Depois de alguns dias, Mike já estava se acostumando com a rotina da escola. Ele acordara bem cedo naquela manhã.

— Christine! — chamou Mike pela criada.

— Sim?

— Minha avó está no castelo?

— Creio eu que ela ainda se encontra em seus aposentos — respondeu a mulher.

Mike agradeceu e foi rapidamente para onde se localizava o quarto de sua avó, demorando alguns minutos a mais. Ele finalmente chegara.

Estancado à porta, bateu com cuidado.

— Sim? — respondeu uma voz suave.

— Sou eu... Mike! — falou acanhado.

— Olá, Mike! — disse a velha do outro lado da porta. Sua voz era tediosa.

— Posso entrar?

— Não. — respondeu a mulher.

Mike esperou uma conclusão. Algo a mais além da palavra não, mas parecia que sua avó estava falando sério.

— Eu... preciso falar com a senhora. Você não teria um minuto...

— Pois bem, entre de uma vez! — disse impaciente.

Mike abriu a porta com cuidado.

Ele se deparou com um quarto dez vezes maior que o seu, repleto de cortinas e outro tecido que cobria a parede. A cama se assemelhava a algumas camas de realezas, com uma montagem arcaica. Sua avó estava em uma cadeira lendo um enorme livro que Mike não conseguiu identificar qual era.

— Sim? — perguntou ela, fazendo com que Mike desse uma respirada profunda.

— A senhora sabe que nos Estados Unidos é permitido tirar a carteira com dezesseis anos...

— Sei. — disse ela lendo seu livro.

— Bem, eu tinha uma carteira lá...

— Que bom!

— Mas aqui é preciso ter dezoito anos para tirar carteira... e a minha é inválida.

— Naturalmente. — disse ela finalmente sorrindo.

— Eu gostaria de saber se a senhora poderia pedir uma solicitação para que a minha fosse aceita.

— Oh, meu querido! Isso é proibido. — disse ela. Mike desanimou.

— Entendo...

— Mas é claro que eu poderia fazer isso. — acrescentou ela.

— Poderia?

— Claro! Sou muito influente nessa cidade. — falou ela olhando para o garoto. — Conseguiria a autorização em minutos.

— Então a senhora vai...

— Oh, querido, eu não disse que faria! — falou ela voltando ao seu livro.

— Mas...

— Por que eu faria isso? — perguntou ela distraída.

— Porque estou lhe pedindo! — respondeu Mike perdendo um pouco da paciência.

— Sim está. — falou ela completamente dispersa ao assunto.

— Não poderia fazer isso por mim?

— Já lhe disse que poderia, mas não vou.

— Por quê? — perguntou ele indignado.

— O que eu ganharia com isso? O que você me dará em troca? — perguntou ela olhando para Mike. Ele estava pasmo.

— E o que você quer?

— Não sei não. Não há muita coisa que você possa me proporcionar. Acho que tudo o que possa esperar de você é um bom desempenho na escola e um comportamento exemplar, é claro! Somente essas coisas, nada mais. Afinal, não há mais nada que você possa fazer, ai...ai...

Mike estava se sentindo um completo inútil, ficou patético, parado ali, na frente de uma mulher poderosa que não via um pingo de lucro nele. Nada que ele pudesse dar em troca do que ele pedira.

— Então é melhor eu ir. — disse ele friamente.

— Sim. Comece tentando não se atrasar para escola.

Ele foi embora tão depressa do quarto que a porta quase batera.

Ele estava furioso: “Por que ela me odeia tanto?”.

Mike teve um péssimo dia escolar, repleto de deveres e zoações vindo dos “populares” de sua sala.

No dia seguinte, olhou em seu horário e viu que o dia inteiro ele teria Educação Física.

— Também achei estranho. É como se eles quisessem matar a gente de cansaço! — resmungou Cherry com o uniforme de Educação Física, extremamente curto para seu gosto. — Esse uniforme deve ter sido feito para crianças de nove anos. Tenho certeza disso!

Estavam na área externa da escola, onde havia um imenso campo de futebol e outras quadras. Cherry, desanimada, foi ao encontro das garotas que corriam ao redor do enorme campo.

Havia muita gente na arquibancada ignorando o jogo e simplesmente conversando, deixando com que Mike concluísse não ser obrigatória a aula. Sentou-se na arquibancada admirando o frescor proporcionado pelas enormes árvores e suas sombras. Apanhou seu caderno de desenhos e começou a rabiscar, até que alguém bateu em seu pé enquanto passava.

Olhou para frente e a garota de seus desenhos, Sarah, passara e piscara para ele. Estava caminhando com um grupo enorme de garotas ao redor do campo. Logo em seguida passou Cherry fazendo uma careta.

Mike continuou olhando o máximo que pôde para a garota loira que corria em volta do campo com suas amigas. Estava com um pequenino rabo de cavalo em seu cabelo que já era curto. Parecia bem cansada, mas muito animada. Sarah reparava como ele sorria alegremente enquanto falava com as amigas.

Ele se perguntava se ela havia pensado nele nesses dias ou se fora apenas ele que não conseguira tirar da cabeça aquele momento que estiveram juntos. Seria só ele que levara tão a sério?

“Ela não estaria errada.”, pensou Mike.

Afinal, só se falaram naquele dia. Nem sabia se ela tinha namorado ou ao menos se ela se interessara realmente por ele. Porém, tudo o que queria agora era conversar novamente com a garota, ouvir sua doce voz, reparar nos detalhes que deixara passar quando a imortalizou em um desenho seu.

TUM!

Algo o acertara em cheio na cabeça.

Ainda meio atordoado, olhou para baixo e reparou que era a bola do jogo. Os jovens que antes estavam jogando no campo agora pararam para olhar o garoto com a bola na mão.

— Opa, foi mal cara!— falou um garoto alto de cabelos castanhos.

— Foi mal nada, foi demais! — riu um garoto loiro que também parecia estar jogando, um dos populares de sua sala. Mike constatou que sempre pegava em seu pé.

Apanhou a bola e deu uma olhada para ela, o garoto de cabelos loiros riu mais alto.

— É novidade para você? — disse ele rindo mais alto com seus amigos.

— Se você não sabe, isso se chama bola! — gargalhou junto com o time. Queria mostrar o duplo sentido da palavra.

Mike deixou a bola escorregar de sua mão. Mas antes que ela pudesse tocar no chão, sua perna se moveu com muita agilidade e a bola foi lançada para frente em alta velocidade até o garoto loiro.

Ele agarrou a bola com dificuldade e todos olharam para Mike em silêncio. Estavam a metros de distância um do outro.

O garoto de cabelos castanhos assobiou e disse:

— Ei, não quer jogar com a gente?

Mike olhou para frente e viu Sarah parada do outro lado de braços cruzados e sorrindo.

— Ok! — falou descendo da arquibancada não sabendo muito bem o que estava fazendo. “Vou realmente fazer isso de novo?”, pensou. Ele jogava na sua antiga escola, mas depois que seus pais foram presos e ele entrou no mundo da revolta, desistiu de jogar futebol.

O garoto entregou uma camiseta e assim que Mike retirou sua blusa para pôr a outra, muitas garotas soltaram gemidinhos, afinal, embora escolhesse outra vida agora, seus músculos ainda estavam presentes como sempre, e isso sem dúvida intimidou os outros jogadores que o julgaram mal.

Ao ouvir o som do apito, Mike sentia várias sensações simultâneas.

O cheiro da grama, o sol, a emoção, enfim, tudo de uma só vez. Viu o jogador que estava com a bola mais à frente e avançou feito uma águia atrás de sua presa.

O jogador se assustou por não ter percebido que Mike chegara tão perto e nem percebera também que ele tirara a bola de seus pés com tamanha facilidade e num instante já estava muito à sua frente. Ele já podia ver o gol e seu goleiro de guarda.

— IMPEÇA! DROGA! — berrou o garoto loiro desesperado. Mas os jogadores que tentaram impedi-lo mal conseguiram encostar em Mike, que se esquivava com esplendor.

Outro jogador tentou por baixo com uma rasteira, Mike pulou imediatamente, levou a bola consigo e em seguida estava mais à frente do gol. Parou por um instante, mirou e chutou com força.

A bola rasgou o ar levemente com um efeito maravilhoso, batendo na trave em seguida. Mike passou a mão nos cabelos e riu consigo mesmo: “Estou enferrujado”. Enquanto o garoto de cabelos castanhos do seu time veio ao seu encontro correndo:

— Cara, você é bom! — disse ele surpreso.

— Faz tempo que não jogo... — justificou Mike acanhado.

— Imagino se jogasse! — riu o garoto. — A propósito, me chamo David!

— Mike!

Ele sentiu que fizera um colega. A primeira pessoa depois de Sarah que o elogiara.

O jogo havia terminado e Mike conseguira fazer alguns gols, acabou saindo do campo de cabeça baixa desejando jogar mais.

— Ei, onde você pensa que vai? — perguntou o garoto loiro que antes o zoava. — Você vai jogar no meu time agora!

Mike riu e o garoto também. Jogou vários outros jogos até o intervalo para o almoço.

— Droga! Tenho que admitir, você joga muito! — resmungou o loiro.

Mike fez sinal de ok, ainda rindo e aproveitando a sensação de cansaço e o calor do jogo. Tirou a camiseta e pôde ouvir novamente os gemidinhos das garotas.

— Pouco forte você, hein! — falou uma voz doce que apareceu ao seu lado.

— Você sumiu... — disse ele involuntariamente. Era Sarah surgindo do nada.

— É, mas voltei! — disse ela com um sorriso. — Quer dar uma caminhada?

Mike assentiu.

O espaço externo da escola em que o campo de futebol estava localizado era enorme. Repleto de árvores cercando-o como se fosse um parque. Muitos alunos estavam espalhados ao redor, enquanto outros corriam. Mike e Sarah caminhavam lentamente sob as sombras das árvores.

— Então, craque do futebol, hein? — falou ela.

— Sempre gostei. Em Baltimore eu havia até ganhado uma bolsa. — falou Mike animado.

— Nossa, tão cedo?

— É. Eu dei sorte que um olheiro assistiu a um jogo nosso, o time não era muito bom, mas ele gostou de mim.

— Isso é demais!

— Era... — Mike começou a desanimar aos poucos.

— Era?

— Eu estou aqui e não lá. Depois que meus pais foram presos, minha vida explodiu.

— Foi assim que você se tornou... excêntrico? — disse ela dando um tapinha nos cabelos de Mike.

— Acho que sim...

— Não sou vidente, mas fica tranquilo. As coisas vão melhorar.

— Ah é? Gostaria de saber como. Tenho uma pilha de deveres para fazer, minha avó me odeia, não sei por que, e minha irmã é louca!

Sarah riu.

— Eu soube que ela é o novo alvo do Luxúria.

— Quem? — perguntou Mike confuso.

Haviam parado de frente a uma árvore enorme e velha que ficava no final do campo, não havia ninguém e a sombra que ela fazia era enorme.

— Nunca ouviu falar nele? É o Alphonse Asmodeus.

— Ah sim, o cara que vai fazer uma festa. — Lembrou Mike. — O que tem ele?

— Bem, não queria que fosse eu a pessoa a te dar essa notícia, mas parece que ele esta atrás dela. — falou Sarah rindo.

— Da minha irmã? — perguntou incrédulo.

— Sim, e se você nunca percebeu, ela é linda! É a primeira vez que vejo esse garoto gastar tanto tempo com uma garota só.

— Ele faz parte do grupo dos sete, não é? — perguntou Mike cauteloso.

Sarah sentou-se na grama encostando-se na árvore.

— Sim. — disse pensativa.

— Você também faz parte desse grupo? — continuou Mike.

— Eu? — assustou-se Sarah — Jamais! E agradeço a Deus por isso!

Mike queria retirar mais informações dela, lembrando o que vira anteriormente.

— Eles são tão ruins assim?

— Você não faz ideia! — disse ela fechando os olhos.

Mike também se sentou.

— Eles não são o que aparentam ser. Acredite nisso.

— Seu primo também? — arriscou.

— Ele, principalmente! — advertiu ela. — Agora ele está mais calmo.

— Luxúria... E seu primo?

— Ira. — revelou.

O coração de Mike gelou. Ele adivinhara, realmente a carta se referia a Richard, o primo de Sarah. O garoto que com apenas um soco fez um estrago na parede da escola.

— É, isso combina muito com ele. — falou Mike.

— São todos malignos. Fazem pose de pessoas comportadas, mas são pessoas ruins.

— Como assim?

— Eles fazem coisas, sabe... Ah, esquece. Você nunca acreditaria!

— Não, por favor, eu quero ouvir! — falou Mike desesperado e curioso.

— Você tem que me prometer que não vai contar isso para ninguém. Promete?

— Sim, eu juro. — disse ele, aproximou-se da garota com cautela.

— Os pecados... Não são somente apelidos. Eles realmente são os pecados, entende? — falou Sarah devagar.

Mike não conseguira entender.

— Eu não sei como te explicar, mas eles fizeram algo. Mexeram com o proibido e agora têm habilidades incomuns!

— Superpoderes? — riu Mike, mas lembrando do que Richard fizera.

— Sim, mas não se engane pensando que eles são super-heróis ou algo do tipo...

— Mas como? — tudo parecia ridículo.

— Eu não sei muito bem. Só sei que eles pagaram um preço por isso. Eles encarnaram literalmente cada pecado!

Mike estava tonto, pessoas com poderes existiam.

— Você ficaria assombrado se visse o que eles fazem e usam para manipular as pessoas.

— Ninguém mais sabe?

— Eles têm seguidores, cada um deles tem uma espécie de fã clube. Eles não tentam esconder muito suas habilidades! — disse Sarah aflita. — Richard, tenho tanta pena dele! Às vezes ele fica nervoso por coisas pequenas e acaba fazendo grandes besteiras. Não fosse a namorada dele, acho que já teria explodido.

Sarah fez com que a palavra “explodido” parecesse no sentido literal. Mike ficou ali com uma expressão incrédula.

— É tudo esquisito, não é? — falou Sarah. — E eu contando isso para um cara que nem conheço direito.

Ela se levantou e Mike também, um pouco mais rápido que ela.

— Mas você pode confiar em mim! — falou ele depressa.

Ela ficou caminhando em círculos.

— É estranho... — começou a dizer.

— O quê?

— Oo jeito que a gente se porta um com o outro, é como...

— Se nos conhecêssemos há muito tempo. — acrescentou Mike.

— Você completou minha frase! — riu Sarah — isso é tão...

— Clichê? — concluiu sorridente Mike.

— Para!

Sarah deu um soco no braço de Mike e continuou circulando ao redor da árvore, parecia um dança graciosa. Ele estava completamente hipnotizado.

— Seria muito clichê seu eu dissesse que... pensei no tempo que a gente conversou todos esses dias?

— Sim, seria. — disse ela caminhando lentamente. — E seria muito clichê se eu disser que eu também?

— Seria. — riu Mike olhando para Sarah. Seus olhares se encontravam de vez em quando.

— Meu primo... me proibiu com todas as letras de falar com você.

Ele observou como ela era linda: seu andar, seu cheiro, seu jeito. A pele branca que ficava mais clara ao sol. Mike seguia seus passos. Sarah colocava seus braços para trás, caminhando cheia de graça, como uma criança.

— Eu estou proibida de falar com você e estou aqui às escondidas. Quer algo mais clichê que isso?

Ela virou para dar mais uma voltinha, mas deu de frente com Mike que estava seguindo seus passos de propósito. Estava perto demais.

— É parece que estamos presos a este clichê. — E com um impulso, deu-lhe um beijo.

Seus lábios só foram ao encontro dos dela e nada mais. Ficou ali por um segundo ou mais, até perceber o que fizera e sentir tanta vergonha e arrependimento que se afastou para se desculpar.

Rapidamente Sarah puxou Mike pelos cabelos e o beijou de volta. Ele não esperava por aquilo, mas jamais sonharia em se importar, e o que fez em seguida foi se entregar completamente ao ardente e irresistível beijo.

O rapaz a beijava com tanta intensidade e sede por vida que não percebia o tempo passar, nenhum dos dois tinha a menor noção de tempo. A pele de Sarah era tão convidativa que ele não sabia se desejava mais seus lábios ou sua pele de cheiro tão agradável. Quando as coisas começaram a esquentar, a garota separou-se de Mike com suas mãos no peitoral dele. Estava claro que ele não tinha a mínima intenção de parar.

— Opa, vai com calma, cowboy! — disse ela rindo e tirando a mão de Mike, que não reparara que havia descido. Mas não tinha certeza também se Sarah realmente tinha se importado.

— Foi mal! — disse muito envergonhado.

Sentaram na grama novamente. Os alunos haviam voltado para o campo dando início a outra partida. Mike não se importou. Ele trocava dez mil partidas de futebol por mais um segundo com ela, sua salvadora, a garota que o havia tirado do abismo.

— Você está com uma cara engraçada. Você me ama?

Mike ficou pálido.

A pergunta simplesmente veio do nada, ele ficou sem palavras. Sarah soltou uma gargalhada alta e gostosa.

— Você tinha que ter visto sua cara agora! — E continuou rindo.

Mike fechou a cara e cruzou os braços.

— Engraçadinha! — falou olhando de lado.

— Valeu, eu tento! — Ela olhou para enorme árvore. — Não vai escrever nossos nomes na árvore não?

— Ha, Ha, muito engraçada! Como se isso tudo já não fosse clichê!

Mas Sarah estava serena dessa vez, não ria.

— Você fala sério?

— Sim.

Mike levantou imediatamente e foi em direção à árvore. Sarah ficou observando. Era isso que ele queria, levar a sério. E queria que ela se sentisse assim também. Se era isso que ela queria, ele faria.

— Tem alguma coisa...

— Usa minha lixa!

Ela jogou para ele e em minutos Mike fizera seu nome e o de Sarah.

Ele estava fazendo um contorno de coração quando Sarah apareceu a seu lado e completou a outra metade do coração, juntos.

— Acho que completamos um ao outro!

Logo em seguida riram da frase.

— E os clichês não param...

— Eu não ligo. — falou Sarah.

— Eu também não. Espero que não parem nunca. — E dizendo assim, Mike deu-lhe outro beijo. E dessa vez com mais intensidade e maior paixão, sem se preocupar com as consequências que estavam prestes a ocorrer e interferir definitivamente ou não em seu romance clichê.