Luna - INTERATIVA
4 Capítulo IV
Notas iniciais
Depois que as selecionadas chegaram, passando pelo primeiro andar e conseguindo ver Massimiliano na escada (e uma ou outra soltarem alguns suspiros), o príncipe foi à biblioteca, a fim de se distrair um pouco até que fosse a hora do jantar, onde veria as selecionadas de perto pela primeira vez. Uma hora depois que se sentou para ler um livro, um mordomo adentrou o cômodo com uma bandeja, e apenas quando o criado se aproximou Mass conseguiu ver o objeto preto que se encontrava lá – um telefone.
– Ligação da senhorita grã-duquesa de Lecce.
– Estevan, você sabe que não há necessidade de trazer o telefone numa bandeja, certo?
– Apenas sigo ordens da senhora governanta Tonia.
– Certo. De toda forma, obrigado, Estevan. – Mass pegou o telefone e levou-o a orelha. – Ciau, Cate.
– Ciau, Mass. Como estão as coisas por aí?
– Bem, obrigado. Por que está ligando?
– Nossa, mal-educado, não quer falar comigo não fala então. Tchau.
– NÃO, não, Cate, espera, CALMA! – Ele a ouviu rindo do outro lado da linha. – Ha-ha-ha muito engraçado, Caterina. Okay, o que você quer?
– Minha mãe pediu para avisar sua mãe que nós aceitamos o convite.
– Que convite?
– Tia Nicoletta convidou-nos para ir aí no Natal.
– E por que você não avisa direto para ela, então?
– Já tentei, ela não atende. Alguma coisa a ver com o Salão de Beleza e A Seleção. Falando nisso, como as coisas vão por aí com essa coisa de Seleção?
– Confusas. Bagunçadas. Malucas. Nervosas. Assustadoras. Quer mais?
– Não, assim já está bom. Vicento está atrapalhando muito?
– Tenho certeza que estaria bem mais se você estivesse aqui. – Caterina ficou quieta. Ela sabia que era verdade: ela era quase tão “problemática” quanto Vicento. Separados não era tão difícil conte-los, mas juntos, eram imprevisíveis no pior sentido da palavra. Ela foi a única a apoia-lo prontamente depois do acidente Depois de longos dois segundos de silêncio, ela pareceu se recuperar.
– Pense no quanto a sua vida seria insuportavelmente sem graça sem nós. – Mass riu. Era assustadoramente verdade. Ele ouviu algo se quebrando ao fundo. – Preciso ir. Acabei de causar um acidente.
– E esse acidente inclui algum dos preciosos vasos da sua mãe, devo imaginar.
– Pois é. Tchau, Mass. Te amo.
– Também te amo.
Será que algum dia ele seria capaz de dizer isso para alguma das garotas que estava apenas um andar abaixo dele?
♛
No dia seguinte Massimiliano estava convencido de que as conversas no café da manhã tinham tudo para dar errado, mas que ele não deixaria isso acontecer.
Quando adentrou o Salão de Refeições, percebe que estava começando a se acostumar com toda aquela gente comendo no recinto onde costumam comer apenas quatro ou cinco. A maioria das selecionadas se prontificaram em se levantar e fazer uma reverência quando o viram, mas ele interrompeu-as com um gesto de mão e dizendo que aprecia o esforço, porém que era completamente desnecessário no momento. A selecionada – e princesa – da Noruécia, Tarja Kaalipää, revirou levemente os olhos diante do comportamento das “menos monarcas”. Massimiliano gostou disso, e teve que conter um riso.
Sentou-se nos sofás que rondavam uma mesinha no canto do Salão e pediu que Ada, a responsável pelas selecionadas, chamasse a primeira menina que viu: Elisa Clark, pelo que lembrava das fichas. Ela usava um conjunto que constituía num top-cropped verde-petróleo e uma saia de cintura alta branca, combinados com uma sapatilha também branca e um relógio e colar prateados com brilhantes. Seu cabelo, que se encontrava num coque alto e levemente bagunçado, criava impressionante harmonia com seus olhos castanhos. Elisa fez uma reverência quando chegou ao príncipe, e ele se levantou e beijou sua mão, como lhe fora ensinado durante tantas aulas de etiqueta.
– Sente-se, por favor – pediu Mass, para em seguida fazer o mesmo. – Olá, Elisa, como vai hoje?
– Muito bem, Vossa Alteza. – Ele ficou feliz que o inglês dela, embora muito bom, era parecido com o dele: tinha um fundo latino. E então se lembrou: ela é espanhola, o que faz suas línguas maternas de certa forma parecidas.
– Diga-me, o que te trouxe à Seleção? – O príncipe começou com as perguntas já decoradas e ensaiadas.
– Experiência.
– Perdão?
– Experiência. Para mim experiência é algo muito valioso, bagagem emocional.
Mass ficou impressionado. Ela tinha muita confiança no que dizia, como se isso fosse a coisa mais básica do mundo.
– E como você costuma conseguir essa experiência normalmente?
Os olhos de Elisa se iluminaram, e isso fez o príncipe sorrir.
– Eu e minha família viajamos muito. Meu pai gosta de nos levar para lugares exóticos de todos os tipos. Quando fomos a União Oceânica, mergulhamos com os últimos tubarões de uma certa espécie, que estavam lá para protegê-los da extinção, foi fantástico!
Ela parecia disposta a continuar com isso o dia todo, o que encantou o príncipe, porém a voz de Ada pegou-o de surpresa, interrompendo-os.
– Senhor, o tempo.
– Ah, sim. Obrigado, Ada. Sinto muito, senhorita, eu realmente gostaria muito de continuar a nossa conversa, porém ainda tenho que falar com todas as outras meninas.
Ele se levantou, sendo seguido da selecionada, que fez uma reverência. Ele retribuiu-a e beijou novamente sua mão. Quando Elisa se afastou e o príncipe pediu que chamassem a próxima garota, ele percebeu que elas estavam em espécies de pares: as meninas de países iguais iriam ser chamadas em seguida uma da outra.
Carmen Ramón, a senhorita que viera após Elisa, destruiu completamente a felicidade que havia preenchido o príncipe após a bem-sucedida conversa anterior: Carmen era insuportável. Então ele pensou em algo que ouvira dizer que o rei Maxon fizera em sua Seleção.
– Carmen, a senhorita acha que pode ficar um pouco depois do café da manhã para que possamos terminar a nossa conversa? – Terminar definitivamente, espero eu.
Para o desespero do príncipe, ela corou.
A próxima era Elizabeth Vicent, de Illéa. Ela veio acompanhada de um guarda, que a tomava pelo braço, o que Mass achou levemente estranho. Depois de todas as formalidades e uma reverência fofamente desastrada de Elizabeth e, de forma ainda mais fofa, de ela corar e fazer o príncipe sentir seu coração nos pés, Massimiliano perguntou:
– Do que a senhoria mais gosta, Elizabeth?
– Eu... eu amo doces, livros, motos... – Esse último foi dito baixinho, como se fosse um segredo. – Ah, e dançar. Definitivamente dançar.
Mass gostou daquela menina.
– Bom, eu aposto que você é uma ótima dançarina. Prometa-me algo: na primeira oportunidade, eu serei o primeiro com quem irá dançar.
– O quê? – Ela não estava entendendo muito bem. O príncipe queria dançar com ela?
– E eu prometo – continuou o príncipe – que você será a primeira com quer dançarei.
– Sinceramente espero que isso seja possível – disse com um sorriso um pouco triste, logo se recompondo.
– Estarei esperando essa oportunidade então. Gostaria muito de continuar nossa conversa, porém tenho que falar com várias outras meninas.
– Foi um prazer, Vossa Alteza.
– O prazer foi meu.
Alana Campbell Holmes viera depois de Elizabeth, e era um tanto quanto... explosiva. Não que isso fosse ruim, já que Mass estava bem acostumado com “explosões”, considerando sua família. Depois de Alana, o príncipe se deparou com uma loira vindo em sua direção, e pela primeira vez desde que as garotas chegaram, ele se sentiu genuinamente nervoso. Aquela era Lara Victoria Mills, e ela era de Luna.
– Senhorita Mills – cumprimentou quando ela se aproximou. Começou as perguntas após se sentarem, tentando manter ao máximo a compostura. – A senhorita é de Luna, se me recordo bem – ela assentiu. – Se me permite perguntar, — ele baixou um pouco a voz – como é lá?
Os olhos de Lara se iluminaram.
– Ah, é fantástico! Bem diferente daqui, mas eu adoro! Aqui é bem mais... natural. Lá, todos os jardins são como os seus jardins de inverno, fechados. Estamos perto de fazer algo crescer na terra de lá, porém sair sem máscara é impossível. Mas depois de um tempo você se acostuma. É bem estranho estar longe de lá, eu sinto falta, e as vezes esqueço o porquê de o tempo mudar tão rápido, já lá tudo é ambientalizado.
Ele deu um risinho. Era impressionante como ela falava com naturalidade, sem tratá-lo como... príncipe. Lara era bem confiante na fala também, o que lhe fez lembrar das perguntas na pauta.
– E qual é a sua profissão lá? Digo, você tem alguma ocupação ou ainda estuda?
– Eu estudo, porém já me ocupo desde nova. – Mass pareceu não entender. – Sou cientista, e meus pais também. Cresci em meio a tubos de ensaio e experimentos. Gosto muito, apesar de já ter causado alguns... acidentes. Mas me diga, você quer saber de como é estranho para mim estar aqui, mas como é estranho para você? Aposto que não está acostumado com tudo isso.
Ela o pegou de surpresa. Ninguém havia perguntado nada sobre ele, e ela era impressionantemente rápida de raciocínio. Ah é, cientista.
Depois que o tempo com Lara acabou e a outra menina de Luna – que mais parecia um próprio alienígena – deixara a mesa com um convite para ficar depois das outras, Megan Elizabeth Isabelle Adams estava claramente radiante: seus fogosos cabelos contrastando com o vestido verde.
– Bom dia, senhorita Adams.
– Vossa Alteza.
– Mate uma curiosidade minha: é apenas coincidência o seu sobrenome ser o mesmo da Família Real Britânica ou vocês têm algum tipo de ligação? – Por favor, me ajude com alguma coisa que possa queimar o filme de Julius. Por favor.
– Não, não é apenas coincidência. Sou filha dos duques Diana da Escócia e Harry de Gales. – Megan não se conteve nem por um segundo ao admitir sua condição de bastarda: já estava acostumada a ser julgada por isso, e, além disso, não fazia muita questão de ficar. E, para a confusão da ruiva – que não sabia se ficava irritada ou admirada com isso – Massimiliano não pareceu se abalar por isso.
– Que ótimo! O duque de Gales é um grande amigo da família. – Mas o sobrinho não. O príncipe evitou perguntar mais sobre a família dela; ele sabia sobre os rumores do castelo. – Acredite, eu sei como a vida no meio de nobres pode ser cansativamente chata. Você tem algum tipo de hobby?
Ela encarou a vela que decorava a mesa com um olhar cheio de segredos e um sorriso, e brincou com as chamas com os dedos. Depois voltou a encarar o príncipe.
– Nada demais.
Ele sabia que ela estava mentindo, diante da grande sinceridade com a qual ela estava o tratando, mas ele preferiu deixar quieto. Após se despedir de Megan Adams, pediu um copo de suco e um pedaço de bolo, descansando por cinco minutos. Aquele dia seria longo.
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