Luna & Summer
4 É tudo uma questão de tempo?
Notas iniciais
Eric não me ligou, não é a primeira vez que um cara não me liga depois do primeiro "momento" — se é que posso chamar assim — posso viver com isso, ou não, eu podia jurar que com ele seria diferente. Por que eu sempre faço as coisas erradas? Nenhum relacionamento meu dá certo, nem os familiares, meus pais estão a um passo de se separar e não consigo fazer nada para ajudar um dos lados, imagina ambos.
Arrumo o cachecol vinho e minha boina preta, hoje está frio o suficiente para que eu possa usar um casaco, não costumo sentir tanto frio quanto minhas amigas, com o uniforme azul devidamente escondido, pego minha mochila de couro e desço de elevador até o térreo, dou bom dia ao porteiro e já vejo do outro lado da rua o carro prata, entro rapidamente e Carol já me acedia com perguntas.
— Como foi com o bonitão? — ela pergunta zombeteira.
— Normal — respondo de prontidão. Pensar nos meus pais logo de manhã sempre me dá um dia cheio de perguntas.
— Nada selvagem ou algo assim? — agora com cumplicidade na voz.
— Carol!? — sua mãe a repreende.
— Não seja ridícula — sorrio ficando vermelha, mas mando para ela o que eu já apelidei como "Frase pra quando a Carol abre a boca".
— Aah, qual é — ela soa desapontamento — vocês dois, em um carro, ele sendo aquele deus grego, você a gostosona da oitava série — ela volta ao tom de cumplicidade — sozinhos em um carro... Nada?
— Nada — sorrio.
— Você desperdiça a sorte que tem — encerra desapontada.
— Cadê a Luna? — ela pergunta enquanto paramos em frente ao seu prédio.
— Ela pode ter adoecido — tento, porque Luna nunca se atrasa, desde a sétima serie, que foi quando começamos a pegar carona com a mãe da Carol.
— Ela teria ligado — Carol argumenta.
— Só existe uma razão lógica — tento parecer séria ao dizer isso.
— Qual? — Carol parece no mesmo estado de espirito que eu.
— Abduziram ela e o fim do mundo está na porta — concluo.
— Claro, porque isso faz todo sentido — Carol responde sarcástica levantando o polegar pra mim — porém eu tenho uma teoria bem mais plausível — ela continua ao ver Luna saindo da porta de acesso as escadas.
— Eu acho que sei, e até concordo com isso — respondo em tom de cumplicidade.
Depois de darmos a zoadinha básica matinal na Luna, meus pensamentos voltam a meu mundinho. Uma dor se apodera do meu coração ao pensar em Eric, uma dor conhecida, constante, como um vizinho barulhento, ela sempre está aqui. Me sinto um fracasso, por que eu sei que a culpa foi minha, e eu sei que foi burrice esperar por uma ligação, por que eu não acho o cara certo pra mim? Será que estou procurando nos lugares errados? Ou será que é por que eu sou muito jovem? Isso não faz sentido, meus avos nos Estados Unidos estão juntos desde os 14 anos, e nunca vi um casal mais feliz. Por que isso não funciona comigo?
Não sei quando o assunto volta para mim, Luna me pergunta alguma coisa, respondo de prontidão honestamente, então Carol solta um comentário que realmente me deixa irritada.
— Vai me dizer que não gostou de voltar pra casa acompanhada do Sr. Músculos? — Luna me pergunta.
— Não gostei e nem desgostei, foi normal — respondo indiferente.
— Seu tipo são aqueles que te fazem sofrer — Carol sussurra enquanto o carro é estacionado.
As palavras de Carol me deixam com raiva, isso não é verdade, eu não me interesso apenas pelos caras errados, além do mais, como eu supostamente poderia saber que tipo de cara é o certo? Um homem mais velho? Bem sucedido? Que possa me tratar como... Como o que? Boa sorte para achar esse cara.
— Oi — Henrique aparece na minha frente vindo do nada.
— Olá — respondo me recuperando do susto.
— Eu te assustei? — pergunta com a testa vincada.
— Só um pouquinho — respondo sincera.
— Me desculpe. — ele pede com sinceridade — Mas então, como foi o seu dia?
— Normal — respondo tentando parecer interessada — eu comi e dormi, ok, eu comi, fiz a lição, dei uma lida nas aulas de hoje para não ficar perdida nas explicações — dou uma risada — e dormi —ao lado do celular esperando um cara que nunca vai me ligar de novo.
— Você parece bem esforçada — ele me elogia.
— Eu tento — respondo quando alcançamos minha sala — obrigada por me fazer companhia — agradeço.
— Às ordens — ele retruca batendo sinal de continência.
— Até o intervalo — digo entrando na sala.
— Hum "Foi normal", "nada demais" — Luna me arremeda quando chego na sala.
— Posso ver — Luna prossegue.
— Ai, malditos pais que me fazem vir de carro com eles — Gio reclama — Me contem tudo.
— Não há nada para contar — Respondo.
— Hoje a noite — Carol promete para ela.
— Eu vou morrer de curiosidade até hoje a noite — ela reclama.
— Aguente moça — Carol responde — Seja forte!
— Ok — Carol faz beicinho.
Temos aula dupla de física, seguida por uma de literatura, Luna acorda para a aula de literatura, pela primeira vez ela para de babar em cima dos cadernos. E então o intervalo. Me pego pensando em Henrique, será que ele é o que se pode chamar de "cara certo"? Ele é legal, gentil, me faz rir, dirige um jipe, mas eu não consigo sentir atração por ele como Eric exercia em mim. Eu acho que Henrique está afim de mim, me sinto mau por isso, não estou interessada nele, não posso dar esperanças a ele, Henrique é muito legal para ser magoado por mim, me sentiria terrível se deixasse ele triste. Tento enrolar na fila da comida, mas meu esforço é inútil, Gio percebe em um nano segundo, compro uma limonada e vamos nos unir aos garotos.
— Quais as novidades? — falo me sentando ao lado de Lucas na ponta da mesa.
— Festa, segunda feira, na casa da Ana — Lucas me responde — vocês vão? — ele pergunta olhando para todas nós.
— Não tenho certeza — respondo — na Terça tem aula.
— Vai ser de tarde, na piscina, logo depois da aula — Lucas argumenta.
— É claro que nós vamos — Luna me corta antes que eu possa falar algo — Henrique te ajuda com a lição.
Lanço a ela um olhar irritado, mas Henrique já levantou a cabeça e nos encara.
— Claro, será um prazer — ele responde ao convite de Luna.
— Não precisa mesmo — tento, mas ele levanta as mãos para que eu pare.
— Eu insisto — Henrique encerra o assunto.
Ótimo, e lá se vai meu plano de evita-lo. Muito obrigada Luna, muito obrigada mesmo. Fujo de Henrique assim que o sinal bate, me escondo na sala de aula e espero as garotas entrarem, dou um belíssimo gelo em Luna, digno de novela e assisto as aulas em silencio.
Na saída pego meu rumo para a parada de ônibus antes que as outras possam se quer guardar o material, a atitude egoísta e prejudicial de Luna me irrita, eu não quero magoar Henrique, que parte disso ela não entende? Ela me enfia nisso só para passar alguns minutos com um cara, ela pode me chamar do que quiser, mas eu nunca meteria minhas amigas em uma coisa dessas por um cara.
Estou tão desligada do exterior que só percebo o carro preto e brilhante quando ele está ao meu lado. A porta é aberta por dentro e meu coração sai pelo peito.
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