Luar Escarlate
1 É único
Notas iniciais
Ela acordou. Aquela ruiva acordou enrolada em lençóis tão vermelhos quanto seus cabelos. Tudo naquele lugar era vermelho. As paredes tingiam-se de um vermelho escuro, vinho. O ferro da janela, vinho. E aquela lua cheia que preenchia aquele céu negro era tão vermelha e mórbida quanto tudo o que havia ali.
Ela ergueu-se. Sentia uma leve tontura, mas aquilo sempre acontecia. Envolta no lençol, ela cobriu o corpo, evitando que o vento frio a pegasse. Seus cabelos tão longo que logo poderiam tocar seus joelhos, escorridos por seu corpo à medida que ela andava. Seus olhos ora tão brancos captando qualquer sinal de vida.
Ela caminhou. Suas pernas tremiam à medida que avançava naquele quarto de sangue. A fumaça que escapava de seus lábios causada pelo frio. O frio que estava lhe partindo o coração. Seus passos incertos, a procura por algo que ela não sabia ao menos o que era. Uma outra vertigem no momento em que seus pés vacilaram, levando-a para o chão.
Ela respirou. Seus olhos brancos se fechando à medida que uma forte dor penetrava seu corpo. Seu rosto tocando o chão de maneira tão íntima. Tão próxima. A respiração ecoando pelo quarto tão silenciosa quanto o sangue que escorria de um ferimento. O sangue que envolvia-se no lençol vermelho que ela usava para esconder o corpo.
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Ele escutou. Seus ouvidos super desenvolvidos que percebiam até o som de ratos ao longe. O som que veio próximo. Tão próximo que pôde, ao pouco, assustá-lo. Sua taça de vidro em sua mão onde ele guardava um líquido tão precioso. O líquido que ele observava calmamente antes do som assustá-lo. O líquido que era tão importante que o fazia simplesmente esquecer do passado para apenas observá-lo.
Ele suspirou. A respiração saindo tão calmamente quanto o balançar de seus cabelos negros ao vento que vinha da janela aberta. A janela aberta onde ele observava a Lua sangrenta daquela noite. Porque aquele era o seu mundo e a Lua seria do jeito que ele quisesse. E ela seria sangrenta como ele. A taça agora pousada em uma mesa de vidro tingido de sangue ao seu lado.
Ele ergueu-se. As mãos pálidas e másculas apoiando-se nos braços da poltrona para tal ato. Seus lábios vermelhos erguendo-se levemente para o canto superior, onde ele se permitiu ter um sorriso. Seus olhos tão sangrentos como a sua e o seu ser interior, o vermelho sangue que estava em todo o lugar aquele cômodo. Porque era o vermelho que fazia parte de si. O pedaço que estava faltando.
Ele caminhou. Seus passos jamais ecoando por aquela sala em que sua morte há tanto habitava. Seus olhos e ouvidos atentos para qualquer som e visão desagradável que ele poderia encontrar no corredor que o levaria à torre mais alta naquele seu velho castelo. O chão de pedra das escadas, a tinta vermelha que manchava as paredes de pedra e as pinturas que nelas haviam.
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Ela acordou. Seus olhos procurando por qualquer sinal de saída daquele quarto maldito onde fora presa. O corpo tremendo à medida que o frio entrava em sua alma, congelando-a por completo. O chão frio que tocava seu corpo nu. O chão de pedra suja de vermelho. Porque o vermelho era a cor que reinava naquela torre, naquele corredor, naquele castelo. Naquele céu onde a sua assistia a sua prometida.
Ela ergueu-se. Suas pernas tremendo novamente no que tentava alcançar a porta feita de barras de ferro. Seus olhos procurando por alguma outra saída que lhe parecesse agradável, mas a janela só aparecia e ela só via sangue se por acaso seu corpo tocasse nela alguma vez. Seu lençol jogado a seus pés, seu longo cabelo vermelho cobrindo cada parte de seu corpo, seu corpo manchado de sangue.
Ela caminhou. Seus pés mantendo-se gelado a cada passo que ela dava na direção de sua futura arma de escape. A porta de ferro onde ela podia ver ao longe certo brilho vermelho, como uma vela acessa em seus últimos suspiros de vida. Vermelho como tudo à sua volta. O vermelho que a enlouquecia. Ela só pôde deixar um sorriso preencher o rosto no instante em que seu corpo encostou-se nas barras frias que a trancavam no alto daquela torre.
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Ele escutou. Os passos novamente ecoando por sua cabeça como os passos de um elefante descoordenado. Um barulho suave que só ele sabia o que era. Porque eram os passos daquele ser que ele esperava acordar há tempos. Mas por ser o ser tão diferente do resto da raça humana, ele era o especial. E logo aquela que o esperava seria também. O cheiro familiar que o provocava estava por todos os cantos daquela escada sombria.
Ele suspirou. Se seu coração pudesse bater, ele sabia, ele tinha certeza, naquele momento ele estaria a prestes de ter um ataque. A espera de horas e mais horas. A espera para poder vê-la novamente. Senti-la novamente. O calor que o corpo dela projetava no seu no momento em que, ambos, encontravam-se embolados em uma cama de lençóis vermelhos sangue. No momento em que partilhavam tudo.
Ele observou. O corpo encostado nas grades de ferro que a mantinham naquela torre, presa para sempre. O sangue que escorria de dois pequenos orifícios em seu pescoço. Os orifícios que ele mesmo fizera naquela noite em que a Lua era da cor do sangue dela. Da cor de seus cabelos vermelhos. Da cor de tudo que o rodeava, de tudo que a rodeava. Da cor de tudo aquilo que ele necessitava.
Ele sorriu. Suas mãos abrindo a porta de grades, a porta que apenas os separavam. O leve inclinar de cabeça e o resto de sorriso que ela deu quando seus olhos brancos encararam os olhos vermelhos dele. Seu cabelo desarrumado em contraste com o cabelo impecável dele. E a roupa que ela não tinha. A roupa que ele tinha em seu corpo. O contato imediato quando a mão dele encostou-se com o ferimento que ela tinha.
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- Mate-me. Ele está se partindo. – aquela voz angelical se pronunciou em meio a toda a sua dor. Ela sorria.
- Eu não posso matar você logo agora que eu te encontrei. – ele respondeu, seus olhos enchendo-se de lágrimas à medida que pronunciava sua sentença.
- Morrer é melhor que sentir isso. Ele está se partindo em milhares de partes. – suas mãos pousadas em seu peito, em seu coração, manchadas de sangue.
- Eu não posso me separar de você. Eu demorei tanto tempo para te encontrar... – um brilho escorreu por seu rosto pálido.
- Mate-me. E essa é a dor que você sempre sentiu?– seus olhos também lacrimejavam.
- Só parei de senti-la no instante em que encontrei você. – sofrimento em olhos sanguinários.
- Conserte-o. Meu coração está se partindo.
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