Lua da Meia Noite
6 Vermelho para a Noiva
Notas iniciais
Os dias que se seguiram ao incêndio se passaram como um furacão.
Acordei no meio da noite da festa com os gritos de minha mãe, e a primeira coisa que pensei foi Etienne. Mas ele não estava comigo. Devia estar encolhido na própria cama, com medo demais para ousar se mexer. Por um momento eu mesma me senti incapaz disso. Já tinha ouvido Eveline gritar, amaldiçoar e até mesmo bater uma porta ou outra. Momentos como esse, na madrugada, ela deixava todo seu ódio guardado ser libertado de forma explosiva, jogando toda sua frustração e amargura em meu pai.
Mas eu não conseguia me lembrar de uma noite como essa.
— Isso é um absurdo, Patrick, um absurdo! – Minha mãe gritava, a voz tão irada que quase a podia ver soltando fumaça pelas orelhas. – Eu não vou permitir isso, me recuso!
— E o que vai fazer, Eveline? – Meu pai perguntou. Não parecia irritado, apenas cansado e estressado. O último provavelmente por culpa da explosão de minha mãe.
— Quero que um raio caia na cabeça dela! – Bradou. – Tudo seria melhor do que ser tão humilhada! Minha filha se envolvendo com gente daquele tipo, não, não!
— Bata nessa boca, agora! – E agora papai havia gritado. – Está dizendo que gostaria que sua filha morresse? É tão mesquinha a esse ponto, sua mal-amada? Prefere a morte de sua filha do que aceitar algo que você mesma causou?!
— Eu?! Eu causei?! Não foi eu que pus fogo na aldeia, seu idiota!
— Não, mas se não tivesse obrigado ela ficar noiva do garoto Pottier, isso nunca teria acontecido! Todos sabiam que ele e a garota Giraud são namorados desde crianças, Eveline! O noivado deles foi recebido com alegria! Ainda por cima é a melhor amiga de Mabelle! Ela nunca permitiria isso, se conhecesse um pouco sua filha iria saber!
— Permitir?! Ela não tem que permitir nada! – Ela grunhiu. – Tinha que calar a boca e subir na porcaria do altar no dia marcado, e dizer sim! Assim como foi com todas as garotas antes dela e será com todas as outras! Assim como foi comigo! Você, enchendo a cabeça dela com aqueles livros inúteis, arruinou ela! Deixou ela acreditar que tem algum poder de escolha, algum poder! Nunca deixou ela se acostumar com a ideia de que é uma mulher, e sua vida seria se casar e ter filhos, com quem quer que seus pais escolhessem!
— Talvez até tivesse feito isso, Eveline, e talvez até poderia ser feliz. Era o que eu rezava para acontecer. Ou podia ser tão infeliz quanto eu, era o que eu temia. Mas você acabou com qualquer chance quando escolheu Lenard Pottier!
— Não me interessa, Patrick, não quero saber – sua voz se abaixou, e tive que prestar atenção para ouvir o resto de sua frase. – Se aquela bruxa trouxer uma resposta positiva, se assegure que eu não veja essa menina na minha frente, pois a partir de agora eu tenho apenas um filho, e é Etienne. Aquela garota já me deu vergonha demais, talvez tenha mais sorte com meu filho.
Não consegui ouvir a resposta de meu pai. E odiei isso. Pois o que me impediu de ouvir foi o fato de ter virado o rosto para o esconder no meu travesseiro, fazendo que o soluço se abafasse. Era detestável eu estar chorando. Eu me odiava por chorar. A muito tempo, desde a minha infância, eu aprendi a não ouvir coisas assim. Não era a primeira vez que ouvia seu desgosto por mim. Às vezes ela dizia na minha frente, e me acostumei a apenas ficar em silencio ou dizer coisas do tipo “sim, mamãe”. O mais comum, ouvia noites assim.
Porém, mesmo já tendo ouvido que eu era um desastre, um desgosto, uma vergonha, que ela não sabia onde tinha errado ou que eu não tinha jeito... nunca havia ouvido minha própria mãe me negar. Me odiei por chorar por isso, não era óbvio que iria acontecer? Eveline nunca gostou de mim, e eu nunca fui apegada com ela. Eu tinha uma relação de aluna e professora severa com ela, e não de mãe e filha. Até agora, eu achava que estava imune ao seu veneno e seu ódio. Nem mesmo quando tentou me bater no rosto eu havia me abalado. Mas...
Se aquela bruxa trouxer uma resposta positiva, se assegure que eu não veja essa menina na minha frente, pois a partir de agora eu tenho apenas um filho, e é Etienne.
No final das contas, Eveline era minha mãe. Ou melhor, não mais. Então a deixei ir. Me odiei pela dor que isso causou, e sabia que não seria algo de uma noite. Mas era o início de um processo que sabia que teria que encarar mais cedo ou mais tarde. Ainda teria meu pai, e isso me aqueceu ao menos um pouco, me permitindo acalmar o meu coração o suficiente para, junto com o cansaço do sono e a exaustão do choro, me deixar rastejar para a inconsciência tão pesada e profunda que nem ao menos pensei em uma parte importante do que Eveline havia dito.
Que resposta estavam esperando de Rowena?
Acabei descobrindo na manhã seguinte.
Ninguém me acordou. Na verdade, a casa parecia estranhamente silenciosa. Apenas quando levantei da cama e saí do quarto, já vestida e pronta para o que quer que o dia me aguardava, foi que notei o motivo: já eram mais de dez horas, e, com isso, nem Etienne e nem Eveline estavam em casa. Nem mesmo meu pai. As criadas estavam na cozinha, começando a se preocupar com o almoço ou limpando algum cômodo da casa. Não havia coisa alguma para comer a minha espera, mas eu também não estava com fome.
Ergui meu queixo e respirei fundo para conseguir passar pela soleira da porta de casa e não sabia muito bem para onde ir. Talvez uma parte de mim quisesse seguir o dia como se nada houvesse acontecido, uma parte que queria se encontrar com as amigas na fonte da praça, como todas as ordinárias manhãs. Mas eu não sabia se elas estariam a minha espera, e, se não estivessem, seria doloroso esperar. Então, se não estivessem, iria falar com meu pai. Apenas para sentir que havia alguém no mundo que não me odiava.
Na rua, não encontrei ninguém particularmente conhecido. Mas mesmo assim, os olhares e os sussurros queimavam minhas costas. Tinha que me lembrar, constantemente, que era esse o objetivo. Ficar mal falada, ser a última pessoa a quem uma família iria querer se juntar, apesar das vantagens. Assim, os Pottier iriam naturalmente voltar suas atenções para Katriane. Fiz por eles, para salvá-los.
Ao chegar na praça meu coração falhou uma batida, e cheguei até a fechar os olhos, com medo do banco vazio. E então, quando os abri, me senti culpada até o último fio de cabelo. Pois eu e Kat éramos amigas desde que nascemos, e se eu seria capaz de botar fogo na aldeia para que o casamento dela fosse possível outra vez, ela seria capaz de me esperar.
— Belle! – Meu nome ficou entre um grito e um puxão de ar, enquanto ela subia a saia do vestido, acabando com a pouca distância entre nós, seus braços em volta de mim prontos para me partir em duas. Senti meus olhos lacrimejarem e só agora percebi o quanto precisava desse abraço. – Belle, o que você fez?!
— Eu disse que não permitiria meu casamento com Lenard. – Respondi lhe dando um último aperto e desfazendo o abraço em si, mas ainda segurando em seus braços, olhei em seu rosto.
— Sua maluca! – Ela chiou. – Não irei permitir isso, Belle, você se manchou totalmente, não vai ser capaz de arranjar casamento com ninguém! Falarei que foi minha culpa, que eu pus a ideia de arruinar tudo em sua cabeça, você não merece isso, Mabelle!
— Katriane, me ouça – segurei em seus braços com força e a olhei nos olhos, seus aflitos olhos castanhos. – Você não pôs ideia nenhuma em minha cabeça, eu propus, e eu levei até o fim. Não me importo de ficar manchada, escute, nesse mesmo momento os Pottier devem estar preparando um pedido de desculpas bem feito para seus pais, pedindo sua mão de volta. E com isso, Kat, eu posso ser feliz e manchada. Contanto que eu vá em seu casamento com Lenard.
Lágrimas escorreram do canto dos olhos da minha amiga, e ela me abraçou outra vez. Eu sabia que, uma parte dela, estava grandiosamente feliz. Era a parte apaixonada e egoísta. Mas minha amiga estava preocupada comigo, e era por isso que eu não me permitia estar.
Ficamos na fonte até o relógio bater onze horas, quando eu disse que tinha que ir. Não era mentira. Eu tinha que ver meu pai. Não perguntei onde Therese estava, mas mesmo assim ela disse: ajudando seus pais no boticário. Pelo que parecia, um ou outro haviam se queimado ontem, e agora precisavam dos remédios necessários. Não me permiti ficar culpada por isso, e enquanto Katriane ia para casa, ou para Lenard, eu fui até meu pai.
A joalheria estava quente pela fornalha nos fundos. Podia ouvir o barulho de metal batendo em metal e sabia que meu pai estava forjando alguma coisa. Era raro ele trabalhar nas forjas, o que me levava a pensar que ele estava precisando de algo para extravasar. De repente não estava mais tão ansiosa para vê-lo, mas aquele maldito sino me entregou.
— Belle? – A voz de meu pai veio dos fundos da loja, e nem tive tempo de pensar em me esconder. Seu rosto apareceu, suado pelo calor e esforço, e por um segundo temi que ele também me negasse. Um segundo aterrorizador em que meu pai ficou parado, olhando para mim, como se fosse um fantasma. Mas então seus braços fortes me puxaram e me levantaram do chão, me apertando com tanta força que me senti uma criança outra vez. – Belle! Graças a Deus, você está bem!
— Pai, eu... – Gostaria de dizer algo decente, gostaria de o pedir desculpas. Ele merecia minhas desculpas. Ele merecia a decência de me ver envergonhada pelo que fiz. Ele não merecia uma filha incendiária.
— Morri de preocupação, meu anjo – ele me colocou no chão e me analisou o rosto, seus dedos sujos trazendo fuligem para mim, mas não me importei. – Você poderia ter se machucado ontem, teve alguma queimadura, está bem?
— Estou bem, papai – respondi encarando seus olhos brilhantes. Eles estavam ali por mim, brilhando de preocupação tenra e paterna. – Não me machuquei, não se preocupe. – Mordendo os lábios, me lembrei do que Katriane disse. – Alguém se machucou?
— Não se preocupe, querida – ele beijou meu cabelo. – Um ou outro, nada muito grave. Também conseguimos apagar o fogo antes que acontecesse algum desastre. Mas, me diga – ergueu meu queixo e apenas agora percebi o quanto estava cansado. Eu também não devia estar com uma cara muito boa. – Fez aquilo para não se casar com Lenard, não é?
O meu silêncio respondeu para mim, e o suspiro de meu pai respondeu para ele. Ele caminhou até um pequeno sofá, onde acompanhantes ou clientes podiam se sentar, se quisessem. Mas agora quem se sentou foi ele, segurando em minhas mãos com força, os dedos as acariciando de leve.
— Meu bem, aconteceu uma coisa ontem, depois de termos arrumado toda a confusão... – Papai soltou o ar. – O Conselho se reuniu e tivemos que decidir qual seria sua punição.
Punição. Claro que teria alguma. O Conselho da aldeia era composto do representante — ou líder, ou patriarca, ou o que quer que chamem – das famílias ricas da aldeia. Quando algo grave acontecia, eles serviam como júri e carrasco. É claro que não acontecia algo grave a muito, muito tempo. Isso até, é claro, eu decidir por fogo na aldeia.
— Todos eles estavam bastante... perplexos com o que aconteceu. Sua mãe estava catatônica. Talvez fique feliz em saber que teve sucesso no seu plano, os Pottier decidiram romper com qualquer chance de noivado. Mas não foram apenas eles. Os Guillot também tiraram seu filho, Sorrel, do caminho. E, você sabe, não existem muitos homens das famílias do conselho na sua idade para casar.
Eu sabia. Eram três, na verdade. Lenard e Damien Pottier, e Sorrel Guillot. Existiam mais meninos, claro, mas todos os outros tinham a idade de Etienne. O que fazia meu estômago esfriar e relaxar na mesma proporção. Eu nunca quis me casar, de qualquer modo. Mas meu pai ainda não havia acabado.
— Houve a pauta de haver uma maior punição, mas eu intervim – continuou. – Disse que você era apenas uma criança, e que não repetiria. Todos eles conhecem você desde que nasceu, Mabelle, então concordaram em passar por cima desse infeliz episódio. Mas então sua mãe percebeu que não seria capaz de lhe casar com nenhum homem rico e, se você não terminasse casada com um homem simples, iria acabar solteirona. E sabe como isso é o fim do mundo para ela.
Eu sabia. O fato de Eveline tentar me casar com Lenard, que era algumas famílias mais baixa que a minha, se dava exclusivamente ao fato do comércio dele: o único mercado da aldeia. Era vantajoso. Mas se não fosse, ela tentaria me casar com quem quer que fosse mais perto de mim, de um modo financeiro. Ela me casaria com Nathanael se ele tivesse idade o suficiente, e aposto que odiou por ele não ter.
No geral, as famílias não eram preconceituosas sobre “se misturar” aos mais simples. Éramos poucos, os mais ricos, e chegaria um ponto que não sobraria mais nenhum. Mas Eveline era. Eveline preferiria se jogar de uma janela do que me ver levando uma vida sem joias ou luxo. Não por preocupação por mim, mas por vergonha dela.
— Ela tentou pedir reconsideração aos Pottier, e até aos Guillot, mas eles tinham tomado suas decisões – papai continuou. – Então, quando ela já estava a ponto de sentar e chorar, Mrs. Blanchard se pronunciou. Tinha ficado quieta até aquele momento, como geralmente fica, mas o que ela falou... bom, pegou todos de surpresa. – Papai respirou fundo e apertou minhas mãos. – Ela disse “bom, ninguém perguntou se meu neto a aceitaria como noiva”.
Achei que meus ouvidos haviam me pregado uma peça, mas minha mente se recusava a deixar de ecoar as últimas palavras de meu pai. Eu podia imaginar Rowena, provavelmente sentada na sala dos Foucher, o belo vestido vermelho de festa a destacando das outras mulheres, da sala, da aldeia. Podia ver seu sorriso gentil e ouvir sua voz suave ronronar: ninguém perguntou se meu neto a aceitaria como noiva. Seu neto. Aloys. Aloys Blanchard.
A parte masculina dos gêmeos Blanchard era o único homem da aldeia que restava, de uma família rica, para se casar. Mas nunca havia sido uma opção. Tanto pelas lendas, sussurros e histórias que o cercam desde antes de nascer, como por escolha dele. Porque além de nenhum pai ou mãe querer entregar sua filha para o neto de uma bruxa e filho do Lobo, Aloys sempre deixou claro que não era do seu interesse se casar. Ao menos, não com alguém da aldeia. Ele tinha dezessete anos, apenas dois anos a mais que eu, e nos quinze anos de minha vida podia contar nos dedos quantas vezes eu o vi. Não vinha na aldeia, não participava de pequenos eventos, não socializava, não falava. Ao menos, nunca comigo.
Pisquei meus olhos sem conseguir acreditar no que papai dizia. Ele não sabia, e pela expressão em seu rosto ele estava pronto para me consolar e dizer que era minha melhor opção. Papai não entendia, eu nunca havia contado para ele. Meu coração estava aos tropeços de tão rápido, mas não era por medo. Meus sentimentos de menina, que cresceram até eu virar uma moça, estavam escapando de mim. A esperança era contagiante, se infiltrava em cada membro do meu corpo e me fazia querer dançar e sorrir.
— Sua mãe negou no mesmo momento em que Mrs. Blanchard propôs seu neto. – Papai continuou sem esperar eu me recuperar totalmente. Talvez achasse que meu estado – parada, olhando fixamente para ele e sem respirar – fosse do choque. Eu estava apenas me concentrando para não correr pela floresta e beijar os pés de Rowena. – Então eu tive que a puxar em um canto e a lembrar que essa era sua melhor chance. Na verdade, a sua única chance. A lembrei que, apesar das bobagens que são ditas sobre o garoto, sempre me pareceu um rapaz educado e cortês, além de ser o herdeiro da administração da fortuna Blanchard, que é a maior da aldeia. Sua mãe se rasgou por dentro, mas concordou. Nos despedimos de Rowena com a promessa dela que conversaria com seu neto, e voltaria para nos dar uma resposta.
Se aquela bruxa trouxer uma resposta positiva...
Era isso. Essa era a resposta positiva que Eveline havia se referido. Rowena iria voltar trazendo a resposta de Aloys, se ele aceitaria ou não a minha mão. Papai havia acabado de falar e me encarava, esperando alguma resposta. Talvez que eu chorasse, ou que escondesse meu rosto nas minhas mãos. Mas tudo que eu queria era pular em seu pescoço e rir, e então ir correndo até Katriane. Ela não ficaria tão entusiasmada quanto eu, mas era necessário que eu contasse para alguém para não explodir.
— Papai – comecei. – Seria errado eu estar feliz? Até mesmo animada?
Ele piscou e franziu as sobrancelhas, confuso. Mas então sorriu e me puxou para um abraço, e eu pude sentir a tensão sair de seu corpo. Quando me soltou, me beijou os cabelos e disse:
— É o seu casamento, Belle, é natural que esteja animada e feliz. Não sabe o quanto temi que odiasse a notícia o tanto quanto odiou com o menino Pottier, pensei que estaria te tirando de um problema e colocando em outro, e já não tem mais tanta coisa para queimar. – Ele brincou me fazendo rir. – Eu lhe disse, o garoto Blanchard me parece excelente. As bobagens que dizem sobre ele são isso: bobagens. Além de que, se aceitar, será o homem mais sortudo dessa aldeia por lhe ter ao seu lado, querida.
Eu o abracei de novo, e agora eu já não escondia meu sorriso. Sim. Eu estava feliz. Eu nunca quis me casar, mas era porque nunca me interessei por ninguém dessa aldeia. O único garoto que já havia feito meu coração palpitar era tão distante e sem chances como o próprio rei da França. Mas lá estava eu, esperando uma resposta. A um sim de virar noiva de Aloys Blanchard. Sentia meu estômago se revirar de nervosismo enquanto o sorriso se recusava a deixar o meu rosto.
Quando saímos da loja, eu e ele, e fomos almoçar, percebemos os olhares sobre mim. Em uma aldeia tão pequena a notícia havia se espalhado rápido, e apesar dos olhares de pena sobre mim, como se eu estivesse entre a cruz e a espada, não me importei. Para mim, eu estava entre um sonho de criança e... Não queria pensar na outra ponta.
Não vi nem Etienne e nem Eveline no almoço, provavelmente estenderam sua estadia matutina na casa dos Foucher. Não me importei. E o almoço, batatas gratinadas, tinha gosto de esperança e promessas. Quando terminamos, papai voltou para a loja depois de me dar um beijo no rosto e eu teria ido procurar Katriane. Teria.
— Belle! Belle! – As vozes vinham do lado de fora da casa, e eu a reconheceria em qualquer lugar. – Ah! Olá, Mr. Bertrant, Mabelle está em casa?
— Pode entrar, senhorita Giraud. – A voz de papai era de quem estava de bom humor, muito diferente da forma tensa de quando o encontrei hoje de manhã. – Você também, senhorita Guillot. Ela está na sala.
Eu estava precisamente no meio da sala quando a porta foi aberta e Katriane se jogou em cima de mim. Parecia a beira de um ataque de histeria, do mesmo modo que estava quando eu a encontrei pela manhã. Tive questão de segundos para ver Therese, atrás dela, os olhos focados em mim, pareciam aliviados por me ver bem.
— É verdade, Belle? Oh, Deus, me diga que não é verdade! – Ela pediu enquanto me segurava e apertava. Ignorei a pontada em meu coração de decepção, mas eu sabia que essa seria sua reação. Porém conhecia minha amiga. Era apenas uma questão de redirecionar sua atenção.
— Se me soltar, Kat, talvez eu consiga respirar e te responder – respondi, vendo suas bochechas esquentarem. Lentamente Katriane me soltou e então eu as fiz subir para meu quarto. Me pareceu os velhos tempos, em que três garotinhas se encolhiam na mesma cama, contando histórias de terror e rindo umas das outras. Mas agora Katriane e Therese estavam sentadas em minha cama, e eu encostada na janela. Não caberíamos as três juntas nem se tentássemos, e se sim, duas com muito aperto.
Observei os olhos curiosos de Therese em contraste com os angustiados de Katriane e busquei coragem na minha felicidade infantil.
— É verdade, Kat – encolhi os ombros como quem não tem muita escolha, mas eu sequer queria ter. – Depois do que fiz, garanti que não apenas meu casamento com Lenard fosse cancelado, mas com qualquer outro rapaz rico, e provavelmente não rico, da aldeia também. Isso foi tão desesperador para Eveline que quando Mrs. Blanchard sugeriu seu neto, ela aceitou. Estamos esperando uma resposta.
— Oh, Belle – Therese piscou os olhos pesados, me colocando em primeiro plano. – Aloys Blanchard? Você está bem com isso?
— Eu espero que não esteja! – Katriane levantou batendo o pé. – Mabelle Bertrant, eu espero que você não esteja feliz em estar praticamente noiva do Filho do Lobo! Não se atreva!
— E qual o problema? – Ergui o queixo, encolhendo os ombros. – Não é nada mal estar conformada, e até mesmo feliz, com o casamento. E pare de chamá-lo assim, você não tem provas de que isso é verdade. Ninguém tem. É apenas uma velha história, uma bobagem!
— Bobagem?! Pode ser. Mas para o bem ou para o mal, é sempre melhor não arriscar! – Minha amiga passou as duas mãos no cabelo, respirando fundo para encontrar a paz de espírito que não possuía. – Belle, minha cara amiga Belle, me diga que ainda há algum juízo nessa sua cabeça. Não pode estar falando sério! Eu achei que essa sua paixonite de infância já teria passado a essa altura!
— E a sua por Lenard, passou?! – Retorqui começando a perder a paciência. – Você não o vê como eu vejo, Kat, não vê. Ele não é ruim. Eu sei que não.
— Não vejo? Até onde me lembro é um garoto alto, sombrio, com bizarros olhos violeta-cinza e um cabelo preto sem lugar! Acho que vejo tudo que você vê, e ainda melhor! Não consegue sentir, Mabelle? Tudo em volta dele me manda ir na direção oposta como se estivesse de frente para um predador! Aquelas unhas afiadas e dentes pontudos... – Ela estremeceu e eu virei o rosto, irritada e em silêncio.
Era verdade que, além dos olhos e do cabelo, os gêmeos Blanchard tinham uma aparência mais do que peculiar. Tinham unhas cumpridas e afiadas desde que me lembro, e nas raras vezes em que fui capaz de ver seus dentes, era notável como os caninos eram poderosos e afiados. Mas isso não queria dizer nada! Fiquei em silêncio e Katriane também, as duas provavelmente cheias de coisas para dizer, mas preferindo não transformar isso em uma briga maior. Graças a Deus, fomos salvas por Therese.
— É verdade que ele tem uma aparência bem exótica – começou. – E também é verdade que ninguém sabe o que é verdade ou mentira em relação a ele. Mas eu acho que o noivado já foi aprovado pelos pais da Belle, principalmente por Mr. Bertrant, que quer o melhor para ela. Então não há o que fazer sobre isso. E se não há o que fazer sobre isso, Kat, além de esperar uma resposta de Aloys, então deveríamos ficar feliz por Belle, não é? Afinal, tenho certeza que ela irá ficar muito feliz quando o seu noivado for oficialmente firmado.
As bochechas de Katriane se esquentaram e ela mesma virou o rosto. Mas, lentamente, caminhou em minha direção e me abraçou. Senti seu pedido de desculpas naquele abraço e transmiti o meu. Nós duas havíamos passado um pouco dos limites, e era por essa e outras razões que eu amava Therese. Ela sempre nos reconciliava.
— Perdão, Belle – Kat disse em voz alta, se sentando na cama com mais calma. – É apenas preocupação, entenda. Eu lhe amo muito e me mataria se algo acontecesse com você. Se ele for tudo que dizem e você estiver indo para o meio disso... Ah, Belle, se ele a machucar, arranco a pele e faço botas!
Tive de rir com isso, e até mesmo Therese riu. Quando me sentei na cama com elas, com Therese atrás de mim me trançando os cabelos e Katriane deitada com a cabeça em meu colo, tagarelando sobre a festa de seu casamento e querendo saber o que eu pensava para minha foi quando percebi o quanto estava completamente despreparada para isso.
Casar. Aloys ainda não havia dado a resposta, mas eu me sentia incapaz de segurar minha língua e imaginação. A esmagadora maioria das meninas da aldeia imaginam o dia do seu casamento desde que aprendem a desenhar ou a falar. Principalmente a de famílias ricas. Pois, no geral, era o único dia realmente seu na aldeia, e entre as famílias afortunadas, era possível que você fizesse como bem entendesse. Mas eu nunca havia querido me casar. Eu nunca havia dormido imaginando quais tipos de flores eu gostaria, ou feito desenhos de como meu vestido seria.
Então, a cada pergunta que Katriane fazia, eu me via vergonhosamente despreparada. Até mesmo Therese respondia e opinava enquanto eu ria e me sentia maravilhosamente afobada. Quanta coisa se tinha em um casamento? Eram tantos detalhes e minúcias que eu não seria capaz de resolver tudo sozinha, de pensar em tudo sozinha. Não contei para elas o que ouvi Eveline dizer, mas disse que ela não ajudaria em nada no casamento, e conhecendo-a, elas não fizeram perguntas antes de prometerem me ajudar no que eu precisasse.
Quase na hora do jantar, quando elas foram embora, eu voltei para meu quarto depois de me despedir. Eveline já havia voltado, mas não apareceu para cumprimentá-las, e Etienne devia estar brincando do lado de fora. Esperaria papai chegar para comer, e então dormiria. E poderia continuar dormindo até receber alguma resposta pois me sentia a ponto de explodir. Tudo que queria era que Mrs. Blanchard batesse na minha porta e me trouxesse uma resposta. Sentia a ansiedade me corromper enquanto meus nervos ficavam em frenesi. Implorei para ela se apressar em minhas orações.
Mas ela não veio naquele dia.
E nem no seguinte.
E nem mesmo no outro.
Hoje fazia cinco dias desde que toda a confusão aconteceu, e, nessa altura, eu me sentia mais desolada do que quando Therese descobriu que não existia pote de ouro no final dos arco-íris. Já não era segredo para ninguém da aldeia que eu estava esperando uma resposta de Aloys Blanchard, e isso fazia minha tristeza se misturar a vergonha de mim mesma. Havia sido uma tonta por ficar tão animada. Era claro que ele não iria aceitar, e só estava demorando todo esse tempo para arranjar uma boa maneira de dizer.
Então chegou uma tarde de outono. Era primeiro de outubro e agora não havia mais nada do verão. O tempo estava constantemente frio, o sol tímido e pálido. Chovia com frequência e com isso todos tiveram que voltar a usar botas por conta da lama. Botas quentes, principalmente à noite, quando qualquer pele exposta era razão para um resfriado. Luvas finas, chapéus e casacos haviam voltado a compor as roupas dos aldeões, assim como os vestidos de tecidos mais grossos para as moças.
Era início da manhã e apenas eu e meu pai estávamos em casa. Eveline já havia se desviado de mim na casa de meu tio, arrastando Etienne consigo. Papai tomava seu café enquanto eu cutucava o meu, miseravelmente sem fome, quando alguém bateu na porta. Apenas duas batidas, suaves, mas que fizeram meu estômago embrulhar. Era sempre assim. A cada vez que alguém batia na porta, ou eu ouvia cavalos se aproximando..., mas não era nada. Nunca era. Por isso nem eu e nem meu pai nos movemos enquanto uma empregada atravessava a sala e ia para a porta, a abrindo.
— Bom dia – a voz suave, cantada, me fez largar o garfo e meu pai se levantar em um pulo. – Mr. Bertrant se encontra em casa?
— Rowena! – Papai exclamou, quase tropeçando e direção a porta da frente. – Perdão, Mrs. Blanchard. – Se recompôs, abrindo um sorriso para ela. – A que devo a honra?
— Acho que espera uma resposta, Patrick – sua voz tinha graça. – Posso entrar?
— Será uma honra. – Ele liberou passagem e Mrs. Blanchard entrou na minha casa. Essa era uma cena que pensei que nunca veria. Nunca achei minha casa estranha, e nem mesmo diferente. Era apenas minha casa. Havia nascido e crescido nela. Mas Rowena contrastava de tal maneira com o lugar que parecia gritar que a casa era mundana demais para ela. Rowena, aliás, estava em um vestido roxo escuro, como vinho, justo e decotado. O cabelo negro estava solto, como de costume, e os olhos dourados brilhavam para meu pai e então para mim, quando sorriu.
— Mabelle, querida, está belíssima – eu não sabia se ela estava sendo gentil ou apenas mentindo, pois devia estar miserável. Mal havia conseguido dormir na noite passada, o que me fazia pálida e com olheiras. – E é ótimo que esteja aqui, pois envolve você, obviamente.
Papai pegou sua capa, uma belíssima capa negra, e pendurou enquanto a levava até o sofá da sala. Mrs. Blanchard flutuou até lá como se estivesse em uma dança, e se sentou com movimentos mínimos que faziam seu cabelo balançar.
— Aceita algo para beber? Estávamos acabando o café da manhã, aceita algo? – Papai ofereceu se sentando em sua poltrona, de frente a Rowena. Por um momento fiquei sem saber onde sentaria, mas ela mesma respondeu por mim, fazendo um movimento delicado de pulso, indicando para me sentar ao seu lado.
— Não, obrigada. – Mrs. Blanchard tinha cheiro de floresta, eu me lembrava. E ano após ano esse cheiro não mudava. – Posso dizer, Mabelle, que estou grandiosamente feliz em lhe dizer isso. Meu neto disse que será uma honra tê-la como esposa, se ainda estiver interessada, é claro.
A luz que vinha se apagando dentro de mim dia após dia se acendeu de uma só vez. Perdi o ar, o chão, o norte. Sentia como se um cavalo houvesse passado em cima de mim no mínimo três vezes. Me esqueci como se falava, mas meu pai também estava quieto e Rowena olhava para mim. Ela queria uma resposta minha. Se eu ainda estivesse interessada?
— Sim. – Respondi com a voz não mais que um sussurro. – Sim! Quero dizer, é claro, eu... eu... sim!
Eu me sentia uma criança e teria ganhado uma reprimenda de Eveline por isso. Não era direito uma dama demonstrar tanto entusiasmo, é bom se conter. Mas Rowena riu e passou a mão em meu rosto, em uma caricia gentil.
— Esplêndido, minha querida – sorriu. – Porque ele veio te ver.
— Ele está aqui?! – Me levantei da cadeira em um pulo, a voz aguda como a de uma criança, o que fez Rowena rir. Eu não sabia porque ela estava rindo. Eu estava apavorada.
— Chegará em um minuto, se acalme. Vim na frente para conversar com vocês, ele e a irmã não irão demorar.
— Aimeé também vem? – Papai perguntou, o que fez Mrs. Blanchard focar seus incríveis olhos dourados nele, a cabeça levemente tombada.
— Logo irá aprender, Patrick, que existem muitos poucos lugares onde verá meus netos separados. São gêmeos, e onde um vai o outro acompanha.
— Mas... Mrs. Blanchard... Eu nem mesmo estou vestida adequadamente!
— Tolice, querida – ela riu. – Vamos, está magnifica! Você é dona de uma beleza natural, Mabelle, não é necessário que se enfeite. Além do que, é apenas uma coisa natural. Creio que vocês ainda não foram apresentados, ele gostaria de conhecer a noiva.
— Ele? Foi... ideia dele? – Segurei as saias do meu vestido me perguntando porque estava tão nervosa para ouvir a resposta. Não era nada demais.
— Certamente. – Ela se levantou, levando as mãos aos meus ombros e me observando. – Não acho que precise de se arrumar, mas se é o que quer... – meu silêncio me entregou. – Vamos, eu lhe ajudo. Com licença, Patrick.
Então eu estava sendo gentilmente empurrada em direção ao meu quarto por Rowena Blanchard. Quando ela subiu as escadas e parou no corredor foi que acordei do estupor da situação e a guiei pela porta correta.
Meu quarto parecia ridiculamente pequeno e simples com a figura majestosa de Mrs. Blanchard nele. Mesmo assim ela me guiou até minha penteadeira e me fez sentar com graça, absolutamente a vontade com o espaço. Ela tirou as luvas que usava para proteger as mãos do frio da manhã, e a ponta de seus dedos finos encostaram em meu rosto, enquanto seus olhos dourados eram refletidos pelo espelho.
— Não dormiu bem, Mabelle? – Ela perguntou enquanto passava a escova com delicadeza pelo meu cabelo, me fazendo sentir as pálpebras pesarem. Mas lutei bravamente contra o sono e foquei em seus olhos.
— Não muito, Mrs. Blanchard.
— Por favor, me chame de Rowena – ela cantou. – Logo seremos uma família, não é mesmo?
— Sim, perdão, Mrs... Rowena. – Sorri para ela, que piscou um olho para mim. Mordi os lábios enquanto reunia coragem para soltar a pergunta que realmente me martelava a cabeça e pesava o coração. A fiz sem pensar muito, se o fizesse, iria desistir. – Acha que Aloys vai gostar de mim?
Rowena abriu um sorriso largo e bonito, que eu podia jurar que iluminou o quarto. Por um segundo, largou a escova, e se aproximou de mim. Quando me abraçou pude sentir seu cheiro ainda mais de perto, e o calor de sua pele. Seu rosto estava do lado do meu, e ela me olhava pelo espelho.
— Eu verdadeiramente acredito que meu neto irá descobrir que é o homem mais sortudo desse mundo.
Sorri para ela, sentindo meu coração ficar entre se acalmar e bater ainda mais rápido. Ela podia estar falando isso apenas para me agradar, mas Rowena nunca me pareceu alguém que fazia as coisas para agradar. Era autentica demais para isso, não se importava com a opinião alheia e fazia o que quisesse.
Não falamos mais depois disso, nem eu e nem ela. De certo modo não era preciso. Não havia o que falar naquele momento, enquanto uma semi estranha me penteava os cabelos, com dedos hábeis os trançando depois. Eveline nunca havia me penteado, isso não era coisa de uma dama. E mesmo se tivesse, podia crer que não seria assim. Ela não estaria cantando baixinho, me envolvendo em uma balada sem letra. Seus dedos não seriam tão carinhosos e nem seu sorriso tão amável. Me lembrei de meu pensamento de infância que uma vez confessei ao meu pai.
Gostaria que Mrs. Blanchard fosse minha mãe.
Quando ela terminou, meu cabelo estava trançado de modo simples, mas caprichado. A trança era longa e descia pelas minhas costas, me permitindo colocá-la em cima do ombro se quisesse. Algumas mechas pequenas caíam na frente do meu rosto, emoldurando naturalmente. Até mesmo as olheiras haviam clareado, graças a pequena sombra que as mechas faziam.
Não tive tempo de agradecer antes de ouvir a porta da frente se abrir depois de uma batida. Acabei levantando rápido demais e derrubando o pente da beirada da penteadeira, o que fez Rowena rir. Ela segurou em meus ombros e me fez sair em segurança do quarto, me colocando no corredor.
— Vovó? – Era a voz de uma garota. De Aimeé Blanchard. Minha cabeça rodava e mais uma vez me perguntei se aquilo era um sonho. Mas não era. As lendas da aldeia estavam na minha casa. Rowena havia me penteado o cabelo, e a parte feminina dos gêmeos Blanchard estava lá embaixo, junto com o meu noivo.
Noivo.
— Aqui em cima, querida. – Rowena respondeu e mal tinha acabado de falar quando sua neta apareceu na nossa frente. Se deu a liberdade de subir as escadas e agora estava a poucos centímetros de mim. Eu nunca a havia visto tão de perto e talvez estivesse com a boca aberta, mas não era impossível de se compreender.
Aimeé era alta, bem mais alta que eu e quase do tamanho de sua avó. O cabelo negro estava solto e o vestido era preto, simples, mas acho que nada ficava verdadeiramente simples nela. Os olhos faiscavam e a boca estava torcida em um sorriso afiado sem mostrar os dentes. Colocou uma mão na cintura e pude ver o pingente em seu pescoço alvo e fino, uma corrente com uma pedra trabalhada, preso na garganta como uma gargantilha. As unhas absurdamente compridas e afiadas eram negras e apertavam um pouco a si mesma enquanto ela me olhava de cima a baixo.
— Então, é a noiva de Aloys? – Não me lembro de alguma vez ter ouvido a voz dela. Era sensual e sutil, quase um ronronar. Parecida com a da avó. Mas a voz de Rowena era suave, transmitia calma. A voz de Aimeé tinha um perigo eminente, quase mortal.
— Sim, querida. – Rowena respondeu, ainda atrás de mim. – E agora ela irá vê-lo, se der licença.
Aimeé não respondeu, apenas me deu passagem. Seu sorriso era praticamente capaz de me cortar em duas enquanto sua avó me guiava para as escadas e, então, me soltava, confiando que eu não iria cair. Quase a puxei de novo, eu não confiava em mim. Mas ela já não estava ao meu alcance, indo para o lado de sua neta e descendo atrás de mim. Quando cheguei na sala tinha certeza que as batidas do meu coração mais pareciam as gotas de uma tempestade violenta contra um telhado barulhento. Mas, em minha defesa, eu não tinha qualquer culpa.
Aloys Blanchard estava na minha frente.
Estava de preto, como a irmã. A blusa de gola larga mostrava sua clavícula e as calças estavam desbotadas e levemente rasgadas. Tinha as mãos para trás das costas e um sorriso de canto de boca, mas não era tão afiado como o de Aimeé. O cabelo negro também estava bagunçado e os olhos brilhavam, focados em mim. Era alto, do tamanho de meu pai, e tinha apenas dezessete anos. Agora, de perto, pude ver que também carregava um colar no pescoço, com a corrente do mesmo material que o da irmã, mas seu pingente estava escondido sob a blusa. A blusa de manga comprida não podia esconder os braços bem formados e isso me fez corar por algum motivo que não entendi.
— Vovó, acho que voltarei depois – ele disse olhando para trás de mim, e então nos meus olhos. Senti seu violeta me prender enquanto o cinza me dizia para andar para trás. Sua voz se arrastava, rouca como quem não tem costume de falar. Assim como os olhos, tinham o mesmo perigo que o da irmã, porém escondido. – Não me sinto vestido apropriadamente para ficar de frente com minha noiva tão bem vestida.
Me senti corar e quis me bater. Era provavelmente por isso que Rowena disse que eu não precisava me arrumar, pois seus netos não haviam se arrumado. Me senti uma tonta, mas ele ainda me olhava, a espera de alguma reação – ou provável, uma prova de que não era muda -, então tive que me obrigar a lembrar como se falava.
— Não diga uma coisa dessas – respondi. – Você está muito bem.
— Eu vou vomitar. – Aimeé resmungou atrás de mim, mas ouvi uma risada baixa de Rowena.
— Aimeé – ela repreendeu a neta. – Patrick, você não teria um lugar onde os dois poderiam ficar sozinhos? Acredito que ficarão bem mais a vontade sem uma plateia.
— Eu vou ficar mais à feliz sem ter vontade vomitar, vovó, obrigada – a garota rebateu de novo, o que fez meu noivo olhar para ela.
— Você não tinha nem que estar aqui. – Aloys retrucou. A boca de Aimeé se abriu, mas Rowena segurou em seus ombros e ela se fechou outra vez, os olhos faiscando.
— Temos uma sala de música nos fundos. – Meu pai respondeu. – Acho que serviria, certo?
— Excelente. – Aloys respondeu, ignorando os olhos da irmã e voltando a atenção para mim. Não me sentia capaz de ordenar meu corpo com aqueles olhos em mim, mas tinha que tentar. Ele deu um passo em minha direção e ofereceu o braço. – Vamos?
— Sim – respondi, aceitando e rezando para não estar tão vermelha quanto achava que estava. – É por aqui.
Deixamos papai, Rowena e Aimeé para trás. Ainda consegui ouvir a última soltar algum comentário mordaz, e ser gentilmente repreendida pela avó. Mas não tinha tempo de pensar em seu sorriso afiado e palavras espertas. Tinha Aloys ao meu lado e isso merecia toda minha atenção.
A sala de música era simples e praticamente abandonada. Eu nunca havia aprendido a tocar absolutamente nada, uma vez que Eveline achava que as mulheres que tocavam eram prostitutas. Meu pai apenas não sabia tocar além de algumas notas estranhas no piano, e Etienne não se interessava. Mesmo assim, era limpa quando necessário e pronta para uso, mesmo que infelizmente deixada de lado.
Também não havia muitos instrumentos. Um belo piano de calda reinava na sala, e ao redor, algumas partituras e instrumentos de sopro e cordas, como clarinetes e violinos. Aloys caminhou diretamente para o piano, me levando junto com ele, e se sentou. O banco não era grande, de modo que estávamos próximos, nossos braços se encostando. Sua pele era quente, quase febril, mas ele não aparentava estar doente. Na verdade, ainda tinha o sorriso de canto e o rosto meio virado para mim.
— Sabe tocar, Mabelle? – Ele perguntou levando os dedos até as teclas. Seus dedos eram tão longos e finos quanto os de sua irmã e de sua avó, e suas unhas eram tão longas e afiadas como as de Aimeé, igualmente pretas.
— Não, infelizmente – respondi observando seus dedos nas teclas, sem pensar muito, apenas dedilhando uma melodia distraída e distinta. – Não aprendi. Eveline não aprovava.
— Que lástima. – Aloys murmurou. – Sua mãe é uma pessoa desgostosa com a vida. Mas me diga, gostaria de aprender?
— Não acho que conseguiria – encolhi os ombros.
— Não perguntei se acha que conseguiria, perguntei se gostaria de aprender. – Ele retrucou, a mão ainda dedilhando o piano e os olhos fixos em mim. Engoli em seco.
— Seria bom, eu acho – mordi os lábios. – Acho piano uma coisa belíssima.
— E o que mais acha belíssimo, Mabelle?
— Livros. – Respondi sem pensar. – E o verão. Eu adoro o verão. Acho a melhor estação do ano. O sol, o calor, o jeito como tudo ganha vida..., mas também gosto de chuva. De tempestades, para ser mais exata. O barulho e a força dos ventos, as vezes parece que são capazes de arrancar árvores das suas raízes. Eu... oh, desculpe. – Respirei fundo. – Tagarelei.
— Tagarele o quanto quiser – ele respondeu, o sorriso se abrindo um pouco mais. – Acredite no que digo, Mabelle, eu quero me casar com alguém que eu conheça. Então não se acanhe de falar. Existem palavras para isso, não é mesmo?
— Eveline diz que uma boa mulher não fala. – Não sabia porque disse isso, e provavelmente havia sido porque estava gravado dentro de mim. Os ridículos ensinamentos de minha mãe, gravados em mim, eu não devia segui-los? Aloys parou de tocar e sua mão foi para minha trança, passando a ponta de suas unhas pelo seu cumprimento. Seus olhos me prenderam e pareceu que falava com algo dentro de mim quando disse:
— Esqueça o que Eveline lhe ensinou, Mabelle – ele tinha cílios negros e bem feitos, e sobrancelhas escuras. – Não irá precisar de nada que venha dela. Saiba que eu adoro ler, é um habito adquirido pela minha avó. Ela é uma leitora ávida e passou isso para mim e minha irmã. Gosto de todas as estações, em geral. Não vejo problema particular com nenhuma. Mas escolheria o inverno. Há certa beleza no modo que a neve cai. Tempestades são realmente fascinantes, e o vento é poderoso, mas eu prefiro ver algo pegar fogo.
O jeito que me disse isso, seu sorriso, fez uma lembrança se acender no fundo do meu consciente. Olhos violeta-cinza me olhando da orla da floresta, me dando coragem, me exigindo coragem. Pisquei os olhos, puxando o ar para dentro dos pulmões.
— Você...
— Foi coragem sua. – Aloys me cortou. – Fazer o que fez pela sua amiga. Eu lhe admiro por isso. Você tem coragem e força, Mabelle. Mais do que imagina. Eu admiro isso.
— Perdi minha coragem, senhor Blanchard – respondi sentindo minhas bochechas corarem. Mas ele sorriu ao se levantar do banco, e eu me senti subitamente solitária e fria sem seu calor por perto. Mas não se afastou muito, logo estava atrás de mim.
— Peço que me chame de Aloys – ele disse, e eu pude sentir seu hálito quente em minha orelha. – Somos noivos, mas tenho de fazer isso do jeito certo. – Ele me virou para ele, me fazendo levantar, e se ajoelhou. Meu coração foi parar na minha garganta enquanto observava Aloys Blanchard ajoelhado na minha frente. Ele ficava da metade do meu tamanho e seus olhos reluziam. – Mabelle Bertrant, você me concede a honra de se tornar a minha mulher?
Que resposta ele estaria esperando? Então eu percebi. Não era questão da resposta, era a pergunta. Diferente de Katriane, e de Fantina, e de Salene, todos elas foram autorizadas a se casar, e nenhuma foi propriamente perguntada se concordava com isso. Ele estava. Aloys queria ouvir uma resposta minha. Queria saber o que eu achava, o que eu queria. Mesmo ilusório, me dava o poder de escolha e de decisão em minha vida. Sorri para ele.
— Sim, eu lhe dou essa honra – sorri comigo, e com ele, que parecia a ponto de rir. Mas eu também estava quase rindo. Era inacreditável demais, era irreal demais. Eu não conseguia parar de sorrir, e pelo jeito que ele me olhava, eu não queria parar.
— Não é bem uma aliança – ele disse colocando a mão dentro do bolso da calça. – É mais um presente, ou nem isso, pois já era seu, mas gostaria que usasse. – Vi o tecido vermelho brilhar em sua mão e sorri enquanto ele se levantava e amarrava na ponta de minha trança. – Vermelho fica maravilho em você, Mabelle.
Minha fita estava de volta ao meu cabelo, exposta para quem quisesse ver, e eu não tiraria. Nunca. Era minha coragem. E era um presente. Um presente de Aloys. Meu noivo.
— Belle – respondi, olhando em seus olhos. – Me chame de Belle.
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