Luxúria
7 Amor
Foi uma noite terrível para Cherry. Sua mente não a deixara adormecer, trabalhando a mil sobre o que ocorrera no dia anterior. Quando ela finalmente desmaiara, seu sonho foi repleto de lampejos de sorrisos e rostos frenéticos pertencentes a Alphonse, o garoto que quase a violara.
Seus olhos abriram facilmente e o peso de uma noite mal dormida lhe abateu. Levantou tonta e seguiu em direção ao espelho rindo de si mesma. Olhando para baixo, ela viu a carta de tarô “Luxúria” separada das demais e um acesso de raiva a fez guardá-la na gaveta, como se tivesse colocando seus problemas nela.
Em seguida tomou um banho demorado e chegou à conclusão de que se fosse demorar muito para fazer cada coisa, a lembrança do dia anterior iria voltar. Então fez tudo com bastante pressa.
Christine finalmente bateu em sua porta para alertá-la que o café-da-manhã já estava na mesa. Ela agradeceu por isso. Desceu as escadas encontrando a mesa novamente farta, “Nunca passarei fome aqui”. Mike ainda não descera e ela estava meio preocupada que ele ainda estivesse zangado com o jogo de cartas do dia anterior.
Sentia uma dor de cabeça incômoda e concluiu que da próxima vez tomaria um bom calmante para dormir. Viu Mike finalmente descer sem nem olhá-la, ele engoliu algumas fatias de bolo e saiu para o carro. Lara, a filha de Christine, também havia terminado e já estava indo para a limusine. Cherry bebeu o suco e também se apressou. “Ninguém fala comigo nesse lugar?”.
Ainda estava meio escuro, mas era preciso sair cedo devido à distância entre o castelo e a escola ser enorme. Mike estava dormindo dentro do carro e Lara falava em seu celular. Cherry só pôde admirar a paisagem repleta de neblinas.
Finalmente, chegando à escola, ela percebeu uma espécie de multidão em volta de algo.
A limusine parou, mas ela não sentiu a menor vontade de descer.
— O que será? — perguntou Lara. Cherry balançou os ombros.
Assim que desceram do carro, elas puderam ver um espaço florido, praticamente uma miniatura de um jardim repleto de rosas muito vermelhas por todos os lados. Aquilo definitivamente não estava ali ontem. Mas havia algo mais, uma placa no meio do pequeno jardim de rosas.
“Esse jardim foi feito em homenagem à garota mais bela de nossa escola”
Cherry quase teve um ataque do coração. “Pode ser qualquer outra garota”, mas ela sabia que se tratava dela e sabia quem tinha dinheiro e loucura o bastante para fazer isso: Alphonse.
Seu nome não estava escrito na placa, então seguiu em frente desejando com todas as suas forças que não encontrasse o autor da frase.
— CHERRY, QUERIDA! — Novamente a garota quase enfartara. “Hoje é dia!”, pensou.
Olhou para trás e se deparou com uma garota linda, repleta de acessórios em seu corpo.
— Ah, oi, Jennipher! — respondeu ela olhando para os lados envergonhada.
— Já disse para me chamar de Jenny! — disse a garota com um sotaque muito francês. — Você viu? — perguntou a garota.
— Viu o quê? — fingiu Cherry.
— Oras, o jardim que o Alphonse fez em sua homenagem! — falou a garota energética.
Cherry sentiu uma leve vontade de enfiar sua bolsa na boca da garota.
— Ah, sim... — respondeu ela baixinho. — Então foi ele.
— Claro, sua boba! Quem mais seria? — falou Jenny. — Quer dizer... Não estou dizendo que só ele faria isso por você. Você é bem charmosa.
— Eu entendi. — afirmou Cherry extremamente envergonhada.
Havia muitos alunos tentando ouvir a conversa, ela se esquecera que Jenny fazia parte dos populares da escola.
— Não vamos tornar isso público, ok?
— Eu nunca vi ele assim com nenhuma garota! Me diz o que você fez? — exclamou a garota animada, ignorando o pedido de Cherry.
“Dei um tapa na cara dele e ele gostou”. Cherry ficou tentada a responder dessa maneira.
— Er, nada! — disse finalmente.
— Mentirosa. Me conta vai! — insistiu a garota.
Os sinos da escola começaram a badalar sinalizando que as aulas já iriam começar.
— Nossa! Tenho que ir. — falou Cherry querendo fugir daquele lugar.
— Ah, promete que vamos sair juntas qualquer dia desses? — propôs a garota segurando em sua mão. — Prometa, vai!
— Ok. — desistiu. Em seguida fugiu da garota escandalosa e somente pôde ouvir o barulho de suas joias se mexendo.
Depois de muitas escadas e corredores, ela finalmente achara sua sala, que já estava lotada.
Cherry, ainda de pé, tentava avistar algum lugar na enorme sala enquanto os alunos pareciam muito ocupados em tirar fotos com seus celulares e discutir quem seria a tal garota do jardim. Foi então que avistou, bem no fundo, uma carteira vazia em que ela se acomodou meio envergonhada, já que estava sentada ao lado do grupo falante de qualquer sala.
A professora, “jovem demais para ser professora”, entrou na sala e silenciou rapidamente a turma. Assim que começou a falar, a porta se abriu e um garoto entrou.
Era David. O jovem que Cherry simpatizou em seu primeiro dia de aula. Parecia meio cansado, provavelmente porque, assim como ela, correra para encontrar sua sala.
Foi aí que ela notou que não havia lugares na frente e nem no meio da sala. Mas sim havia um carteira vazia bem ao seu lado. “Será possível?”. Seria possível que ele, o garoto angelical que ela julgara ser perfeito, sentaria bem ao seu lado. Foi a pergunta “como vai?” que a despertou do dilema.
— O quê? — perguntou ela abobada.
— Só te perguntei “como vai?” — falou David confuso.
— Ah, eu vou bem! — “Melhor agora, obrigada”, pensou.
A professora começou a falar que a aula de Literatura seria passada no quadro e explicada na aula seguinte. Ou seja, muita coisa para copiar. Então, foi na primeira frase que a professora escrevera que Cherry entendera o porquê de sua dor de cabeça.
— Droga! — exclamou ela alto o suficiente para David ouvir.
— O que foi? — perguntou ele.
Cherry afundou na cadeira de vergonha por ele ter escutado aquilo.
— Ah, nada. É que eu me esqueci de pôr minha lente de contato — disse ela lembrando da péssima decisão que tivera de fazer tudo com pressa.
— Você usa lentes? — perguntou ele surpreso.
— Sim. Sou meio cega. — “Cinco graus e meio de pura cegueira... Malditos olhos!”.
— Não tem óculos de reserva?
— Tenho sim. Mas por alguma razão hoje eu resolvi esquecer as duas coisas!
David riu com o comentário da garota.
Ele arrastou a cadeira para o lado dela fazendo-a corar ao extremo.
— O que foi? — perguntou ela vermelha.
— Parece que vou ter que ditar para você a matéria. — disse carinhosamente.
— Não precisa. Depois eu pego com alguém! — falou ela nervosa, mas tentando manter a conversa inaudível para o resto da sala.
— Esse alguém serei eu. Mas como minha letra é horrível, então faremos uma troca. Você escreve e eu copio de você depois.
David disse aquilo tudo como se fosse a coisa mais simples do mundo. Na verdade era, mas para Cherry era também a coisa mais linda do mundo.
— Ok, então. — convenceu-se.
O quadro já estava na metade, então Cherry apressou-se em abrir seu caderno e pegar sua caneta. David chegou perto de seu ouvido e começou a sussurrar.
— “William Shakespeare. Foi um poeta e dramaturgo respeitado em sua própria época, mas sua reputação só viria a atingir o nível em que se encontra hoje no século XIX. Os românticos, especialmente, aclamaram a genialidade de Shakespeare...”.
Cherry sentia uma gastura gostosa cada vez que ele pronunciava o “s”. Seu hálito era perfeito, sua voz era perfeita. “Seria cantor?”, pensou.
Ela tinha que se esforçar ao máximo para prestar atenção nas palavras que David falava. Sempre fora rápida para escrever, mas o que a dificultara ali fora ele.
David tinha um visual bastante atlético. Seus cabelos desgrenhados e castanhos realmente caíam bem com seu rosto. Tinha um sorriso que nunca abria totalmente, ali estava seu charme pessoal. Cherry se sentia tentada a abrir aquele sorriso, em se aventurar nele, desvendar seu segredo.
A cada palavra que ele falava, Cherry pensava em algo paralelo à aula, pensava em como seria se eles conversassem. Se aquelas palavras, se aquele som, tudo fosse usado para falar de outras coisas como o tempo, os gostos de cada um...
Quando morava em Baltimore, ela se relacionara com pouquíssimos garotos. Pouquíssimos era igual a dois apenas. Nunca confiara em alguém realmente. Era muito desconfiada. Já discutira com várias pessoas e já perdera muitas amizades por falar demais.
Dele vinha um cheiro de um perfume francês muito conhecido, mas que nele ficava bem melhor, um cheiro que se misturava ao seu tornando-o perfeito. Sussurrava em seu ouvido e olhava para o quadro, tão atento, diferente dela.
— “Shakespeare era também conhecido pelas suas poesias chatas que obrigariam milhares de alunos a estudarem durante séculos e séculos”.
— O quê? — perguntou espantada ao chegar na metade da frase. David colocou a mão na boca para abafar seu riso.
— Palhaço! — disse ela rindo e dando um tapinha na cabeça dele.
— Você parecia meio desconcentrada. — disse rindo.
— E você parecia concentrado no quadro, e não em mim. — Logo depois ela se arrependera de ter falado. “Cherry boca solta atacara novamente”.
— Eu estava. Nos primeiros cinco minutos. — falou rindo, já que levara na boa a resposta de Cherry.
A aula de Literatura terminara. Logo o professor de História entrou na sala e fez o mesmo no quadro. Cherry passou outra aula com a voz doce de David em seus ouvidos, e algumas piadinhas repetidas que ela deixava passar.
Na aula de álgebra o professor passou exercícios em folhas separadas que ela podia enxergar de perto.
— Droga! Sou péssimo em matemática! — disse David coçando a cabeça. Cherry revirou os olhos sorrindo. Ela entendera a indireta.
— Senta do meu lado! — falou ela, pensando um pouco em suas palavras.
David mentira sobre não saber matemática. Ele era muito bom. Os dois acabaram os exercícios muito antes do resto da sala.
— Então, além de cega você tem mais alguma particularidade? — perguntou David. “Além de responder que nem uma louca qualquer investida de qualquer pessoa?”, pensou Cherry em silêncio.
— Acho que não. — respondeu ela apoiando a cabeça em sua mão.
Ele não falara mais nada e Cherry já não podia suportar não responder algo.
— E você, é sempre o senhor perfeito?
David se assustou com a pergunta e Cherry mordeu os lábios: “Droga!”.
— Bem... Acho que sou meio chato com as garotas, porque elas sempre me respondem nervosas.
— Todas elas?
— Brincadeira. Só você mesmo!
— Foi o que eu pensei. — disse Cherry pensativa.
— Cherry é um nome muito bonito. É um nome típico americano?
— Não sei, é muito comum por lá.
— Meus pais são americanos, não sei se David é um nome americano. Eu gosto! — falou ele.
— Você nasceu aqui? — perguntou Cherry reparando no sotaque.
— Na Escócia. Meus pais me enviaram para essa cidade. Queriam que eu tivesse um ensino católico... E essa escola era perfeita para isso.
O silêncio havia voltado e David continuou a falar.
— E seus pais?
— Prefiro não falar sobre isso. — disse Cherry rapidamente. — Desculpe, é que é meio complicado, para dizer a verdade. É muito pessoal.
Como era esperado, David, o senhor perfeito, sorriu e concordou.
Outra aula começara: Biologia. O professor falava sem parar e David parecia muito interessado na aula. Cherry abriu seu caderno e começou a escrever frases soltas. Durante todas as aulas ela escrevera frases que ligaria depois em um poema. Era seu meio de desabafar consigo mesma.
Olhou para o garoto, que tinha um crucifixo no pescoço. Era lindo!
Bateram na porta da sala e uma mulher entregou um bilhete para o professor.
— Senhorita White, sua presença foi solicitada na Diretoria.
Cherry levantou de sua carteira esperando os comentários dos alunos, mas não houve nenhum. Eles simplesmente continuaram a conversar descontraídos.
— Estou ferrada? — perguntou ela para David, antes de deixá-lo.
— Você vai descobrir. — falou ele com seu sorriso entreaberto. — Se você demorar muito, eu vou te procurar.
— Bobo!
Saindo da sala, a mulher que entregou o bilhete mandou segui-la.
Como esperado, a Diretoria ficava no andar mais alto. Ela estava exausta dos corredores e escadas. Elas pararam em uma porta bem trabalhada, logo que Cherry entrou viu uma enorme sala. Mas o que importava a sala imensa e seus inúmeros quadros e outras artes trabalhadas, se um garoto estragara tudo aquilo?
— Olá, Cherry! — cumprimentou Alphonse.
Estava muito bem vestido e com a camisa atrevidamente aberta.
— Legal! Onde está o diretor? — falou ela contendo o pânico.
— Sei lá! Viajando provavelmente. — disse ele como se fosse algo não importante. — Eu precisava falar com você!
Cherry perdera o raciocínio. Onde estava a lógica disso tudo? O diretor não estava, uma funcionária a conduzira para uma cilada. Quem, afinal de contas, era esse garoto?
Ele começou a se aproximar dela, e ela recuou vários passos.
— Não se preocupe. Não vou encostar um dedo em você. — falou ele firme. Cherry quase acreditou — Nós apostamos, lembra?
— Sim. — “Apesar de desejar que fosse tudo um pesadelo maldito”.
— Só queria estabelecer umas regras para que a aposta seja mais divertida!
“Era tudo um jogo para ele”, pensou Cherry. Ele se deliciava com o desafio.
— Fale. — Cherry pensou em simplesmente deixar a sala. Mas o que isso poderia provocar?
— Primeiro: Você não pode me evitar sempre. Tem que me dar uma oportunidade de ao menos tentar!
O coração de Cherry disparou.
— Como assim? — perguntou ela aflita.
— Você vai sair comigo!
— Não! — disse ela automaticamente.
— Não se preocupe. Jenny também vai! Vamos visitar as lojas da cidade.
Ela analisou a proposta por alguns minutos, não era tão ruim. Jenny estaria com ela. Apesar de não serem amigas, ela estaria no meio de várias pessoas na loja.
— Ok! Se a Jenny realmente for, tudo bem!
Alphonse uivou de felicidade, como se estivesse no caminho certo. Um pouco do medo de Cherry a abandonou.
— Minha regra: Você não pode me perseguir! — falou ela.
— Ok!
— Nem... me encurralar em um beco escuro!
— O quê?
— Você me entendeu. Não se faça de sonso!
Ele riu alto.
— Ok. — disse ele tirando o cabelo dos olhos. — Eu vou te deixar em paz por uma semana. Vamos sair nesse meio tempo, mas não vou te incomodar nesse período.
— Ótimo! — falou ela, demonstrando não ter mais medo. Afinal ela simplesmente o dispensaria nesse encontro. Ia ser fácil.
— Até lá então! — falou ela indo embora.
— Espere! — chamou estendendo a mão.
— Sim? — disse ela já completamente fora da sala.
— Você gostou do nosso cantinho florido?
— Sou alérgica a cantinhos floridos. — E fechou a porta.
Só pensava em voltar para David. Esperava que ele não tivesse trocado de lugar, que a estivesse esperando e que aquela brincadeira feita por ele fosse verdade.
Ele ainda estava a sua espera, e Cherry não conseguiu conter um sorriso quando entrou na sala.
— E então, está muito ferrada? — perguntou ele tentando imitar o sotaque americano dela.
— Não. Eu posso me virar nessa. — admitiu.
O dia foi incrível para Cherry, por alguma razão David abandonara seus amigos e passara o tempo todo com ela. No intervalo, conversaram sobre futebol, algo que sentia abominação, mas com David falando tornava-se algo de extremo interesse.
Era estranho como ele entedia suas necessidades. Suas piadas iam mudando com o tempo, como se ele decifrasse o gosto dela. Nunca a sufocava avançando em seu espaço, havia sempre uma linha, mesmo que quase nula, entre os dois.
O dia acabara e Cherry sentia uma estranha disposição para fazer seus deveres em casa. Lara não estava muito presente nesses dias. Devia estar na casa de alguma amiga.
O dia seguinte finalmente chegara. O terceiro dia de aula, mas para Cherry parecia o centésimo. Era incrível como tanta coisa poderia acontecer em dois dias. O terceiro foi melhor que os dois primeiros. Ela não esquecera as lentes novamente, mas David conseguiu o feito heroico de sentar-se ao seu lado mais uma vez.
— Tem certeza de que não quer que eu dite para você? — perguntava David esperançoso.
Cherry estava tentada a dizer sim.
— Não. Hoje eu não estou cega. — ela soltou uma risadinha.
Mas isso não o impediu de no final da aula já estar praticamente colado a sua mesa.
Novamente passaram o dia inteiro conversando alegremente. Cherry já não ligava muito no que dizer para ele. David nunca se importava com isso.
Assim foi a semana inteira. Ela acabou fazendo outras amizades, alguns amigos dele vieram falar com ela. Ela achara todos muito simpáticos.
— Na sua frente eles são totalmente diferentes. Você sai, e eles me enchem de perguntas! — falou David risonhamente.
— Sei como é isso.
Ela não tinha certeza se sabia mesmo, mas quem ligava.
Já era a última aula e David parecia apreensivo em perguntar algo para ela, e isso a deixou nervosa.
— Escuta. Eu estou tendo dificuldades em matemática ultimamente. Será que você não poderia me passar o seu... celular? — perguntou ele como se fosse a coisa mais impossível de se perguntar para alguém.
Claro que Cherry sacou que era uma desculpa, mas a essa altura ela aceitava qualquer coisa de David, mesmo que ela esperasse algo mais como um “quer sair comigo?”.
— Claro! — falou Cherry anotando seu telefone na velocidade da luz.
— Dois?
— Sim. Esse é do meu quarto. — falou ela acanhada.
— Do seu quarto? — perguntou confuso.
— É. Digamos que minha casa seja meio grande!
— Como grande?
— Grande tipo... um castelo. — disse finalmente.
— Oh, entendo. Você faz parte dessas famílias bem ricas da nossa cidade. — concluiu ele meio sério.
— É mais ou menos isso sim. — confirmou ela.
O resto do dia então se resumiu a contar para David sobre o castelo onde ela morava, até que um “bipe” de celular a interrompeu.
AMANHÃ VOCÊ CUMPRIRÁ SUA PARTE!
Assim estava escrito na mensagem em seu celular. As dúvidas vieram à sua cabeça: Onde ele conseguiu seu número? Como ele conseguia ser tão desagradavelmente esperto?
— O que foi? — perguntou David confuso.
— Nada! Só me lembrei de um compromisso.
— Seu celular te lembrou de um compromisso?
— É, mais ou menos. — assentiu.
Cherry foi para casa um pouco menos feliz do que nos dias anteriores, afinal de contas ela aceitara as condições dele.
Era incrível como Mike não se interessava nem um pouco em sua vida, ele sempre voltava calado e absorto em seus pensamentos revoltados, deixando Cherry pensar se ele ainda estaria bravo com ela sobre as cartas. Antes de chegar ao castelo, seu telefone tocara. Ela desejava com todas as suas forças que fosse David e não Alphonse. Ela se enganou nas duas opções.
— Alô, Cherry? — Era claramente a voz de Jenny.
— Sim! — “Quem mais seria?”, pensou ela.
— Ah, tá. Só liguei para saber se você está animada para amanhã?
— Super. — disse ela, não escondendo nem um pouco seu sarcasmo. Mas Jenny se mostrou imune a ele.
— Eu também! Faz uma semana que eu não saio para fazer uma compra geral. Vamos nos divertir para valer! — falou empolgada.
— Tenho certeza que vamos. — acrescentou Cherry.
— Olhe, não se preocupe. O Alphonse vai ficar sob rédea curta! — prometeu.
Jenny finalmente falara algo de interessante.
— E você vai dar conta de segurá-lo?
— Querida, se ele passar dos limites, vai levar tapas! — disse Jenny rindo.
“Tenho certeza que ele vai gostar disso.”, pensou Cherry.
Foi aí que a conversa começou a ficar divertida, deixando o longo caminho parecer muito curto. Jenny contava piadas muito engraçadas e sua inocência divertia muito Cherry. Conseguiu imaginar um dia gasto em sua companhia.
Cherry subiu para seu quarto meio exausta. Precisava de um bom banho e uma boa ajuda psicológica. Com o banho rápido e sem a necessidade de lavar seu cabelo, ela caiu na cama. Não adormeceu. Então pegou suas tarefas e tentou fazê-las.
O telefone tocou fazendo-a acordar para o horário que já passava das dez.
— Oi! — atendeu ela com a voz rouca.
— Oi! É a Cherry? — perguntou a voz doce. “Não, é a minha avó”.
— Sim, sou eu. Quem é? — perguntou Cherry.
— Ah, oi, Cherry! É o David do colégio!
Cherry arregalou os olhos e se esparramou na cama jogando seu material para bem longe.
— David! — respondeu alegre até demais. — Qual é a nova? — “Além de que sou uma velha que não sabe perguntar como as pessoas andam”.
— Dificuldade em matemática. Essa é a nova! — falou ele desconcertado.
Cherry revirou os olhos alegres. Era mentira, claro!
— Pois para mim essa é velha! — Ela e David riram muito.
— Já estava indo dormir?
— Não, estava muito concentrada nos estudos. Eu não tenho vida social! — disse ela.
— Eu não disse nada! — riu novamente.
— Não precisa. Nossa! Desde que vim morar nessa cidade eu não fiz nada de interessante — reclamou.
— Pois nem precisa dizer mais nada, vamos marcar para sair!
Cherry tentou recapitular o que dissera. Ela teria acabado de se insinuar para ele?
— Ah, ok! Podemos agendar isso. — falou ela meio sem jeito.
“Droga! Agora sou uma velha ocupada!”
— Ah, desculpe. Não sabia que você era tão ocupada.
“Por que eu sou assim?”, disse Cherry mentalmente, batendo em sua cabeça.
— Não sou ocupada! Eu gostaria de sair sim! — “Só não queria parecer uma desesperada.”
— Gostaria de sair comigo? — perguntou David.
Cherry foi pega de surpresa. Apesar de esperar pelo convite, ela se assustou mesmo assim quando o pedido simplesmente veio.
Estava confusa: deveria se entregar assim? David era o cara perfeito, ela adorava seu jeito e como tinha o dom de fazê-la feliz. Estava demorando demais para responder.
— Sim, claro. — disse finalmente.
— Olha, se não estiver a fim, eu vou entender perfeitamente.
— Eu quero sim, pode ter certeza disso!
David mudou de assunto com muita habilidade, pois conseguiram conversar durantes horas. Cherry estava muito à vontade em sua cama.
— Onde você está? — perguntou David.
— Na minha casa, na minha cama para ser especifica. — Suspeitou até onde essa conversa iria parar. David seria esse tipo de garoto?
— Que sorte — falou cansado.
— Por que sorte?
— Ah, porque você está na sua cama quentinha e eu estou no corredor em pé, no frio! — disse ele rindo.
— Coitadinho! — falou Cherry em voz alta — Você é doido, estamos horas aqui!
— É, eu sei! — disse rindo novamente.
Cherry tentou imaginar a cena: David de pé durante horas.
— Acho que vou desligar, minhas pernas estão doendo!
— Ah, foi minha culpa! Eu falo que nem uma matraca! — falou Cherry pesarosa.
— E eu adorei escutar essa matraca. — acrescentou, fazendo a garota corar.
— Ah, cale boca e vá dormir! — disse ela envergonhada.
— Ok. Boa noite! A proposta de sair comigo ainda esta de pé? — perguntou calmamente.
— Sim, está.
— Então, boa noite!
— Boa noite!
Antes de desligar, ela beijou o telefone com cuidado e depois pensou: “sou louca”.
Conseguiu dormir bem. A voz de David sem dúvida alguma a fizera se sentir melhor. Antes de dormir naquela noite, ela tomou mais algumas notas em seu caderno. Muito absorta em seus pensamentos, não percebera que lá fora começara a nevar.
— É comum nevar fora de época. Isso acontece muito em Newcastle! — disse a criada Christine.
Mas, diferente do dia anterior, agora estava um dia ensolarado e Cherry olhando para sua lista de horários percebeu que teria um dia inteiro de Educação Física. Mas o que mais a assustou foi o fato de o uniforme ser muito curto para seus padrões.
— O que é isso? — perguntou indignada para Lara.
— O uniforme, oras! —respondeu normalmente.
— Isso pode ser muitas coisas, mas uniforme não é uma delas!
— Olha, só sei que eles são bem rigorosos quanto ao uso do uniforme. — Cherry xingou baixinho e foi para escola indignada. Mike não ligou muito para seu uniforme, e muito menos para Cherry.
A escola estava do mesmo jeito que foi na semana inteira. “Por que estaria diferente?”. Mas no fundo sabia que esperava algo mais, tipo um David correndo ao seu encontro. Mas não aconteceu.
Na verdade ele parecia muito entretido em seu jogo de futebol. Cherry pôde vê-lo de longe. Ela se distanciou de Mike para ficar sozinha. Seu celular tocou.
— Oi! — falou meio esperançosa, apesar de David estar claramente ocupado para telefonar.
— Ocupada? — falou uma voz.
— Quem é?
— Só um cara que veio cobrar uma promessa.
Ela parou por um segundo ou dois, sua mente não se deu ao trabalho de pensar.
— Alphonse. — concluiu desapontada.
— Me chama de Al ou Luxúria, se preferir. — pediu.
— Olha, Alphonse, eu estou na aula. O que você quer?
— Que cumpra a promessa!
— Hoje? — perguntou ela.
— Agora! Olhe para o lado!
Cherry virou para todos os lados possíveis até avistar bem longe do campo um luxuoso carro vermelho. A parte externa da escola era composta pelo enorme campo de futebol cercado por árvores gigantescas, mas logo atrás delas a rua era visível.
No carro ela pôde ver uma garota com vários objetos reluzentes no corpo, estava em pé junto ao carro e acenava alegremente. Ela jurava que ouvira um berro “Cherry!”.
— Doido! — resmungou baixinho.
— Estamos te esperando. — falou confiante.
— Eu não vou matar aula! — disse ela em tom furioso.
— Claro que vai! Você me prometeu!
— Prometi que te daria uma chance!
— Pois bem, me dê agora!
Cherry não gostou nem um pouco do uso do verbo que ele acabara de fazer, mas contra sua vontade foi em direção a eles, muito cautelosa para ver se alguém a via.
Infelizmente ninguém pareceu notar.
Alphonse e Jenny estavam extremamente elegantes, de um jeito que combinava muito bem com pessoas que matariam aula o dia inteiro. Jenny estava com óculos de sol enormes e Alphonse com óculos escuros discretos, mas que seu sorriso tirava todo o “discreto” que ele fingia ser.
— Cherry, querida! Suba aqui! — exclamou ela chamando a garota.
— Gente, não é uma boa ideia... — retalhou ela dando um tapinha na mão de Alphonse que tentara pegar a sua.
— Vamos logo, entre de uma vez! — disse ele rindo.
— A educação não bateu na sua porta hoje não?
— Quê? Na minha porta? — perguntou confuso.
— Ah, esquece! Eu não vou entrar no seu carro. — falou aborrecida cruzando os braços.
— Ah, Cherry querida, por favor! — implorou Jenny. — Prometo que vou colocar uma coleira nele. Vai ficar quietinho.
Cherry olhou para Alphonse, ele colocou a língua para fora e imitou um cachorro obediente. Ela riu sem querer.
— OK, que seja!
E dizendo assim pulou para o banco de trás.
— Eu acho que você deveria trocar de lugar com a Jenny.
— Não abuse! — falou Cherry prendendo-se ao banco de trás.
Antes que qualquer um dentro do carro, que não tinha capota, pudesse dizer “vamos lá”, o carro avançou com fúria!
— Dá para você dirigir que nem gente? — pediu Cherry.
Jenny riu.
— E, afinal de contas, que idade você tem?
— Dezessete, e você? — respondeu, atacando-a imediatamente com uma pergunta.
— Dezesseis. — desconversou.
— Mas a lei deste país não permite que menores de dezoito dirijam, não é? — ponderou Cherry.
— Ah, Cherry querida! Eu não lhe disse que temos alguns privilégios nessa cidade? — Jenny falou com a mais pura naturalidade.
O carro finalmente diminuiu a velocidade. Estavam no centro da cidade. Ela pôde reparar que a cidade não era nada atrasada. Havia muitas lojas luxuosas e vários restaurantes de primeira. Na verdade, Newcastle era bem grande, e quanto mais o carro atravessava as ruas, Cherry tomava conhecimento disso. Uma das coisas mais bonitas da cidade era sua ponte que continha um enorme aro. “Que lindo!”, pensou, enquanto o carro corria pela ponte.
— Antes de tudo, Al, você vai deixar a gente no salão! — perguntou Jenny.
— Salão? — indagaram ambos.
— Isso mesmo! Nem pense que vamos sair para fazer compras desse jeito em que estamos! Salão já! — falou ela enrolando seus cachos dourados.
Alphonse bufou. Cherry não sabia o que falar. Ela só se lembrou do simples fato de não ter levado nem um centavo.
— Ah, não esquenta com isso! Hoje e sempre é por minha conta! — disse ela com a língua nos cantos.
O carro parou em um enorme e exagerado salão. Cherry não acreditara que poderia existir um salão tão grande e luxuoso.
— Me liguem, e não demorem! — disse ele.
Cherry não olhou para trás. Jenny foi ao seu encontro.
— Olha, eu prometi segurá-lo, mas você vai ter que dar uma chance para ele.
— Maldita promessa...
— Promessa é dívida, amiga! — disse ela rindo.
Assim que entraram no enorme salão, várias mulheres foram ao seu encontro. Todas sabiam o nome de Jenny. Em alguns segundos as duas estavam sentadas em cadeiras extremamente fofas, e um homem, que sabia muito bem o que estava fazendo, mexia no cabelo de Cherry freneticamente.
— Eu quero que capriche nela, Renoá. Não que ela precise! — disse ela tentando ser amigável.
Passaram-se vários minutos e Cherry resolveu conversar mais com Jenny.
— E então, o que vocês são? — perguntou ela.
— Eu e o Al? — disse Jenny um tanto preocupada.
— Sim. — insistiu.
— Bem, somos grandes amigos. A família dele foi muito generosa em me aceitar em sua casa. Somos amigos desde então.
— A família dele deve ser boa gente. — Cherry tentou imaginar como seriam.
— São muito ocupados. Alphonse toma todas as decisões, são parentes próximos... ele não tem pai nem mãe.
— Não?
— Acho que morreram. Sei que a mãe morreu há muito tempo. Então Al herdou tudo o que eles tinham.
Uma parte de Cherry sentiu um pouco de pena do garoto. Não ter pais deve ser muito difícil. Ela estava vivenciando algo semelhante a isso no exato momento.
— É difícil imaginar alguém como ele tendo amigas e não namoradas. — falou ela tentando mudar de assunto.
— Ah, bem... Já namoramos. — confessou Jenny meio sem jeito.
— O quê?
— É, isso foi no começo, sabe. Tivemos um lance, mas acabou muito rápido. Ainda bem, porque só depois disso eu pude conhecê-lo melhor. Nos tornamos meio que irmãos.
— E por que terminaram?
Cherry estava muito curiosa, mal podia esconder isso.
— Digamos... que eu não fui muito especial para ele. Acho que o Al é o tipo de cara que beija primeiro para depois perguntar o nome!
— Eu acredito que seja! — falou Cherry.
— Mas com você foi diferente. Nunca o vi correr tanto atrás de uma garota.
— Ele não correu tanto assim. — corrigiu Cherry.
— Mas se tratando dele, amiga, isso foi bastante coisa!
Cherry e Jenny mudaram o assunto. Conversaram sobre cabelo, trabalhos, casamento, filhos... Jenny era mestre em inventar assuntos.
— Eu simplesmente acho muito cedo para pensar nisso! — resmungou Cherry, rindo um bocado daquilo tudo. Era extremamente fácil rir na presença de Jenny.
— Eu quero ter dez filhos, no mínimo. Se a Angelina pôde, por que eu não? — Jenny disse como se fosse uma coisa simples. — Às vezes me pergunto se conseguirei casar com um homem só. Quer dizer... São tantas opções, não é justo com eles.
— Se você diz... Para mim um já basta! — exclamou ela.
— Oh, querida! Um nunca basta. Você precisa sempre ter um escape para manter as coisas acesas! — falou Renoá, o cabeleireiro.
E em seguida as duas estavam dando gargalhadas altas.
Nas primeiras duas horas que passaram no salão, Alphonse ligara umas cinco vezes.
— E você veio para Newcastle por quê? — perguntou Cherry quando Jenny convencera o garoto a esperar mais alguns minutos.
— Bem... Lá em Paris é bem legal, mas meus pais queriam que eu crescesse na alta sociedade e fosse educada pelos melhores, e realmente aqui eu encontrei muitas possibilidades.
— E o Alphonse, recebeu você de braços abertos?
— Sim, todos nós!
— Nós?
— Todos nós, os sete. — falou ela. — Somos de diferentes países. O Luxúria simplesmente recebeu a todos nós, tem bastante espaço naquele castelo.
— E vocês se dão bem, todos os sete? — Cherry estava curiosa demais.
— Não muito. Eu sou mais apegada ao Al, sabe! Ele sempre foi um bom amigo para mim, vive me apresentando para algumas garotas para que eu faça novas amizades. Mas são todas tão sem graça!
Naquele momento algo crescera no peito de Cherry, era uma espécie de afeição. Um novo olhar, uma espécie de lado bom no garoto surgira para ela. Renoá finalmente acabara e ela olhou para si mesma no reflexo, estava muito melhor, seu cabelo estava mais leve, mais solto.
— Ficou lindo! — disse Jenny, admirando-a por alguns minutos. —Vamos para loja ao lado comprar alguma coisa para você.
— O quê? Ficou louca? Eu não quero nada, por favor! — implorou Cherry.
Mas Jenny puxou-a com vontade.
A loja não perdia nem um pouco para o salão, era muito enfeitada e novamente várias pessoas vieram ao encontro de Jenny. Passou-se mais uma hora e Cherry vestira várias roupas. Jenny estava linda em um vestido dourado.
Cherry olhava para roupa violeta que estava em sua mão, estava meio cansada de experimentar. Ela então sentou-se na cadeira onde estava, dentro da cabine de troca de roupa.
Jenny entrou animada com algo escondido.
— Mais um vestido? — gemeu Cherry desanimada.
— Esse é o melhor vestido da loja, chegou diretamente de Paris!
Ela mostrou um belíssimo vestido vermelho, Cherry tocou seu tecido e reconheceu imediatamente como algo de muitíssimo valor.
— Prove só mais esse, depois saímos daqui! — Ela jogou para Cherry.
Demorou um pouco e uma mulher entrou para ajudá-la. Minutos depois, ela saiu meio envergonhada e insegura de dar qualquer passo adiante.
— Ai, meu Deus! — gritou Jenny.
Cherry estava encantadora.
O vestido vermelho que descia até um pouco mais que seus joelhos tinha um decote na frente e outro atrás, que deixava à mostra as costas da garota de um jeito extremamente sensual. O decote da frente realçava seu busto, ela havia jogado seu cabelo para trás dando uma fantástica combinação. Ela estava linda!
Havia um espelho à frente. Cherry teve que concordar com os olhares surpresos que a cercavam, ela estava realmente atraente. As duas horas gastas no salão refletiam bem ali na sua frente, seu cabelo extremamente brilhoso descia até suas costas, mais escorrido do que de costume.
Os funcionários da loja a aplaudiram, envergonhada ela agradeceu.
Foi quando percebeu que havia um garoto à sua frente. Um garoto que não tinha mais certeza se estava no céu ou na terra. Um garoto que não sabia se o que estava bem à sua frente era um anjo ou o mais belo demônio que já vira na vida. Alphonse estava completamente paralisado.
Cherry retribuiu o espanto hipnótico do garoto com um sorriso acanhado, foi aí que todos os pelos de seu corpo voltaram a arrepiar.
Ela não sabia o que era. Uma sensação diferente do frio, nova, jamais inventada. Sentia uma forte emoção que não era dela, seu coração acelerou, olhou para o garoto à sua frente, tão compenetrado em seu corpo.
Ele a desejava intensamente, as luzes da loja começaram a piscar freneticamente.
— Maldita fiação! — disse uma mulher alta correndo desesperada para os fundos da loja.
— Cherry, esse vestido é perfeito para você! — falou Jenny dando um tapa na cabeça de Alphonse. — Ela vai levar!
As luzes voltaram ao normal.
— Não! — falou Cherry rapidamente. — Não, por favor, não vou aceitar. Eu sei que essa roupa é muito cara. Jenny, eu disse não, por favor! — falou ela seriamente.
— Sua bobinha, a loja é minha! Eu faço o que quiser com as roupas, e eu quero dar o vestido para você! — falou rindo.
Cherry não pôde acreditar no que ouvira, a loja pertencia a ela!
Alphonse se aproximou dela como um predador, ela percebeu a tempo, mas ele se conteve.
— Você está perfeita! Você é a perfeição, nunca vi uma garota tão linda em toda minha vida! — disse ele fitando-a.
Cherry ficou extremamente incomodada com os elogios e não sabia o porquê.
— Vocês garotas se divertiram, imagino? — falou ele com as meninas. — Agora é a minha vez.
Ele estendeu a mão para Cherry, que olhou suplicante para Jenny, mas essa balançou os ombros. Afinal de contas, ele se comportara.
Ela permitiu que ele pegasse em sua mão, e uma estranha corrente de energia passou por todo seu corpo.
— Jenny, você volta para casa sozinha. — disse ele puxando Cherry. Jenny gritou:
— Sem gracinhas com ela! Eu ainda quero sair muito com ela, ouviu?
Mas Alphonse ignorou. Cherry dessa vez controlava a si mesma, mas não se conteve, ela prometera e ele fora paciente.
Ela simplesmente acabaria com isso agora.
Dentro do carro, Alphonse se distanciou rapidamente do centro da cidade.
Algo estranho acontecia cada vez que um sinal ficava vermelho, ele rapidamente mudava para verde. Ela não conseguiu acreditar naquilo. Eles não só se distanciaram do centro, como também da cidade inteira. Cherry começou a entrar em pânico: “como eu pude ser tão burra! Agora ninguém pode me ouvir gritar!”.
Estavam na estrada e o sol ainda brilhava no céu. Ela não falara nada, estava suando muito e seu vestido vermelho, que se esquecera de trocar, agora a incomodava muito.
Finalmente pararam em um campo aberto do lado da estrada. Ele saiu do carro e pegou em sua mão novamente, não havia como não notar seu medo.
— Não se preocupe, sua casa fica aqui perto, se não percebeu.
Cherry então identificou a estrada, realmente estavam bem perto do castelo.
Sentiu-se meio ridícula por ter sentido medo. Não havia até agora motivos para isso, afinal, estava perto de casa e Alphonse se comportara o dia inteiro. Parecia até outra pessoa.
O campo aberto possuía uma grama extremamente verde. O céu estava sereno, era finalmente fim de tarde.
Ele a conduziu para o campo adentro. Cherry caminhou por alguns minutos com ele: “O que estou fazendo aqui?”, perguntava-se. Até se deparar com a visão mais incrível de sua vida.
Era lindo!
Um espelho enorme de água bem à sua frente refletia o azul do céu sem nuvens. Aquilo era um enorme e raso lago. Havia alguns cisnes que brincavam na água e claramente era possível ver o solo e suas pequeninas pedras arredondadas. Era mágico para ela.
— Nossa, que incrível! — disse ela andando por conta própria em direção ao lago. — Isso é simplesmente incrível!
O lago se expandia por muitos e muitos metros a diante.
— É obra da chuva. Toda vez que cai uma tempestade, o pequeno lago vira um enorme espelho d’água. — disse ele satisfeito com tudo aquilo à sua frente. Uma maravilha da natureza a ser apreciada.
A brisa que o campo proporcionava era maravilhosa, terna e refrescante. Cherry se sentia muito bem ali, seus medos, temores e problemas foram levados pelo vento. Aquilo tudo a fez girar conforme a brisa.
Ela dançara em círculos, com seus braços abertos, sentindo a brisa e o cheiro úmido maravilhoso. Junto à paz que aquilo tudo proporcionava a ela, seu pés agora descalços dançavam na grama. Com as pontas dos dedos ela tocava o vento, o vento amigável, respirou bem fundo e parou a dança com um giro delicado.
Alphonse a aplaudiu.
— O que foi isso? — perguntou ele intrigado.
— Se chama dança dos ventos. Minha mãe me ensinou quando eu era pequena! — explicou ela olhando novamente para o lago. — Nunca pensei que dançaria isso novamente...
— Você conseguiu o feito de ser mais graciosa, mais bela e mais fascinante do que o lago!
— Ah, cale a boca, vai! — disse ela rindo.
Ele se aproximou dela, muito perto dessa vez, inclinando a cabeça, mas de forma que seu ouvido ficasse na frente de sua boca.
— Diga meu nome. — pediu ele em suspiro. Estava em uma espécie de transe emocional.
— O quê? — perguntou ela confusa, tentando se afastar.
— Fale meu nome. Você nunca o disse para mim, não de tão perto! — falou sussurrando. Ele ofegava tanto e se aproximava de tal modo que a derrubou no chão. Estava em cima dela, com os olhos pregados ao seu corpo.
Cherry estava assustada, pois ele não mudara de posição, e o ouvido tão perto dos lábios dela.
— Diga! — falou novamente. — DIGA MEU NOME! — berrou ofegando. Não conseguia entender o que ele queria com aquilo, tinha medo. Resolveu obedecer.
— Al... Alphonse. — falou ela baixinho.
— MAIS ALTO, POR FAVOR! — ordenou.
— Alphonse! — disse ela firme. Seu coração começara a bater mais rápido.
— Mais uma vez, por favor! Só mais uma vez! — estava muito ofegante, sem fôlego, parecia repleto de prazer e exaustão.
— Alphonse! — disse ela novamente respirando com dificuldade. — Alphonse!
Algo a impulsionava a falar mais, uma energia que circulava em seu corpo fazendo-a se ligar a algum sentimento que não a pertencia. Uma euforia que não era dela.
Sua respiração era dolorosa, fazendo-a subir e descer devido ao esforço.
— Mais uma vez! — insistiu o rapaz.
— Alphonse!
— Mais!
— Alphonse!
— Mais!
— Alphonse!
— MAIS!
— ALPHONSE! — tentou gritar. — ALPHONSE!
Ele parou finalmente. Seu peitoral se movimentando com muita pressa devido à dificuldade de respirar.
Com um movimento, Alphonse despencou no colo de Cherry. Parecia satisfeito e extremamente cansado. Ela também se sentia assim, como se tivesse acabado de compartilhar alguma emoção, algum sentimento com ele, algum ato.
— Vou levá-la para casa! — disse ele do nada, causando espanto com a decisão repentina.
Levantou sem olhar muito para ela, o carro arrancou com rapidez e em alguns minutos estavam à frente do castelo.
— Seu castelo é enorme, mas não tanto quanto o meu. — falou sem demonstrar muito espanto e nem uma entonação diferente da de antes.
— É, você já disse isso.
Não sabia por que estava séria, odiava a si mesma por esperar uma explicação para aquilo tudo, e odiava ainda mais esperar que ocorresse algo mais.
— Vamos continuar com a aposta, eu vou ficar mais uma semana sem vê-la! — disse ele. Cherry o olhou curiosa.
— Tudo bem! — falou meio cansada. — Faça o que quiser...
Alphonse se despediu dela e em segundos já estava na estrada novamente. Cherry ficou olhando o carro ir embora.
No castelo, ela subiu rapidamente e trocou de roupa. Tomou um bom banho e, para sua surpresa, o perfeito penteado não se desfez. O que ele fizera em seu cabelo?
Jenny telefonara para ela e as duas conversaram por uma hora. Ela estava extremamente cansada e queria muito ir dormir, mas o telefone tocou novamente e desta vez era David.
— Você sumiu hoje! — disse ele com sua voz que ela julgava perfeita.
— Fiquei meio doente e vim para casa! — disse ela sentindo um enorme remorso de mentir para alguém tão bom.
— Nossa. Espero que esteja melhor. — a preocupação do rapaz deixava tudo pior,
— Estou um pouco cansada! — admitiu.
— Me desculpe, por favor, descanse.
— Não! — disse ela em susto. — Pode falar! — “Para você eu sempre terei forças”.
David contou sobre as partidas de futebol, Cherry contou sobre seu desprezo sobre o esporte e os dois riram durante horas até que finalmente ele falou:
— O encontro ainda está de pé, não é? — perguntou ele.
— Claro que está! — concordou.
Cherry percebeu então algo horrível. Ela não dispensara Alphonse como planejara, pelo contrário, permitira que se encontrassem novamente. Teria que dar um fim nisso.
Ela desligou seu telefone, já era de madrugada.
Como de costume, ela pegou seu caderninho e expressou seus sentimentos confusos, afinal, o que ela sentia por David? Ele era tão compreensível, ele a entedia completamente, respeitava seus limites. Ela, sim, admitia que estava amando.
Pegou seu celular e encontrou o número de Alphonse salvo. Digitou uma mensagem:
DESCULPE, MAS SEM ENCONTROS NOVAMENTE!
Depois disso rolou para o lado da cama, com um estranho remorso no peito.
No dia seguinte Cherry acordou em um salto e realizou todos os rituais matinais. Antes que pudesse perceber, ela já estava bem próxima à escola, seu telefone tocou.
— Oi?
— Cherry! — era a voz de Jenny. — Onde você está?
— Eu estou quase chegando à escola, por quê? — Cherry sentiu uma pontada de culpa, e ela odiava essa sensação.
— Meu Deus! Cherry, volte para casa, você não pode ir para escola hoje! — disse ela desesperada
— Mas por quê? — perguntou espantada.
— É o Alphonse...
— O que tem ele?
— Ele bebeu um bocado. Você precisa voltar para casa!
Cherry não queria fazer o que fez, mas ela fez.
Com um "click” ela desligou seu celular antes que Jenny pudesse falar qualquer outra coisa. Não iria escutar mais, se ele enchera a cara, isso não era da conta de Cherry. Ela não ligava para isso.
O carro parou e não havia sinal nenhum de Alphonse. Estava tudo muito normal e os alunos se preparavam para entrar em suas salas.
Assim que começou a aula, o professor anunciou que naquele dia as aulas terminariam depois do intervalo, pois todos os professores fariam uma espécie de reunião geral.
David estava tão empolgado que não deixara Cherry se corroer em seus pensamentos. Ela sentia uma sensação estranha, como se tivesse feito algo muito errado e que logo arcaria com as consequências.
— Vamos ter uma espécie de campeonato hoje, graças a essa reunião de última hora. — dizia ele várias vezes. — Você poderia ir lá me ver? — perguntou ele com sua voz doce de sempre.
— Claro. — respondeu ela, completamente distraída de tudo. Só conseguia pensar no que iria acontecer.
O sinal da última aula antes do intervalo tocou.
Cherry pegou suas coisas e foi para a área externa da escola, onde havia várias mesas em que os alunos sentados lanchavam descontraídos. David foi comprar algo para os dois.
— Ah não, Cherry, você ainda está aqui! — exclamou Jenny, surgindo do nada. Ela estava meio agitada.
— Sim, estou. — respondeu Cherry encarando a garota que nada tinha de culpa.
— CHERRY!
Foi então que o coração da garota parou por alguns segundos.
Alguém gritara seu nome tão alto que todos os alunos pararam o que estavam fazendo para olhar.
— CHERRY! — gritou a voz novamente.
A multidão de alunos se afastava lentamente, permitindo que ela visse quem estava gritando.
— CHERRY!
Alphonse estava lá.
Em cima de uma das mesas, o garoto estava com uma garrafa de bebida na mão. Andava de forma instável cambaleando de um lado para o outro em uma espécie de ginga engraçada.
— CHERRY, VOCÊ PROMETEU! — Ela estava aterrorizada, não sabia para onde ir.
— EU ME COMPORTEI! — berrou novamente com a voz esganiçada.
Alguns riam alto, outros olhavam atentos.
— Pare já com isso, seu idiota! — Ela se aproximou do garoto e o alertou baixinho para que ninguém pudesse ouvi-la.
— MAS EU ME COMPORTEI! — gritou para que todos pudessem escutá-lo, como se fosse algo difícil.
Ela virou para fugir dali, mas antes que percebesse, o garoto puxou sua mochila. Ela insistiu e, para sua surpresa, conseguiu se livrar.
Caminhando muito depressa para bem longe, escutou mais uma vez os berros aterrorizantes.
— O QUE É ISSO? — falou ele com a voz louca. Cherry andava mais depressa.
— UM POEMA? É PARA MIM?
Cherry parou imediatamente, e seu coração também. Em um momento de desespero meteu a mão nas costas e reparou que parte de sua mochila estava rasgada e que, para seu terror, faltava um caderno. Um específico caderno.
Alphonse girava o caderninho em sua mão, mal conseguindo fixar sua visão nas páginas. Ele deu uma tossida exagerada, passando a ideia de que começaria a ler.
— O TITULO É “AMOR”! — disse ele rindo.
Cherry entrou em pânico, estava em um pesadelo ambulante e todos estavam prestando atenção nele.
— CHERRY, MEU AMOR, VOCÊ ESCREVEU UM POEMA SOBRE NÓS? — perguntou ele abobado. Antes que ela pudesse sussurrar qualquer coisa, ele continuou:
“AMOR”
O que é o amor?
A resposta seria o meu sentimento?
O sentimento que sinto por você?
Como poderia?
Algo tão rápido?
Tão sem noção.
Tão sem razão...
Não temos anos
Não temos meses
Nem sequer temos semanas.
Temos dias...
Então, como?
Como pode existir esse amor?
Seria pelo seu sorriso angelical?
Seu jeito tão perfeito?
A sua preocupação constante comigo?
Não sei.
Só sei que a cada hora
Minuto
Segundo
Que passo com você
É uma vida inteira
Uma vida inteira que desejei para mim
Uma vida de felicidade
Que não terá fim?
Espero que não.
Espero amá-lo
Espero ter algo concreto com você
Porque você é meu chão
Onde posso viver
Sim, eu o amo
Sim, eu o amo
Sim, eu o amo...
Alphonse parou por um segundo ou dois olhando, todos esperando o final. Olhou para plateia procurando alguma coisa, talvez uma resposta. Então falou:
— David? — disse ele com a voz rouca, estava confuso. — QUEM É DAVID?
Cherry sabia.
Ela conhecia muito bem o garoto que acabara de chegar na confusão e tinha total certeza de que escutara a frase final. Sim, ele estava lá olhando para ela, também sem entender. Os olhos da garota se encheram de lágrimas, seu coração bombeava tão fraco e dolorosamente.
Saiu de lá correndo, enquanto todos riam com vontade.
Queria fugir de lá para sempre, nunca mais voltaria para escola, nunca mais viveria; ela queria morrer. Correu até suas pernas doerem muito, parou apenas em um corredor vazio.
Apoiou-se na parede e começou a soluçar.
Ia deslizando lentamente para o chão, até que dois braços fortes a seguraram, uma energia intensa a invadiu.
— QUEM É DAVID? — perguntou Alphonse. Ela podia sentir o cheiro forte da bebida.
— ME DEIXE EM PAZ! — gritou ela mais alto e Alphonse abaixou seu tom de voz se assustando com a reação.
— Você não me disse que eu teria concorrência! — insistiu, ainda tonto com a bebida.
— ME DEIXE EM PAZ, SEU IDIOTA! — berrou ela novamente! — EU TE ODEIO!
Pela primeira vez ele desfizera o sorriso eterno que ele sempre carregava consigo.
— Você não me contou que eu teria um concorrente. — sussurrou temeroso por outra explosão.
— SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? VOCÊ NÃO É NADA! NÃO EXISTE APOSTA, NÃO EXISTE CONCORRÊNCIA! — gritou ela.
Ele ficou mudo.
— DAVID, É DELE QUE EU GOSTO! — berrou tentando se libertar dele, que ainda a segurava em seus braços cheios. — NÃO É DE VOCÊ!
Alphonse estava quieto e não a prendeu mais.
— PELO AMOR DE DEUS, VÁ EMBORA! ME DEIXE EM PAZ, POR FAVOR! — Cherry chorava alto, soluçando muito.
A dor não passava e sua mão apertava seu peito com a esperança inútil de que ela fosse embora.
— Por favor, não faça isso! Está doendo! — Alphonse estava desesperado.
— VÁ EMBORA! — ela acertou um soco na cara de Alphonse, uma fita de sangue escorreu do lado da boca do garoto. A mão dela doía.
Fechou os olhos, chorava intensamente. Era tão estranho, mas seus sentimentos explodiam, a dor era imensa.
Quando Cherry abriu seus olhos para se desculpar, descobriu que estava sozinha. Alphonse havia desaparecido.
Durante alguns minutos ficou ali sentada, pensado, enquanto chorava. Finalmente levantou do chão e enxugou suas lágrimas, não estava mais só.
— Oi. — soou a voz sempre afetuosa de David.
— Ei... — respondeu ela baixinho, enxugando freneticamente seu rosto com as mãos.
— Você está bem? — perguntou ele.
— Não! — disparou.
— Não entendo, por quê?
— Sério? — respondeu nervosa. — Será que humilhação não é um bom motivo para você?
— Cherry, não ligue para isso! Aquele poema era mesmo para mim? — perguntou ele se aproximando.
Ela tentou desviar o olhar, já era difícil aquilo tudo e olhar para David não ajudaria em nada.
— Era sobre você... — disse triste.
Ele segurou o queixo da menina para levantar seu rosto, obrigando-a a olhar com um sorriso angelical.
— Eu adorei! Adorei porque representa a mesma coisa que sinto por você. — declarou ele.
O coração de Cherry acelerou ao máximo, estavam muito próximos um do outro. O cheiro dele era muito atrativo, então foi fácil para ela se inclinar.
Ela o queria mais do que tudo.
— Para mim seria muito fácil beijá-la agora. — disse afastando o rosto dela com carinho. — Mas não seria certo. Não vou me aproveitar da situação.
Cherry ficou muda.
— Eu desejo te beijar mais do que tudo, mas não assim, não com você tão fraca e triste. Quero que seja especial, que você esteja forte!
— Obrigada. — agradeceu ela chorando mais uma vez.
Estava maravilhada com aquela pessoa à sua frente. Como ele conseguia ser tão amável? Tão compreensivo? Seu corpo se encheu de calor e de alegria. Já conseguia respirar direto.
— Sairemos amanhã. — afirmou ele com outro sorriso.
— Sim, sairemos. — afirmou ela, fungando e rindo um pouco.
Eles se abraçaram e ela respirou fundo, deixando a tristeza sair.
Estava quase em casa.
No carro, Mike perguntou o que acontecera várias vezes, mas ela apenas pensara: “Onde você estava quando eu mais precisei?”.
Não quis conversar com Lara e subiu para seu quarto apressada. Queria se deparar com uma bela paisagem na janela, pois ainda estava cedo, mas tudo o que viu foram nuvens extremamente escuras vindo do horizonte. Ela teve uma lembrança...
Alguém dissera para ela que depois de uma tempestade um certo lago se expandia, mas tentou jogar fora aquela recordação.
Assim como ela esperava, às nove horas da noite David ligou.
Conversaram durante várias horas, nunca tocando em assunto que falasse do poema.
Finalmente o garoto reclamou de suas pernas cansadas e os dois resolveram desligar. Cherry deitou em sua cama, olhando para enorme janela, a chuva caía pesada do lado de fora, repleta de relâmpagos e raios, trazendo tudo à tona.
A tristeza começou a subir do seu peito para sua cabeça, ela chorou mais uma vez. Fechou os olhos para tentar dormir, quando sentiu um enorme peso sobre seu corpo e gotas geladas em seu rosto.
Abriu os olhos e seu coração parou.
Alphonse estava debruçado sobre ela, seu peito nu e seus braços fortes mantinham uma certa, porém muito curta, distância entre os dois. Ele estava encharcado e ofegante.
Ela berrou, mas tudo foi abafado pela mão rápida do garoto.
— Por que você me faz sofrer assim? Por quê? — perguntou ele, ainda tapando a boca de Cherry.
Ela estava em completo pânico, podia sentir aquela corrente de energia fluir em seu corpo intensamente, ele a olhava com desespero.
— Meu Deus, como você é linda! — disse tremendo de frio e com uma reação incontrolável que fazia seu corpo inteiro ferver.
Cherry conseguia sentir.
Alphonse retirou a mão da boca de Cherry e passou pelo rosto dela.
— Você é perfeita! — disse com os olhos arregalados.
Cherry não podia negar que ele era atraente, mas o medo dominava sua mente.
— Como? Como você chegou aqui? — disse ela baixinho tentando conter seu coração.
— Cherry, eu estou enlouquecido, não penso em mais nada! Não consigo mais viver, estou completamente atraído por você!
Ele ofegava.
Era evidente o que sentia. O coração dela batia mais rápido, contra sua vontade, aquele sentimento não era seu... era dele. Ele estava fazendo isso com ela. “Mas como?”
— Eu não aguento mais! — falou ele.
O coração dela batia com mais força, não conseguia respirar, estava perdendo o fôlego.
Seus olhos saíam de foco, como em um transe.
— Pare... por favor! — tentou dizer.
Alphonse se assustou e se afastou de Cherry, que recuperou seu fôlego.
— Como você faz isso? O que é você? — falou ela tossindo.
— Você quer mesmo saber? — perguntou ele se aproximando, como um gatuno. — Cherry, você quer mesmo saber?
Olhou para ele, estava desesperada, queria uma resposta.
— Sim! — respondeu irritada.
Não ligava, só queria saber.
Tinha algo por trás de tudo. Queria saber o que era.
— Vou te mostrar! É só confiar em mim. — falou ele.
— Isso nunca! Nunca mais vou confiar em você! — retrucou a jovem.
— Por favor, deixe-me mostrar! — falou novamente desesperado. — Nunca contei isso para nenhuma garota por quem senti desejo!
— Me mostre então! — falou ela em desafio, beirando a impaciência.
Tomou um susto ao ver o corpo de Alphonse se enchendo de luz azul, mas foi só o que ela pôde ver, pois em seguida sua visão ficou completamente branca.
Instantes depois, estava voltando a enxergar normalmente. Gotas geladas tocaram todo o seu corpo, em segundos ela estava completamente encharcada.
Alphonse saiu de cima dela para deixá-la ver que estava em um lugar completamente diferente do seu quarto.
— Meu Deus! — disse apavorada rastejando para bem longe, enquanto sentia a grama molhada em suas mãos. — Onde estamos?
— No lago. — falou ele de pé olhando para o lago, que estava dez vezes maior.
— Como? — disse ela em pânico. — COMO VIEMOS PARAR AQUI? — berrou enlouquecida.
— Fui eu...
— Como, Alphonse? Como é possível? — perguntou em desespero. Ela o encarava esperando que ele desse repostas plausíveis.
— Eu não sou uma pessoa comum, Cherry. Eu tenho essas habilidades, esses... poderes!
— COMO? — insistia chutando a grama, se sentia estúpida escutando aquilo.
— EU NÃO SEI! — respondeu ele apertando os punhos. — Eu nasci assim!
E não houve explicação alguma adicional, só um “Eu nasci assim”. Não era o bastante para ela.
— Isso não é normal! — falou se afastando mais enquanto Alphonse a olhava com tristeza.
— Eu... eu sou a Luxúria, Cherry. — falou ele com uma voz estranha. Era diferente de sua voz comum, uma voz de choro.
— O quê? — perguntou com uma careta confusa.
— Eu sou um pecado. Não sei te explicar direito, mas meus poderes vêm do pecado Luxúria! — disse ele tentando ficar sereno. — Eu sou a Luxúria em pessoa!
— Do que você está falando?
A cabeça dela estava girando, se encontrava em outro lugar. Ele não era uma pessoa normal!
— Eu sou... um pecado... um demônio! — falou se aproximando dela. Antes que ela pudesse fugir mais, Alphonse sentou-se ao seu lado. Não falou mais nada.
Cherry esperava mais explicações, mais informações que ela não iria conseguir entender. Nada veio de sua boca, mas esse silêncio foi o bastante para acalmá-la.
O lago estava muito cheio, ela estava ensopada.
— Faça! — ordenou ela olhando para o nada.
— O quê? Ele não entendeu.
— Faça algo! —insistiu a garota.
— Você não vai pirar?
— Não. — disse ela corajosa.
Alphonse estendeu o braço, seus dedos estavam contraídos como se fossem agarrar algo, ela pode ver então algo incrível.
Uma luz azul rompeu de seu ombro deslizando pelo seu braço até chegar finalmente em sua mão. Ganhou intensidade, formando uma espécie de esfera luminosa no centro da mão, produzindo pequenos raios vivos e dançantes.
Era a coisa mais incrível que Cherry vira em toda sua vida. Era lindo!
A luz azul refletia no corpo do jovem. Seu cabelo negro estava azulado e ela não conseguia parar de admirar aquele corpo. Aquele jeito, ele era algo inexistente, algo irreal. E com um impulso a esfera de energia fugiu da mão de Alphonse, tão rápida e ligeira, até coligir no lago.
Os raios dançaram nas águas com a forte luz e impacto até desaparecerem com uma mancha azulada.
— Incrível! — falou ela com as mãos a boca.
— Eu fico mais forte em tempestades por causa dos raios!
— Por que raios? — perguntou ela, um pouco mais calma e muito mais fascinada.
— Eu não sei. Dá para perceber que não entendo muito sobre isso. Eu controlo os raios... mas os outros fazem coisas diferentes.
— Os outros? — indagou ela espantada, entrando na realidade novamente.
— Sim, os “sete”! — falou olhando para ela. — Todos possuem habilidades assim como eu, mas só alguns de nós controlam elementos da natureza.
Os giros mentais retornaram.
― A Jenny também tem poderes? — ela começou a imaginar a garota magra e cheia de joias lançando raios por aí.
— Sim, mas não posso contar. É um juramento que fizemos... Ninguém revela os segredos do outro! E eu já quebrei parte dele contando o meu. — explicou, coçando a cabeça.
— Como é possível essas coisas existirem? — perguntou ela admirada, agora com certa confiança para se aproximar.
Ele deu de ombros.
— Eu nunca liguei para a origem dos nossos poderes. Mas eu sei que tem a ver com algo muito antigo... algo bíblico. — falou sério.
— Os outros nasceram com o poder também? — Era difícil de engolir aquilo tudo, mesmo depois de presenciar o espetáculo.
— Não. Eles receberam de uma pessoa... mas não poso falar quem é!
Ela reparou que havia muitas regras.
Olhou para ele. O medo não existia mais, porque ele confiara nela. Ele provara algo com isso.
Ela se aproximou mais e encostou sua mão no ombro do garoto.
— Por que eu sinto isso? Essa corrente elétrica? — perguntou intrigada. — Essa corrente elétrica...
Ele apanhou sua mão com delicadeza e disse:
— Faz parte de mim. Eu posso controlá-la. Bem... na maior parte do tempo.
— É como se eu sentisse o que você está sentindo?
— Sim, eu posso controlar as pessoas com essa corrente elétrica.
— Como você fez comigo antes, não foi? — atacou.
— Sim, desculpe. — falou ele rindo.
Cherry sorriu.
— Tudo bem, eu já te bati, não é?
— É! Um belo tapa, devo acrescentar. — Alphonse soltou uma gargalhada gostosa.
— Meu coração acelerou tão rápido, pensei que ia ter um ataque!
— Eu não consegui me controlar — explicou aflito.
Tudo ficou em silêncio por um momento.
— Cherry? — falou baixinho.
— Quê?
— Me desculpe!
— Ah, esqueça! — ela estava pensativa.
— Sério, me perdoe por tudo! Por ler seu poema, por ser tão... insistente!
Cherry estava escutando.
— É que... eu sempre tive todas as garotas que desejei. Mas com você foi diferente. — Ele olhava para a grama molhada.
Foi fácil sorrir da maneira como aquele brutamonte falava. Tão parecido como uma criança que se desculpa por todo o seu mal.
— Você me perdoa? — perguntou esperançoso.
— Sim. — disse ela com um suspiro. A questão ali era outra.
— Então... você parece gostar mesmo desse cara, não é? — perguntou Alphonse.
— Acho que sim... ele é especial para mim — e o observou, temendo uma reação estranha.
— Ele a trata bem?
“Melhor que você”, pensou ela.
— Muito. Você deveria ter umas aulinhas com ele! — disse rindo.
— Será que ele me ensinaria? — perguntou abobalhado.
— Claro que não, seu besta! — falou ela rindo alto. Ele parecia estar falando tão sério que provocara graça.
O céu não estava mais tão escuro, e a chuva não estava mais tão forte.
— Será que eu mereço outra chance? — perguntou ele esperançoso.
Cherry olhou para ele, parecia sincero, mas ela sabia que Alphonse morria de desejo.
Havia algo que a incomodava.
— Não, Al, me desculpe... mas como você já viu, eu gosto de outra pessoa.
Alphonse olhou para a garota com falta de ânimo no rosto. Não havia mais o que falar, ela dissera não.
— Amigos? — tentou ele de repente.
Cherry levou um susto com a quebra do silêncio que havia se seguido.
— Como é que é?
— Podemos ser amigos? — perguntou ele alegre até demais.
Ela não tinha muita certeza se ele conhecia o significado daquela palavra.
— Tem certeza de que você vai aguentar?
— Vou me esforçar ao máximo!
— Mas para que isso? Vai se torturar por nada.
— Eu preciso disso. Se eu quero me torturar, o problema é meu, não é? — ele parecia realmente animado com a ideia.
— É, mas e se você me der um choque? — Alphonse riu da pergunta.
— Tome! — Ele tirou do bolso uma espécie de pulseira.
— O que é?
— É uma pulseira de borracha — entregou o objeto.
Então seus conhecimentos de ciência e de desenhos animados vieram à tona. A borracha era um isolante.
— Ah, legal!
— Vai conter os impulsos. — disse.
Cherry concordou com um movimento.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Então tá... amigos! — disse ela estendendo a mão para Alphonse.
Ele não entendeu o que era, demorando alguns minutos para retribuir o gesto. Até finalmente apertar a mão dela, que não sentiu absolutamente nada.
— Amigos!
O céu estava quase voltando ao normal.
— Vamos voltar, antes que a chuva pare. — falou ele.
— Por quê?
— Só consigo me transportar para outro lugar com a ajuda de um raio. — Antes que Cherry pudesse discutir o assunto, tudo voltou a ficar branco e ela estava em sua cama.
A pulseira de borracha fora retirada de seu braço sem ela perceber, mas agora repousava em seu colo. Alphonse não estava lá e Cherry estava completamente encharcada.
Sentada ali, afogou-se em seus pensamentos.
Tudo parecia um sonho, um filme, algo irreal. Como podia? Poderes? Pecados? Uma coisa era real daquilo tudo: com toda a confusão que teve durante esses poucos dias, ela ganhou um presente, uma coisa que poderia se confortar durante todo o ano.
Não importavam os problemas e brigas que tivesse, nada importaria porque tinha um porto seguro: David. Um garoto normal, mas que para ela era seu único amor.
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