Luna
1 Capítulo 1 + Prólogo
Notas iniciais
Ninguém nunca gostou de mim, por eu ser uma menina diferente. Nem os colegas da escola, nem meus vizinhos, nem minha família. Nem a mamãe gostava de mim. Por isso, eu tinha muita liberdade para fazer o que eu quisesse durante o dia, já que ninguém gostava de minha presença. Porém de noite eu era trancada em meu quarto.
Eu gostava muito de ir à biblioteca, e ler sobre aquele sentimento... Como se chamava mesmo? Ah! O "amor". Eu sabia tudo sobre o amor, como ele acontecia, as substâncias químicas envolvidas no processo, e sobre as relações mais... "íntimas", eu acho.
Nos compridos livros de romance, os amantes chamavam-se por diversos apelidos afetuosos, mas a parte que mais gostava era quando diziam o nome um do outro.
Talvez porque isso era "romântico", ou talvez, porque eu queria que alguém me chamasse pelo nome. Mas... Eu nunca recebi um nome.
Embora eu adorasse estudar sobre o amor, eu não acreditava nele. O amor para mim era como uma ideia utópica, que só é bonito na teoria. Eu achava que o amor era apenas um jeito "agradável" de mascarar a necessidade humana por copulação. O amor havia começado a me enojar.
Mas eu nunca experienciei o amor. Não era amada por ninguém. Nunca havia amado. Na verdade, eu comecei a ficar com raiva, muita raiva. E meus pais não se importavam, na verdade, eles apenas trancavam-me no quarto, como sempre. Minha cama ficava embaixo de uma janela, e eu fugia por lá.
A primeira vez que saí, não sabia direito aonde ir, apenas corria. Como se a minha vida dependesse disso. Minha respiração estava pesada, e meus pulmões e pernas queimavam. Lágrimas começaram a escorrer, quentes, pelo meu rosto. Eu não aguentava mais. Sentei-me sobre minhas pernas, e tomei fôlego.
Ao observar melhor o ambiente onde estava, percebi que estava em uma floresta. Foi a primeira vez que me senti em casa. Então olhei para cima, e vi o céu noturno. Ouvi uma voz doce falando que tudo ficaria bem, e que ela queria conversar comigo. Era a Lua. Eu havia me apaixonado.
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— Por quê estou chorando? Nada demais, apenas me lembrei da primeira vez que nos encontramos... Na época eu sentia tanta raiva... Ei Lua, infelizmente agora eu tenho que partir. Te vejo amanhã?
— Certo. Eu também te amo, Lua! Tchau Lua! Tchau estrelas!
Eu desço da grande árvore. Ela sempre me ajudou. Eu subo em seu galho mais alto, para conversar com a Lua e as estrelas. É muito perto, mas não o suficiente.
No caminho de casa, pequenas estrelas descem do céu para me fazer companhia. Eu suspiro, triste. Mesmo que ficasse com a Lua e as estrelas todas as noites, ainda não era o suficiente... Queria ir para o céu, juntar-me realmente à elas.
Quando estava quase no fim da floresta, uma outra estrelinha me chamou, e disse que a grande árvore queria me falar algo importantíssimo, então corro até o centro da floresta, aonde a árvore estava. Tomo fôlego e pergunto:
— Me chamou?
Eu escuto as palavras que eu esperava desde a primeira vez que fui para a floresta.
— Isso é sério?
A árvore afirmou várias vezes, mas estava tão chocada e feliz que nem sabia como reagir. Na noite seguinte, eu finalmente, iria para o céu. Eu estava "pronta", eu nunca estive em tanta êxtase como agora. Saio correndo para casa, queria dormir e acordar logo, pois amanhã seria o grande "dia". Escalo um pequeno pedaço de muro e entro pela minha janela. Deito-me na cama e olho para a Lua pela última vez.
— Por favor Lua, espere por mim.
Então durmo.
Finalmente abro meus olhos, o dia tão esperado acabara de chegar. Só deveria esperar algumas horas. Como estou tão ansiosa, decido deixar todos os preparativos prontos. Escolho um vestido dourado e longo, é o meu favorito. Pego minha corda de pular favorita e guardo-a na gaveta da escrivaninha ao lado da cama. Ah! Como estaria partindo para um lugar distante, decido escrever uma carta. Breve, mas honesta. Então guardo-a na mesma gaveta aonde estava a corda.
Após tudo isso, apenas sento-me na cama, esperando. Por que eu sinto que o tempo está passando tão vagarosamente? Por que eu sinto que há uma imensurável pausa entre os "tiques" e os "taques"?
Depois da tarde mais longa da minha vida, finalmente o sol se põe. E minha majestade, a Lua, aparece. Lembrando-me dos planos de hoje.
São 23:30, coloco meu vestido, pego o conteúdo da gaveta da escrivaninha e saio, descalça. Como sempre, as pequenas estrelas já estavam em minha porta, esperando-me. A floresta hoje parecia muito mais linda e atraente. Como é bom sentir a terra em meus pés, o frescor do orvalho em meu rosto e o ar puro.
O caminho até a grande árvore que outrora parecia tão extenso, havia ficado quase inexistente.
Percorri todo o trajeto correndo, pulando e cantarolando minha música favorita. Uma a qual a Lua havia me ensinado.
Eu finalmente chego até a árvore, que fica exatamente embaixo da Lua.
Hoje a Lua está cheia, dourada. Muito mais bonita que o normal. Então a Lua diz que estava daquele jeito para combinar com meu vestido, eu sorrio. Todas as estrelas estavam muito mais brilhosas. E nessa noite, tão sublime, eu vou para o céu. Deixo a carta no chão. Subo em um galho alto da árvore, e penduro um colar de corda em meu pescoço.
— Ei, Lua! Agora vamos poder finalmente ficar juntas.
Eu pulo do galho, flutuando no ar.
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Epílogo (agora a história será narrada em terceira pessoa)
Eram 7:30 da manhã, em um dia comum os pais da garota abririam a porta e a trancariam novamente às 19:30. Porém nos finais de semana ela ficava trancada o dia todo. A família da garota demorou três dias para notar que ela havia sumido. O corpo da menina foi encontrado sete dias após o fato ocorrido. Era uma cidade pequena, então as notícias espalharam-se rapidamente. Mas... Ninguém conhecia direito a menina, nem mesmo seus pais.
A polícia foi até a floresta, para retirar o corpo.
O corpo da garota estava inerte, pútrido. A pele dela estava azulada, e a área do pescoço, por conta do atrito, estava escarlate. Porém, de algum jeito sua feição era linda, ela parecia imensamente feliz.
Um policial ao vê-la lacrimejou, por conta da cena. Então ele reparou na carta que estava no chão, ele a lê, chora, e guarda a mesma no bolso. Então ele abraça o cadáver, com suas lágrimas escorrendo na menina.
Um funeral foi feito para a garota, pelo policial. Apenas ele compareceu. Durante a velação, ele retira a carta da menina do bolso traseiro de sua calça e a lê em voz alta.
— "Olá! Sou eu. Vocês nem sabem quem eu sou, na verdade. Eu nunca recebi o amor de ninguém. Não recebi nem mesmo um nome. Mas mesmo assim, obrigado por nada. Estou indo para o céu, para ficar com a Lua."
Após a menina ser enterrada, o policial esculpiu uma grande lua em sua lápide. Então, em prantos, a responde:
— Eu sei quem você é. Eu espero que seja feliz Luna!
Lá no céu, a menina vulgo Luna sorriu, e abraçou a Lua.
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