Luz Na Escuridão
29 A proposta
Notas iniciais
Sexta-feira. Acordo com os gritinhos animados de Bia, que anda de um lado para o outro enquanto conversa no ao celular, fazendo caras e bocas. Por sua felicidade exagerada, deve ser o Roger que está do outro lado da linha. Sento na cama e me espreguiço. — Só mais hoje... — Penso enquanto sento na cama lembrando que amanhã é sábado, graças á Deus! Vou para o banheiro, faço tudo o que tenho que fazer lá e volto para o quarto. Bia não está mais falando ao celular e me olha animada.
Nem te conto! — Ela pula em minha direção e me arrasta para a cama, fazendo-me sentar ao seu lado.
Pois me conte sim! Para você ter acordado antes de mim, a coisa deve ser muuuito boa... — Digo e faço uma careta.
E é sim! Daqui um mês eu e você vamos viajar! — Ela diz e se mexe igual a uma minhoca ao meu lado.
Viajar? Como assim? — Pergunto confusa.
Lembra aquela praia que Roger e eu fomos passar um fim de semana juntinhos? Então, Roger quer voltar lá, mas agora com alguns amigos. E adivinha quem são esses amigos? — Ela fica de pé e bate palmas como uma louca. — É você e o Henry! — Olho-a surpresa e a puxo novamente para sentar ao meu lado.
Mas como ele sabe que nós voltamos? — Pergunto e encaro minha amiga.
Ai... eu contei né! E ontem a noite o Roger conversou com o Henry, e ele meio que comentou para o Roger também. — Ela diz.
Sério? — Arregalo os olhos.
Aham... ele é louco por você Carol! Será que não percebe?
Acho que sim... mas... o Roger não podia saber, ele também é amigo do Robert. E se ele der uma bola fora? — Pergunto preocupada.
Não se preocupe amiga! O Roger sabe mais ou menos sobre o seu lance com o Robert, lembra? Eu contei que você ainda o odeia e sempre vai odiar. E que vai se vingar dele, mesmo eu achando isso um absurdo. — Ela levanta uma de suas perfeitas sobrancelhas.
Você só acha isso um absurdo, porque eu não te contei qual é o meu plano. — Dou de ombros e vou para o meu guarda-roupa para escolher o que vestir para ir trabalhar.
Exatamente! — Ela cruza os braços e faz beicinho.
Você vai achar que estou louca e vai tentar me impedir de todas as maneiras. Por isso não deve saber! Desculpa amiga, mas realmente não posso te contar... — Faço uma cara triste e volto a minha atenção para as minhas roupas. Bia fica de pé e caminha até mim.
Deixa que eu escolho a roupa que você vai trabalhar pelo menos... — Ela diz magoada.
Claro! — Abraço-a e beijo seu delicado rosto. Bia suspira enquanto escolhe uma calça preta e justa e uma camisa de seda azul marinho. Ela me entrega e volta a sentar na cama.
E coloque seu scarpin preto por favor! — Ela exige.
Não fique brava comigo Bia! Poxa! Apenas me entenda... isso já vai acabar. Eu prometo! — Bia me encara e eu começo a trocar de roupa. Ela pensa, pensa e pensa.
Tudo bem! Vou respeitar sua decisão e seja lá o que for fazer para aquele imbecil. Agora vamos voltar ao que estávamos conversando. Você e o Henry vão viajar conosco! — Termino de vestir minha roupa e coloco meu scarpin.
Eu não sei Bia... Henry concordou?
Imagina se não! Ele que pediu para o Roger me ligar e contar. Henry tem inauguração de uma academia hoje né?
Sim. — Respondo e sinto saudade do meu deus grego. Ele mandou uma mensagem tão quente ontem a noite para mim, que eu quase tive um treco.
Então está tudo certo já. Vai ser daqui um mês e essa viagem promete! — Bia sorri.
Preciso pensar Bia... você sabe que estou juntando um dinheirinho para dar de entrada em um carro.
Ai meu Deus do céu Carol! Você não vai gastar um real nessa viagem, a não ser que queira. A casa da praia é do Roger, nós vamos de carro porque não é muito longe, leva apenas quatro horas para chegarmos lá. E lógico que os nossos homens vão bancar todo o resto. — Ela revira os olhos. — Vamos vai?
Está bem. Mas odeio depender dos outros! Você sabe muito bem disso...
Eu sei. Mas isso não é depender Carol, nós vamos lá para se divertir e ter uns dias de paz e sossego. Longe da cidade e dessa gente chata.
Que seja! Agora vamos que eu preciso trabalhar dondoca. — Pego minha bolsa e sorrio para Bia.
Vamos sua chata!
Antes de Bia me deixar na empresa, aproveitamos e passamos tomar um bom café da manhã numa cafeteria aqui próxima. Combinamos alguns detalhes para hoje a noite e falamos um pouco mais sobre a tal viagem para a praia. Bia está entusiasmada e tem vários planos para nós.
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Estou entediada. A manhã demorou a passar mesmo eu tendo um milhão de coisas para fazer. Hoje a lacraia da recepção está mais insuportável do que nunca. Um dia eu mato essa Daniela odiosa!
Quando decido sair almoçar, um pouco mais tarde para variar, o idiota aparece na porta da minha sala.
Olá Carol! Está saindo almoçar? Respira Carol, respira Carol.
Oi Robert. Porque não me avisou que já estava aqui? Pergunto enquanto levanto e pego minha bolsa.
É que eu cheguei agora mesmo. E decidi passar aqui e te convidar para almoçar.
A gente já não vai se ver amanhã? Digo impaciente.
Hoje será um almoço de negócios Carolyne... Carolyne? Ele está de brincadeira né! Tudo profissional. Tenho algumas novidades para te contar.
Tudo bem. Então vamos logo que meu horário de almoço é curto!
Não se preocupe quanto a isso. Meu pai já está vindo para cá ver alguns projetos dos quais vamos conversar e tomara conta da empresa. Não temos hora para voltar. Responde dando passagem para eu sair da sala.
Mas eu estou cheia de trabalho para concluir Robert...
Depois resolvemos isso. Agora vamos comer alguma coisa. Passo por ele e reviro os olhos sem ele perceber. Cretino!
Passamos pela recepção e a cobra está lá, com os olhos malditos em cima de nós. Ela sempre sai almoçar mais cedo, para estar disponível da hora do almoço caso chegue alguém na empresa esse horário. Ela sorri como uma falsa e seus olhos brilham quando Robert acena com a cabeça.
Boa tarde Sr. Ribeiro! Falsa!
Para mim ainda é bom dia Daniela... ainda não almocei. Ele diz brincando e Daniela se derrete inteira. Piranha! Carolyne e eu iremos sair almoçar agora e não temos horário para voltar. Logo meu pai chegará aqui e tomará conta de tudo. Se precisar de algo, por favor, peça a ele.
Como queira senhor. Ela me olha dos pés a cabeça e aposto que está me praguejando mentalmente. Dou o sorriso mais sínico que posso e saímos dali.
Entramos em seu refinado e caríssimo carro. Robert dirige todo orgulhoso. Parece não me conhecer o bastante para saber que não me importo com essas coisas. O trajeto até o restaurante é silencioso, exceto pela música que toca no som do carro, sweet child o mine do Guns, a mesma que cantei no barzinho no dia em que defendi Robert daqueles caras.
Essa música traz boas lembranças. Ele comenta e sorri.
Eu gosto dessa música. Respondo.
E canta ela muito bem!
Obrigada. Fico desconcertada com seu comentário e mudo de assunto. Vai me contar o que foi fazer essa semana finalmente?
Está curiosa? Sem vergonha!
Digamos que sim... você praticamente largou a empresa em minhas mãos e sumiu.
E digamos que valeu a pena. Seu sorriso está mais largo do que nunca.
Espero que sim... Ele sorri com meu comentário e logo chegamos ao restaurante de frutos do mar. Ele faz questão de abrir a porta do carro e segura levemente o meu braço enquanto entramos.
Você ainda gosta de frutos do mar? Ele pergunta. Robert ainda lembra que adoro esse tipo de culinária.
Mais do que nunca! Sorrio verdadeiramente. O aroma do restaurante me dá água na boca. Escolhemos uma mesa e pedimos dois sucos de laranja enquanto nossos pedidos não chegam.
Então Carol, como foi essa semana estando na frente da empresa?
Admito que foi muito corrido Robert. Mas acho que dei conta de tudo. Digo orgulhosa pois meu desempenho foi realmente muito bom.
Isso não me surpreende. Você sempre foi muito inteligente e dedicada. Ele me encara. Onde quer chegar? Tenho uma proposta para você Carol. Faço uma careta.
Proposta?
Sim. Esses dias que fiquei fora, foi para resolver duas questões e uma delas é sobre essa proposta. Ele faz uma pausa. Queremos abrir mais uma empresa e precisamos de alguém forte e competente para nos ajudar a realizar isso. Ainda mais no começo, onde nada é fácil. Você sabe, entrar no mercado é complicado. Ele balança a cabeça e espera minha reação.
E onde vocês pretender fazer isso?
Nos Estados Unidos. Temos vários amigos lá, grande parte são empresários, eles estão nos apoiando muito e tem tudo para dar certo. Ele diz animado. Como sabe, depois de tudo que ocorreu entre nós, fui embora para lá e conheci muita gente importante.
Mas Robert... eu nem falo inglês! Digo espantada.
Você não fez um curso uma vez?
Fiz, mas foi um curso bem básico...
Isso não importa! Quero que você vá lá para treinar um grupo de funcionários brasileiros. Precisamos deles e eles falam inglês. Você ficará responsável pelo treinamento e só. Tento digerir tudo o que ele me fala.
Eu não sei... eu preciso pensar...
Não temos tempo para isso Carolyne! Desculpa te pressionar assim, em cima da hora. Mas serão apenas seis meses. Passa rápido.
Você também vai?
Não. Quer dizer, apenas uma semana de cada mês. Ele pensa. Você quer que eu vá? Como é idiota!
Não é isso... olha, preciso de um tempo. Não se resolve tudo isso de um dia para o outro. Respondo enquanto mexo-me nervosamente na cadeira. O garçom chega com nossos pedidos e sorri educadamente.
Tudo bem. Te dou até segunda-feira para pensar. É sério Carolyne! Temos que ser rápidos.
Até segunda eu resolvo isso. Digo. Agora me diz, qual é o outro motivo do seu sumiço? Robert abre um largo sorriso novamente quando ouve minha pergunta.
Bem... eu ia deixar para falar amanhã em nosso encontro. Mas isso é bom demais para eu segurar mais um dia. Ai meu Deus... fala logo babaca! Daqui um mês terá uma excursão para o Egito novamente e acho que você, mais do que ninguém, merece ir. Eu não acredito no que estou ouvindo. Robert percebe minha reação, pois eu devo ter feito cara de espanto nesse momento. Mas você vai ir como turista, como cliente, e não para trabalhar. O que? Como assim? Robert está me dando uma viagem de presente?
Robert, eu... Ele pega em minha mão e sorri como um menino bom.
Você merece meu bem. Faz anos que trabalha nessa empresa, independente de meu pai e eu termos comprado ela agora. A Clarice e o Murilo falaram muito bem de você. O quanto foi dedicada àquela empresa e que eu estaria em ótimas mãos. Ela realmente sabia o que estava falando, pois eu confio em você e acho que você merece muito isso. E se você topar a minha proposta dos Estados Unidos e espero que tope, eu aconselho você ir para o Egito sim. Já que os seis meses que você dará de treinamento, serão bem puxados. Sei que não tenho moral nenhuma com você Carolyne. Mas aceite, por favor! Estamos falando do seu sonho e do seu crescimento profissional ao mesmo tempo.
Eu seria hipócrita se falasse que tudo isso não mexeu comigo. Mexeu. E mexeu muito. Dar treinamento para desconhecidos nos Estados Unidos era tudo do que eu precisa um tempo atrás, se eu não tivesse conhecido o Henry. Eu sentiria saudades de Bia, mas logo passaria. Tudo passa. A viagem para o Egito simplesmente é o meu ponto fraco. É o sonho da minha vida, desde a infância. Tento processar tudo, pois há um milhão de sensações dentro de mim nesse momento. O homem que eu mais odeio está agora na minha frente e ofertando tudo que eu sempre quis. Estou confusa e não sei o que dizer ou pensar. Perco o apetite e tomo apenas o suco, tentando disfarçar o meu nervosismo.
Segunda você me dá uma resposta. Não quero que fique assustada Carol, por favor. Balanço a cabeça afirmando e perco-me em meus pensamentos. Graças a Deus Robert me deu folga o resto da tarde. Essas duas horas de almoço, abalou a minha estrutura. Preciso ficar na minha e esperar a noite chegar e enfim tentar relaxar com minha amiga Bia.
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