Luck
2 Parte II
Notas iniciais
O quarto estava escuro ao amanhecer, exceto por uma pequena fresta da janela por onde passava um tímido raio de sol. Depois de uma boa e longa noite de sono era natural que eu tivesse esquecido tudo o que aconteceu no dia anterior. A sonolência matinal me manteve entorpecida e alheia aos problemas, deixando espaço apenas para o desejo de que alguém fechasse as cortinas para que eu pudesse dormir por mais alguns minutos.
No final, foi o meu olfato que despertou o restante dos meus sentidos. Havia um cheiro nos lençóis e travesseiros que não era familiar. Um aroma fresco e leve como brisa marinha que não se parecia com meu perfume cítrico. Depois disso, meu tato despertou e notei que a cama também não se parecia com a minha. Na verdade, quando abri os olhos, percebi que aquele não era o meu quarto e todos os acontecimentos desastrosos do dia anterior voltaram de uma só vez como uma enxurrada destruindo tudo pela frente.
Olhei ao redor, esperando encontrar Scorpius Malfoy parado em algum canto, me observando dormir com seu olhar debochado e irritante. Mas, para o meu alívio, o cômodo estava completamente vazio e a porta permanecia fechada.
Durante a minha busca, entretanto, meus olhos se detiveram no quadrado de papel dobrado em cima da mesa de cabeceira com meu nome escrito em uma caligrafia bem elaborada. Antes de desdobrar o papel e lê-lo, me perguntei como Scorpius entrou no quarto sem me acordar. Eu não tinha sono pesado.
O bilhete dizia:
“Bom dia, sardenta. Precisei dar um pulo no meu estágio. Sinta-se à vontade. Volto antes do almoço, não sinta muito minha falta. S.M.”
Rolei os olhos. Ele precisava parar de me chamar de sardenta.
Coloquei o papel de volta no lugar ao lado do meu celular e subitamente lembrei que o aparelho ainda estava morto. Eu não dava notícias à minha família há horas e eles deveriam estar surtando a essa altura. Saltei da cama e fiz uma rápida varredura pelo quarto, abrindo portas e gavetas. Scorpius mantinha tudo tão minuciosamente arrumado que me perguntei se ele realmente vivia ali.
Na gaveta em que encontrei o carregador, encontrei também uma bela caixa de madeira com S.M. talhado em letra dourada. Minha curiosidade foi mais forte que minha discrição e, antes que eu pudesse me repreender, já havia pegado a caixa.
— Quais segredos você guarda na gaveta, senhor Malfoy? — perguntei em voz alta, tirando a tampa, e descobri, um tanto surpresa, uma coleção de fotografias.
Havia dezenas de fotos, talvez mais, mostrando as inúmeras viagens que Scorpius já fez na vida. No meio delas encontrei algumas do tempo em que permaneceu nos Estados Unidos. Albus estava ao lado dele na maioria, mas havia também com os outros colegas de turma, com Ashley, a líder de torcida que era sua namorada na época — tão clichê! — e, por último, havia uma minha.
Não havia palavra para expressar a minha incredulidade ao me ver ali, distraída no meio de uma conversa, com o cabelo preso em um rabo de cavalo e roupas comuns na sala da minha casa com parte do rosto de Albus sendo cortado da cena. No verso estava escrito apenas “sardenta”.
Coloquei a caixa de volta no lugar me questionando por qual motivo Scorpius Malfoy guardaria uma foto minha do colegial. Por mais que eu tentasse, não conseguia encontrar uma resposta coerente. Na época ele frequentava bastante a minha casa, mas não éramos amigos.
Essa nova informação só foi varrida da minha cabeça depois que consegui carga suficiente para poder ligar o celular. No mesmo instante, a tela explodiu em notificações, a maioria esmagadora da minha família, até mesmo minha prima Dominique estava surtando com a falta de notícias.
Disquei o número de casa e respirei fundo, pressentindo o que me aguardava.
Para minha sorte, foi James quem atendeu.
— Lily, sua maluca inconsequente! — ele berrou antes mesmo que eu pudesse dizer “oi”. — Onde você se meteu? O que aconteceu? Você está bem?
— Eu estava dormindo. — Não era totalmente mentira. — Desculpa.
— Todo esse tempo? Por acaso você é o quê? Um urso?
— Meu celular ficou sem bateria. Só consegui comprar outro carregador agora de manhã.
Eu odiava ter que mentir, mas precisava pensar primeiro sobre a minha situação antes de decidir o que fazer.
— Juro por Deus, você quase nos matou. — ele disse um pouco mais calmo. — Nosso pai já estava quase comprando uma passagem para ir atrás de você.
— Não precisa, está tudo bem, eu juro. Não vou fazer isso de novo.
— Quem é? É ela? Passe para mim, James. — eu podia ouvir minha mãe falar ao fundo, ansiosa tentando tomar o telefone da mão do meu irmão, também podia ouvir a voz de Albus em algum lugar, e eu me preparei para uma longa conversa com muitos sermões e ameaças.
⟳
Depois de quase duas horas ao telefone, após falar com todos os membros da família — com meu pai duas vezes — eu consegui me despedir, não sem antes prometer que ligaria cinco vezes por dia para garantir que eu não havia sido sequestrada ou estava morta em uma vala suja qualquer. Fora isso, todos eles estavam empolgados com minha viagem e cobraram as milhares de fotos que eu prometi. Tive que reprimir a vontade de gemer infeliz. Se ao menos soubessem que nada do que eu planejei estava acontecendo...
A caminho da cozinha meu estômago roncou como um monstro adormecido despertando. Eu estava faminta e a última coisa que comi foi o lanchinho do avião, sem contar a metade de um chocolate quente que Scorpius pagou para mim na noite anterior.
A geladeira estava abastecida com leite, queijos, iogurtes, sucos e várias frutas. Havia pães frescos na cesta em cima do balcão. Perguntei-me se era normal ter tanta comida no apartamento de uma pessoa sozinha.
Encontrei ovos na geladeira para preparar uma omelete. Coloquei a frigideira no fogo ao mesmo tempo em que tentei ligar a máquina super tecnológica de café — francamente, qual a necessidade daquela coisa cheia de botões e alavancas? Eu só queria um café! O que havia acontecido com o bom e velho coador? — e continuei checando as mil notificações no celular até encontrar um email do hotel em que fiz reserva. Meu coração saltou de felicidade. Finalmente alguma coisa estava dando certo e logo eu teria o endereço em mãos. Eu poderia ir para o hotel e não precisar mais depender da ajuda de Scorpius.
Mas não foi isso que aconteceu.
O email avisava justamente que a minha pré-reserva foi cancelada por falta de comparecimento. Respirei fundo, mas não estava surpresa com minha falta de sorte. De certa forma, eu já esperava que algo assim pudesse acontecer antes mesmo do café da manhã.
Resolvi entrar em contato com a recepção do hotel e tentar conseguir outro quarto, mas eles avisaram que estavam lotados. Eu havia feito a reserva há semanas, mas era obrigatório confirmar presencialmente. Se houvesse como ficar pior a minha situação, sinceramente, eu já desejava não ter embarcado naquele avião.
Deixei o celular de lado, me sentindo cada vez mais frustrada, e só então percebi o cheiro de queimado. De repente, lembrei da frigideira no fogo e corri para desligar, esbarrando na máquina de café no caminho, o que fez jorrar café quente sem parar por todo o chão da cozinha. Era uma catástrofe! Enquanto eu tentava desligar a máquina e tirar a frigideira do fogão ao mesmo tempo, o pano de prato pegou fogo e eu joguei na pia para não me queimar.
Então, para completar a desgraça, o alarme de incêndio capturou o cheiro de fumaça e água começou a jorrar dos Sprinklers no teto.
Foi nesse instante que a porta se abriu e Scorpius entrou no apartamento.
— Mas o quê diabos...? — ele perguntou, ficando confuso por apenas um segundo antes de correr para desligar o alarme de incêndio. Quando a água parou de jorrar do teto, ele se virou de volta para mim, tão encharcado quanto eu estava. — Está tentando destruir meu apartamento?
Para o meu espanto, Scorpius não parecia irritado. Na verdade, começou a rir alto como uma criança e, curiosamente notei, até sua risada tinha sotaque britânico. Por que ele reagiu daquela forma? Será que estava rindo de nervoso? Era assim que pessoas prestes a ter um surto agiam? Eu devia fugir agora?
— Eu sinto muito mesmo. — falei, sem conseguir esconder a culpa e a vergonha que ameaçavam me esmagar.
— Não se preocupa com isso. Vou pedir para alguém vir limpar essa bagunça que você arrumou.
— Eu não tive a intenção… — insisti, mas ele me interrompeu.
— Relaxa. Não está tão ruim assim.
Estava sim.
O chão inteiro estava coberto de café e alguns ovos rolaram pelo balcão até cair da beirada. Sem contar que todos os eletrodomésticos da cozinha estavam encharcados e arruinei um pano de prato. Isso tudo e não era nem meio dia ainda.
Não entendia como ele conseguia levar tudo com tranquilidade. Eu só queria abrir um buraco no chão e sumir para sempre. Imaginei que nem mesmo uma equipe completa de limpeza conseguiria dar jeito no desastre que provoquei.
— Vá tomar um banho, sardenta. — ele sugeriu, talvez tentando me poupar da humilhação de pedir desculpas outra vez. — Depois vou te levar em um lugar legal para almoçar já que não há chances de comer aqui.
— Não tenho roupas. — lembrei. — Minha mala foi extraviada.
Ele riu como se as minhas desgraças o divertissem.
— Você é a garota mais azarada que eu conheço. Mas para a sua sorte, eu passei em uma lojinha e comprei algo pra você vestir.
Olhei desconfiada para a sacola marrom que ele trazia na mão.
— Como você sabia meu número?
— Palpite.
Eu já começava a suspeitar que haveria um grande preço a pagar por essa onda de altruísmo dele. Scorpius não era esse bom samaritano que parecia ser.
— O que deu em você para estar agindo assim?
— Assim como?
— Como uma pessoa decente quando nós dois sabemos claramente que você não é.
— Eu sou uma pessoa decente.
— Piada.
— É sério. Suas férias não estão totalmente perdidas. — ele disse como se fosse a coisa mais importante em questão. — Vou fazer com que seja a melhor viagem que já fez em toda sua vida.
Definitivamente era estranho demais para acreditar.
— Não precisa se dar ao trabalho. Acabo de decidir que vou ligar para o meu pai e resolver toda essa confusão.
— Ou você pode resolver tudo sozinha, com minha ajuda, é claro. Assim seu pai nunca vai saber e não vai te proibir de fazer futuras viagens.
Odiava ter que concordar, mas ele tinha um bom ponto. Se meu pai soubesse de toda essa tragédia, jamais me deixaria sair sozinha outra vez, nem para ir na padaria. Eu precisava resolver isso por mim mesmo e só poderia contar com a ajuda do Malfoy.
Aquela situação estava se tornando uma bola de neve cada vez maior.
⟳
Depois de tomar banho, resolvi encarar o que quer que Scorpius tenha escolhido para mim. Ele estava tão prestativo nas últimas horas que não poderia ser nada tão ruim, certo?
Errado.
Ao abrir a sacola, senti meu rosto ficar mais quente que o inferno. Logo por cima, havia um conjunto de lingerie preta. Era simples, decente e não havia nenhuma renda, mas eu não queria imaginar Scorpius comprando roupa íntima para mim. Se o número do sutiã estivesse certo, isso significa que... Resolvi que iria ignorar totalmente essa situação constrangedora e nunca tocar no assunto.
Ao investigar mais, encontrei uma calça cintura alta de tecido com elástico. Nada mau. O problema era justamente a segunda peça. A camisa que o cretino escolheu era um cropped folgado cinza com “bombshell” escrito em vermelho na parte da frente.
Saí do banheiro, já vestida, e parei na frente da TV ligada em um jogo de basquete qualquer, encarando-o.
— Eu sou uma piada pra você?
— Uau. — ele exclamou, correndo os olhos por mim dos pés a cabeça. — Eu tenho bom gosto para roupas. Mas ficaria mais provocante se você soltasse o cabelo. Daria um ar mais explosivo.
— Qual é o seu problema com a minha ruivez?
— Ruivez?
— Você entendeu.
— Não tenho nada contra. — ele declarou ao desligar a TV e pegou as chaves em cima do balcão. — Vamos logo, estou morrendo de fome.
Eu o segui, a contragosto. Ter que lidar com o humor irritante de Scorpius estava se tornando mais exaustivo do que eu imaginava.
⟳
— É um dos meus lugares preferidos. — Scorpius revelou depois de nos acomodarmos em uma mesa da lanchonete.
— Sério? — olhei ao redor. Não havia nada de especial, era uma lanchonete londrina comum com cheiro de fritura no ar e pessoas simples tomando café enquanto assistiam ao noticiário na pequena televisão. — Você não parece o tipo de cara que frequenta nada menos que um restaurante cinco estrelas com algum chef famoso.
— Que tipo de imagem distorcida você tem de mim?
— Você pilota uma Harley-Davidson e seu apartamento é lotado de tecnologia cara. A imagem que você passa fala por si só.
— Não sabia que você era uma garota superficial. — ele arqueou uma sobrancelha de modo irônico. — Você não sabe absolutamente nada sobre mim. Além do mais, uma pessoa precisa comer um belo hambúrguer gorduroso às vezes, não acha?
Dei de ombros e retirei a jaqueta que Scorpius havia me emprestado outra vez. Ali dentro estava mais quente do que nas ruas ou em cima da moto. Não que eu tivesse me acostumado com a corrida, mas subir na moto não havia sido tão desesperador quanto na noite passada.
Em poucos instantes uma garota com expressão indiferente apareceu para anotar nosso pedido.
— O de sempre? — ela perguntou a Scorpius primeiro, confirmando que era um cliente frequente, e ele me lançou um olhar implicante antes de confirmar. Depois ela virou-se para mim e eu pedi a primeira coisa que vi no menu.
— E então — ele retomou a conversa assim que a garçonete se foi. — Quais são os seus planos para os próximos dias?
— Antes de tudo, tenho que resolver a questão do meu passaporte. — ponderei. — Sou uma estrangeira sem documentos. Tenho certeza de que isso é ilegal e pode dar problema a qualquer momento.
— Bom, em último caso, antes de você ser deportada, nós dois nos casamos e você consegue permanência aqui. Fácil, fácil.
Ele disse aquilo como se comentasse a previsão do tempo e eu sabia que era apenas uma brincadeira, mas não conseguia deixar passar a provocação.
— Isso não tem graça. E você seria a última pessoa com quem eu me casaria.
— Não diga besteira. Eu seria a sua melhor opção na vida inteira.
— Vou ignorar isso.
Os pedidos chegaram com rapidez e eu não notei que estava tão faminta até sentir o cheiro e meu estômago roncar de forma rebelde. Por alguns minutos nos concentramos em devorar nosso almoço — um hambúrguer gorduroso para ele, como havia dito, e para mim um sanduíche pequeno com suco de laranja que me fez desejar ter feito o mesmo pedido que Scorpius.
— De qualquer forma — ele recomeçou, mas parou para beber um gole do refrigerante para engolir o hambúrguer antes de continuar — Acho que posso te ajudar a agilizar isso.
— Como?
— Tenho contatos.
— Você falou como um perfeito mafioso.
Ele abriu um sorriso que Dominique chamaria de “um tanto quanto cafajeste”.
— Você não gosta de caras fora da lei?
— Pare com isso. — mandei.
— Parar com o quê? — o cinismo dele me fazia ter vontade de esgana-lo.
— Com esse charminho barato. Não funciona comigo.
— Eu não estava tentando te seduzir, sardenta. Mas se você se sentiu afetada, diz mais sobre você do que de mim.
Eram raros os momentos em que eu ficava desconcertada, contudo, Scorpius tinha uma grande habilidade de reverter a situação ao seu favor e me deixar sem conseguir dar uma resposta bem merecida.
Enfiei o resto do sanduíche na boca para disfarçar a falta de reação. Ele apenas me observou, entretido.
— E então — resolvi voltar ao assunto principal. — Como você vai me ajudar?
— Vou fazer algumas ligações. — ele declarou e deu de ombros. — Confia em mim, posso resolver isso.
Se alguém perguntasse para a Lily de três anos atrás se ela confiaria em Scorpius Malfoy para qualquer coisa, a resposta seria não sem pensar duas vezes. Mas naquele momento eu não tinha muitas alternativas sobrando no bolso e, já que estava aceitando a ajuda de Scorpius até para comprar minhas roupas íntimas, por que não continuar?
⟳
Foi um longo e tortuoso processo em busca de regulamentar minha situação.
Primeiro precisei fazer ocorrência na polícia e o departamento não notificou os meus pais apenas por causa da influência de Scorpius e sua família. Depois houve todo um processo para conseguir a segunda via do passaporte. Em certo momento, cheguei a acreditar que seria mais fácil se eles simplesmente me deportassem de uma vez.
Depois de três dias inteiros gastos apenas tentando resolver a papelada, usando muito o nome Malfoy para agilizar a situação, conseguimos finalizar todo aquele processo e só precisava aguardar por mais dez dias até estar com meu passaporte em mãos. Nesse meio tempo, também recuperei minha mala que, graças a Deus, estava intacta e com todos os meus pertences. Tudo parecia estar se ajeitando e eu começava finalmente a aproveitar um pouco aquela viagem.
Na noite de quinta-feira, após o dia cansativo, eu estava jogada no sofá da sala, já vestida com pijama, quando Scorpius voltou da cozinha exibindo uma garrafa de vinho em uma mão e duas taças na outra.
— Agora os espólio.
— Está querendo me embebedar? — estreitei bem os olhos.
— Jamais faria isso. — ele declarou, com falsa inocência. — Mas, para fins acadêmicos, qual a sua resistência alcoólica? É para o meu TCC.
Eu ri e me perguntei em que momento daquela viagem desastrosa se tornou tão fácil e leve estar na companhia de Scorpius. Talvez fosse inevitável depois de termos passado tanto tempo juntos resolvendo a burocracia de reaver meus documentos. No fundo, Scorpius Malfoy não era tão ruim quanto meu julgamento ultrapassado havia pintado.
Ainda assim, eu não conseguia me sentir completamente à vontade ao seu lado. Era como se, mesmo ele sendo aquele cara incrível, o passado ainda insistia em me deixar desconfiada, esperando ser sacaneada a qualquer momento. Meu sol em virgem não me permitia confiar em alguém até que provasse — mil vezes, para início de conversa — ser merecedor.
Ele serviu as duas taças e eu recolhi minhas pernas esticadas para que se sentasse também no sofá. A TV estava ligada, mas eu não prestava atenção no programa. Aceitei a taça quando me ofereceu. Era outro dia chuvoso e a bebida combinava perfeitamente.
— Muito bem. — ele inspirou profundamente e soltou a lufada de ar pela boca. — Você precisa falar então diga de uma vez.
Pisquei os olhos, sem compreender.
— Dizer o quê?
— Sei que você precisa resolver isso que está martelando em sua cabecinha de fósforo. Não há mais nenhuma preocupação burocrática que a distraia, então agora é a hora.
Compreendi o que ele queria dizer e me perguntei se era capaz de ler mentes ou se meus pensamentos estavam refletidos de forma tão óbvia na minha expressão.
— Não sei o que você está falando. — menti.
— Vamos, ruiva. Fale.
Bebi dois goles de vinho. O gosto doce na minha língua ficou mesmo depois de engolir o líquido. Quase um minuto inteiro se passou até que eu decidisse abrir a boca:
— Por quê?
Scorpius não precisava que eu formulasse a frase inteira. Só havia um assunto não resolvido entre nós.
Logo no primeiro dia de intercâmbio, Scorpius virou amigo de Albus. Tornaram-se inseparáveis como chiclete na sola do sapato. Então, meu irmão convidou o novo amigo para dormir no fim de semana em nossa casa e de repente havia alguns de nossos primos, duas vizinhas e os gêmeos Scamander jogando o jogo da garrafa em um dos quartos. Albus só me deixou participar porque eu o chantageei. Na época eu só queria beijar Lorcan Scamander — meu maior e inesquecível crush do colegial —, mas por alguma ironia do destino, caí justo com Scorpius.
Eu podia sentir o olhar de inveja das outras garotas na roda, mas não era bem com o garoto novo que eu queria dar o meu primeiro beijo. Não importava que ele fosse lindo de morrer quando já havia outra pessoa por quem eu gostava. No final, o beijo foi meio desajeitado, eu estava constrangida por ser observada por meia dúzia de pessoas e, apenas por auto proteção, depois de me afastar rapidamente, eu disse que não havia sido nada demais.
— Ego ferido. — ele respondeu por fim.
— Por isso espalhou para o colégio inteiro que eu era apaixonada por você? — continuei, já que havia aberto a tampa da caixa de ressentimento do passado. — Sua pseudo namorada líder de torcida me perseguiu por semanas, fez todas as meninas do colégio me odiarem e os meninos riam de mim nos corredores como se eu fosse uma das pobres coitadas que caiam de amores por você. Aquele ano foi um inferno. E eu nem era apaixonada por você!
— Você não vê? — ele passou a mão no rosto como se tentasse encontrar uma forma de explicar algo óbvio para uma criança de cinco anos — Foi exatamente por isso. Você era uma das poucas garotas do colégio que não teve uma queda pelo garoto do intercâmbio. E depois do beijo pensei que mudaria de opinião, mas… — ele franziu a testa como estivesse comendo algo azedo. — “Nada demais”? Isso foi desconcertante.
Eu não esperava nada menos do que aquela explicação ridícula, mas ainda assim, ouvir me fez sentir vontade de socá-lo.
— Devo lembrá-lo que o mundo não gira ao seu redor?
— Eu não sabia disso na época.
— Você era um merdinha arrogante.
— Ouch.
Rolei os olhos, mas percebi que não estava mais com raiva. Era como arrancar o band-aid de uma ferida minúscula e indolor. Pela primeira vez podia afirmar com convicção que não guardava mais nenhum ressentimento pela mentira que Scorpius espalhou.
— Eu sinto muito pelo o que eu fiz. — ele disse depois de um tempo. — Você tem razão. Eu era apenas um merdinha que não tinha nenhuma noção a respeito de nada. Será que eu poderia fazer algo para recompensá-la por todo o transtorno? Qualquer coisa que você quiser.
Balancei a cabeça. Não havia mais necessidade daquilo, mas era reconfortante e saboroso ouvi-lo se desculpar por suas atitudes. Nada mais que sua obrigação.
— Esquece. Eu já superei há muitos anos. Foi mais fácil quando você foi embora.
— Pra mim, não foi. — ele cochichou com a taça nos lábios no meio de um gole e pensei não ter escutado direito.
— O quê?
— Deixa pra lá.
Esperei que ele acrescentasse algo mais, contudo, Scorpius se manteve em silêncio bebendo o vinho. Eu precisei ser a primeira a falar.
— Então, parece que finalmente resolvemos isso.
— Como dois adultos. — ele completou. — Estou orgulhoso de nós.
Não pude evitar um sorriso pequeno surgir.
— Olhando agora, parece uma bobagem tão grande, apenas uma picuinha de adolescentes.
— Dá um desconto. Éramos imaturos.
— Fale por você. Não fui eu quem inventou histórias.
— Não foi nada demais — ele repetiu imitando uma voz esganiçada que deveria se parecer com a minha — Bem madura de sua parte.
— Supera isso. — falei rindo e joguei uma almofada em sua direção, antes de me levantar para ir para o quarto.
Uma taça de vinho era suficiente para uma noite e, além disso, eu não queria que o álcool nublasse a sensação de formigamento e leveza que aquela conversa havia proporcionado.
Scorpius se esticou no sofá quando eu saí, preparando-se para dormir.
— Sabe — ele disse com os olhos já fechados. — Espero que você mude de opinião.
Entendi sem que ele precisasse explicar e por um instante também quis saber se eu continuava achando “nada demais”.
⟳
Scorpius também possuía um carro, obviamente, e eu o amaldiçoei por ter me transportado de um lado para outro em cima daquela maldita moto quando poderíamos estar perfeitamente seguros dentro de um automóvel fechado, com cinto de segurança e airbags. Ele apenas disse que preferia pilotar a moto.
— Aonde você está me levando? — perguntei outra vez, olhando pela janela do carro.
— Tenha paciência, sardenta. Parece que nasceu de sete meses.
— Na verdade, eu nasci prematura, sim. E fazer piada com isso é indelicado.
Ele me encarou, pasmo.
— Isso é sério?
Mantive minha expressão séria por apenas um segundo antes de explodir em uma risada. Ele pareceu respirar aliviado.
— Você é uma boa mentirosa. — Scorpius observou com um sorriso bem humorado.
— Ainda quero saber onde nós vamos. — insisti. Aquele suspense estava me matando.
— Eu falei que salvaria suas férias, não falei? Vou ser seu guia turístico e te levar nos meus lugares preferidos.
— Você não tem mais nada pra fazer durante o dia como trabalhar ou estudar?
Scorpius deu de ombros no alto de todo o seu privilégio.
— Férias da faculdade e meu estágio é flexível.
— Sua vida é ótima. — suspirei, sentindo um pouquinho de inveja.
Quando o carro parou em uma vaga do estacionamento do Green Park, olhei para Scorpius com as sobrancelhas erguidas. Ele apenas sorriu e saiu do carro em silêncio, dando a volta até o porta malas, e tirou de lá uma cesta de comida.
Não consegui evitar o olhar zombeteiro.
— Todo esse mistério para um piquenique?
— Algo contra?
— Pensei que fosse me levar para conhecer a rainha ou algo assim. — brinquei. — Eu não devia ter me produzido tanto se era pra ficar só com você.
— Eu não tenho tanta influência assim. — ele respondeu. — Pelo menos, ainda. Quem sabe eu não me caso com uma princesa e entro pra família real. Só então eu poderia te apresentar a rainha. Até lá, um piquenique ao pôr do sol deve servir.
— Tão clichê. — zombei.
— Londres é clichê. Se você veio aqui é porque se interessa por clichês e não sou eu quem vai tirar isso de você. Vou te dar o máximo de clichê possível até você pedir misericórdia.
— Você é estranho. — ri enquanto o acompanhava.
O parque estava cheio de visitantes e não foi fácil encontrar um lugar na grama. No fim, ficamos um pouco mais afastados dos turistas, à sombra de uma árvore em uma elevação que dava para ver boa parte do campo e poderíamos assistir mais tarde o pôr do sol. Scorpius estendeu uma toalha xadrez no chão e eu tentava não sorrir tanto com toda a programação para o dia. Estava sendo muito mais prazeroso do que eu poderia imaginar.
Nos acomodamos lado a lado e a cesta foi aberta, revelando queijo, pão, frutas e o mesmo vinho que tomamos na noite passada. Antes que eu pudesse pegar qualquer coisa, senti algo leve, quase imperceptível, cair na minha cabeça. Ergui a mão, mas Scorpius a segurou comprimindo com força os lábios.
— Eu não colocaria a mão aí se fosse você.
— Por quê?
— É cocô de pombo.
Minha expressão se transformou em puro nojo.
— Ah, não! Urg!
Scorpius não aguentou mais e explodiu em uma risada.
— Pare de rir, seu idiota! — bati com em seu braço e peguei alguns guardanapos de papel. — E me ajude a limpar.
Ele não parou de rir, mas pegou os guardanapos e pediu para que eu inclinasse a cabeça.
— Não faça nenhum estrago aí. — avisei ao sentir passar o guardanapo.
— O estrago já está feito, eu só consertei. A sua sorte é que não foi muito e nem ficou sujo.
— Eu não chamaria de sorte receber côco na cabeça.
Scorpius não queria me ver resmungar rabugenta, então, mudou de assunto, me perguntando sobre coisas aleatórias enquanto tiramos e comemos a comida. Só percebi o tempo passar quando a garrafa de vinho esvaziou e o sol começava a se tornar laranja.
— É lindo, não é? — falei, maravilhada, olhando os raios alaranjados caírem sobre os campos.
— Obrigado.
Lancei os olhos para o alto, sorrindo, antes de corrigi-lo:
— O pôr do sol.
— A luz está perfeita para uma selfie. — ele observou e tirou o celular do bolso. — Vem.
— Por que eu me prestaria a esse papel? Não quero associar minha imagem com a sua.
— Sua imagem seria consideravelmente mais valorizada ao meu lado. — ele brincou.
Não me importei quando Scorpius passou os braços ao redor dos meus ombros e me puxou para mais perto. Fiz várias expressões enquanto ele apertava o botão algumas vezes.
— Olha só. — ele disse, me mostrando uma nossa sorrindo. — Perfeita.
— Você adora estar na frente de uma câmera, não é? — comentei.
Ele arqueou uma sobrancelha e me senti pressionada a continuar.
— Se eu disser que hipoteticamente eu tenha bisbilhotado um pouco suas coisas e encontrei uma caixa cheia de fotos, o que você diria?
— Parece que vou ter que trancar minhas gavetas a partir de agora ou você pode encontrar algo comprometedor ao meu respeito.
— Eu falei hipoteticamente!
Ele sorriu parecendo não se importar verdadeiramente com minha curiosidade.
— Por que você guarda uma foto minha? — perguntei, sem pensar.
— Se eu te contar você não vai acreditar.
— Fala. Quero saber.
Scorpius desviou o rosto, mexendo na grama no chão. Eu precisava admitir que era meio fofo ele tentando encontrar uma forma de responder.
— Eu já estive em vários lugares do mundo e gosto de guardar algo especial de cada um deles. — revelou por fim.
— Especial? — zombei, acreditando que ele não guardaria uma foto minha por achar especial. Talvez estivesse no meio das outras e ele nem mesmo percebeu.
Mas Scorpius não estava rindo ao voltar me olhar, o que me fez vacilar na minha suposição.
— Especial? — repeti, dessa vez confusa.
— Você nem imagina.
Intencionalmente ou não, Scorpius aproximou o rosto do meu e eu não havia percebido até aquele momento que seus olhos acinzentados tinha um pequeno e discreto risco azul perto da pupila. Eu quase não conseguia respirar com aquela proximidade. O hálito dele tinha cheiro de vinho e roçava, provocante, o meu rosto.
Eu não sabia o que Scorpius estava esperando, mas não podia mais suportar aqueles míseros centímetros entre nós. Inclinei o meu rosto e o beijei.
Muita coisa havia mudado desde a última vez em que estávamos naquela mesma situação. Não era mais um beijo desajeitado, apressado ou tímido. Foi suave e calmo como o pôr do sol atrás de nós. E, ainda assim, foi capaz de provocar uma explosão de sensações dentro de mim como se meu corpo foi entrar em combustão ou sair flutuando a qualquer momento. Havia uma mistura de pensamentos desordenados na minha cabeça e nenhum fazia sentido.
Scorpius pousou uma mão no meu rosto e cedo demais se afastou.Seus olhos estavam elétricos enquanto me encarava e havia o vestígio de um sorriso em sua boca um tanto rosada por causa do meu batom.
Decidi ser a primeira a falar:
— Vou mudar minha opinião de “nada de mais” para “nada mal”.
— Posso revelar uma informação curiosa? — ele perguntou de forma inesperada, me fazendo erguer uma sobrancelha e me questionar porque simplesmente não me beijava de novo.
— Sério? Agora?
— Esse é o momento perfeito.
— Então vai em frente.
Esperei, mas ele permaneceu me olhando, meio sem jeito de revelar o que queria dizer.
— Não faça tanto suspense.
— Eu inventei que você gostava de mim para escola inteira porque, na verdade, era eu quem tinha uma queda por você naquela época.
Franzi a testa, tentando assimilar. Implicância adolescente eu conseguia compreender. Mas atração? Isso nunca sequer passou pela minha cabeça naquela época.
— Pensei que fosse por ego ferido.
— Também. Rejeição às vezes é uma droga.
Aos poucos, um sorriso brincalhão se formou nos meus lábios.
— Esse foi o seu método de chamar a minha atenção?
— Eu não sabia como me aproximar de garotas indiferentes.
— Parece que aprendeu finalmente.
Ele voltou a segurar meu rosto, dessa vez com as duas mãos, e chegou tão perto que quase não capturei o que cochichou.
— Uma hora eu tinha que acertar.
E a conversa chegou ao fim porque havia coisas mais interessantes para fazer com nossas bocas do que falar sobre o passado.
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