Lucidez Silenciosa
1 Silent Lucidity
Notas iniciais
A escuridão já havia alcançado o Novo Mundo e o Sunny se encontrava silencioso, coisa que era muito rara de se ver. Cada tripulante ocupava seu quarto, exceto por um único moreno que havia ficado com a vigia daquela noite ― já que, milagrosamente, Zoro não queria ficar de guarda naquele dia.
Luffy estava no ninho da gávea, observando a lua refletindo nas águas tranquilas sobre as quais o Sunny pairava. O capitão não costumava ser tão quieto, mas naquela noite em especial estava perdido demais em seus pensamentos para despertar dos mesmos.
Dali à poucas semanas eles chegariam ao final da Grand Line. Finalmente iriam ter a chance de encontrar o One Piece e ele se tornaria o Rei dos Piratas. Depois de todos aqueles anos, de tantas batalhas, perdas e vitórias, ele finalmente realizaria seu maior sonho e assim poderia ter uma chance maior ainda de realizar o sonho de cada nakama seu. Naquele momento, o que se passava na mente do capitão dos Chapéus de Palha era exatamente toda a jornada dele e seus companheiros até ali.
Tantas aventuras...
Tantas histórias a serem contadas...
Tantas emoções a serem relembradas...
Era inevitável. Toda vez que o médico de meia idade abria aquela porta, uma tristeza profunda tomava conta de si.
Mais um dia começava no principal Hospital de Tókio. O Dr. Kiosh adentrava o quarto 214 para uma checada diária no paciente.
Tão jovem. Tanta coisa pela frente. Tantos sonhos... E ali estava. Inconsciente, distante do mundo há mais de cinco anos.
Mokey D. Luffy era um jovem de 22 anos que havia chegado àquele hospital ainda com 17. Ele e mais oito amigos haviam sofrido um acidente, cinco anos antes, enquanto viajavam juntos para um final de semana no sítio da mais velha entre os companheiros. Sete dos jovens morreram no local do ocorrido e ele mais a namorada haviam sobrevivido por um verdadeiro milagre. Infelizmente, Luffy já dera entrada no hospital em estado gravíssimo e depois de saber que todos os outros haviam falecido na tragédia, tivera uma parada cardíaca e por muito pouco não tomara o mesmo destino que os amigos. No entanto, a consequência do baque fora o coma profundo no qual ele agora se encontrava.
Nami, a outra sobrevivente, se recuperara algumas semanas depois e somente porque da perseverança dela é que ainda não haviam desligado os aparelhos. Toda a família do rapaz já havia desistido de esperar que um dia ele acordasse novamente, mas ela ainda persistiu pelos cinco anos que se seguiram e ainda insistia.
O Dr. Kiosh não sabia se ficava admirado ou ainda mais angustiado pela força do sentimento daquela jovem pelo moreno ali deitado à sua frente. Ainda assim, torcia para que mais um milagre acontecesse e aquele jovem pudesse acordar e ver que ainda tinha muito que o esperava.
Enquanto avaliava o paciente, o doutor foi surpreendido pela ruiva que não deixava de visitar aquele quarto um único dia. Ela vinha com um sorriso afável nos lábios e ele fora obrigado a devolvê-lo.
― Bom dia, Nami-san.
― Bom dia doutor. Alguma novidade? ― Questionou já se aproximando da cama do namorado inconsciente. Pôde ouvir um suspiro vindo do homem de jaleco à sua beira e então já podia prever qual seria a resposta. ― Tudo bem, estamos apenas começando o dia, certo? ― Ela interrompeu o médico antes mesmo dele iniciar sua fala, animada. Mais uma vez, tudo o que ele pôde fazer fora sorrir. Naquele momento novamente a angústia e a admiração se confrontavam dentro de si.
Por mais alguns minutos eles ficaram ali, em silêncio, observando a face serena do moreno. Cada um perdido em seus próprios pensamentos. Cada um travando uma batalha feroz entre o cansaço e a perseverança. Ele, se perguntava por que coisas daquele tipo tinham que acontecer com quem não merecia tal sofrimento; ela, dizendo mentalmente o que sempre dissera para Luffy, durante aqueles cinco anos: “Volte pra mim. Não desista de você. Não desista de nós.”
Depois daqueles minutos, o médico voltou a fazer seu trabalho. Após fazer o check up, Kiosh pegou sua prancheta para fazer algumas anotações de rotina e já estava se retirando quando o som agudo invadiu a sala.
Tudo fora muito rápido e se perguntassem os detalhes mais tarde, ambos não saberiam descrevê-los. Em instantes, o quarto estava repleto de enfermeiros e médicos, enquanto o som agudo não cessava e Nami observava tudo do lado de fora através do vidro, atônita, apenas rezando para que fosse tudo passageiro ou tudo um sonho muito ruim.
No entanto, alguns instantes mais tarde, a ruiva observou a movimentação cessar, mas o som permanecer zunindo em sua mente. E então uma única lágrima escorrer por seu rosto.
― Luffy...
― Luffy... Luffy!
O susto fora tão grande que ele podia sentir seu coração bater exageradamente acelerado.
― É assim que você vigia o navio? ― A ruiva gozou em meio a um sorriso divertido, embora o moreno nem sequer prestasse atenção no deboche.
O que exatamente acontecera? Ele estava observando o reflexo da lua no mar e então estava em um hospital, com a luz do teto embaçando suas vistas, no meio de uma barulheira danada e sua cabeça parecia querer explodir, enquanto sentia seu coração parar lentamente, até que acordara com Nami o chamando. Fora mesmo tudo um sonho?
Mas parecia tão real...
― Hey... Está comigo? ― A ruiva chamou a atenção do capitão gesticulando na frente do mesmo.
Foi nesse momento que Luffy aceitara que fora tudo um sonho maluco e resolveu atender à sua navegadora.
― Sim... ― Sorriu. ― Estou sempre com você.
Em seguida, pegou a coberta que a ruiva trazia nos braços e espalhou sobre si mesmo, puxando a garota para debaixo da manta. E então assim passaram a noite, observando o reflexo da lua na água, relembrando tudo o que já haviam passado até ali e se arriscando em prever o que ainda aconteceria. Tendo a certeza de que não desistiriam de seus sonhos, não desistiriam deles. Tendo a certeza de que eles poderiam fazer aquela aventura e o que existia entre eles ser eterno...
Fizeram isso por grande parte da noite, até que o sono fora maior e conseguira vencer ambos.
Talvez agora ela também quisesse adentrar o mundo que o moreno havia criado.
Talvez fosse por isso que agora ele estava diante de dois jovens que preferiram viver em um eterno sonho à perder aqueles que realmente importavam.
― Hora da morte: 8:30 AM e 8:35 AM.
“Foi tudo um sonho ruim
Rodando em sua cabeça
Sua mente te enganou para sentir o sofrimento
De alguém próximo a você abandonando o jogo da vida
Então aqui está, outra chance
Totalmente desperto, você encara o dia
Seu sonho terminou... ou ele apenas começou?”
Fale com o autor