Lucy Tem Razão
1 Capítulo 1 - Lucy Tem Razão
Notas iniciais
O Crepúsculo proclamava mais uma vez o fim de um longo dia, a Noite não demoraria para buscar o que era seu por direito munida das estranhas sombras que serviriam para atormentar os dois homens reunidos ali na floresta diantes da fogueira ardendo forte. O acampamento cercado por muros de pedra e um portão rudimentar de madeira iriam impedir os Hounds mantendo-os longe assim como as Aranhas, mas, não iriam protege-los da insanidade que se apossava pouco a pouco de suas mentes, devorando suas consciências, bebendo de sua racionalidade como se fosse mingau e transformando tudo a sua volta em visões sombrias.
Wolfgan sentado próximo do ruivo o olhava de rabo de olho sem dizer nada, apenas achando estranho que o homem segurava seu machado com bastante afinco e sussurrava palavras incompreensíveis para o objeto vermelho..
“Eu podia estar perdido com qualquer um, mas, tinha que ser um Psicopata fudido da cabeça? Deus, olha esses dentes”— Pensou ao ver Woodie alisar seu machado e sorrir para o mesmo após comer um graveto, estavam tentando sobreviver já havia alguns dias mas ainda não havia se acostumado àquele hábito fora do comum
Os olhos pesavam de sono e agora sentia um arrepio na espinha a medida que a Noite caía e os envolvia em sua escuridão, sentia-se observado por milhares de criaturas além dos muros.
— Ei camarada — Woodie o encarou o homem bigodudo, sorria meio tímido. — Tudo bem pra você se eu for me deitar na tenda?
HAHAHA! Pode ir — Wolfgang riu sem humor e flexionou seus músculos, um sorriso amarelo e forçado se alargou abaixo de seu bigode. — Tudo que preciso está bem aqui. — Ao terminar de falar beijou seus músculos saltados dos braços.
Woodie sorriu desajeitado e carregando seu machado desapareceu por detrás da entrada da tenda deixando o homem musculoso sozinho encarando as chamas, mal o ruivo podia imaginar o que estaria para acontecer em seguida.
Wolfgang odiava ficar sozinho e talvez fosse por isso que tinha aceitado construir aquele lugar com a ajuda do estranho ruivo, isso era verdade e — também não podia negar que apesar de toda aquela esquisitice, algo lhe atraía no lenhador… Fosse o cheiro amadeirado que emanava de seu corpo ou fosse o frescor de pinho que exalava de seu hálito nas poucas vezes que se falavam.
Os arrepios aumentavam à medida que o fogo crepitava e as horas avançavam madrugada a dentro, sentia a insanidade minar — Talvez agora eu esteja usando eufemismo demais, vamos ao termo correto — sentia do fundo das profundezas de sua alma a insanidade jorrar e inundar seu corpo musculoso. A respiração estava ofegante, seu corpo inteiro tremia de medo. Ao encarar a escuridão via os olhos das criaturas ocultas brilharem como faróis, estavam esperando enlouquecer para devorarem suas entranhas e então o forte Wolfgang, O Famoso Strong Man seria reduzido à uma mísera pilha de ossos podres e seria engolido pela Escuridão daquele Mundo.
Afastou os pensamentos segurando firme na lança improvisada e tirou de um dos baús algumas carnes que assara, sabia que se estivesse bem alimentado poderia lidar com qualquer possível invasor. Levantou assustado com o coração saltando quase para fora de sua boca quando o uivo do vento se alongou um pouco mais, largou a lança e correu para a Tenda, a boca seca, o corpo suado e as mãos trêmulas.
— Woodie? — Chamou Wolfgang firme tentando disfarçar o medo em sua voz. — Woodie?!
O ruivo resmungou em resposta e sentou-se coçando a barba um pouco sonolento
— O que há de errado? — Disse em um bocejo encarando a silhueta forte do corpo super definido do homem contra a fogueira, podia ser o sono lhe pregando uma peça mas jurou vê-lo tremer.
— A tenda é grande pra nós dois e… — Quase gaguejou agora. — Se não tiver problemas pra você, eu gostaria de me deitar também. Nossos muros são fortes e acho que nada poderia ultrapassa-los, e nossa, eu estou tão cansado.
— Realmente Lucy — Woodie respondeu pegando seu machado e colocando-o para outro lado assim abrindo espaço para que seu companheiro deitasse nos cobertores improvisados também. — Eu concordo que ele precisa descansar esses músculos.
— Que-quem diabos é Lucy? — Desta vez não conseguira não gaguejar.
— Minha amiga Machado ora. — Woodie sorriu feliz. — Lucy disse que está feliz por dividir a tenda com você Wolfgang.
Sem hesitar o homem forte deitou e sentiu-se mais seguro ao lado do amigo, respirou fundo e inalou o cheiro levemente amadeirado que se desprendia e impregnava o interior da tenda. Seu coração que poucos minutos atrás batia acelerado de medo agora batia rápido por outra razão. Quais eram as chances de Woodie se interessar por ele? Quando fora a última vez que se deitara tão próximo assim de alguém? Desde que o Circo havia sido fechado?
Virou o rosto e então reparou que o ruivo estava apenas usando seu surrado jeans, os olhos se fixaram no peito desnudo coberto de pelos lisos e vermelhos como fogo sobre a pele branca, respirando delicadamente em um ritmo tranquilo.
— Woodie… — Chamou Wolfgang mais uma vez, mas, agora em um quase sussurro. Ao vê-lo ali tão indefeso, tranquilo e adormecido percebeu que apesar da estranheza o ruivo era realmente o tipo que lhe despertava atenção, ou talvez só fosse a insanidade o atingindo mais forte.
— Sim Wolfgang? — Virou-se resmungando para encará-lo. — O que você quer agora?
A resposta veio rápida e forte como uma pancada, fora envolvido em um beijo e sentindo sua barba roçar contra o bigode do homem, correspondeu ao beijo e sentiu a língua quente de Wolfgang impositiva invadir sua boca em busca da sua, os dois corações batendo acelerados com a surpresa.
Separaram-se arfantes ainda conectados por um delicado e fino fio de saliva.
— Lucy e eu discutimos hoje mais cedo — Woodie falou rápido, os olhos encarando os de Wolfgang, o rosto quente e avermelhado de vergonha. — Ela disse que eu deveria beijar você, mas, eu não tive coragem. — Ela está sussurrando coisas agora mesmo…
— E o que ela diz? — Wolfgang em um meio sorriso se aproximando do pescoço do homem sentindo seu cheiro másculo e amadeirado.
— Que seria um desperdício de tempo não irmos além de um beijo. — Respondeu Woodie ao sentir os lábios tão macios beijarem seu pescoço e o bigode roçar-lhe novamente.
— Lucy tem razão. — Colocou os braços ao redor da cintura do ruivo e o puxou para mais perto juntando seus corpos e encaixando-se perfeitamente.
Naquele quase fim de noite Woodie e Wolfgang perceberam que se encaixavam de todas as maneiras — e digamos que eles se encaixaram tão bem quanto as engrenagens da Máquina de Ciência.
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