Luz Negra I - Oculta
10 Capítulo 10 - Confie Em Mim
Caminhei lentamente até a cama, eu não sentia mais minhas pernas.
–- Mãe?- eu disse entre lágrimas. Seus olhos permaneciam fechados e ela não esboçou nenhuma intenção de se mover. Estiquei a mão em sua direção, quando a ponta de meus dedos a tocaram, o corpo de minha mãe se desfez em uma névoa que se dissipou rápidamente. O volúme que antes seu corpo fizera debaixo das cobertas brancas, dera lugar ao vazio. Minhas pernas cederam e caí de joelhos ao lado da cama. --Por que?!- gritei. Então, levei minhas mãos aos olhos. Eu não conseguia mais, não conseguia mais aguentar. -- Por que estão fazendo isso comigo?!- solucei.
Um barulho na porta me fez engatinhar até um canto do quarto. Abracei meus joelhos, enquanto observava a maçaneta ser forçada.
–- Sai daqui! Saaai!– gritei o mais forte que pude. Abaixei a cabeça e coloquei as mãos nos nos ouvidos. Eles haviam conseguido, eu estava destruida fisico e mentalmente.
Continuei naquela posição, enquanto o barulho da porta sendo forçada pelo lado de fora preenchia o vazio do quarto. Até que uma voz chamou pelo meu nome.
"Mellany."
Não levantei a cabeça, nem abri os olhos. Eles estavam brincando comigo, queriam ver minha dor. Aquilo tudo, era como um jogo.
"Confie em mim."
Reconheci aquela voz, era Enzo. Seria apenas mais uma ilusão?
"Vai ficar tudo bem." — ele aproximou-se de mim- "Me dê sua mão."
Prossegui de olhos fechados, sem fazer qualquer movimento. Então, Enzo abaixou-se e gentilmente pegou minha mão. Ele aproximou sua boca de meu ouvido.
"Eu preciso que você não tenha medo." — ele sussurrou.
–- Não consigo.- murmurei.
–- Vou proteger você, eu prometo.– Enzo me abraçou, e então abri meus olhos. Porém, quem vi não fora Enzo e sim Andrew. Eu estava novamente em meu quarto.
–- Mel! Que bom que você acordou!- ele disse, abraçando-me mais forte. — O que você estava sonhando?
–- Eu...não sei.- Algo em mim, me advertia de que não deveria contar o sonho.
–- Seus gritos acordaram todos os pacientes do corredor.- Andrew disse com forte tom de preocupação. — Até as enfermeiras vieram ver o que você tinha, mas você não acordava de forma alguma!
Foi então que olhei envolta. Além de Andrew, haviam duas enfermeiras ao lado de minha cama, encarando-me. Uma delas era Georgia. Ela parecia bastante preocupada, enquanto a outra olhava-me com o mesmo olhar de tia Amanda, isso significa que estava me achando uma insana.
–- Eu...- tentei falar, estava muito embaraçada -Sinto muito por ter dado trabalho á vocês. Realmente, eu estava só tendo um pesadelo.
–- Hum!– resmungou a enfermeira, enquanto deixava o quarto.
–- Nossa, você me assustou de verdade!- exclamou Georgia — Mas, que bom que foi só um sonho, não é? — ela sorriu.
–- Você realmente não lembra nadinha do sonho Any?- Andrew parecia curioso.
–- Não.- Apesar de não costumar mentir, sempre o fiz com maestria. Minha mãe sempre disse que eu deveria ser estudada, pois era realmente difícil perceber quando eu não lhe dizia a verdade.
–- Que pena. Você ficou gritando "Sai daqui! Saaaaai!!!"- Andrew disse, enquanto imitava as prováveis expressões que eu fizera durante o pesadelo.
–- Eu falei algo relacionado a minha...- enquanto formulava a pergunta, olhei para o relógio. Eram 3:10 da manhã. — Esse relógio está funcionando?
Aquela era a mesma hora em que eu havia acordado em meu sonho. O que isso queria dizer? Eu estava ocupada demais tentando não parecer tão chocada com a experiência anterior, que não tinha cabeça para pensar nisso naquele momento.
–- Está.- Andy olhou para o relógio em seu pulso- Bom, a menos que o meu também tenha parado. — ele parou para bocejar- Eles estão iguais.
–- Você deve estar cansado. Vá dormir, vou ficar assistindo a TV.
–- Não vai dormir mais? — Andrew perguntou enquanto coçava os olhos.- Você não deve ter descansado. Sabe, por causa do seu sonho.
–- Nessa noite eu faço de tudo, menos dormir.
–- De tudo, tudo? — Andrew riu sonolento. — Opa, melhor não tocar nesse assunto, só dá problema.- ele segiu rumo ao sofá, tirou os tênis e se aconchegou nas almofadas.
–- Isso mesmo, agora vá dormir!- esbocei um sorriso.
Minha cama ficava bem em direção á porta e olhar para aquele corredor me causava arrepios na espinha. Não consegui deixar de lado a sensação de que a qualquer momento iria aparecer um Carregador vindo em minha direção. Saí de minha cama, como uma criança de 5 anos e corri até o sofá onde Andy estava. Coloquei sua cabeça em meu colo e segui o resto da madrugada olhando para a TV.
Passei a maior parte do tempo rodando pelos canais, numa tentativa falha de desviar meus pensamentos daquele terrivel pesadelo. Eu não acreditava MESMO em fantasmas, nem nada do tipo. Então, o que estava acontecendo comigo? O que seria aquela coisa que anda assombrando minha vida? Uma das coisas que mais me intrigavam, era o fato de Enzo ter aparecido em meu pesadelo. Por que esse estranho tinha se tornado um membro tão constante em meus pensamentos? Eram perguntas demais, perguntas que somente uma pessoa poderia responder. Decidi simplesmente seguir a linha de pensamento de Luna, de que eu estava simplesmente abalada e Enzo fora um homem gentil comigo, por isso aparecera em meu sonho como um "salvador". Tudo fazia muito sentido. Eu só precisava encontrar uma forma de não deixar-me abalar tão facilmente.
Por volta das 08:00 hrs o doutor, que agora eu descobrira se chamar Augusto Deck, apareceu em meu quarto para dar o último check up. Após receitar-me alguns medicamentos para a dor de cabeça que eu teria ocasionalmente graças a batida, Augusto nos informou de que eu poderia ir para casa.
–- Graças a Deus!- Não pude deixar de expressar a imensidão de meu alívio.
–- Nossa, eu não sabia que você odiava hospitais tanto assim!
-- Só estou cansada de ficar nessa cama.- expliquei.
Andrew por já ter dezoito anos, fora quem assinou os papéis de minha alta.
–- Você está estranha.- Andrew disse, enquanto dirigia. — Quer que eu pergunte ao seu pai se você pode passar o resto da semana lá em casa?
–- Ah, claro. Você acha que ele vai te abraçar e dizer "Claro! Por que você não dorme aqui?!". Fala sério, Andy!
–- Não está mais aqui quem falou.- ele parecia realmente magoado.- Só achei que não custava tentar.
–- Desculpa. — eu tinha que parar de descontar as coisas em Andrew. — Eu realmente não estou bem, mas você é compassivo demais, isso faz as pessoas descontarem tudo em você.
–- Ah, agora eu ser "bonzinho demais" é o problema? Eu não entendo você, sério mesmo!
Andy estava certo. Ultimamente, ele era quem estava tendo de aguentar meu mau humor.
-- Estou cansada de me desculpar com as pessoas. Parece que quanto mais peço desculpas, mais magoo você.- eu disse, enquanto encarava a estrada que passava rapidamente por nós.
Andrew ficou em silêncio por algum tempo, porém quando paramos em um sinal vermelho, ele disse.
-- Eu não queria dizer isso, pois sei que você está passando por muitas coisas, mas nada vai se resolver se você continuar sentindo tanta pena de si mesma Mellany.- Eu nunca antes havia visto Andrew tão sério. No começo, posso ter me magoado, mas depois eu entendi. Andrew estava tentando me dar um choque, para ver se eu saía de vez daquele luto.- Eu estou aqui.- ele prosseguiu- Eu, Abby, Luna e até o Daniel. Estamos sentindo sua falta. Entendemos sua dor, mas está mais do que na hora de voltar, você não acha?
Andrew lançou-me um olhar de súplica. Antes eu não havia percebido o quanto as pessoas que me amavam estavam sofrendo comigo, agora eu conseguia. Soltei-me do cinto de segurança e estendi meu corpo em direção a Andrew. Nos abraçamos, até que as buzinas começassem e percebessemos que estávamos atrapalhando o trânsito. Segui para casa, ao lado de Andrew, com uma sensação de espectativa. As aulas iriam começar em breve e eu voltaria a ter uma rotina, veria meus amigos e tudo seria quase como era antigamente. Eu precisava voltar a ser a Mellany de antes, se não por mim, eu o faria por eles.
Assim que chegamos em casa, encontrei um bilhete de tia Amanda.
"Eu e Abgail fomos procurar um colégio para ela. Se estiverem com fome, podem cozinhar."
–- Ela nos permitiu que cozinhássemos, quanta gentileza!- ironizei, largando o bilhete na bancada e seguindo em direção ao sofá, onde Andy estava. — Eu preciso de um banho, pra tirar esse cheiro de hospital.
–- Cheiro de hospital?- Andre riu.- Só você mesma!
–- Hmm.. Será que você pode ficar na porta? Sabe, enquanto eu tomo banho. -
Andrew ergueu as sobrancelhas. Eu obviamente não poderia lhe explicar o por que, mas comecei a levar a sério o que tia Deborah me dissera a respeito de ficar sozinha. Fora que, ter Andy por perto sempre me fizera sentir mais segura. — Eu posso deixar a porta do banheiro aberta e você fica no meu quarto vendo TV.
–- Por mim, tudo bem.
Andrew me seguiu e permaneceu no quarto até que eu terminasse.
–- Pronto. Está com fome?- eu não estava nem um pouco, na verdade, minha única vontade era ir atrás de tia Deborah- Estou sem cabeça para cozinhar, mas posso ver algo rápido pr você. — eu disse, me aproximando da cama. Andrew não me respondeu. — Amor?- Ele permaneceu calado, por alguns segundos, tive medo de que estivesse morto. — Andrew!
–- O que?! — ele despertou, dando um salto. — O que aconteceu?
-- Ah! Que bom, você estava dormindo?
-- Tentando, pelo menos.- ele bocejou. — Mas, agora que você me acordou, estou sentindo meu estômago roncar.
-- Vou cozinhar algo pra você. Tem lasanhas congeladas no freezer.
-- Você e suas comidas congeladas...- Andy riu — Eu sei fazer um prato ótimo.
-- Qual?- sentei-me na cama ao seu lado. Não duvidava que ele realmente poderia cozinhar, ele já me provara sua capacidade diversas vezes.
-- Pelo que eu vi da sua geladeira, o máximo que sai dalí é um sanduiche!
-- E quando é que você xeretou na minha geladeira?!- quando o assunto era dormir e comer, Andy não perdia tempo!
-- Isso é segredo meu!- ele riu- Se você estiver se sentindo bem, podemos ir ao mercado. Posso fazer minha famosa lasanha, que NÃO será congelada.- ele disse, presunçoso.
-- Famosa, é? Quer dizer então que o sr tem feito ela para muitas pessoas... Hmmm..
-- É, tô pensando em convidar a Georgia. — ele riu.
-- A enfermeira? É, bem que eu ví você lançando uns olhares pra ela! — me fingi de emburrada.
Andrew me abraçou e me puxou em direção á cama.
-- Olhei nada, Princesa é só você!
De repente, haviamos nos tornado novamente aquele casal de adolescentes que brincavam, riam e amavam-se há anos. E não me refiro somente a idade, não. Quem é que nunca viu um casal de idosos que mais pareciam um casal de adolescentes? Isso se chama amor.
Fale com o autor