Luxúria

3 Capítulo 3 - Sete pecados


Horas antes, Cherry acordou do transe em que estava, o garoto estava tão longe dali com seus cabelos negros descendo até o pescoço, deitado na grama do jardim. Parecia bem à vontade, mesmo rodeado de tanta atenção.

Era intervalo ainda. Duas jovens passavam suas delicadas mãos sobre o cabelo do rapaz, parecia um deus ou uma espécie de rei bizarro.

— Dá para acreditar nisso? — falou Lara.

— Mas o que significa isso? — perguntou Cherry, incrédula, se achando um pouco ridícula, pois as outras garotas não pareciam se importar com a cena.

— Significa que quem tem dinheiro faz o que quer nessa escola — falou a garota, voltando a conversar com as amigas que estavam do seu lado.

Cherry deu outra olhada para as duas garotas lindas que o cortejavam sem parar.

— Hoje tem poucas, ultimamente ele tem saído com quatro ou mais.

Ela se espantou: “Quatro ou mais?”.

— Mas quem é esse cara afinal?

Lara olhou para ela e respirou fundo.

— Alphonse Asmodeus, o aluno mais rico da nossa escola e da nossa querida cidade. — Ela falou baixinho — Mais rico até que sua avó!

Cherry não queria saber dos detalhes financeiros, mas deixou Lara continuar.

— Ele é bem popular aqui porque faz parte dos “sete”!

— “Sete”?

— Sim. São os sete jovens mais influentes da nossa cidade. Alguns dizem que são os mais influentes de toda a Europa, mas eu não sei... Seus pais são bilionários importantes e todos moram em mansões gigantescas ou em castelos iguais ao seu!

Cherry se perguntou que espécie de lugar maluco era aquele em que ela e seu irmão foram parar.

— Quase sempre andam juntos e possuem muitos seguidores que fazem de tudo para entrar na fraternidade deles.

— Que coisa mais sinistra! — falou Cherry, lutando para desviar os olhos do atraente jovem.

— O mais sinistro é como eles chamam um ao outro.

— Como assim?

Ela nunca fora atraída por fofocas, mas queria saber mais sobre essas pessoas.

— Cada um deles tem um apelido. — Lara estava sussurrando. — Apelidos que representam um pecado capital.

— Pecados capitais? — perguntou Cherry, meio que surpresa, pois esperava algo mais banal. — Gula, Inveja, Preguiça... essas coisas?

— É. — Lara concordou. — Muita gente já os viu se chamando assim...

— E esse Alphonse... Eles o chamam de quê? — ela estava intrigada — Quer dizer... Que pecado ele é? — Riu.

— Luxúria. — disse Lara revirando os olhos.

Cherry tomou um susto quando percebeu que o garoto olhava para ela e sorria. Imediatamente desviou os olhos fazendo uma cara séria.

— É bem a cara dele mesmo...

Lara empurrou Cherry para o lado.

— O que foi?

Mas ela percebera que algo quase a acertara em cheio, era uma bola de futebol.

— Ah, desculpe! Eu te acertei?

À primeira vista Cherry pensara que vira um anjo, mas não era.

O aluno de sua sala, o alto e forte, de cabelos castanhos e, para completar, com o sorriso mais angelical do mundo. David estava bem a sua frente.

— Não!

Aquele “não” saiu muito esquisito, e Lara soltou uma risada baixinha.

— Meu nome é David. Você está na minha sala, não é? ― perguntou se aproximando dela, fazendo a garota se encolher.

Cherry não era nada feia. Seus cabelos castanhos muito bem penteados faziam qualquer um lembrar-se de uma boneca, principalmente com seu laço na cabeça. Sempre teve cabelos longos, seu pai adorava isso nela.

David parecia estar apreciando cada pedaço de seu rosto.

― Cherry. ― disse ela em resposta.

Atrás dele, Cherry pôde ver uns jovens gritando para ele retornar com a bola do jogo. David deu um último sorriso e saiu. Ela não viu mais o garoto Luxúria. Todos se dirigiam para suas aulas anunciando assim o fim do intervalo.

Novamente se despediu de Lara, que era uma série a menos que ela. Estava tão perdida que não fazia a mínima ideia de onde seria a sua próxima aula. Seu hábito de perder as coisas a atacou novamente, o papel que continha a informação de salas e matérias se perdera.

— Droga! — resmungou baixinho.

— Precisa de ajuda? — O anjo voltara.

Cherry se viu em uma cena clichê de filmes românticos para adolescentes, que ela não dava a mínima. Mas olhando para David, ela só desejava ser desesperadamente a mocinha da história.

— Sim, a sala de História...

— Venha comigo.

“Sim, para o infinito e além”, pensou Cherry ao ouvir o garoto chamando-a.

Eles subiram as escadas.

O colégio era extremamente frio. Parecia mais uma enorme catedral. David seguia em frente com um sorriso fixo que não desaparecia nunca. Ela começou a imaginar coisas sem sentido: “Será que ele é assim sempre?”.

Chegaram, enfim, a sua sala e dessa vez, diferente de antes, os alunos olharam para Cherry muito intrigados para saber se os dois estavam juntos.

David avistara cadeiras vazias, mas nenhuma em que ele pudesse sentar perto de Cherry. Finalmente, desistindo, ele foi para um lado e Cherry para outro.

A garota nunca havia prestado tão pouca atenção em uma aula. De todas as maneiras possíveis, tentava encontrar o olhar de David, que sempre retribuía com um sorriso. “Poderia existir alguém tão cativante?”. Queria encontrar algum defeito. “Alguém tão feliz deve ter algum passado negro”. Mas o que tinha ela a ver com isso?

Finalmente olhou para outra coisa que não fosse David. A janela aberta, mostrando um céu chuvoso, deixou sua mente vagar longe. Seus pais estariam bem? Presos injustamente, os dois trabalhavam em uma empresa americana que estava na mira do FBI. O dono conseguiu fugir e incriminar seus pais. Os advogados eram bons, mas demoraria um tempo para que fossem soltos e sua avó era o único parente vivo de quem eles ouviram falar.

Ela se lembra que foi tudo muito difícil para os dois. Mike era o mais apegado à mãe e não suportou a notícia. Seus pais não ficaram necessariamente presos, mas sim sob custódia do FBI. Mesmo assim foi difícil.

Seu primeiro dia na escola até agora tinha sido bom e tranquilo. Em sua casa ela já tinha uma nova amiga, Lara, a filha da criada Christine. Não importava se seu irmão havia se tornado um revoltado, ela tinha companhia para fazê-la esquecer dos problemas, Mike que se virasse.

Segurava a cabeça para não despencar, seu queixo já doía um pouco, não conseguia prestar atenção no professor à sua frente. “Primeiro dia de aula e eles já pegam pesado assim?”, pensou.

— Podem entrar! — disse o professor fazendo Cherry acordar de seu transe. Um grupo de jovens entrou na sala, e ela os reconheceu imediatamente. Eram os tais “sete”.

— Bom dia, galera! Eu vim avisar sobre a festa costumeira que todo ano...

Alphonse era seu nome. Não sabia como e nem por que, mas seus cabelos arrepiaram estranhamente assim que aquele rapaz começou a falar.

Ele não era tão alto como David, e nem tão forte. David tinha cabelos angelicais e bem arrumados, esse garoto tinha cabelos escuros que desciam até o pescoço. Se ele não jogasse uma metade dele atrás da orelha, ia ser impossível ver seu rosto, que era algo nunca visto por ela.

Havia ali um sorriso perpétuo.

Parecia que não importava a expressão que o garoto usasse o sorriso sempre faria parte. Tinha olhos negros que cintilavam, como se emanassem vida. Sua voz era algo mais estranho, pois era parecida com uma cantiga melosa, seu sotaque europeu era forte e atraente para qualquer garota, mas Cherry estava inexpressiva e desatenta a tudo o que ele falava.

— Eu vou entregar-lhes os convites. — E dizendo assim, o garoto começou a passar de mesa em mesa, entregando um panfleto exageradamente colorido.

Cherry nunca ligou para festas, seu irmão Mike era mais animado, mas agora era uma pessoa sem vida.

Alphonse era uma pessoa que em nada se parecia com ela.

As garotas suspiravam e trocavam comentários sem parar. Ele piscava para todas como se já tivesse tido algum tipo de relação com cada uma delas. Era esse o motivo do apelido Luxúria? O que ela sabia sobre os sete pecados? Só o que a maioria das pessoas sabia, pensou ela, olhando para cada um daqueles jovens que estavam de pé.

Ficou imaginando quem seria quem, mas seu pensamento foi interrompido quando o Luxúria colocou o panfleto em sua mesa. Cherry percebeu que havia outra coisa ali. Seus cabelos arrepiaram estranhamente, ela pegou um pequenino cartão escrito.

“ME LIGA!”

E ali havia um número de celular.

Era um cartão de verdade, com letras digitadas. “Quem ele pensa que é?”. O jovem e seus amigos se despediram da sala e foram embora. Cherry levantou e foi atrás deles.

— Ei! — gritou feito louca no corredor silencioso.

Os jovens olharam de relance para trás, mas continuaram seu caminho resmungando e rindo. Cherry não ia desistir. “Para cima de mim não, amigo!”, pensou.

— EU DISSE, EI! — O garoto parou com um sorriso, os outros continuaram andando.

— Olha, agora estou meio ocupado. Eu te dei meu telefone, não é?

Cherry não acreditou naquelas palavras. Como alguém podia ser assim?

— Sim. E eu estou devolvendo! — ela jogou o papel em cima dele. — Você deve ter me confundido com outra pessoa!

E assim girou para voltar à sala, mas o garoto a pegou pelo braço. Cherry nunca sentira aquela sensação na vida. Uma corrente elétrica passou por todo seu corpo. O que era aquilo?

— Acho que você não entendeu. Esse é meu telefone. — falou rindo — Você pode ligar para esse número que eu vou atender, assim nós podemos marcar algum lugar para sairmos.

Ele disse aquilo como se fosse a coisa mais normal no mundo. Como se ela fosse a ignorante ali, que não havia percebido o óbvio.

— Você tem algum problema mental? — perguntou Cherry, dando indícios de nervosismo.

— Como? — perguntou Alphonse confuso.

— Perguntei se você tem algum problema mental! — falou mais alto a garota. “Controle-se, Cherry...mantenha a calma”.

— Não. Por que você pergunta isso? — Novamente com a expressão de inocente que só fazia a raiva dela aumentar.

— Porque só tendo um parafuso a menos para achar que eu vou telefonar ou muito menos querer sair com alguém que eu nunca vi na vida!

— Mas eu pensei...

— Pensou errado! — atacou ela balançando a cabeça. — Então, pegue esse seu cartão idiota e dê para outra garota, talvez uma lesada o bastante para querer sair com um idiota feito você!

Ela ficou esperando uma reação das piores. Mas não foi o que houve. O garoto agora estava maravilhado com aquilo tudo.

Era como se tivesse acabado de dar um show maravilhoso e ele adorado cada parte. Ela se sentiu uma espécie de macaca de circo fazendo aquela confusão toda por um cartão. E tudo o que conseguira foi fazer aquela pessoa, que parecia melhor do que ela em tudo, dar gargalhada.

Cherry ficou tão vermelha que voltou para sala bufando, deixando o garoto rindo freneticamente no corredor.

“Quem ele pensa que é?”, “QUEM ELE PENSA QUE É?”, pensava repetidas vezes. Sentou-se em sua carteira, ignorando o olhar do professor para a aluna que saiu repentinamente da sala. Mas não importava, porque ela acabara de ser cantada pela luxúria em pessoa.

A aula passou voando. Cherry só conseguiu entender os últimos dez minutos. Ela levantou ainda zangada e, sem perceber, deixou suas coisas caírem.

— Droga! — Mas antes que pudesse abaixar para pegar suas coisas, David surgiu do nada para socorrê-la.

— Com pressa? — perguntou ele calmamente.

De repente sua raiva sumira completamente, pois seu anjo voltara.

— Obrigada. David, não é? ― fingiu, “Garotas têm que se fazer de esquecidas, às vezes”.

— Sim! — disse o rapaz sorrindo.

Ela queria gastar alguns minutos com ele, minutos que apagariam a cena anterior. Mas os amigos de David entraram na sala e o retiraram de lá. Cherry retribuiu com um sorriso, ela ficaria sozinha, com seus pensamentos, já que Lara fora para casa de uma amiga. Esperava não encontrar Alphonse tão cedo.

Havia uma limusine esperando por ela, nenhum dos outros alunos pareceu se importar, era como se fosse algo comum para eles.

Mike já estava dentro.

— Como foi seu primeiro dia? — perguntou repleta de esperança de que seu irmão conversasse com ela sobre o seu dia, que deveria ter sido mais interessante que o dela.

Mike estava meio pálido, mais do que de costume. Então ela desistiu e olhou pela janela.

— Foi estranho. E o seu?

Quase pulou de susto. Mike respondera do nada.

— Estranho demais.

A conversa entre os dois não foi muito longa, só falaram sobre as difíceis matérias de primeiro dia e sobre alunos esnobes, mas nenhum dos dois comentou realmente o que ocorrera.

O carro finalmente estava deixando a escola.

Cherry deu uma olhada rápida na janela e pôde ver um garoto encostado na parede, com um sorriso no rosto, olhando para ela. Mais uma vez todos os pelos de seu corpo se arrepiaram imediatamente.

“Idiota”, pensou com raiva.