Lua de Sangue
2 Alguma Coisa Está À Espreita
Notas iniciais
Capítulo 2 – Alguma Coisa Está À Espreita
Segunda-feira. Meu celular toca. Ah, é o despertador... Ainda mais, eu acordando ao som de “Welcome To The Jungle” do “Guns And Roses”, mas pelo menos me acorda logo. Quando o toque do despertador era “Still Loving You” do “Scorpions” eu não acordava, mas também com o ritmo dessa música é mais fácil eu botar ela pra me ajudar e dormir do que pra me acordar, mas isso não vem ao caso. Acordei com o barulho da chuva zumbindo nos meus ouvidos, amanheceu chovendo o clima tava bem frio. Botei um moletom bem quentinho pra dar minha caminhada. Tomei um suquinho com torradas, esperei a chuva passar um pouco e sai correndo pra floresta. Eu sentia que tinha esquecido alguma coisa, sabe aquela sensação de que tu esqueceste algo, mas não sabes o que é? Pois é, era exatamente isso que me incomodava, mas segui correndo em direção à floresta. A chuva agora havia se transformado em garoa, mas isso não me impediu de ir. Atravessei a rua e adentrei na floresta. Comecei a seguir minha rota de sempre, fui pegar meu mp4 do bolso... Ah, sabia que tinha esquecido alguma coisa, e essa coisa era meu mp4, que ótimo!
EU: Ahhh, que ódio! Sabia, sabia! Sou muito zé mané mesmo... – ouvir música enquanto eu caminhava completava a coisa sabe? Mas não posso fazer nada, não vou voltar pra buscar – Tá bom, deixa pra lá, vou continuar e ouvir o som da natureza – Assim eu fui caminhando ao longo de todo aquele verde. O som da garoa caindo, do vento batendo nas folhas e dos passarinhos cantando penetrava suavemente no meu ouvido senti o cheiro de terra molhada e das plantas, isso é tão bom, a natureza é tão linda e tem o incrível poder de me acalmar e de me fazer pensar nas coisas. Por isso que eu gosto tanto de caminhar na floresta e não desperdiço um dia sequer. Tudo na sua normalidade até que eu penso em ter visto um vulto no meio das árvores, mas deixei pra lá, até porque foi muito rápido, continuei andando, mas eu vi de novo e dessa vez não foi coisa da minha cabeça.
EU: Mas que diabos? – eu tava ficando assustada, mas pensei: “Deve ser algum bicho ou coisa assim”... Só que tinha um pequeno detalhe: a silhueta do vulto não tinha forma de animal, eu não consegui distinguir o que exatamente era, mas de uma coisa eu tinha certeza: não era nenhum animal e isso era o que mais me deixava cabreira. Apressei o passo. Meu coração devia tá batendo mil vezes por segundo. Tudo quanto é tipo de coisa bizarra passava pela minha cabeça naquele momento. Parecia que a coisa tava me perseguindo. Corri o mais rápido que pude até sair da floresta e chegar à parte cimentada da rua.
EU: Meu Deus, que foi aquilo? Será que eu tô ficando doida ou o quê? – falei apoiando as mãos nos joelhos e respirando com dificuldade. Fui pra minha casa atordoada com o acontecido, tomei um banho, descansei um pouco e fui pra aula. Cheguei cedo, deixei minhas coisas na sala e fui encontrar com meus amigos no lugar de sempre, o “nosso” pátio perto da biblioteca (a minha universidade é bem moderna, mas também tem muito verde, é tipo como se tivesse sido construída no meio da floresta, então tem diversos ambientes arejados, ao ar livre, com plantas e tudo mais, é realmente bem agradável e lindo).
EU: E ai pessoal?
ROBERTO: Estaria eu vendo uma miragem? – falou sarcasticamente como um filósofo grego pondo a mão no queixo e fazendo uma cara de pensativo. Roberto é outro dos meus melhores amigos, só que eu o conheci na universidade, ele é muito louco, divertido e insano, mas eu gosto muito dele.
EU: Vai te catar Beto! – falei e dei um tapa no braço dele.
ANA: Deixa ela pequeno! – Pra simplificar as coisas e pra eu não ficar falando toda vez que um se pronunciar, vou te dizer quem são os meus melhores amigos da universidade: Roberto, Ana, Laís, Júlio, Flávia e Yuri.
LAÍS: Ah, o professor de Constitucional vai passar um trabalho hoje pra nossa sala!
EU: Como tu sabes disso?
YURI: Eu que contei pra ela! – O Yuri não era da mesma sala que nós, então sempre que algum professor ia passar trabalho, prova e essas coisas ele contava pra gente (assim que é bom né?), mas isso só funcionava quando tínhamos o mesmo professor, nem todos eram iguais. Mas ele já tinha entrado com o requerimento pra mudar pra nossa sala, então esse esquema não ia mais funcionar, pelo menos íamos ter ele em nossa turma.
ANA: Vai valer três pontos!
JÚLIO: E vai ser em dupla...
FLÁVIA: Xirí! Ainda bem, tô fodida nessa merda! – Só vou logo avisando pra não te assustar com as coisas que a Flávia fala, ela é assim mesmo, bem desbocada.
EU: Ô menina, vou lavar tua boca com sabão grosso, viu?
FLÁVIA: Xirí, XIRÍ PELUDO! – Ela gritou e começou a rir, todo mundo ficou com uma cara de “Não conheço!”.
EU: Ah, antes que a gente vá pra sala, preciso falar pra vocês o que me ocorreu hoje...
BETO: O Bruce bateu na porta da tua casa e te pediu em casamento? – falou ironicamente com uma cara de paciente de sanatório.
EU: Não né seu besta! Mas quem me dera... – falei com um sorriso sonhador.
LAÍS: Conta logo menina! – contei o que tinha acontecido na floresta pela manhã.
BETO: Esqueceu de tomar teu tarja preta, foi?
EU: Isso ai Bets! – fiz um gesto positivo com o polegar ironicamente pra ele.
ANA: Tens certeza de que não era um bicho?
YURI: Um macaco, um pássaro?
BETO: Um veado... – falou com aquela cara de “Hum, boiola!” se virando pro Yuri.
YURI: Ááá te foder!
EU: Não gente, eu tenho certeza que não era um animal...
FLÁVIA: Era um maníaco sexual que queria te comer! – fiz uma cara de “What The Fuck?”.
EU: Que? Nãããoo! Que horror Flávia.
BETO: Minha filha, você beija sua mãe com essa boca imunda?
FLÁVIA: Beijo. E ainda faço coisas piores com meu namorado com essa boca imunda!
TODOS: Ecaaa!
EU: Pera, que eu vou bem ali vomitar! Jesus... – Depois disso o professor entrou na sala e nós tivemos que ir para assistir a aula e fazer o tal do trabalho. Fiz dupla com a Laís, como na maioria das vezes, sempre discutíamos, pois defendíamos nossas opiniões até o fim e queríamos que o “negócio” ficasse perfeito, sempre rola um desentendimento entre nós, chega a ser bem engraçado, até porque a sala fica em silêncio e nós ficamos falando alto e rindo, mas no final essa nossa mistura dá muito certo, se não tiramos a nota máxima, chegamos bem perto. Fomos umas das últimas duplas a terminar o trabalho, só pra variar, e como de costume minha mão tava doendo a beça, porque sou sempre eu que tenho que copiar, por causa da letra bonita e blá blá blá, ou seja, sobra pra minha mãozinha. Depois desse trabalho que, realmente era um trabalho do cão, nos dirigimos para a lanchonete, afinal de contas pensar assim sempre me custa energia, então eu tenho que repor, oras. Fomos até o caixa e compramos nossos respectivos lanches, pegamos e nos sentamos. O único que permaneceu lá em pé no balcão foi o Yuri, coitado, ele sempre ficava esperando por mais tempo, porque um dos atendentes, que é gay, fica enrolando ele pra passar umas cantadas (não imaginas o quanto a gente se diverte com isso, é muito hilário!), mas o Yuri não é gay (o que acaba tornando isso mais engraçado ainda), uma vez que, ele tá espancar o pobre do atendente e sem falar nas caras que ele faz quando ele é cantado (kkkkk). Yuri, finalmente, conseguiu pegar a comida e veio pra mesa.
YURI: Taquepariu! Esse viado fica me aliciando e me enchendo a porra do saco toda vez... Tô me controlando pra não dá-lhe uma “bifa” na fuça dele! – falou jogando a bandeja na mesa e se sentando, estressado.
EU: É melhor tu te controlar mesmo, porque nós todos sabemos a confusão que isso pode dar – falei o advertindo.
BETO: É amorzinho, se controle meu bem! – falou com uma voz de mulherzinha botando a mão no queixo do Yuri, que logo afastou com um baita de um tapa.
YURI: Isso, seu Roberto João, é tudo culpa sua que fica me chamando de baitola, boiola, bicha...
BETO: Mas, amor, você sabe que é de brincadeirinha só pra animar você, chuchu! – falou seguindo com a graça.
YURI: Olha, tá vendo só?
FLÁVIA: Caralho Roberto, para com essa porra!
EU: Brincar tudo bem Bets, mas às vezes tu passas dos limites...
BETO: Tá bom gente, foi mal ai! Vou maneirar nas palhaçadas... Desse tipo.
ANA: Acho bom mesmo...
LAÍS: Miranda olha quem tá bem ali! – ela falou se esticando pra mim bem baixinho e virando os olhos para o outro lado dela.
EU: Já vi... – falei com um sorriso na cara tentando disfarçar, como se meus dentes estivessem colados.
YURI: O que foi? – perguntou confuso com a boca cheia de sanduíche.
BETO: Olha a maleducação, falando de boca cheia menino! – falou balançando o garfo na cara de Yuri como se fosse a vovozinha dele. Júlio riu demasiadamente daquele jeitinho dele, discreto e botando a mão na cabeça (não estou sendo irônica, ele ri assim mesmo).
YURI: Tira isso da minha cara!
BETO: Não tá na tua cara, tá na minha mão!
YURI: Tire o que está na sua mão da minha cara!
FLÁVIA: Caralho vocês dois, hein! Pelo amor de Deus... ‘¬¬
YURI: Eu continuo sem entender o porquê do “olha quem tá ali!”
ANA: É aquele teu amigo que a Miranda acha bonito e que se parece com o Bruce!
BETO: AQUELE ALI? – falou, ou melhor, gritou apontando para o rapaz, com o garfo na mão! Pode uma coisa dessas? ¬¬ O rapaz olhou pro Beto sem entender nada.
EU: CALA A BOCA! – dei um “pedala Robinho” nele. Tava quase me enterrando já.
YURI: O Deco? Ta afim do Deco? – ele perguntou surpreso e rindo.
EU: Não, num tô afim dele é só que eu acho ele bonito...
JÚLIO: Ta afim sim, olha só como tu secas o garoto!
LAÍS: Deixem ela gente, o que é bonito a gente seca mesmo!
BETO: Que nem como o balconista olha pro Yuri... – Yuri deu um olhar fulminante pro Beto – Tá parei!
ANA: Yuri te apresenta ele, amiga!
YURI: É te apresento ele... Sem compromisso!
EU: Hoje não, melhor não, depois de o Beto apontar pra ele com um garfo na mão vai ficar meio estranho! – Beto assobiou e fez uma cara de quem não sabia de nada – Mas eu tenho que contar pra vocês quem eu conheci na sexta passada!
BETO: O Bruce? – ele fez uma cara tipo a do Jack Nicholson em “O Iluminado”, dei um olhar desaprovador pra ele – Tá parei! – Contei tudo pra eles sobre o Deus Grego do Joseph, de primeira eles não acreditaram, pensaram que eu tava inventando coisa, mas depois eu os fiz acreditar. Voltamos do intervalo, assistimos o resto das aulas e seguimos cada um para suas respectivas casas. Chegando em casa, tomei um banho e nem jantei de tanto que eu tava cansada, acho que aquela corrida e o trabalho me esgotaram, me joguei na cama e sem eu ao menos perceber, adormeci.
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