Tentativa de Conexão: Numero 6
Bateria: Numero 35
Hora: 5:36 am
Mês: Incerto
Dia: Omithés
Local: LUGÁ RALGUM
Espero que tenha alguém aí, lendo o que escrevi.
Tem que ter! Tem que ter!
Porra! Eu devo estar muito louco mesmo! Isso nunca vai dar certo!
Devo mesmo, estou escrevendo o que penso, como se as palavras percebendo minha boca fechada, resolvessem sair pelos meus dedos! Olha só! Estou fazendo de novo! E de novo!!!!!!
Hora: 5:40 am
Oi voltei... Voltei e continuo fazendo o mesmo.
Desculpe.
É muito tempo sem falar com alguém. Loucura... Vou ter que me acostumar.
Vou tentar.
Preciso tentar.
Afinal o mais difícil eu já consegui que foi essa conexão com... Com você, seja lá quem for. Por favor... Me ajude! Espero muito que me possa.
Não só por mim. Mas por todos!
Inclusive por VOCÊ!
Bom, eu não tenho alternativas aqui, onde estou, a não ser tentar isso...
Vamos lá, a coisa é o seguinte,
Tenho uma hora para lhe escrever, e já perdi uns bons 10 minutos tentando essa conexão e outros 10 tentando acreditar que isso era real!
É real! Eu acho...
Tentarei enfim ser sucinto, mas não posso esconder-lhe todos os detalhes da minha jornada até aqui, porque quero que acredite em mim. Quero muito!
Quero que saiba o que aconteceu comigo e o que aconteceu com você.
Lá vai...
Escrevo do ano de 2052...
Sim falo do futuro.
Pois é, parece loucura, maluquice! Você também deve estar se sentindo louco só por ainda estar lendo isso, eu espero muito que ainda esteja. Foi um pouco difícil pra mim também, quase não acreditei quando fiz a primeira conexão há um mês, com a trigésima quarta bateria. Mas ela já estava no fim e não pude fazer muito, hoje também não tenho muito, mas na verdade é mais do que tenho há muito tempo!
Bom, eu tenho em minhas mãos um notebook, algo muito utilizado em seu tempo, você inclusive pode estar com um no colo nesse exato momento, hoje... Digo, no meu hoje, é um objeto raro, muito raro, assim como outra ou qualquer vertente da informática, muito me admira que este esteja em bom estado apesar de tudo. Foi difícil consegui-lo, trazer até onde estou então, quase impossível!
Muito embora, ainda mais surpreendente foi conectá-lo, via wireless, à rede mundial de computadores!
Surpreso? Você não perde por esperar! Isso não é nem o começo. Sobrenatural é uma palavra muito fraca para adjetivar o que está acontecendo e como eu estou falando com você, neste exato momento, há 41 anos, atrás.
Eu sei, é inconcebível! Eu também não tenho como explicar, mas já aconteceu uma outra vez e está acontecendo agora e isso é o importante. Acredito que você possa me ajudar a entender muitas outras coisas...
Não. Acho que não...
Como explicar que a internet, que você navega aí em 2012 é a mesma que eu utilizo aqui em 2052? Como explicar que alguns servidores não foram desativados mesmo após tanto tempo?! Como explicar que os sites, blogs, sites de relacionamentos e outros cacarecos da web, continuam sendo atualizados no meu tempo, como se ainda vivessem... No seu tempo. É claro que nem todas as páginas resistiram, são poucas as que ainda consigo acessar, em geral elas estão fora do ar, e foi em uma dessas que depois de muito esforço consegui invadir para falar com você agora.
É extraordinário eu sei! E por isso me apego a essa ultima esperança!
Me ajude.
Mude.
Veja. Eu estou fadado a acreditar que o que você fizer aí agora pode me ajudará a vencer aqui, no amanhã. Em todos os sentidos. Enquanto lê o que eu escrevo, seja lá quanto tempo isso durar, enquanto come, seja lá quanto tempo isso durar, enquanto dorme, seja lá quanto tempo isso durar, enquanto vive... Acho que sei o quanto isso vai durar.
Eu sei a hora, o dia e o ano que seu mundo se transformará no meu mundo. Mas não posso lhe contar, não ainda. Não enquanto você não me provar a sua fé. Mas posso lhe dizer que não temos muito tempo.
Mas ainda há tempo.
Mude a minha história. Eu confio na sua fé. Acredito que a fé possa ser a solução, a fé pode ser a força!
Já tentei tantas coisas, tantas vezes. Tanto, que acho que se eu fracassar em mais essa tentativa acho que eu me m
Hora: 5:48 am
Estou preso. Uma cela, na verdade um buraco, quatro por quatro de largura e dez de altura, muito me parece um poço, mas não é. Este é todo construído de uma pedra lisa e mal cheirosa. Não há porta e nem janelas, a única entrada de ar, comida, luz e eu, quando raramente me retiram daqui , é uma abertura no alto, com cerca de cinquenta centímetros quadrados. Não sou de reclamar mais. Essa não é a primeira vez que me vejo enclausurado, porém hoje sou um prisioneiro de guerra, eu já devia ter sido executado, mas ainda estou aqui... Ainda não sei por que.
Tenho comigo este luxo, pelo qual vos escrevo, um velho notebook como já disse, conseguido a duras penas, fruto de uma artimanha que quem sabe conto depois, hoje não tenho muito tempo, a bateria se esvai com uma rapidez incrível.
Eu escrevo escondido, o que é bem fácil dado o meu isolamento. A bateria para usá-lo me chega todo quinto dia da semana, Othniuque na minha língua materna (lhe ensino como se fala e a sua função assim que possível) e é atirada por alguém que não faço ideia quem seja, mas tem me ajudado muito há alguns meses. Roupas semilimpas, água e até um pedaço de sabão ele já me trouxe, mas o melhor foi a energia pra essa, que pode ser minha última missão.
Não sei seu nome, apenas o chamo de doistoques, pois é com duas batidas que ele me avisa que descerá pelo barbante a bateria carregada. É pelo mesmo barbante que ele puxa a bateria sem carga para me trazê-la pronta pra uso na semana que vem. Tenho assim, como já disse antes, uma hora para tentar lhe contar minha história, ou melhor, dizendo, nossa história.
Lá se vão mais de 25 minutos.
Além de Doistoques não vejo muita gente, além de meio corpo dos guardas através do buraco, uma vez por dia quando descem a comida e sobem meus dejetos, não é muito higiênico eu sei, mas pelo menos ele levam não é?
Sabe... Às vezes acho que sou o único preso nesse lugar horrível! Tudo aqui está horrendo! Nem parece a terra que nasci. Lá e de volta outra vez! Li isso num livro uma vez e essa frase não me sai da cabeça. Hoje isso aqui é mundialmente conhecido como a Montanha Prisão.
Creio que você está achando que está difícil viver com as coisas como estão, acertei? Violência, intolerância de todas as formas e cores, medo, sofrimento, angústia. Estou certo, não estou? Tenho mais um item para que você acrescente nesta lista...
O amanhã. Este sim será muito pior.
Não faço ideia alguma se conseguirei fazer esta história voltar ao seu tempo e assim chegar até você. Mas esta arma chegou em minhas mãos, e me adaptei a ela como as outras que já empunhei, não posso desperdiçar isso, quem sabe o peso da palavra seja maior do que o da espada. Preciso tentar.
Escreverei o que vi, o que vivi, o que sei e até o que ouvi dizer, de uma maneira clara e mais objetiva possível. Eu faço parte dessa história, mas não revelarei quem sou. Fui preso como um soldado, eles não sabem minha real identidade, isso seria o fim de tudo. Se você conseguir descobrir, é porque foi merecedor disso. Falarei de mim na terceira pessoa, caso este escrito caia onde não deve cair enquanto envio para o passado, para que você leia isso. Mas se preferir, você pode me chamar apenas de Elle e ficamos acertados assim.
30 minutos. É o que tenho.
Tempo suficiente para lhe contar o que preciso. Porém, antes de contar o que está acontecendo no meu hoje me deixe contar o que irá acontecer no seu...
No seu hoje, algo mudou a visão do mundo que todos conheciam. Se me lembro bem o que aprendi, pois eu apenas tenho uma visão teórica dos fatos por não ter nascido em seu tempo. Os adultos do seu hoje estavam extremamente preocupados em parar o aquecimento global, poupar a água doce da terra, matar fome dos seus pobres... Ótimo. Faça isso. Muitas destas coisas realmente estão fazendo falta no meu hoje, eu agradeceria se você melhorasse a forma que estamos vivendo agora. Mas posso garantir que não foi isso que acabou realmente mudando o destino do planeta.
Muitos fatos do que aconteceu se perderam no tempo. Não faz tanto tempo assim, mas você sabe como é a história, acrescenta-se aqui, retira-se lá. Por tanto vai ser um pouco difícil lhe dizer em detalhes o que causou o fim da normalidade a qual você estava acostumado, ainda tento descobrir concretamente o estopim dessa desgraça, mas ainda nada sei. Por tanto peço que não se apegue a fatos, descubra comigo conforme vou contando e vivendo. Fatos não são tão úteis agora, afinal quem vai querer lembrar-se disto quando, e se, essa nuvem negra abandonar a terra?
Preste bem atenção, hoje nem todos os rios tem nome e nem todos os montes, vales e colinas foram batizados também, por isso se agarre a história em si. Não sou biólogo, sou hoje pra você um mero contador de histórias e por tanto não espere que eu vá chamar plantas por seus nomes se eu não souber que nome elas tem. Conheço fatos e não arbustos. E sei o suficiente, o necessário para que você entenda o que você mesmo causou.
Não faço ideia de quem ganharia ou não com isso, não me pergunte. Eu apenas sei o que se perdeu... Tudo.
A explicação é simples.
Terceira Guerra Mundial. Não começou do zero, foi como um castelo de cartas de concreto, ou dominós de aço maciço enfileirados em uma fina mesa de vidro. Uma carta caiu, uma peça rolou, e tudo veio abaixo. Alguém criou uma nova superbomba, ou foi uma superarma, não sei bem. Consideramos aqui como bomba e só e que ela tinha maior poder de destruição e potência do que as já conhecidas. Muito mais, garanto. Já viu folha seca pegando fogo? Foi assim. Rápido, no centro da Ásia. Atingindo boa parte da Rússia e o noroeste da Mongólia. Porém a colossal destruição que ela causou foi o menor dos problemas comparado a tudo que veio depois. Calor Insuportável! Jornais batizaram a onda de calor de "Mil verões".
Japoneses acusaram americanos, americanos disseram ter sido obra de chineses, estes se defenderam e culparam a própria Rússia em um suposto teste que saíra errado. Muito se falou. Se falou demais, como sempre! A Terra se transformou em uma imensa panela de pressão e A Guerra chegou atirando na fechadura. Os galpões bélicos de todo o mundo foram abertos e com eles os bueiros para suor, sangue e lágrimas. Militares contra militares. Militares contra civis. Civis contra Civis. Você contra você.
Muitas nucleares foram usadas, e o que o tal buraco na camada de ozônio não havia conseguido até então, elas efetuaram com maestria. Os polos enfim derreteram por completo, consequentemente aumentando o nível do mar, ondas enormes invadiram litorais. As placas tectônicas se moveram onde geralmente se moviam e onde não também. Uma em especial abriu um novo oceano entre o pacífico norte e índico norte, um dado que coletei mencionava um 12.4 na escala Richter, dizimou a Europa, boa parte da África e quase totalidade da Ásia. A Guerra acabou neste ponto. Já não havia muito para ser defendido.
Analiso isso tudo com muita estranheza.
Os efeitos em cadeia mataram e continuaram matando tudo ao redor, com o auxílio do homem a primeira bomba, marco zero do mundo em que vivo, destruiu o que a própria explosão não conseguiu, inclusive é claro: Você.
A Terra acabou. Ou quase.
Mas ela recomeçou.
Mais estranho do que tudo que já lhe contei é que na face ocidental um continente resistiu à destruição e seu posterior caos. A América do Sul.
Governantes dos países sul americanos se uniram e resolveram não tomar partido nem de um nem de outro, porém o que é difícil de entender é que mesmo tão perto de territórios inundados parcial ou totalmente pelos tsunamis, como os Estados unidos e América Central, não todo o continente, mas boa parte dele, este em questão não foi atingido. As grandes ondas marítimas não conseguiram transpor estas terras, porém ondas radioativas chegaram com força total durante a guerra quando um avião bombardeiro carregado com três nucleares caiu em Porto Rico. Uma reação incrível fez gritar a grandiosa Floresta Amazônica, um crescimento exagerado e irregular transformou o agora, sombrio, misterioso verde escuro da mata, que tomou então todos os países que ela ocupava principalmente é claro o maior deles, o Brasil.
Uma floresta inabitável e perigosa antes. Imagine esta mesma floresta com dez vezes seu tamanho. Árvores, plantas, animais, que podem ter sido afetados e sofrido mutações. Eu penso nos mistérios dessa imensa mata nativa que agora são dez vezes mais misteriosos, e lhe digo: Fazem parte da história aqui.
Um novo tempo foi formado, uma nova era. O Brasil não se chama mais Brasil, o continente sul americano também perdeu seu nome, agora toda essa área invadida é simplesmente conhecida como Mata Amazônica. Ninguém mais vive lá. Não se pode mais. Acredita-se que hoje a única parte habitável do mundo é justamente em território brasileiro. Todos que conseguiram sobreviver e atravessar a floresta hoje vivem aqui, onde eu também vivo...
Vivo?
Você deve ter ouvido falar deste pequeno, porém muito popular estado. Estamos agora no antigo estado do Rio de Janeiro, nome esse que quase todos não lembram mais. Essa pequena faixa de terra esta agora divida, em três partes. Essa maior parte é a que poderia ser considerada a nova capital, hoje com um novo nome. Seu nome faz jus não ao que essa terra já foi no seu hoje, mas sim ao que ela é no meu hoje.
Seja bem vindo a Lugá Ralgum.
Você aí deveria chamar meu tempo de futuro, só que em Lugá Ralgum, o tempo é uma coisa muito relativa. O povo e a cultura retrocederam, agora vivemos numa espécie de sistema feudal...
O que me faz lembrar que todo feudo tem seu senhor.
E nesse, seu nome é Rascar, Raskar Velkian.
Rei Raskar, como gosta de ser chamado. Um governante, que lidera a capital com tirania e medo.
Mas ele nem sempre comandou por aqui.
Cinco anos já haviam passado desde a Grande Explosão, porém os locais e os imigrantes ainda estavam perdidos. Nem todos os líderes mundiais morreram no incidente, e estes também foram obrigados a se refugiar no Rio de Janeiro, mas nossas lideranças estavam tontas e despreparadas. Era uma novo mundo, um novo tempo, não havia manual para isso.
Lugá Ralgum não se chamava assim, o nome pouco importava quando Ele apareceu. Não esse rei, mas nosso Mestre Verdadeiro.
Veio de longe, não sei de onde. Mas até parecia que aqui tinha nascido, conseguia falar com todos, e falava todas as línguas sem sotaque algum, se preocupava com todos, conseguiu a amizade de todos. Ajudou aos sobreviventes a se organizarem. Lembrou-os de antigas culturas; relembrou a todos a como criar animais, a plantar, a achar nascentes de água limpa, dividir os suprimentos igualmente. Ele conseguiu inibir os saques e pequenos furtos daqueles que já começavam a roubar para comer. Ele fez muito, e eram tempos difíceis, mas as pessoas estavam se restabelecendo.
Enquanto íamos reerguendo tudo ele foi contando sua história e suas experiências de vida.
Todos começavam suspeitar que fosse de alguma forma, graças a ele que esse pedaço de terra, mesmo no litoral e tão perto da Amazônia, resistiu. Os mais velhos e alguns novos livros de autores desconhecidos contam que ele tinha poderes mágicos incríveis! Uma velha senhora antes de seu falecimento me contou certa vez que ele até já havia enganado o temível ceifeiro da morte que ela tanto temia naquela hora.
Os mais jovens, mais céticos (por mais incrível que pareça), relatam algo diferente, dizem que ele era apenas um bom administrador e um ótimo político. Eu prefiro acreditar nas duas coisas. Sei de outras histórias ótimas sobre ele, porém não sei de tudo. Na verdade ninguém sabe. Não alguém que eu conheça vivo pelo menos, e olha que conheci muita gente, e gente de todo tipo, de todas as espécies, mas o que sei e ouvi você também saberá.
De aparência jovem, mas com conhecimentos vastos, tanto que muito do que sabemos hoje, foi ele que nos ensinou. Naturalmente e sem nenhuma opressão todos foram tendo alguém para chamar de líder, para chamar de mestre, porém quando sem querer expressávamos esse desejo, ele estampava um belo sorriso e dizia que ele apenas ainda possuía mais conhecimento do que os outros para esta nova jornada humana e que só queria ajudar o povo a reconstruir suas vidas.
Oaeel. Esse era seu nome.
O fim da história de Oaeel é uma incógnita até pra mim, essa resposta nem eu tenho. Ele simplesmente sumiu. Acredito que tenha sido traição. Não dele claro, mas de alguém ligado a Raskar, devem ter entregado sua posição e ele precisou desaparecer. Meio covarde pode lhe parecer, mas ele não era um covarde, era um lutador! Se fugiu, fugiu com algum plano em mente, e é aí que entra o restante da minha teoria, ele pode ter sido morto nessa fuga. Raskar nesta época já havia derrubado cinquenta por cento da nova liderança com a intenção de reinar sozinho e a seu modo, nosso verdadeiro mestre poderia muito bem ter entrado para essa estatística. Mas ele era um ótimo guerreiro, um bom camuflador, na pior das hipóteses não me entra na cabeça que tenha perecido sob a mão de Velkian! Bom, isso tudo é apenas o que eu acho, ainda não tenho como provar. Ninguém tem.
A única pista que Oaeel nos deixou foi seu abrigo intacto e um poema num papel em cima dos seus livros. Nunca poderia me esquecer daquilo, afinal aquele poema, era minha a vida. E a vida do ser mais surpreendente que conheci na vida.
"O leão retornará, homem forte,
apertado em seu pequeno cativeiro.
Nesse dia o cordeiro se revelará,
E será sacrificado, pisando no rabo da serpente,
para que o leão comece a reinar"
Saudades... Cordeiro.
Já descobri o que o poema significa.
Você saberá em breve. Como já disse, se for digno. Mas eu sinto que essa hora vai chegar.
A história não acaba aí, como disse antes, o sumiço de Oaeel foi a deixa pra entrada triunfante de Raskar, com sua tirania e dizendo ser ele o salvador da terra, tomou pra si o trono do mundo que era de todos com força, sangue e com algo que habitava apenas o imaginário humano... Magia Negra. Iludiu muitos com promessas de vida eterna e riquezas sem fim. Hoje ele tenta mudar tudo que Oaeel construiu. Quer que o novo mundo seja a sua imagem e semelhança, posso te adiantar que a imagem dele é muito sombria, foi ele quem batizou a capital, é claro, e quer que todos os outros domínios também sejam chamados como o feudo... Lugá Ralgum.
A ganância e o exibicionismo do Mestre de Lugá Ralgum é tão grande que seu feudo, ao contrário dos feudos que você aprendia na escola primária tem uma moeda corrente, pedaços de aço fundido brutalmente, arredondados semelhante a uma moeda e vazados com um "R" e cravejado com espinhos pontiagudos feitos de aço, a marca oficial dele.
Essa moeda é uma das muitas coisas implantadas por Velkian, que tem como principal objetivo corromper a alma do homem, os espinhos nela cravados, saltam pra fora do aço, ferindo assim todo aquele que nela toca. O sangue de todo homem e mulher que usa uma dessas moedas é derramado e começa a fazer parte de toda e qualquer troca que com ela pode se ter proveito. Esse dinheiro foi espalhado por todo novo mundo, elas são conhecidas como erres. Uma desta, dependendo de seu tamanho, pode valer um pequeno cobertor aqui e mais a frente ser trocada por um abrigo completo, depende da benevolência do comprador, da paciência do negociador, tamanho da moeda e principalmente, a quantidade de sangue que por ela foi vertido e nela tem marcado.
Aqui dentro também, mas principalmente lá do lado de fora dos domínios de Raskar, já que não adotamos a moeda do senhor de Lugá Ralgum, as coisas são adquiridas de um modo também tão antigo quanto o feudalismo, através do escambo. Não somos ambiciosos como os lugarianos, vivemos eu vivia. da troca de serviços e objetos em amena discussão, mas podendo perder a vida se preciso fosse entrar na capital para adquirir algo. Mas é um mundo louco e loucos os que não são daqui que entram e fazem o que tem que ser feito, quando assim é necessário.
Ouro. Outra forte fonte de riqueza humana no seu tempo. Não existe mais. Simplesmente desapareceu. Nossos cientistas, que não são hoje nada ortodoxos, dizem que era um metal muito sensível a radiação e derreteu penetrando nas entranhas da terra se tornando um metal mágico. Eu particularmente não conseguia acreditar... Como as coisas mudam.
Um boato corria na minha tribo sobre uma jovem de lá que foi vista em Lugá Ralgum com três braceletes de ouro presos ao seu braço. Eu a conheci e você irá conhecê-la.
A maior busca hoje não é ouro nem erres, mas sim a prata. Prata pura. O metal mais precioso em Lugá Ralgum e suas adjacências. Este, não sumiu num passe de mágica, há uma história por trás, na verdade... Nossa história. História da minha vida... E da vida de todos da minha gente.
Essa parte da história é a mais tenebrosa de todas. A mais difícil de acreditar também, peço a você que não pare de ler meu escrito. Espere até que eu termine e explique tudo a você e depois sim tome suas conclusões.
Após mais ou menos sete anos depois das explosões em Porto Rico, aproximadamente seis meses depois do sumiço de Oaeel. Alguns homens e mulheres sofreram reações estranhas a radiação, mudanças parecidas com as que aconteceram com a Mata Amazônica.
Foi então que ouvi pela primeira vez na minha vida o termo: criaturas pós-bombas ou inumanos. Seres que não morriam e nem poderiam ser feridos, suas chagas, mesmo as mais fatais se regeneravam. E eles começaram a se multiplicar por todo o restante da face da terra.
A história desses seres é longa, além de assustadora. Como já disse, espere antes de achar que estou escrevendo balelas ou até mesmo um conto proveniente de meu delírio. Vou contando de acordo com o que vamos vivendo você aí e eu aqui. Será de mais fácil digestão assim, garanto. Apenas, agora é importante saber de duas coisas.
A quem eles servem. Sim, ao Rei Raskar, são seu esquadrão, seu exército, de destruição e morte.
E qual seu ponto fraco. Exatamente. Prata.
Posso dizer que a dor, a tristeza e a ira foram os temperos essenciais para esta descoberta, que enfim virou o jogo para o nosso lado. A lenda conta (hoje as lendas rodeiam os fatos a todo instante, se acostume) que após dois anos do domínio absoluto dessas criaturas e após serem recrutadas por Raskar, em uma batalha histórica um deles foi ferido e morto por um objeto de pura prata.
Outros testes então foram feitos com vários exemplares destes seres, capturados a duras penas, estes mais conclusivos, do que na vítima numero um. Descobriu-se que as propriedades desse metal reunidas causavam então ferimentos nestes pós-bombas que não se regeneravam, pelo contrário, os deixavam sensíveis a quaisquer ferimentos posteriores. E mais, até mesmo pequenas feridas aumentam de tamanho em poucos minutos se espalhando e se multiplicando em seguida até a morte do indivíduo. Outro teste foi aplicado e deduziu-se que quando a prata, em grande quantidade penetrava ou transpassava pontos vitais do espécime, envenenava rapidamente a corrente sanguínea, matando tudo pelo caminho o que cominava em uma morte quase fulminante, seguida de quase imediata decomposição do cadáver.
Um golpe fatal nas ambições do tirano dessa terra. Antes dessa descoberta só quem havia conseguido matar um deles fora ele com seus poderes desconhecidos. Ou um deles, quando por ventura lutavam entre si.
Conclusão óbvia, a maior quantidade de prata que fosse encontrada no que restou da terra, destruído ou não, precisava ser reunida para minar a tirania do novo mundo. Uma quantidade jamais vista antes foi coletada. Claro que este fato não escapou dos olhos do rei, que parece estar em todo lugar também por isso meu medo de revelar quem sou a você -, usando sua força ilimitada ele liderou uma caçada em busca das Dez Comitivas, ele triunfou novamente.
Mas não por completo.
A jornada da monstruosa horda de Velkian em busca da prata durou oito longos anos. Matou todos que estavam em seu caminho e conseguiu a sétima parte da prata reunida. Mas o restante foi salvo. As três comitivas restantes contavam com a força da arma fatal contra pós-bombas, mas acredite, eles não usaram. Pratos, bandejas, mesas, castiçais, lustres, vasos, jarras. Nenhum objeto perfurante. Nada poderia ser usado assim de imediato. Mas os três homens que lideravam estes grupos eram os mais astutos e inteligentes, nem seus rastros foram detectados.
A prata foi escondida. Em um lugar desconhecido. Você descobrirá quando eu achar que devo dizer.
Nos últimos anos esta é a maior obsessão de Raskar. Ele procura por todas as áreas do seu feudo, sem sucesso em suas terras ele precisou expandir seus olhos para os outros domínios também. Aí que as mudanças começam. Aí que ele começou as mudanças.
Saarret Mautulf, que quer dizer Terras que Flutuam e Saarret Satlas, que vem de Terras Altas são as outras duas partes do mundo que sobrou. Que saudade.
O primeiro, um pequeno conjunto de duas ilhas ao leste de Lugá Ralgum, as Saarret Satlas são os montes ao centro. À sudeste existe ainda, uma larga e ampla ponte que é conhecida como a Zona Morta, devido a sua proximidade com a sinistra Mata Atlântica, e não é considerada parte de Lugá Ralgum e nem de qualquer outro domínio devido a isso, apesar de sua proximidade com a capital, foi excluída do mapa também por sua inutilidade estratégica. E é tabu até para os mais corajosos dos seres!
O novo mundo lhe parece um lugar pequeno e simples? Visto de dentro pra fora é bem diferente.
Como você deve estar notando o mundo não é mais como era antes, agora o futuro e o passado se misturam, os avanços tecnológicos se entrelaçam com espadas e arcos, um lugar onde o dia foi esquecido. Desde que Oaeel se foi negras e espessas nuvens cobrem o sol antes mesmo que ele tente dar o ar de sua graça, deixando o dia na maioria das vezes tão escuro quanto à noite, provavelmente mais uma reação da atmosfera à radiação gigantesca da arma mortal que nós mesmos inventamos, mas... Existe outra possibilidade.
Muitos gostam de me dizer que escapamos do grande e não tão esperado Fim do Mundo. Eu posso apostar que ainda estamos nele. Onde minha vista alcança quando saio desse buraco fedorento só encontro trevas e escuridão
Escuridão...
É nela que um homem jovem e sozinho pode efetuar com êxito uma investida contra um número superior de homens e começar de vez essa história.
E é aqui que meus relatos se fundem com os de um dos homens mais importantes do nosso tempo. Juntos, serei eu e você ao lado dele e de todos, Lugarianos, Satlenienses, Mautunianos humanos ou não. Você viverá esta história de acordo com o que eu vivo e com o que sei, e nós viveremos dependendo do que você faz aí. Lembre-se sempre que você tem função importantíssima aí no seu tempo. Ter fé.
Anexarei algumas ilustrações (perdoem meus rabiscos, o material e as condições não são os melhores, mas lhe garanto que sempre fui o aluno numero um das aulas de arte), áudios (estes também escreverei pro caso do áudio não chegar até você ou chegue corrompido) e imagens que fui fazendo e coletando durante a minha vida, que com a sua ajuda terá um bom fim.
Preciso findar a história amigo, será que posso lhe chamar assim?
A bateria está terminando e ainda preciso salvar e enviar esse arquivo para o site. Torçam para que Doistoques traga a bateria semana que vem!
Até breve amigo.
Obrigado por não desistir de mim.
Elle
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