Lugar Nenhum

2 Problemas na droga do motor


Notas iniciais
Olha eu aqui de novo (:

Como o dia estava muito quente resolvi deixar a bicicleta de lado e tirar minha picape Chervolet Truck 1953 da garagem. Não era o carro mais bonito e moderno desse mundo, com certeza não. Mas me orgulhava muito daquela belezinha que tinha sido comprada com minhas economias dos cinco primeiros meses de salário. Ela tinha um tom de laranja horrível? Tinha sim, mas nada que um boa pintura não resolvesse. Por mais que eu pisasse no acelerador ela não passava dos 80 quilômetros por hora? Sim, isso acontecia, mas como eu não gostava muito de dirigir então isso não era um grande problema. Sem falar que não queria chegar no meu primeiro dia de aula toda suada, então lá fui eu dirigindo pelas ruas calmas de St.Agnes.

Quando entrei no estacionamento da escola o sinal que anunciava o início das aulas ainda não tinha tocado, então o lugar estava apinhado de gente. Como aquele era o primeiro dia de aulas o clima de animação latente nos rodeava, muitos se abraçavam, outros estavam envolvidos em conversas entre grupos e davam risadas altas. Sorri para alguns rostos conhecidos e me permiti ficar animada também.

Estacionei a picape e fiquei pensando em como as coisas seriam esse ano. O terceiro ano, antigamente eu ficava eufórica com as possibilidades que aquele ano me oferecia. Agora que finalmente estou nele só consigo sentir um frio constante na barriga. Ano que vem muitos iriam para faculdade enquanto outros continuariam aqui, eu definitivamente queria ir embora. Só não sabia para onde e muito menos como faria aquilo. Meus pensamentos foram interrompidos quando ouvi batidinhas no vidro da minha janela.

Me virei e sorri ao ver minha melhor amiga, Stacey , me esperando do lado de fora. Peguei minha mochila e sai do carro rapidamente. Logo estava no meio de seu abraço e ouvindo sua risada em meus ouvidos.

— Tô com tanta saudade! – ela disse animada.

— Stacey, nós nos vimos semana passada! – eu respondi entre risos.

— Eu sei, mas estou com saudades! Queria que você tivesse ido para Cancun comigo.

Nos soltamos e pude dar uma boa olhada em seu rosto, definitivamente estava mais bronzeada. Além de ser filha do prefeito da cidade, a família de Stacey também era dona de uma linha de maquiagens famosa no país. Então ela podia se dar ao luxo de passar uma semaninha em Cancun quando quisesse.

— Eu sei, mas eu tinha que trabalhar. – enlacei sua cintura com um de meus braços e juntas fomos caminhando até a entrada do colégio.

— Aham, afinal o que seria dos pobres cãezinhos da cidade sem você para dar banho neles? – ela soltou outra risada alta quando belisquei sua cintura em resposta.

Duas vezes na semana eu trabalhava no único pet shop da cidade, e sim, meu trabalho era especificamente dar banho nos cachorros. Stacey não entendia porque eu fazia aquilo, mas a verdade é que eu precisava do dinheiro e aquele não era o pior trabalho do mundo. Na verdade eu me divertia muito com os bichinhos.

Ela passou um braço por cima de meus ombros e assim entramos no colégio, os corredores eram conhecidos e as pessoas também. Mesmo assim eu me sentia grata por ter minha melhor amiga ao meu lado, ela conseguia me animar e me distrair. Sempre que eu andava por esses corredores sozinha não conseguia parar de pensar em quantas daquelas pessoas sabiam sobre a existência de Lugar Nenhum, quantas iam até lá e o que faziam quando se sentiam seguras o suficiente para se mostrarem.

— Oi meninas. – Josh Sawyer nos cumprimentou enquanto passava rodeado por seus amigos.

— Oi Josh. – Stacey respondeu enquanto eu só meu dei ao trabalho de sorrir.

— Como foram suas férias, Chlóe? – ele perguntou.

Bom, parece que temos alguém decido a ter uma conversa.

— Ótimas, e as suas?

— Foram boas. Mas tô feliz por ver você de novo.

Ele diz e se afasta quando um de seus amigos o puxa pelo braço para contar alguma coisa. Reviro os olhos lembrando de todas as vezes que nos vimos pelas ruas e em algumas festas durante as férias, não é como se tivéssemos passado meses sem nos ver.

— Parece que alguém ainda esta caidinho por você. – Stacey diz com um sorrisinho brincando nos lábios.

— Ah por favor, nós ficamos juntos uma vez no verão passado!

— Mas ele gosta de você! Isso é muito claro pra mim.

— Bom, o problema é que eu não gosto dele.

Paramos em frente ao armário dela e espero enquanto Stacey organiza suas coisas e retoca o batom rosa olhando para o espelho que guardava dentro do espelho.

— Por que não? Josh é um cara legal. E vem de boa família.

E lá vamos nós de novo, essa história de “boa família”.

St.Agnes foi fundada em 1902 por um conjunto de famílias. Quatro delas ainda estavam por aqui: os Denali, a família da minha amiga, os Levesque, os McLean e os Sawyer, a família de Josh. Dessas quatro, somente três são tratadas com respeito e uma espécie de gratidão meio ridícula pelo resto da população. É claro que muitas famílias de grande importância e participação no meio político e econômico foram se formando com o passar dos anos, mas tudo voltava as quatro principais.

Josh Sawyer era filho do atual delegado da cidade e basicamente todos os homens da sua família tinham algum envolvimento com cargos policiais. Talvez por isso Josh se comportasse de um modo que me incomodava, como se ele fosse inatingível e mais importante. No fundo todos nós sabíamos que ele era mesmo inatingível de uma forma, mesmo que ele fizesse besteira o pai ia protegê-lo e manter a boa reputação da família intacta.

— Não sei Stacey, eu só não gosto dele. – respondi dando de ombros.

Logo o sinal bateu e nosso primeiro dia de aula no terceiro ano começou oficialmente.

Eu e Stacey não estávamos juntas em todas as aulas, mas isso não era um problema. Eu me relacionava bem com as pessoas, tinha muitos amigos, então nunca estava sozinha. No horário do almoço nos reunimos nas mesas do lado de fora. Era bom ver todos os meus amigos de novo, os meninos do time de futebol americano da escola, as líderes de torcida com seus uniformes amarelos, Stacey conversando toda animada com os meninos do grupo de teatro, o pessoal do grupo de ciências deixando os livros de lado e dando risada ouvindo as histórias da turma de artes. Até Josh e seus fiéis seguidores estavam ali e isso não me incomodou. A maioria ali se conhecia desde criança, então não tínhamos problemas em nos relacionar mesmo sendo tão diferentes em tantos aspectos.

O dia seguiu tranquilo e quando percebi já estava saindo da minha última aula do dia, como os corredores ainda estavam quase vazios, decidi aproveitar o tempo de sobra e dar uma arrumada no meu armário.

Enquanto tirava o lixo e organizava alguns livros lá dentro pensei em cada vez que algum professor falou sobre como esse ano seria decisivo em nossas vidas. Acho que ninguém precisava daquele lembrete, todos já sabiam da importância daquele último ano na escola. Sabia que alguns dos meus amigos já tinham decidido que faculdade seguir e para onde queriam ir, mas eu ainda não tinha a menor ideia do que queria fazer. Encarei uma das fotos que tinha colado na porta do meu armário, uma fotografia dos meus pais juntos. Eles sorriam para a foto, pareciam perfeitamente felizes, mas eu sabia que não era bem assim. Pensei no que eles queriam para mim, minha mãe queria que eu ficasse exatamente onde estava e esperasse pelo casamento perfeito como ela fez quando era mais nova. Minha mãe queria que eu fosse a perfeita dona de casa, responsável pelo bem estar da família. Mas essa ideia me causava arrepios. Não me entenda mal, eu queria sim formar família algum dia, só que eu queria fazer mais. Eu queria ser independente, queria ser importante e dona do meu próprio nariz. Já meu pai queria que eu parasse de trabalhar e me concentrasse em aprender a cuidar da padaria da nossa família, assumir os negócios e me casar com um bom partido da cidade. Nem preciso dizer que essa ideia também me dava vontade de vomitar.

Vi Stacey se aproximando e por um momento desejei ser mais como ela. Minha melhor amiga tinha um jeito só dela de encarar o mundo, ela parecia flutuar pela vida. Nenhum problema ou dificuldade era grande o suficiente para chamar sua atenção. Ela andava por ai com seus longos cabelos loiros, roupas perfeitas e saltos altos fazendo amigos e se divertindo. Tudo estava resolvido para ela, Stacey poderia fazer o que quisesse. Em parte por causa de toda a grana da sua família e porque ela queria exatamente as mesmas coisas que sua família planejava para ela. Ela poderia até ir embora e fazer a faculdade que ela queria, mas ela teria que voltar porque seu lugar era aqui. Mantendo o legado dos Denali. Stacey estava muito confortável com si mesma e com seu futuro, e a vida devia ser muito mais leve por isso. Ela definitivamente nunca precisaria conhecer Lugar Nenhum.

— Preciso de uma carona. – ela disse ao se aproximar fazendo biquinho.

— Seu pai não vem te pegar hoje? – perguntei enquanto fechava o armário e colocava a mochila pendurada no ombro.

— Reunião da prefeitura, ele me ligou e disse que não vai dar tempo. Você pode me levar?

— Claro, Stacey. Vamos.

Saímos de braços dados e logo estávamos saindo do estacionamento, ela falava sem para sobre como tinha sido seu dia e planos de organizar uma festa de boas-vindas aos novatos. Eu ouvia tudo e fazia alguns breves comentários, mas mantinha meus olhos presos nas ruas. Não gostava de dirigir, tinha a sensação de que a qualquer momento alguma coisa ia dar errado. E naquele dia realmente deu.

De repente o carro parou com estrondo forte e fumaça começou a sair debaixo do capô.

— Ai meu Deus, nós vamos morrer!! – Stacey gritou ao meu lado.

— Stacey, o carro está parado. – respondi com as mãos ainda apertando o volante.

— Mas e se o carro explodir?!

— Acho que deve ter sido algum problema no motor.

Soltei o cinto de segurança e desci do carro, fui até a frente balançando minha mão em frente ao rosto para afastar a fumaça que ainda saia do carro. Stacey estava com medo do carro explodir, mas permaneceu lá dentro só colocando a cabeça para o lado de fora, fazendo careta por causa da fumaça.

— E desde quando você entende de motores?

— Desde nunca, mas é melhor do que ficar ai dentro só esperando se o carro vai explodir ou não.

Ela bufou e se sentou ereta novamente cruzando os braços. Levantei o capô do carro e quase morri sufocada com a parede de fumaça que veio na direção do meu rosto. Além de não entender absolutamente nada sobre carros, não dava para ver nada ali. Por isso tudo o que fiz foi balançar os braços para que a fumaça se dispersasse logo e depois disso eu provavelmente ficaria parada na frente do motor esperando por um milagre. Estava pronta para mandar Stacey ligar para alguém pedindo por ajuda quando um carro azul marinho parou ao nosso lado. Não sabia o nome daquele modelo, mas ele parecia um carro antigo e era muito bonito. O tipo de carro que você olha e já se imagina dando uma volta nele. Um loiro sorridente colocou a cabeça para fora da janela do lado do passageiro e acenou.

— As senhoritas precisam de ajuda?

— Se você souber lidar com motores que cospem fumaça, a resposta é sim! – respondi dando de ombros.

— Então seus problemas estão resolvidos!

O carro parou ao lado da picape e dois homens saíram de lá, um era o loiro simpático que ofereceu ajuda. O outro também era loiro, seu cabelo era uma bagunça, era mais alto e forte que o outro e não sorria. Os dois vieram para o meu lado e deram uma olhada no problema, tiveram uma breve conversa sobre o que poderia estar acontecendo. Eu tentei acompanhar o raciocínio dos dois, mas eles usavam termos estranhos de mecânica então decidi só esperar o que eles iriam fazer. Dei uma olhada em Stacey e percebi que ela parecia nervosa, encarava os dois como se eles fossem uma ameaça as nossas vidas. Isso me chamou atenção, fazendo com que desse uma olhada mais atenta nos dois.

Mas é claro, aqueles dois eram da família Levesque. Como não percebi antes? A pele clara, altos, cabelos loiros e olhos verdes. Praticamente toda a família tinha essas características. Eu só não conseguia lembrar o primeiro nome deles, mas os dois tinham rostos conhecidos. Sabia muito bem o que minha amiga deveria estar pensando, se o pai dela soubesse que ela passou mais de cinco minutos perto dos Levesque isso iria dar problema. Mas eu não me importava, além do mais aqueles dois eram nossa única ajuda e estavam sendo muito simpáticos. Bom, pelo menos um deles estava.

— Okay, Tom. Acho que é isso, pega a maleta de ferramentas e vamos resolver isso. – o Sr.Nada de sorrisos disse com as mãos na cintura.

O loiro simpático, que agora eu sabia se chamar Tom se afastou, indo até a traseira do carro. Provavelmente em busca da maleta de ferramentas.

— Você carrega ferramentas no carro? Um maleta delas?

— Qual o problema? Você carrega uma Barbie ambulante e eu não disse nada.

Ele continuava olhando para o motor, mas eu sabia muito bem que ele estava se referindo a Stacey, que agora encarava suas unhas com uma atenção exagerada.

— Ei! Você não pode falar assim da minha amiga.

— Então você não pode falar das minhas ferramentas. – ele retrucou dando de ombros.

Estava prestes a gritar com ele e mandar que fosse embora, quando Tom voltou com a maleta e os dois começaram a trabalhar. O antipático mexia no motor e nos fios com muita facilidade, foi fácil perceber que ele entendia muito sobre aquilo. Tom ficou ao seu lado passando as ferramentas e dando instruções quando necessário.

— Você tem certeza do que está fazendo? – perguntei nervosa quando o vi pegar um alicate.

— Por que a pergunta?

— Seilá, vai que você explode o carro!

Ele me olhou irritado, não disse nada mas era nítido que ele estava prontinho para me xingar. Percebi que aquele cara devia ter muita raiva acumulada.

— Vai que você corta um fio errado! – me expliquei.

Percebi sua expressão suavizando e não soube porque. Nem tive chance de perguntar, já que Tom começou a rir alto ao nosso lado.

— Isso é um carro, não uma bomba!

E para minha surpresa o Sr.Simpatia sorriu, um sorriso pequeno e tímido,mas era um sorriso. Depois disso deixei os dois trabalhando e fui me sentar ao lado de Stacey.

— Você não podia ter mandando eles embora? – ela sussurrou assim que me sentei ao seu lado.

— E ai nós íamos ficar aqui fazendo o que?

— Podíamos ligar pra alguém! Garanto que não íamos passar o resto da vida aqui.

— Stacey, eles estão nos ajudando!

— São Levesques, Chlóe!

— E estão sendo muito gentis, você devia estar grata por eles estarem aqui! – respondi irritada e me calei, cruzei os braços e fiquei observando os dois.

Amava Stacey do fundo do meu coração, mas as vezes ela podia ser muito idiota.

Okay, você deve estar se perguntando o que tinha de tão errado com aquela família. A história era a seguinte: os Levesque eram uma das famílias fundadoras da cidade. As histórias dizem que eles tiveram a participação mais ativa no processo de construção de St.Agnes, tanto que uma das principais estradas que dão acesso e cortam a cidade recebeu o sobrenome da família. Os Levesque eram muito respeitados e tinham participação ativa nos negócios da cidade, até que a uns 30 anos atrás Frank Levesque foi acusado de ter esfaqueado Clayton Sawyer durante uma briga de bar. Rob foi condenado e a partir daí os Levesque começaram a ser tratados como os “inimigos” da cidade. A história voltou a se repetir 7 anos atrás, quando Robert Levesque foi acusado de ter incendiado a delegacia, o cara foi preso e isso manchou ainda mais a imagem da família Levesque com os moradores da cidade. Desde criança eu ouvia meu pai contar sobre como aquela família era horrível e que eu e minha mãe devíamos manter distância de qualquer membro dela. Eu achava tudo aquilo uma besteira, como o erro de duas pessoas poderia definir o caráter de uma família inteira? Mas agora diante daqueles dois eu percebi que mesmo sem querer eu acabei obedecendo as ordens do meu pai, e me odiei um pouquinho por isso.

De repente Tom baixou o capô do carro e se afastou com a maleta de ferramentas, eu saí do carro e fui até o Sr.Simpatia.

— Olha, esse carro é antigo e por isso você tem que tomar mais cuidado com o motor. – ele dizia enquanto limpava os dedos sujos de graxa na camisa preta.

— O problema é que eu não entendo nada de carros. – disse baixinho encolhendo os ombros.

Como eu fui idiota a ponto de achar que ia saber cuidar de um carro antigo daqueles? A resposta era fácil: o preço estava ótimo.

— Não se preocupa princesa, a gente pode cuidar disso pra você. – Tom disse com um sorriso nos lábios, apoiando uma das mãos na porta do carona. Nem preciso descrever o olhar de irritação que Stacey lançou para ele.

— Meu nome é Chlóe, e vocês podem mesmo cuidar disso pra mim?

— O que fizemos hoje vai dar uma melhorada no problema, mas não vai resolver. Então é melhor você procurar por um mecânico logo. – O simpatia falou.

Tom parou ao lado do outro e pôs a mão em seu ombro.

— Ela pode aparecer lá em casa. A gente tem uma oficina bem legal, podemos resolver isso rapidinho. – disse se dirigindo a mim.

O loiro simpatia somente deu de ombros e virou as costas se dirigindo de volta ao seu carro.

— Faça como achar melhor. Vamos, Tom.

Tom sorriu para mim e se afastou, logo os dois tinham ido embora.

— Graças a Deus eles já foram, agora vamos embora por favor?! – Stacey gritou de dentro do carro.

Entrei e dei a partida, constatando que os dois tinham mesmo colocado a picape para funcionar novamente. Enquanto dirigia fiquei pensando em como devia ser difícil carregar o sobrenome Levesque naquela cidade e se os dois sabiam da existência de Lugar Nenhum.

Notas finais
Se chegou até aqui não custa nada deixar comentário né? Vai por favorzinho!!! kkkkk, beijo amores. Até o próximo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.