Lugar Solitário
1 NOITE DE PLANTÃO
Notas iniciais
ONE POSTADA POR CAUSA DO TERCEIRO DESAFIO DE 10 ANOS DO SITE *-* ESPERO QUE GOSTEM!!
TEMA: TRABALHO
PERSONAGEM: REYNA
APROVEITEM!!!
- Você não vai mais sair com a gente? – Piper exclamou para Reyna enquanto a mesma preparava a quentinha de um cliente – Mas você disse que ia!
- Não vou poder mais. O senhor Larson pediu para que eu cobrisse a Gwen no turno da noite e prometeu o dobro do que costumo receber.
- Esse é o chefe de qual emprego? – A amiga falou desinteressada sentando no balcão lotado por sacolas de PFs prontos para serem entregues.
- O daquela lanchonete perto da faculdade.
Piper suspirou vendo que não seria aquela vez em que sua melhor amiga iria sair e se divertir como outros, e ela já estava tentando isso desde que começaram a faculdade de literatura.
- Quando eu acabar meus expedientes eu juro que será você e eu curtindo a noite em uma balada qualquer.
- Mas você odeia baladas.
- Talvez, mas... Você não. – Reyna falou simpática.
- Não vai adiantar de nada, porque você sempre está de expediente e tenho certeza de que isso vai virar mais uma de suas promessas que nunca serão cumpridas. Vou indo, okay? Se cuida.
Dito isso, a garota de olhos caleidoscópios deixou o local, e, por fim, apenas Reyna permanecia na cozinha do emprego.
Ela tirou as luvas e ajeitou o coque dentro da touca de cozinha que usava. O relógio marcava exatamente sete e quarenta e sete da noite, porém o turno dela só acabaria oito e dez.
O trabalho do preparo de quentinhas já havia sido feito e o tempo restante estava sendo usado para a higiene do local, tal como lavar a louça e arrumar a cozinha, já que era a única que restara ali. Tudo isso veio à mente dela e o pensamento de exaustão quase lhe tentou, mas ela não podia se render ou isso significaria voltar a cidade natal parecendo uma idiota derrotada. Não! Isso definitivamente não poderia acontecer.
Você escolheu isso, ela dizia para si mesma sabia que sair de New Jersey significava se sustentar sem a ajuda de ninguém. Aguente!
O tempo estava frio e a água com a qual lavava a tigela suja de bacon congelante. Ela suspirou tentando fingir que seus ossos não pareciam estar congelando de dentro pra fora. Se aquele emprego não fosse realmente necessário ela e Piper estariam em um happy-hour qualquer perto do campus relaxando.
O telefone do local tocou alto dando uma desculpa para secar as mãos e deixa-las voltar a temperatura normal. Ainda correndo, ela atendeu às pressas com medo de perder um cliente mesmo que tivesse que fazer hora extra.
- Alô? Comida da Tia Ceres, sempre gostosa e nutritiva. Em que posso ajudar? – ela cumprimentou usando o bordão da empresa.
- REY! – ela pode ouvir a voz de Hylla do outro lado da linha. De certa forma isso a deixou com raiva, pois era estritamente proibido chamadas particulares pelo telefone do local – Não fica com raiva porque você não atende o celular e isso é uma emergência.
Se em algum momento Reyna se segurara para não quebrar nada ali, tudo havia ido por água abaixo quando a colher entortou em suas mãos ao ouvir Hylla falando de mais uma de suas emergências que nunca eram emergências, e sim idiotices.
Relaxe... Relaxe. Não quebre mais nada ou irá sentir no bolso no fim do mês. Sua consciência aconselhava e Reyna prendeu um grito de ódio para responder a irmã educadamente.
- Diga.
- Onde está aquele sapato preto que eu usei na terça passada, você sabe?
Definitivamente ela quase pode ver uma cena de si própria voltando para Jersey com malas e o caixão de Hylla como prova de que não viveria mais situações desnecessárias em sua vida.
- Como vou saber? – ela explodiu exausta – Eu estou no meu emprego número 1 e indo para o número 2 pensando na mensalidade da faculdade que vai chegar e enquanto isso você fica aí se preparando para festas com pessoas fúteis e ignorantes! Todos filhinhos de papai! Tenho que ir e procure lá na merda da área de serviço!
O telefone bateu no gancho com força e a respiração dela estava entrecortada pelo esforço do diálogo com a irmã. Será que só ela dava duro no batente para sobreviver naquela cidade? Era o que parecia.
Voltando para a cozinha e jogando a colher deformada fora, ela checou novamente o relógio. Sete e cinquenta e cinco. Seu tempo estava acabando! Pôs rapidamente as luvas nas mãos e recomeçou o processo de lavar louça.
Era trabalhoso e quase torturante se pensasse no ponto de vista térmico, mas ela já estava acostumas, sem contar que era como se fizesse tudo no automático. Sem perceber realmente o que se passava nesta realidade, pois sua mente só lhe alertava pra onde iria depois do trabalho número 1, qual transporte pegar e quando enfim cairia na sua cama confortável.
Quando ela acabou já eram oito e vinte, o que mudava toda a sua rota e fez com que palavrões saíssem de sua boca com velocidade inimaginável.
Se vestiu com o casaco fino com a qual viera e amarrou o cabelo jogando a bolsa no ombro e trancando tudo. A chave ficou com o segurança do local e mais uma vez Reyna saía nas ruas. Era fácil perceber que ela se amaldiçoava pelo casaco que não a aquecia e pelo vento que tornavam suas bochechas mais coradas, mesmo assim ele se apertava contra si e seguia até a parada de ônibus.
Demorou quase trinta minutos até que o ônibus que precisava para chegar ao outro lado da cidade chegasse. Trinta minutos, e se não estivesse adiantada estaria surtando. Subiu no veículo e se sentou perto da porta de saída ignorando qualquer um que estivesse no carro.
Já fazia quase uma hora que chegara no trabalho. A bolsa estava jogada nos fundos e ela vestia o uniforme de garçonete feliz da lanchonete, mesmo que ela estivesse sonolenta e o sorriso nem sequer beirasse em seus lábios, Reyna ficava atrás do balcão abandonada. Ninguém estava ali, exceto ela e Luke, um loiro três anos mais velho que estava de plantão na cozinha.
- Quer um café? Você parece prestes a desabar. – Luke falou para Reyna. E era a mais pura verdade, ela já conseguia imaginar como seria boa a sensação de fechar os olhos e repousar pelo menos cinco minutos.
- Eu acho que seria bom.
- Tem certeza que não quer cochilar por alguns minutos no galpão onde estocamos comida? Tá meio frio por lá, mas garanto que você não vai se importar.
- E a lanchonete? – ela perguntou tentando ao máximo resistir a tentação.
- São quase meia noite, aposto que consigo segurar o grupo que vier. Vai lá, guerreira.
O fato é que Luke era como o irmão mais velho de Reyna, sempre tentando protege-la e dizendo que a mesma devia se divertir mais, e apesar dos olhares gelados e de das respostas secas nas afirmações de que era uma mulher independente e que tinha que se sustentar, ele sabia que ela era grata por tudo.
Com o casaco e um saco velho onde antes estavam as batatas, ela deitou-se no chão quase pensando em desistir da ideia de descansar e voltar para o expediente antes que qualquer freguês sonambulo passasse por aquelas portas de vidro da entrada, porém o corpo relaxou com tanta facilidade que ela levou poucos minutos para entrar em um completo sono.
Parecia que o sol iria se pôr no interior do interior de new Jersey, onde era tão afastado da civilização que era impossível ouvir o barulho do motor de um carro com frequência.
Reyna estava numa árvore, mais especificamente em seu topo tentando alcançar uma maçã num galho afastado. Ela pegava na maçã, mas logo que ia puxa-la e colhê-la, a gravidade a puxava para baixo e a queda fazia sua cabeça girar.
A maçã no chão se transformava numa árvore cheia de portas de todas as cores e de todos os tipos com diferentes símbolos a enfeita-las. O que estaria atrás de cada porta?
Ela escolheu a amarela com um estranho adesivo de pá decorando a porta de madeira simples, não parecia ter nada de errado até o momento em na qual aberta sugava Reyna para dentro.
- Onde estou? – ela perguntava em alto e bom som para si mesma.
- TRABALHE! – a voz de sua mãe gritava forte e raivosamente – NÃO FOI PRA ISSO QUE SAIU DE CASA E QUIS SER INDEPENDENTE COM SEU TRABALHO E SEUS ESTUDOS? VAMOS PEGUE A PÁ E CAVE!
Uma pá praticamente enferrujada aparecia fincada na terra árida sem sentido algum e a vontade de cavar aquela terra sem motivo se estabeleceu na mente dela. Milhões e milhões de motivos lhe convenciam a cavar até criar um túnel que ligasse o lado ocidental ao oriental.
Trabalhe! Trabalhe! Sua mente implorava.
E ela cavava um buraco depois do outro, cada um mais profundo que o anterior. E o mantra de permanecer a cavar continuava sem cessar. A pá então escapou da sua mão por vontade própria e desapareceu.
- VOCÊ SABE QUE PODE TRABALHAR O QUANTO QUISER MAS EU SMEPRE TE SUPERAREI, NÃO É, IRMÃZINHA? – agora era Hylla lhe perguntando com uma voz que jorrava veneno – EU SOU A MELHOR!
Alguém a empurrou em um dos buracos com tanta força que ela sentiu sua costela quebrar de modo angustiante. Piper apareceu no início do poço de modo maquiavélico.
- PELO MENOS ELA TEM LUGAR PRA MORRER. CADA UM TERÁ SEU LUGAR SOLITÁRIO PRA MORRER!
CADA UM TERÁ UM LUGAR SOLITÁRIO PARA MORRER! CADA LUGAR SOLITÁRIO! CADA LUGAR SOLITÁRIO! E continuava a ecoar pela imensidão.
De algum modo o corpo de Reyna se levantou do túmulo e se pôs a trabalhar de todos os modos diferentes como se fosse uma escrava, e ela não conseguia parar.
- ACORDE! ACORDE! – ela ouvia Luke dizer em algum lugar.
Terra, ramos de plantas, ferramentas. Todos eles se enroscavam em Reyna impedindo que ela saísse do local.
- ACORDE! ACORDA LOGO! – ele suplicava e ela tentava se livrar do que lhe prendia e achar Luke.
Instintivamente ela levantou assustada, ainda em choque pelo sono. Luke estava ao seu lado com um sorriso meio culpado e meio feliz no rosto.
- Luke. – ela falou aliviada abraçando ele para se livrar da era que tomava seu corpo como o pesadelo recente.
- Acho que a rainha do gelo teve um pesadelo, quer um copo de água?
Ela então se lembrou. Ela estava no trabalho, ela tinha que voltar para o trabalho, tinha contas vindo no final do mês e teria que pagar cada uma delas. Ela tinha que voltar para o balcão e sem dormir dessa vez.
- Não preciso de água. Vamos voltar para atender aos clientes. – ela falou determinada.
- Não precisamos. – ele falou calmo.
- Claro que precisamos, porque temos que ter grana no final do mês então levanta a bunda daí e vamos voltar ao trabalho.
- Nosso turno já acabou.
- Já são... – ela não completou a frase, pois ele afirmou rapidamente.
Lá fora ainda permanecia um pouco escuro, mas com certeza já havia amanhecido. Talvez fosse algo entre quatro e cinco da manhã. O turno já havia acabado.
- Quer carona? – ele perguntou e mesmo atônita ela fez que sim com a cabeça.
Ela tinha que voltar para casa rapidamente, dormir mais um pouco e ir estudar duas horas antes de retornar para o trabalho número 1.
Ela era assim. Ela era independente e para ser independente tinha que trabalhar.
Notas finais
Lasm indo dormir!
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