Lucky
1 A garota da neve
Notas iniciais
Não sabia a quanto tempo eu estava andando. Meus pés doíam, não sentia minhas mãos e o tanto de pessoas na rua me deixava irritada. Todos os dias eu fazia essa aventura toda só para poder alimentar uma de minhas paixões, música.
Claro que na minha idade é fácil falar que gosta de música, a maioria das garotas só gostam das bandas atuais que mais usam de tecnologia do que instrumentos de verdade. Eu gosto do som suave do violão. Meu sonho na verdade era tocar violino, mas com a minha mesada não daria para comprar um nem quando eu me aposentasse, então escolhi meu segundo instrumento favorito.
Finalmente havia chegado ao meu destino. Era uma pequena praça perto do bairro onde eu morava, não circulava muitas pessoas por ali, a maioria desviava o caminho e ia pro centro comercial gastar seu dinheiro com futilidades.
Sentei em um dos bancos da braça, tirando minha bagagem e colocando ao meu lado. Abri cuidadosamente a capa e tirei de lá minha preciosidade. Era um violão, velho e com a cor até um pouco desgastado. Como quando eu o comprei era uma pirralha que usou mais da metade do salário dos mais do que o próprio dinheiro, havia comprado um violão inteiramente branco. Me arrependo dessa escolha até hoje, a aparência dele está uma lástima.
Esse é o maior motivo de eu vir tocar num lugar desses, com o dinheiro que ganho com “esmolas” pretendo comprar um violão novinho em folha.
Com calma, comecei a dedilhar delicadamente, puxando com suavidade as cordas. Aos poucos as pessoas iam se aproximando, algumas curiosas, outras que já me conheciam. Conseguia ver algumas moedas dentro da capa onde guardava o violão. Depois de tocar algumas músicas, estava mais que na hora de comer algo.
- Você toca bem. — Ouvi alguém falar comigo enquanto guardava o violão.
- Obrigada... faço o que posso. — Disse sem olhar para o rosto do rapaz.
- Você sempre toca por aqui?
- Por que quer saber? — Finalmente tive tempo para olhar para o rosto dele. Com certeza ele não era daqui.
- Eu tenho uma certa paixão por música, gostaria de ouvir você tocar outras vezes. — Ele abria um sorriso encantador.
- Ah... entendo, mas amanhã não poderei ahn... aparecer por aqui. — Peguei meu violão nervosa. — Desculpa, mas tenho que ir. — E sai apressada do local em direção a cafeteria mais perto.
Tá, ele era bonito, mas nunca se sabe né? Estupradores hoje em dia são mais bonitos que antigamente. Melhor prevenir do que remediar.
Entrei na cafetaria de uma conhecida e me escondi nos fundos.
- Essa garota! — Ouvia a voz da proprietária se aproximando. — Quantas vezes disse para não entrar correndo desse jeito? O que foi dessa vez?
- Um estuprador. — Eu colocava o cardápio na minha frente, olhando para fora, com medo dele ter me seguido. — Um expresso por favor, acompanhado de um cupcake de baunilha.
- Sabe, você não pode ficar com medo de todo o homem desconhecido que vem falar com você, um deles pode ser seu futuro marido. — Eu apenas ri com o que ela havia dito.
- Como se isso fosse possível. — Relaxei, tirando o casaco.
A proprietária aparecia com meu pedido. Tomei um gole de meu café enquanto comia aos poucos meu cupcake. Estava tudo calmo até ouvir o sininho da porta. Alguém havia chegado.
Olhei para a porta e quase engasguei. Era o mesmo cara de antes! Hora de me esconder.
- Por favor, que ele não me note aqui, vai que ele vem falar comigo.- Falei baixo.
- Kyu Min! — Ouvia a proprietária me chamar. Levantei na hora, olhando para ela. — É aquela moça ali, certo? — Ela falava para o rapaz, que olhou para mim, me reconhecendo na hora. Agradeceu a mulher e veio até a minha direção.
- Senhor, por favor, me proteja de todos os males. — Disse antes dele chegar até minha mesa.
- Você derrubou isso enquanto corria. — Ele colocava meu celular em cima da mesa. — Posso sentar? — Ele dizia enquanto já sentava.
- Meu celular... — Peguei ele guardando no meu bolso. — Obrigada!
- Ainda com medo de mim? — Ele fazia sinal, chamando uma das garçonetes. — Eu não vou te comer nem nada do gênero.
Eu apenas ri, constrangida. Conversamos por mais um bom tempo, ele no fundo era uma pessoa interessante. Seu nome era Jonghyun, 17 anos e como eu havia previsto, ele estava aqui como um turista. Por incrível que parece, nos demos muito bem. Acho que eu devia parar com essa mania de ficar com tanto medo das pessoas, mas nada de abaixar a guarda.
Cheguei em casa depois de três longas horas. Já conheci pessoas falantes, mas Jonghyun ganhava de todas elas. Será que por ser de uma cidade tão medíocre como essas estou acostumada a pessoas mais calmas e silenciosas.
Parei de pensar para poder dormir.
No dia seguinte, acordei antes de todos de casa, como sempre. Iria começar logo outro dia: Escola, violão, parque e casa. Levantei correndo tropeçando em tudo, ontem estava tão cansada que acabei nem me trocando para ir dormir. Escovei os dentes enquanto tomava banho, terminei a lição de casa enquanto tomava café e me vesti enquanto revisava a matéria. Logo eu estava correndo pela rua, com uma torrada na boca e um violão nas costas.
Parei na casa de uma amiga, iamos para a escola juntas e eu deixava meu violão na casa dela, já que era mais perto para a praça e para o curso.
- Hea Jung! H-e-a J-u-n-g! — Eu gritava.
- Ah! Eu não sou surda! — Ela aparecia no portão, com o cabelo meio desarrumado e sem maquiagem. — Vem, entra, você precisa se ajeitar também. — Ela me puxava para dentro de sua casa.
Fiquei sentada na sala, como sempre, esperando Hea Jung. A mesma aparecia corendo, segurando um espelho, uma escova e uma tiara. Ela se sentava atrás de mim e começava a escovar meu cabelo.
- Você é tão desajeitada Kyu Min, seu cabelo está todo armado. — Ela ria.
Continuamos a conversar, o assunto principal era a escola e nossos amigos. Assim que ela terminou de arrumar meu cabelo, sentou-se na minha frente, tirando uma bolsa com várias maquiagens de lá sei aonde.
- Por que eu tenho que usar essas coisas? Fazem meu rosto pesar. — Eu choramingava.
- Não precisa passar batom, sombra nem nada disso, mas é bom ter um rosto fresco, eu sei que você não gosta de pintar a sua cara. — Ela mostrava a língua. — Mas acho bom você manter uma aparência saudável, suas olheiras são piores que os olhos de um Panda.
- Haha, eu agradeço. — Disse depois de colocar a tiara em minha cabeça.
Depois de meia hora estávamos prontas para partir.
No caminho, contei sobre Jonghyun e como o conheci para Hea Jung, que parecia mais interessada do que eu imaginava na minha historia. As caretas que ela fazia eram impagáveis mas ela estava começando a me assustar.
- Kyu Min, você sabe o que isso significa? — Eu fiz que não, e ela suspirou. — Certeza que ele está interessado em você. — Eu apenas ri e disse “Claro, claro” enquanto dava um tapinha nas costas dela. — Sua falta de romance me assusta...
- Okay, vejamos se eu entendi. Um cara de 17 anos está interessado em mim, uma pirralha de 14 anos, por causa disso ele pegou meu celular e levou até a cafeteria esperando que eu me apaixonasse por ele? Okay, okay.
Continuamos nessa discussão de razão contra destino, sinceramente como Hea Jung pode ser assim as vezes?
O dia continuava normal, as aulas foram chatas, as conversas de sempre, a comida de sempre. Fui com Hea Jung até a casa dela para buscar meu violão e fui para o curso. Não aprendi muita coisa nova, mas sempre é bom praticar.
Agora, minha parte favorita do dia, sentar no banco daquele parque, sentindo o vento frio bater no meu rosto, a mão fria tocar as cordas do violão. Assim que cheguei lá, me assustei ao encontrar alguém. Não era qualquer pessoa, era Jonghyun sentado no meu banco. Por um momento, eu fiquei ali, parada, pensando se ia falar com ele ou não. Enquanto eu pensava ele havia me visto e já acenava para mim.
Relutante me aproximei dele, sentando ao seu lado (ainda assim mantendo uma distância segura). Ele olhava para mim com um sorriso enorme no rosto.
- E ai, vai tocar o que hoje?
- Por que quer saber? — Ele apenas riu. — Se não se importa. — Eu tirava o violão da capa, me preparando para tocar. E foi o que eu fiz.
Se minhas mãos não tivessem doido tanto enquanto eu tocava, por causa do frio, eu teria continuado, mas achei melhor colocar as luvas de novo.
- Posso tocar uma música para você?
- Você sabe tocar? — Eu debochei dele. Ele fez uma careta e tomou o violão de mim.
- Olhe e aprenda.
Ele tocava tão perfeitamente que apenas fiquei olhando, perplexa. Seus movimentos eram ágeis e sutis, o modo como ele puxava as cordas era incrível. Fiquei admirando ele tocar, não conseguia reconhecer a música mas ela era profunda, linda, ou até mais. Ele parou, abrindo um sorriso no rosto.
- Está muito frio! — Ele dizia em voz alta, fazendo com que todos olhassem para ele. — Por que raios é tão frio aqui!? — Ele olhava para mim com um sorriso.
Depois de guardarmos o violão, eu estava preparada para ir para casa descansar.
- Aonde você pensa que vai? — Ele segurava minha mão. — Vamos tomar alguma coisa quente, eu pago. — E assim ele me arrastou até a mesma cafeteria de antes.
Dentro da cafeteria, naquele quentinho aconchegante, começamos a conversar. Eu comia meu cupcake de baunilha enquanto Jonghyun comia waffles.
- Então, você está de viagem aqui né?
- Sim... — Ele olhava curioso para mim. — Vou te contar um segredo.
- Segredo?
- Sim. — Ele olhava sério para mim. — Eu sou membro de uma banda.
- Oooh, claro, claro. — Eu já estava me preparando para sair correndo.
- Só que não estreamos ainda, vai demorar um pouco para ajeitar tudo. — Ele enfiava um pedação de Waffle na boca.
- E o que vocês estão fazendo aqui?
- Hmm, acharam que seria bom se os membros se... conhecessem melhor, uma vez que vamos morar juntos e etc, então estamos um tempo aqui para acostumarmos com a ideia.
- Me apresente eles um dia. — Eu termina de comer meu cupcake.
- Claro que não, imagina se um deles se apaixona por você. — Ele sorria. — Como eu ficaria?
- E qual o problema? — Eu ri.
- Eu te achei primeiro!
A conversa continuou naquilo, de um jeito divertido. Depois de duas horas fui para casa.
Jonghyun era uma pessoa divertida... mas ele é extremamente estranho. Uma banda é? Ele nem me falou o nome... bah, tanto faz.
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