Luz Negra I - Oculta

19 Capítulo 19 - Os Gatos


O último sinal tocou. Todos se levantaram e deixaram a sala rapidamente. Enquanto guardava minhas coisas, ouvi um barulho vindo de dentro de minha bolsa. Procurando um pouco, enfim a encontrei. Uma única chave presa a vários chaveiros pequenos. Aquela era a chave de minha antiga casa, nosso velho portão de madeira era preso por um esquema simples. Era somente necessário um empurrão para cima e ele abriria-se. Coisas de casa velha. Eu havia a esquecido alí, não tocava naquela chave desde que me mudara. De início, imaginei se aquilo era um sinal, ou se era só meu desejo interior pregando-me peças que me fizessem criar coragem de fazer o que eu devia fazer.·.

Ao invés de dirigir-me para a aula de culinária, onde eu sabia que Enzo estaria, desviei o caminho rumo á secretaria. Como de costume, dei de cara com a Sra. Campos.
–- Bom dia, meu bem. – ela disse, sorridente. – Faz tempo que não vem me visitar! Como estão sendo as aulas?
–- Tudo ótimo. – respondi. – Bem... Eu preciso de um favor. – eu disse, com um sorriso sem graça. – É que como a Sra. sabe, amanhã é minha festa e eu preciso sair mais cedo para fazer a prova do vestido.
–- Mas agora não seria sua aula extra?
–- Sim, por isso vim pedir pra Sra. me liberar. – respondi, olhando para o relógio. Minha aula com Enzo naquele dia duraria 50 minutos. Era o tempo de eu ir até a casa antiga e voltar a tempo de sair naturalmente do colégio sem meu pai descobrir.
–- E seu pai sabe disso? – ela perguntou-me, desconfiada.
–- Ah, sim! – respondi, depressa demais. Fazendo ela, aparentemente, perceber que havia algo por trás de meu pedido.
–- Tudo bem. Mas olhe lá, não vá se meter em problemas. – ela lançou-me um olhar maroto.
Acenei contente com a cabeça e dei um sorriso. Após um breve aceno, me despedi dela e fui ao encontro de Luna.

Luna estava na aula de ioga, com sua mãe Sarah. Enquanto limpavam os colchonetes, ambas me viram através da porta de vidro. Acenei e sinalizei que precisaria falar com Luna. Com olhar desconfiado ela falou algo com a mãe, que concordou e então ela veio á meu encontro.
–- Alguma novidade? – ela me disse, baixo. Enquanto fechava a porta atrás de si.
–- Nada, ainda. Estou indo lá agora.
–- Lá? Na casa dele? – ela perguntou-me, chocada.
–- Minha casa, Luna! Aquela casa é minha.
–- Ele comprou a casa! – ela disse, mais alto. Então voltou a sussurrar. — Isso é invasão de domicílio, você sabia?!
–- Lógico que não. Não sabemos se ele já mora lá. Nem há quanto tempo comprou a casa. Talvez não tenha entrado mais de uma vez. – expliquei. – Preciso de um favor seu.
–- Meu carro? – ela disse, unindo as sobrancelhas.
O carro de Luna era um conversível antigo, azul bebê e era como um membro de sua família. Era o xodó dela.
–- Vou ter cuidado, prometo. É rápido, voltarei logo.
Com um ar de derrota, Luna suspirou e voltou para dentro da sala. Então, voltou com as chaves.
–- Muito cuidado. – ela disse, colocando-as em minha mão. — As vezes, ele falha e você vai ter que empurrar um pouco. É raro, mas se ele parar de funcionar é só deixar ligado por uns tempos que ele volta. – ela deu-me instruções como se ele fosse um filho recém-nascido. Assenti apressadamente.

Enquanto dirigia rumo á casa antiga, meus pensamentos estavam a mil. Aquilo era uma loucura. Loucura total! Luna estava certa, eu não poderia entrar naquela casa e remexer as coisas dele. Ou poderia? Ele merecia um pouco do próprio remédio e eu não era uma pessoa má. Não faria nada contra ele. Só estava em busca de respostas.
A estrada vazia, cercada de árvores que formavam um arco por cima da estrada não me permitiu ver muito bem o céu que logo passou de claro para negro, encoberto por nuvens densas. Liguei os faróis. Folhas secas eram jogadas para todos os lados graças ao vento que era feroz, a ponto de balançar as árvores. Um clarão no céu iluminou a estrada por alguns segundos, fazendo-me saltar. “Ótimo, agora só me falta chover.” E fora exatamente isso que aconteceu. Uma chuva forte com pingos grossos veio logo após os raios que a anunciara. Enquanto estava na estrada, eu estava protegida pelas folhagens e poucas gotas me atingiram. Pensei em dar um tempo ali, já que era uma estrada pouco movimentada, mas não havia tempo para isso. Tive de fazer a virada, saindo da estrada para minha antiga rua. A tempestade atingiu-me em cheio. “Isso é um castigo por fugir da escola?!” gritei olhando para o céu. Gotas de água caíam do céu cada vez mais, dificultando minha visão. Liguei os faróis no máximo. Um gato correu, cruzando a rua. O segui com o olhar e dei de cara com a casa de tia Deborah. Será que ela havia retornado?
Estacionei o carro em frente á sua casa, o barulho dos pneu nas pedras fez vários gatos saírem de seus esconderijos no quintal. Um saiu de baixo do banco que ficava na varanda e parou no topo da escada, encarando-me. Desci do carro. Sem correr, andei em direção á entrada. Eu já estava completamente encharcada, não havia sentido em correr. O gato miou roçando-se em minha perna. Fiz carinho em sua cabeça. Ele usava uma coleira, como todos os outros. Seu nome era Finny.
–- Ei!- eu disse, acariciando-o. Finny ronronou. – Você não deve receber carinhos faz tempo, pra estar gostando tanto assim de uma mão molhada em você. – brinquei. Ouvi um barulho e olhei para o lado. Era o gato que eu vira correndo pela rua. – Você também. Coitadinho, todo molhado. Vocês não deveriam estar soltos.

Estranhei o fato de Finny e o outro gato estarem soltos por aí, já que todos os gatos ficavam presos no gatil de tia Deborah. Fora a chuva e os trovões, tudo estava silencioso. Tentei olhar através das janelas, mas as cortinas estavam fechadas. Lembrei-me de quando Rick contou-me que ela estaria fora pelas próximas semanas, mas o que a fizera partir tão rápido, deixando seus gatos soltos para trás?
Circundei a casa, até a parte de trás, onde ficava o gatil. A porta estava aberta, mas graças a chuva a maioria dos gatos estava lá dentro. Fechei a porta, era muito arriscado tê-los correndo por aí. Enquanto passava a tranca, senti algo por trás de mim. Virei-me. Um gato caramelo saíra de dentro da casa de Tia Deborah pela minúscula portinha na porta dos fundos. Ele correu assustado para trás das árvores. Fui atrás dele.
–- Ei! Psiu! – chamei-o. – Vem aqui bebê.
Ergui a mão para pegá-lo. Acuado, o gato ergueu a pata e num movimento rápido, arranhou-me. Ele correu quando dei um grito. Seu arranhão causara-me pequenos cortes.
–- Droga!- falei, puxando a manga de meu suéter para cobrir os cortes e estancar o sangue que começava a aparecer. – O que deu em você?! Está com medo dos trovões? – perguntei.
Eu e minha mania de falar com os animais, como se eles me entendessem. Ouvi um barulho vindo de dentro da casa novamente. Seria outro gato? Subi a pequena escada e andei lentamente em direção á porta dos fundos. Outro barulho.
–- Tia Deborah?! – chamei, em voz alta. Ninguém respondeu. Tentei rodar a maçaneta, mas a porta estava fechada. Ajoelhei-me e inclinei a cabeça. Com a mão, empurrei a portinha que os gatos usavam para entrar na casa. Pude ver, com dificuldade, a cozinha. Tudo estava revirado. O que estava acontecendo? Aproximei o rosto do buraco para ver melhor. Um quadro estava jogado em frente ao fogão, vidros espalhados de pratos que foram quebrados. Restos de porcelana em um canto. Algo, que parecia o encosto de uma cadeira jogada de lado, impedia minha visão. Estiquei o braço pelo buraco, para dentro da cozinha, tentando alcançar a cadeira. Arrastei-a para o lado. Através da porta que ligava a cozinha com a sala, pude ver que o sofá também estava tombado. Estiquei ainda mais o braço para afastar outros objetos que bloqueavam minha visão. Foi então que toquei algo. Um tecido, fino como a seda, que imaginei ser uma cortina. Mas, então, senti algo agarrar meu pulso. Através do buraco, vi uma mão grande, masculina, de uma pele negra brilhante. Ele usava um anel, com uma pequena pedra verde no centro. Dei um grito de pavor. Em pânico, comecei a puxar meu braço. Aquilo que eu havia tocado, era o tecido de sua calça, não uma cortina. Quem era esse homem? Dei outro grito. De repente, ele me soltou.
Como estava fazendo força para livrar-me dele, graças ao impulso perdi o equilíbrio e caí para trás. Rolando pela pequena escada, parei de joelhos, caída na lama do quintal. Levantei-me de pressa e corri para a entrada da casa, entrei no carro de Luna. Olhei para minhas mãos trêmulas enquanto girava a chave. Molhada e, agora cheia de lama, rapidamente acelerei. Arranquei com o carro, enquanto dava ré para sair daquele lugar. Fui rápido, rua abaixo, acelerando cada vez mais. Até que, devido ao grande esforço, enfim o velho conversível cedeu e lentamente, foi parando, em meio a rua. Desliguei-o e tentei ligar novamente várias vezes, mas pelo visto eu havia abusado demais de seu motor em minha fuga. Eu ainda estava em choque, tremendo e tremendamente assustada. Deitei a cabeça para trás, tentando acalmar-me. Eu já estava um pouco longe da casa de Tia Deborah e fosse o que fosse aquilo, não parecia ter me seguido. A chuva trouxera com ela uma névoa densa. Sentada no carro, somente com os faróis ligados, pude ver algo movendo-se em meio a névoa. Algo que parecia aproximar-se lentamente. Uma pessoa? Com o coração ainda acelerado, preparei-me para correr. Mas, então, em meio a névoa pude ver mais e mais silhuetas negras surgirem.
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Notas finais
Medo edo edo.
Corra Lola, Corraaaa (entendedores entenderão u.u)
Estou lendo todos os comentários e respondo ainda essa semana (:
Beijos ♥