisas não são brincadeira.
–- Seja como for, perdi o treino de hoje. Que droga! – ele cruzou os braços.
–- E você ainda se preocupa com o treino? Aquele treinador Carter está abusando de vocês.
–- Não está nada. Ele só cumpre o papel dele que é de extrair o máximo de nós. – Andrew defendeu.
–- Ah é, e você ainda defende ele! Não sei o que estou fazendo aqui então.
–- Não. Fica... Tô com saudade. – ele me lançou seu olhar de “ursinho de pelúcia que faz barulhinho irritante.”.
–- Tenho que ir de qualquer forma, ou a secretária lá do corredor vem atrás de mim. Antes de ir... Meu pai perguntou agora pouco se você poderia levar a mim e Abby para casa.
–- Sinto muito amor, meu pai vai me levar pra casa daqui a pouco.
–- Tudo bem, isso é bom. É melhor você descansar em casa.
–- Não. Olha, eu posso voltar e pegar vocês na hora da saída. – Andy estava tentando ser gentil, como sempre, e se colocando em segundo lugar.
–- Não, sério. Eu posso ir com qualquer pessoa, caronas estão cheias por aqui! Vai pra casa e descansa. – Andrew sorriu e pegou minha mão. — Eu me inscrevi na aula de culinária, vou sair daqui umas 15:00 horas. Assim que chegar em casa, vou ligar pra ver como você está.
Me despedi de Andrew e voltei para a cantina. Lá, Daniel já havia comido e seguido direto para sua aula. Luna me esperava sentada sozinha á mesa. Quando me aproximei, ela estava séria.
–- Você sabe quem eu vi? – Ela me perguntou, ainda olhando para mesa.
–- Quem? – Perguntei, antes de me sentar de frente á ela com minha bandeja. Dei uma mordida em meu sanduíche.
–- Você sabe quem é o novo professor de culinária? – ela levantou o rosto.
–- A Dona Cecília. Lembro dos brownies dela, espero que ela me dê a receita. – Respondi, de boca cheia.
–- Não. Contrataram uma nova pessoa. O Enzo.
Engoli o pão a seco.
Fale com o autor