Bastet ficava cada vez mais irritada enquanto a chuva caía sobre seu corpo. O que aquela loba louca estava pensando? Que o pêlo fino de sua forma de jaguar a protegeria da água e do frio do mesmo modo que aquele pêlo espesso e impermeável de lobo?

Olhou para cima e suspirou. O céu continuava tão cinzento quanto antes. A chuva não iria parar tão cedo. Abaixou a cabeça quando um dos pingos acertou seu olho direito, e antes que pudesse pensar, já havia levantado a pata e esfregado o olho com ela, enchendo o próprio focinho de lama. Respirou fundo para se acalmar. Volta e meia, ainda acontecia de confundir suas formas humana e felina e fazer coisas como aquela. Nessas ocasiões aqueles Garou morriam de rir de sua cara. Graças a Gaia, naquele momento nenhum deles estava por perto.

O pensamento a deixou ainda mais irritada. Deveria haver uma Garou ali com ela, mas a companheira a deixara plantada ali, na chuva, enquanto esperava sua volta.

Estava ponderando se a loba ficaria chateada se ela simplesmente fosse embora, quando sua audição felina captou o som de patas chapinhando na lama. E logo, Luna aparecia em sua vista.

Era uma visão decididamente irritante, aquela filhote de lobo. Tão irritantemente feliz enquanto pulava de uma poça para outra, uivando baixinho algo que lembrava “Singing in the Rain”. Tão feliz, que nem percebia o olhar mortal que Bastet lançava. Claro que ela estava feliz. Aquele pêlo castanho avermelhado com certeza não deixara que uma gota de água chegasse perto de sua pele, e ela deveria estar bem aquecida. Se bem que, conhecendo Luna, ela talvez nem se importasse de estar com frio.

Bastet continuou olhando a loba enquanto ela se concentrava em acertar as poças de água. Pra falar a verdade, se olhasse com mais calma, era uma visão um tanto feliz. Era algo até puro, inocente...

Uma camada de lama e água interrompeu seus pensamentos felizes quando Luna pulou em uma poça bem em sua frente, encharcando ambas. Toda a pureza da situação se esvaiu e a onça voltou a encarar a companheira com um olhar mortal.

Esta nem parecia notar sua raiva. Ficou olhando nos olhos de Bastet, ridiculamente animada, ofegando, com a língua pendendo para fora da boca. Elas permaneceram por alguns segundos naquele confrontamento silencioso, até que Luna jogou a cabeça de repente para trás e uivou, fazendo com que a felina franzisse o focinho com a altura do som.

— Eu AMO CHUVA!!!! – a loba uivou o mais alto que podia.

— É perceptível – Bastet grunhiu, após alguns segundos de silêncio. Vendo que a companheira apenas continuaria a pular de um lado para o outro, perguntou, se esforçando para falar aquela linguagem estranha que era o idioma Garou – E aí, como foi?

— Como foi o quê?? – a loba lhe respondeu, aparentemente distraída em engolir o máximo de gotas de chuva que conseguisse.

— Luna. – Bastet começou, tentando não perder a paciência e grunhindo o mais pausadamente que conseguia. – Você me deixou aqui, plantada na chuva, porque disse que tinha sentido cheiro de vampiro além daquela colina e que iria lá investigar. O que você encontrou?

— Ah...bem... – a outra pareceu envergonhada. – N- não havia nada.

A jaguar suspirou.

— Ok. Vamos voltar para a vila, anda.

— Ok.

As duas se viraram e começaram a se encaminhar para as árvores. Bastet estava perdida em seus pensamentos, enquanto Luna continuava a pular animadamente nas poças de água a seu redor.

-Bastet! Bastet! – a loba latiu, saltitando ao lado da felina. Vendo que a outra não responderia, continuou – Tive uma idéia! Você não está a fim de apostar uma corrida até os portões da vila??

— Claro, e porque não apostamos corrida até o topo daquela árvore também? Não precisa jogar na minha cara que não consigo correr mais do que você, Luna, vamos apenas nos concentrar em chegar à vila antes que fechem os portões e fiquemos do lado de fora, está bem?

— Ok, ok, eu não tinha me tocado. — andaram em silêncio por alguns minutos, até que a loba lançou-lhe um olhar maroto, e se afastou até uma distância segura antes de ladrar, baixinho – Mas eu também sei que você só está tão apressada pra chegar à vila porque está caidinha por aquele homem-crocodilo que chegou ao Caern ontem!

— Como?! – Bastet deu o bote para cima da Garou, sem conseguir acertá-la – Cale... cale a boca sua pulguenta, e-eu não estou nem aí para aquele garoto!

— Sei!- Luna continuou, saltitando para longe de seu alcance. – Você estava praticamente babando por ele ontem, eu vi, sabe??

— Calada!- a onça rosnou mais alto, conseguindo finalmente pular em cima da loba. Colocou uma pata em sua garganta, imobilizando-a. Podia não ser tão rápida como um lobo, mas era três vezes mais forte – Eu não tenho nada com o garoto-crocodilo, entendeu? Nada!

Luna ladrava suas risadas sufocadas com tanto gosto que nem ao menos conseguia responder. Teriam continuado na luta por um bom tempo se um uivo não tivesse ressoado pela floresta. Imediatamente as duas se endireitaram. Luna empinou as orelhas. Quando o som foi ouvido pela segunda vez, as duas começaram a correr o mais rápido que podiam.

— Os portões! – Luna ofegou em meio à corrida. Bastet apenas rosnou de volta e acelerou. Os altos portões de madeira da vila estavam quase se fechando quando elas chegaram perto.

As duas aceleraram ainda mais e, um segundo antes de eles se fecharem completamente, pularam e conseguiram entrar, desabando juntas no chão enlameado.

Continuaram ofegando no chão por alguns segundos, até que Luna conseguisse se levantar e ladrasse uma gargalhada o mais alto que podia, fazendo Bastet lançar de novo seu olhar mortal

— Foi por pouco, hein, Luna? – um dos homens que fechavam o portão gritou, rindo da pequena loba.

— Foi sim, não foi?! Isso foi uma chegada espetacular!!!

Bastet se levantou da lama, resmungando.

— Bom, você teve muita sorte de que Canino Branco não visse sua “chegada espetacular”.

— Bom – Luna continuou-, o importante é que ele não viu. Então está tudo...

— Ah não... – a felina se encolheu, olhando por cima do ombro da companheira. A lobinha congelou e fechou os olhos bem lentamente, apertando-os como se pudesse a qualquer momento descobrir que aquilo era um sonho e então acordar.

— Luna. – o nome foi pronunciado de forma totalmente fria e imparcial. A loba virou-se lentamente, encolhendo-se e colocando o rabo entre as pernas.

— Canino Branco-rhya. – ela respondeu, abaixando a cabeça timidamente.

Na frente das duas companheiras, quatro formas se mostravam. Uma era uma bonita loba negra, que os observava imparcialmente. Outra, um jovem de pele negra e cabelos encaracolados, com um olhar calmo e frio. Aquele olhar deixou Bastet totalmente sem jeito. Ao lado deste, encontrava-se outro garoto, de pele clara e cabelos estranhamente acinzentados, apesar de aparentar 13 anos, no máximo. Ele olhava Luna com simpatia. E, no centro, olhando fixamente para a loba com inescrutáveis olhos azuis claros, estava um imenso lobo branco.

— Explique-me o motivo de ter se atrasado. – Canino Branco ordenou.

— E-e-eu... – a loba gaguejou, antes de conseguir se lembrar de que Crias de Fenris não deveriam mostrar nem um tipo de insegurança. Respirou fundo e começou de novo – Eu senti cheiro de Wyrm enquanto patrulhava os arredores do Caern.

— Wyrm?- o lobo branco pareceu mais atento, enquanto o resto do grupo procurava esconder o nervosismo.

— Sim. Cheirava a sangues... vampiro. – não deveria usar termos vulgares na frente do Líder de Seita. Por Gaia, por que precisava ser tão desatenta? – Eu fui investigar e... me atrasei.

— E o que achou?

— Nada, Canino Branco-rhya. – ela baixou a cabeça novamente, envergonhada.

O lobo branco a encarou.

— Luna. Não preciso lembrá-la de que é uma Ragabash, uma Trapaceira da Lua Nova. Seus dons de rastreamento deveriam ser melhores que o de qualquer um. Já é a segunda vez que se confunde só essa semana. – ele estava impassível.

— Sim, Canino Branco-rhya. Prometo me esforçar mais. Muito mais. — Luna se sentia totalmente envergonhada.

— Ótimo. – Canino Branco então se afastou, levando o garoto negro e a loba de pêlos escuros com ele. O garoto de cabelos acinzentados permaneceu com uma felina sem jeito e uma loba mal-humorada. Esperou o Líder de Seita de afastar para começar a rir baixinho.

— Um Cadáver, Luna? – ele riu.

— Não enche.– ela rosnou. – Eu podia jurar que havia sentido cheiro de Wyrm.

— Luna, é sério, você tem que melhorar seu olfato. Meu pai tem razão, devia ter as melhores habilidades de toda a tribo!

— Eu tento, Thor, você sabe disso – ela continuou, meio depressiva – Mas sempre acabo me confundindo. Não sei o que acontece. Canino Branco deve me achar a maior das incompetentes.

— Bom, eu não sei o que ele acha. Mas você é decididamente a maior das trapalhonas pra mim. – ele provocou.

— Não enche, Thor... estou avisando... – Luna rosnou, mas seu tom agora era provocante. Estavam brincando.

— Não enche? Ora, ora, Luna, até o meu faro é melhor que o seu. – ele empinou o nariz, convencido. A próxima coisa que ouviu foi um rosnado, antes que uma confusão de pêlo e garras o derrubasse no chão. Os dois se engalfinharam, lutando para imobilizar um ao outro, enquanto riam até perder o fôlego. Aquilo ocorreu por alguns segundos, até que a felina ao lado parecesse finalmente despertar para o mundo, bufando.

— Vocês dois não notam o quão patéticos parecem quando rolam na lama desse jeito, não? – Bastet os olhou com desprezo.

Os dois congelaram em suas posições, que no momento eram Thor por baixo de Luna, puxando uma de suas orelhas, enquanto esta mordia sua camisa. Entreolharam-se por um breve instante e sorriram marotamente. Então disseram, juntos:

— Você não nota o quão patética parece quando olha pra aquele garoto-crocodilo, não?

Um rugido, e agora eram três se engalfinhando na lama. A loba e o garoto riam, enquanto a jaguar rosnava furiosamente. Luna gostava da batalha.

Estavam tão focados em sua luta, que não perceberam os passos firmes da loba negra que voltava à cena. Ela permaneceu alguns minutos observando, impassível, enquanto os membros de sua matilha lutavam no chão, todos embolados. Então, finalmente, pigarreou.

Thor e Luna conseguiram olhá-la no meio da luta, mas Bastet estava muito furiosa para sequer desviar os olhos dos outros dois.

— Oi, Sombra! Quer se juntar a nós? – Luna ofegou, enquanto era pisoteada por uma pata de jaguar. Sombra a encarou.

— Não. Vim apenas avisar de que já é quase noite. Nós deveríamos ir dormir. Amanhã é outro dia.

— É, você está certa. – Thor levantou de uma vez, derrubando Luna, às gargalhadas, no chão.

— Ok, ok, — a lobinha respondeu, suavemente, afastando uma Bastet ofegante com uma pata. – acho que deveríamos dormir.

Ela sacudiu-se vigorosamente, livrando o pêlo castanho avermelhado de toda a lama em poucos segundos. Infelizmente, aquilo cobriu Bastet, que não tivera reflexo o suficiente para se afastar, de lama. O gesto não pareceu melhorar nem um pouco o humor da felina.

— Vá indo para o abrigo – Bastet rosnou – lhe encontrarei lá. Agora preciso de um banho.

— Ótimo. Boa noite! – Luna acenou com a cabeça para cada um e então disparou a correr para seu abrigo.

O lugar não era nem um pouco sofisticado, apenas uma pequena cabaninha de madeira que impedia a chuva e o vento de entrarem. Normalmente, parecia grande o bastante para Luna, mas de uns tempos para cá a felina, Bastet, havia decidido viver no Caern, e a loba imediatamente oferecera um lugar em seu abrigo. Sentira-se muito curiosa, na época, a respeito dos licantropos felinos, e achara que seria interessante viver com um. Acabara descobrindo que, na maior parte do tempo, a companheira era quieta, feroz e incrivelmente mal-humorada. Mas sabia que no fundo, ela era extremamente leal. E era por isso que, agora, insistia que Bastet fazia parte de sua matilha. Apesar de os Anciões considerarem aquilo um ultraje, por dizerem que a onça não era um Garou e, portanto, não poderia ser de uma matilha, Luna insistira no caso, e agora a maior parte da Seita havia aceitado aquilo. Não era novidade. Eles acabavam aceitando tudo que Luna fazia; a achavam estranha, mas, enfim, ela nascera na Lua Nova; seu dever era quebrar as regras.

A loba fechou a porta do abrigo e então se concentrou, fechando os olhos. Sentiu o corpo mudando; primeiro crescendo, suas garras e presas ficando lentamente maiores e então a transformação passou rapidamente para uma forma com poucos pêlos, suas presas e garras sumiram, deixando no lugar unhas e caninos ainda um pouco grandes. Diminuiu ainda mais e enfim, chegou a sua forma humanóide. Espreguiçou-se e agarrou seu cobertor, que estava no chão. Tirou suas roupas de lá e se vestiu rapidamente. Depois se sentou no chão e olhou-se no pequeno espelho que ficava no chão, perto de seu cobertor.

Observou aquele rosto de garota de 12 anos, já conhecido por toda a seita: a pele clara dos escoceses, os marotos olhos castanhos, a boca cheia... e, o que chamava mais atenção, sua imensa cabeleira castanho-arruivada, resultado da mistura de sangues. Seu pai fora escocês, sua mãe, americana, e aquilo se refletia em sua aparência. Franziu o nariz para si mesma, tentando ajeitar seus cabelos. Ela travava uma batalha diária com eles, não importava quantas vezes tentasse penteá-los, eles sempre acabavam emaranhados e descabelados, como os pêlos de um lobo. Finalmente desistiu com um suspiro e deitou-se para dormir. Enrolou-se em seu cobertor e fechou os olhos feliz, apreciando o clima ameno das Highlands.

Notas finais
Oi, pessoal! Aqui sou eu, com a minha primeira fic, espero que gostem! Só estou aqui pra avisar que essa fanfic é a primeira de uma série que eu irei fazer. Estou fazendo primeiro fanfics para apresentar os personagens, pra depois unir eles em uma só. Estou começando com a Luna, porque... hmn, porque eu gosto dela. Aproveitem o capítulo, e até o próximo!