Lugares Perfeitos

1 Capítulo Único


Notas iniciais
"Nos mande para lugares perfeitos".

É essa a frase de efeito que constituí a canção "Perfect Places" de minha cantora preferida, Lorde. Arrastado pelo desejo de muito tempo a escrever uma fanfic de "Hoje eu quero voltar sozinho", o conceito por trás da música fundida à estória de amor de Leonardo e Gabriel - e principalmente ao fato da cegueira de Léo - me fizeram escrever esse conto alternativo do universo do filme.

Que droga são lugares perfeitos para um garoto que nunca enxergara o mundo, afinal? ♥

"All of our heroes fading
Now I can't stand to be alone
Let's go to perfect places"

— Você vai ver... ops! Quero dizer, reservei um lugar perfeito para nós dois.

Essa simples afirmação martelara a cabeça do pobre Leonardo já há várias semanas, e continuou a latejar desde que começou a imaginar do que era, como se constituía e do que se tratava o tal “lugar perfeito” que seu namorado, Gabriel, o prometeu a visita em comemoração ao seu aniversário.

Em uma troca abrupta do tradicionalismo familiar, Léo deixou de lado a festa de dezoito anos que seus pais o promoveriam e fechou contrato com a promessa de seu namorado que se notava muito convicto em realizar. Por outro lado, a mão-de-ferro autoritária de sua mãe insinuou desgosto a quebra do paradigma que tanto criara expectativas. A mesma situação ocorreu quando a mesma descobriu que seu protegido Leonardo havia tomado rumos amorosos bem distintos ao que esperava que o filho tivesse. Na realidade, ela sequer esperava que o garoto conquistasse um relacionamento devido sua condição que o impedia inclusão em vários grupos, mas a revelação que tivera da homossexualidade do filho foi de um impacto que não esperava receber de nenhuma direção.

Sobretudo, afinal, graças à intervenção de seu marido, se deu conta de que seu preconceito era tolo e totalmente desconexo com a realidade que levava, já que seu querido filho sempre sofrera de uma exclusão social dolorosa por sua condição, portanto, sua sexualidade era apenas mais um motivo para ama-lo e o acolher ainda mais.

Seu pai, um homem doce e paciente, a distinta figura paterna paciente e fora de eixos machistas, embora nunca tenha criado expectativas amorosas para com que seu filho, jamais pensou em deixar de incitar apoio ao garoto para qualquer que fosse o caminho que a vida o direcionasse. Léo, mais do que qualquer outro, não importasse de qual pessoa, merecia o amor muito além que recebia de sua família.

Quando a notícia chegou à tona e a realidade transfigurou-se para um cenário inimaginável para vida de Léo, ele fora o primeiro a lhe abraçar e singelamente declarar espasmos de amor ao garoto em mártires:

— Eu te amo, e não existe nenhum fato neste mundo que fará que meu amor por você diminua. Você é meu filho, meu eterno “Leozinho”.

A melhor amiga de Leonardo, Giovana, ainda que estivesse assistindo a todo espetáculo que se tornara a vida do garoto nas primeiras poltronas desde o início, não deixou de manifestar sentimentos até mais profundos aos que preservava pelo amigo. Se tornara uma das pessoas de seu círculo de relações mais interessada em permanecer-lhe próximo. Expressara uma incalculável felicidade a todo tempo em vista de que o sonho de Leonardo de amar e ser amado tornou-se realidade.

A menina também já não sentia ciúmes pela intensa proximidade que se articulou entre Leonardo e Gabriel, seu amado namorado. O garoto o qual foi conquistado e atraído pela maneira especial com que Léo “enxergava” o mundo, transformou-se na maior figura de carinho e sustento para seu novo namorado que o mesmo nunca tivera. Gabriel tentava sempre tornar o relacionamento o mais “normal” possível enquanto não se detinha a fazer qualquer coisa agradável para o companheiro dentro a condição do mesmo. Ele o amava em sua totalidade e não tinha vergonha em admitir.

Aquele turbilhão de novas notas e experiências fez o coração de Léo inchar e implodir em uma realidade dura e fria que sua ingenuidade não pudera suportar. O amor sem fronteiras que imaginava cobrir o mundo já não existia mais. Enlameado de preceitos idiotas de correto ou incorreto no campo afetivo. A compulsão de rejeição inicial por parte de sua mãe e de muitos outros que o cercava abalou nitidamente sua fé no mundo. Para ele, que nunca enxergara sequer o azul do céu, o amor não obtinha “regras” como fingia a sociedade impor. Fora um baque estrondoso pensar por início que sua paixão por Gabriel era “inconveniente” e marginalizada.

Ele podia ver, mesmo que na escuridão de sua natureza, que pessoas o enxergavam ainda mais esdrúxulo do que como enxergavam antes. Isso o fez partir o coração, mas também evoluir e aprender que seu modo de amar não era seu novo obstáculo, porém encarar a maldade humana em tons mais obscuros do quê presenciava.

Léo já não era o mesmo garoto de meses atrás, era, por mérito, um indivíduo com suas capacidades e desafios. Talvez imaginasse perfeição nas pessoas que amava, mas jamais no amor que distribuía.

Afinal, o que são amores perfeitos?

— Lugar perfeito? Não entendemos sua pergunta, filho. – A voz do pai esvaziou o balão de esperanças retido na garganta de Leonardo.

Os pais se entreolharam, indiferentes diante a pergunta incomum do garoto. Uma onda de ansiedade gesticulou travessura enquanto o menino de olhos especiais equilibrava o tédio sob a cadeira como sempre fizera, mesmo depois de inúmeros avisos de seus pais que parasse.

— Por que essa pergunta agora, meu filho? – Indagou sua mãe, com uma expressão nostálgica de espanto dos tempos de infância de Leonardo em que se contorcia a tentar descrever o mundo em cores para o filho, tal mergulhado numa noite eterna de curiosidades.

— Nada... – A voz de Léo recuou junto com a cadeira de volta ao chão – É para um trabalho da escola.

— Se for esse o caso, talvez seja melhor perguntar para a Giovana ou o Gabriel – Deduziu seu pai com um sopro de eufemismo na voz.

— É, farei mesmo isso.

●●●

— Ele já foi?

— Já, sim. – Confirmou Giovana olhando pelo ombro o corpo de Gabriel se movimentando para a porta do banheiro – Diz logo, estou ficando preocupada.

— Não é nada sobre ele. Relaxa, Gi. – Léo assentiu rápido, mas ainda receoso da reação da amiga diante a pergunta – O que eu quero saber é o que são lugares perfeitos

— Lugares perfeitos? – Giovana repetiu a frase testando do expressionismo e filosofia enquanto fitava o céu. Riu e tentou responder – Ah, sei lá, Léo... acho que seja uma praia, o pico de uma montanha... Lugares assim, sabe?

— Huumm... – Leonardo degustou devagar a resposta da amiga ainda sem muita confiança em suas palavras. Talvez fosse porquê não fazia a mínima ideia de como eram esses tais lugares. – E você já foi a algum desses lugares?

— Uma vez fui à praia. Mas isso tem muito tempo, sabe, eu ainda era bem pequena – A garota permanecia em transe como se estivesse recebendo a brisa gélida do mar.

— E como é lá? – Seguiu Léo.

— A praia? Ah... legal. Tem areia e água – Giovana observou os olhos do amigo brilharem enquanto provavelmente imaginava minucioso os grãos de areia e as gotículas de água. – Por que essa pergunta, Léo?

— Nada não, Gi... – Por um instante o menino perdeu o raciocínio do jogo que tentava fazer, e em seguida decidiu aparar aquelas pontas soltas – É que o Gabriel... bem, ele me disse...

— E aí, vamos? – A voz macia do garoto de cachinhos se ergueu sobre a dupla em filosofia, e retirou mais uma tentativa de Leonardo a desvendar o enigma por ele proposto.

De frente para sua casa, por fim sozinhos, Léo sentia a ansiedade e curiosidade implicarem brutalmente na destilação da promessa de seu namorado. Apressado, ele escapou:

— Gabriel, para onde mesmo você pretende me levar? – Os olhos nem mesmo se mexiam enquanto permanecia de ouvidos atentos à cada sílaba da resposta do garoto.

— Não posso contar, Léo. Aí perde toda graça – Gabriel riu e acariciou os dedos da mão do amado. – Não se preocupe, amanhã você irá descobrir.

— Ah, Gabriel! Me dê pelo menos uma pista então! – A contínua conversa de mistério efervesceu rápido o instinto de curiosidade de Leonardo. – É uma praia?

— Praia?! – A voz de Gabriel saiu abafada junto a uma risada esganiçada – De onde você tirou isso, Léo? Quer dizer, não posso te levar a uma praia.

— E por que não? – Os lábios de Leonardo permaneceram entreabertos em uma respiração veloz, estava se enfurecendo com a decepção que agora tivera.

Gabriel notou a convicção temperada e temperamental do namorado, e como mais um banho de água fria, simplesmente recortou as emendas do diálogo e se despediu com um beijo na bochecha.

À noite, durante os sonhos, a ideia superficial que obteve mais cedo fez com que Léo se remexesse exasperado sobre os lençóis. Ele viu o céu, a plenitude azulejada do horizonte e sentiu o calor da areia sobre seus pés. Depois, assistiu a brisa movimentar artisticamente os cachos negros de seu namorado correndo em sua direção. Ah, como tudo aquilo era perfeito!

Uma última ligação durante sua tarde de tédio fomentou as esperanças de que seu namorado estivesse lhe escondendo a realidade que fora seu sonho. Água, areia e o belo corpo de Gabriel desvestido tocando sua pele...

Não. O que continuou fora o torturante enigma.

Caminhando sob o véu noturno, a única coisa que Léo deduzia era o olhar prateado da lua sob os cachos de seu namorado e um reflexo extensivo da claridade dos postes de luz através de suas retinas. O farfalhar das árvores em conjunto na calçada que andava e o sopro fugaz do vento por dentre seus cabelos e sua barriga. De fato, ele não podia também concluir resoluto a aparência de Gabriel, mas o imaginava o mais belo possível diante aquela data tão especial e esperada.

— Estamos chegando? – Era o que Léo repetia como um tocador estragado, sem se importar se estaria irritando Gabriel ou o fazendo revirar os olhos em silêncio.

— Estamos quase lá – Respondia Gabriel automático como uma secretária eletrônica.

De repente, após o que Léo imaginava serem dez minutos, pararam. Seu coração pulsava elétrico como se estivesse saído de uma corrida de mil metros. O que o garoto sentiu e ouviu foi apenas a sola do calçado de seu namorado se movimentar inquieto e a respiração bem próxima de seu ouvido.

— Chegamos. – O acorde de Gabriel penetrou risonho bem próximo a seu lóbulo. – É aqui.

— E onde estamos? – A voz de Leonardo implicava uma tempestade há muito esperada e preparada.

— Em um lugar perfeito, como eu prometi. – Respondeu Gabriel afastado.

— E onde é esse lugar perfeito? O que tem aqui? – Indagou Léo desesperado pelas réplicas do namorado.

— Bem... têm algumas coisas e tem você – Rebateu Gabriel se aproximando novamente de Leonardo.

— Eu?! Como assim, Gabriel?! Não estou entendendo mais nada! – A exatidão tomou controle do garoto, e pela primeira vez sentiu raiva do companheiro. Como se sentia bem em fazê-lo passar por toda paranoia e ao fim sequer lhe dar alguma explicação decente?! Afastou o namorado para longe com as mãos e vagou depressa utilizando das mesmas para encontrar algo de apoio e referência para descobrir onde se localizava afinal.

— Léo, espera! – Gabriel lhe agarrou pelo braço, e o puxou forte para bem próximo. Estava assustado coma reação do namorado, e além disso confuso pela obsessão compulsiva do mesmo a querer saber onde estavam.

O que isso importava, afinal? O que importava onde estavam senão juntos como sempre quiseram?

— Droga, me solta! – Leonardo tentou se esquivar do agarro, mas em vão. Queria fugir dali sem respostas mas continuar ali para encontrá-las.

— Léo, por que está agindo dessa forma? Não consigo entender... – Leve, Gabriel levantou a questão.

— Eu só quero saber onde estamos, droga! Pelo menos hoje, no meu aniversário, você me deve uma resposta desta! – As pupilas negras do garoto retinham o esparramo prateado do luar e discretos resquícios de lágrimas em acúmulo no canto dos olhos. Queria porque queria obter respostas.

— Como assim? Resposta do quê, Léo? Eu prometi lhe trazer em um lugar perfeito para nós dois, e aqui estamos. Não consigo entender – Gabriel fitava atento e nervoso a expressão caótica no rosto do companheiro.

O silêncio pairou momentâneo, a orquestra natural envolveu aquele encontro tão romântico como o de água e lava. A brisa penetrou devagar a dupla de cabelos cacheados com emoções vulcânicas. A noite estava bela e recortada de estrelas magnéticas que uniam todo ambiente em um lugar perfeito.

— É isso que quero saber – Sussurrou Leonardo com o rosto em trilha de lágrimas. – Que lugar perfeito é esse?

— Léo... – Ao fim, Gabriel compreendeu o descontrole emocional do amado.

— Preciso que me diga como é aqui, só assim poderei dizer que estivesse em um desses lugares perfeitos que tanto dizem. Por favor, Gabriel... – Agora era perceptível o choro assíduo e sincero do garoto comandado pelas profundezas de seu senso de curiosidade, alarde e uma vontade destrutiva de conhecer e reconhecer o literal de tudo que a sociedade lhe pregava como belo... afinal, até sua ideia de amor inocente fora expulso de seu metafísico.

O impacto que Gabriel sofrera assistindo à ingenuidade do namorado diante uma questão que lhe parecia tão insignificante o laminou completo o coração. Agora sim podia deduzir convicto da dificuldade árdua que Léo carregava em seu interior enquanto obstruído de toda luz do mundo.

Ele não fazia ideia do que era um lugar perfeito.

O abraçou como nunca fizera antes, um abraço quente e tão envolvente como a união de um átomo. Ouvia o doloroso soluço de Léo abafado pelo mesmo moletom que esquecera um dia na casa do amado. Sentiu a umidade das lágrimas se espalhar por sua camisa e um avassalador desejo de arrancar os próprios olhos e dar a seu amado como um ato de ultimado a proclamar seu amor.

Segundos, minutos ou mesmo horas se transcorreram enquanto o jovem casal permanecera ali, agarradas e incapazes de se desgrudar ou fugir como a matéria que não escapa de um buraco-negro. O tempo parecia não existir naquele meio em que somente o número de silenciosas declarações era incalculável pela lógica.

— Desculpe... me desculpe! – Balbuciou Leonardo ainda com os braços envoltos pelo corpo macio e cheiroso do namorado. Ele retinha um perfume doce de chocolate e condicionador. Leo era orgulhoso, mas já não mais diante uma situação como aquela. – Eu não...

— Não. – Interrompeu-o Gabriel, com a voz firme que o mesmo não sabia ter. – Sou eu quem devo me desculpar. Deveria ter lhe contato. Sei que é difícil para você, e acabei apenas complicando sua expectativa.

Léo se afastou devagar, fungando e soluçando fraco. Estava esgotado e desconexo com sua crise que tivera momento antes.

— Quero sim te contar onde estamos se isso é tão importante para você – Sussurrou Gabriel enquanto acariciava e limpava as bochechas molhadas do namorado. – Estamos...

— Não! – Leonardo fora quem o interrompeu agora. – Não quero que conte nada!

— Léo, não tem importância. Eu quero lhe contar. Não quero esconder isso de você.

— Não... você não tem nada a esconder de mim. – Exprimiu Léo, a voz fora de seu tom natural – Fui besta em ligar para algo assim.

— Léo, você não foi besta.

— Sim, eu fui! – Admitiu o garoto

— Léo, quem foi besta nessa história toda fui eu! – O menino de olhos grandes baixou o tom enquanto preparava sua dolorosa afirmação – Lugares perfeitos não existem.

O vento uivou e congelou toda aquela discussão maluca. Leonardo engoliu toda frase devagar, e ingeriu seco a verdade por trás daquele sentido que não sabia interpretar. Fungou por mais algumas vezes e ouviu novamente os passos de Gabriel, ausentando-se do calor da proximidade. Em um raio de impulso não deixou que nada mais daquilo que achava ser real ou não estragasse sua noite de aniversário junto a seu amado. Intuitivo, o garoto esticou rápido os braços até se colidir direto ao rosto de Gabriel logo a sua frente. Depressa e voraz, tomou os lábios de seu amado como nunca antes. Notou a surpresa do mesmo ao contar os poucos segundos que demorou a sentir as mãos carinhosas lhe preencher o corpo.

Debaixo da lua azul com seus oceanos cinzentos, o casal apaixonante intensificou a paixão ali mesmo: Em lugar nenhum que algo pudesse ser reconhecido senão seu retrato caloroso de amor verdadeiro.

— Feliz aniversário, Léo. – Sussurrou Gabriel no breve intervalo que tiveram do intenso beijo – Tem certeza que não quer saber onde estamos?

Léo sorriu, e como nunca sentiu segurança em sua vontade e opinião.

— Não. Eu estou aqui com você, e é isso que importa. – Tomou de novo os lábios de Gabriel, e por muito tempo redigiu seu novo conceito do que obtinha por amor, vida, lugar...

Que diabos são lugares perfeitos, afinal?

"All the nights spent off our faces
Trying to find these perfect places
What the fuck are perfect places anyway?"

Notas finais
Não se esqueça de avaliar e comentar, se possível. A evolução do escritor se deve principalmente à críticas, elogios e sugestões de leitores. Obrigado!

Até mais!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!