Lua da Meia Noite

8 Sob a Escuridão da Lua


Notas iniciais
OIE OIE ♥ GENTE LÊ ISSO AQUI, LÊ. ISSO. A-AQUI! NÃO DESCE, É PRA LER! TÃO LENDO? DESCERAM NÃO? Lindos :3 ADIVINHE O QUE CHEGOU NA PAGINA 100?! ISSO! LMN, LUA DA MEIA NOITE! CHEGOU NA SUA CENTESIMA PAGINA ♥ AINDA NO CAPITULO OITO GENTE! ISSO AQUI VAI SER ENORME ♥ E não apenas isso, gente, também ATINGIMOS DUAS MARCAS, YAY! Mais de 60 comentários e mais de 40 acompanhamentos, CARALHO EU PODIA BEIJAR VOCÊS ♥ VOCÊS SÃO FODAS ♥ Obrigada a Rezenae (Duda ♥), Laix (Lays ♥), felicitysmok, Prinmononoke, Yoonmin, Astrid Batata, RFCT Black, Bluet, Salayne (Docemargo ♥), Junim (Amor ♥), Cat (Isa ♥), Izzy e InsaneDesire (Kath ♥) pelos comentarios lindos, diwos, maravilhosos e perfeitos ♥ O cap é inteirinho pra vocês, amores ♥ Sem mais delongas, aproveitem ♥

Rowena estava com Etienne em seu colo, o ninando e surrando em seu ouvido, fazendo meu irmão se acalmar. O pobrezinho realmente estava pálido e chegava a tremer antes de ir para os braços dela, agora, começa a se acalmar sob os cuidados de vovó e o olhar vigilante de meu pai. Aimeé estava, surpreendentemente, ao meu lado. Segurava um copo d’água que eu não sabia quando havia pego e estendeu para mim. Era estranho seu sorriso não estar tão afiado e nem seus olhos tão ferozes, eram quase preocupados.

Estava sentada ao meu lado enquanto seu irmão estava no outro, ainda com os braços em volta de mim. Eu me sentia pateticamente vazia e apática depois de meu sangue começar a esfriar, enquanto me lembrava das palavras duras que havia dito para minha mãe. Nunca achei que seria capaz de dizer coisas assim, apesar de morrer de vontade por mais de uma vez ao longo da minha vida. Nunca pensei que algum dia iria devolver todo o veneno e negação que havia absorvido dela nos meus quinze anos de vida. E então eu fiz, e não estava exatamente dançando.

— Belle – Aloys acariciou meu braço, puxando minha atenção para ele. Encontrei seus olhos, tão violeta, tão cinza, tão concentrados e preocupados. – Vamos, beba uma água.

— Eu estou bem – murmurei, e acho que eu mesma queria acreditar nisso. Mas Aimeé já havia colocado a mão no meu queixo, puxando minha atenção para ela, e encostando o copo nos meus lábios, o virando suavemente. Seu toque, para meu completo espanto, era delicado, sem nenhuma brusquidão ou mira certeira como suas palavras. Não tive outra opção a não ser beber.

— Bem fico eu depois de enfiar a cabeça do Aloys no chiqueiro, você está uma catástrofe – ela rebateu, soltando o copo à medida que eu fui tomando e o segurando eu mesma.

— Aimeé— meu noivo repreendeu a irmã, que encolheu os ombros.

— O que? Ela está. – Suspirou. – Mas não se preocupe. Ajuda saber que ela mereceu cada palavra?

— Por mais que merecesse, tonta – Aloys segurou o copo para mim quando viu que eu terminei. Agradeci por ele ter percebido, pois eu mesma não o fiz. – Ainda era a mãe dela.

— Aimeé, querida – Rowena chamou a atenção da neta, que a olhou com uma sobrancelha arqueada. – Porque não leva Belle lá para cima? Tenho certeza que uma água no rosto irá lhe cair bem.

Mais um evento surpreendente: Aimeé aceitou sem contestar. Se levantou e me puxou com ela, me livrando dos braços de seu irmão. Aloys me deu um último olhar solidário antes dela enganchar meu braço e me guiar escada acima. De modo suave, ela me levou até o banheiro. O gomil estava cheio e ela o segurou para eu poder molhar minhas mãos e logo mais meu rosto. Repeti o processo mais três vezes antes de soltar o ar e olhar os olhos profundos de Aimeé.

Ela ainda segurava o gomil, apesar da bacia estar praticamente cheia, e observava o meu rosto com atenção. O cabelo negro emoldurava seu rosto fino e os lábios estavam torcidos em um sorriso pequeno e não afiado. Franzi as sobrancelhas enquanto pegava uma toalha e enxugava meu rosto, não me impedindo de falar.

— O que foi? – Perguntei, franzindo as sobrancelhas. Como se tivesse sido acordada de algum transe, os olhos dela se focaram em mim e o sorriso se tornou afiado outra vez. De repente, preferi que fosse o outro, mais gentil, mais... humano.

— Meus parabéns – ela respondeu. – Sabe, o que fez lá embaixo, tem que ter coragem, sabia? Muita coragem. E sabemos que não fez apenas para nos proteger da boca maldita de sua mãe, mas mesmo assim, foi de dar orgulho. Continue assim, Bebelle, e logo estará pronta para andar com nós, os párias da aldeia.

Não pude deixar de sorrir enquanto deixava a toalha de lado e endireitava meu corpo.

— Certo, com isso você poderia, por favor, para de me chamar assim?

— Obvio que não – Aimeé esvaziou a bacia e recolou o gomil nela, jogando o cabelo por cima do ombro ao enganchar meu braço outra vez. – Pode merecer um certo respeito agora, mas continua uma pirralha, Bebelle.

Consegui rir com isso. A pele de Aimeé era tão febril quanto a do seu irmão, e ela muito menos parecia doente. Olhando-a enquanto voltávamos para a sala cheguei à conclusão que Aimeé não era má. Tinha um sorriso cortante, os olhos perigosos, a língua certeira e dolorosa como um chicote. Mas não era má. Era capaz de guardar sua língua – em partes -, quando o momento pedia, e não hesitou em me ajudar. Ela me lembrava Katriane, em partes, e pensei se algum dia seria tão amiga dela quanto era de Kat.

— Trate-o bem, Mabelle – sua voz era quase um sussurro, e ela não me olhava, momentos antes de chegarmos ao pé da escada. – Meu irmão. Ele lhe dará tudo que tem, de corpo e alma, não tenha medo disso, não tenha medo dele. Prometa-me que não terá medo, Bebelle.

Eu não pude responder. Levei segundos demais para me recuperar do impacto de suas palavras e então Aloys já estava na minha frente. Olhava com olhos estreitos para irmã enquanto entendia a mão para mim. Não hesitei em a pegar da mesma forma que Aimeé não hesitou em me largar, afiando o sorriso ao ver o irmão.

— O que falou de mim, fedelha? – Aloys soltou para irmã. – Seja o que for que ela disse, Belle, não acredite. Ela é uma mentirosa.

— Que calúnia, quadrúpede. – Aimeé retrucou. – E o que falo com minha cunhada não é do seu interesse.

— E quando foi que começaram a terem assuntos, posso saber?

— Ora, Aloys, mulheres tem de se unir, não é o que vovó sempre diz? – Aimeé sorriu. – Você concorda comigo, não é mesmo, Bebelle?

— Claro. – Respondi, vendo o sorriso de Aimeé aumentar a boca de meu noivo de abrir. Ela deu um peteleco na têmpora dele, recompensando com outro em sua nuca (Aimeé tentou fugir), mas logo a atenção dele estava em mim.

— Estou perdido, não estou? Se você se juntar a ela é meu fim. – Ele murmurou, me fazendo rir. Aloys segurava em minha mão, a sua era muito maior que a minha, e seus dedos esquentavam o espaço entre os meus. Segurava de modo firme, o polegar ganhando vida e acariciando o dorso da mão, hora ou outra. – Veja, já é suficientemente ruim ela e vovó.

— Rowena não é imparcial? – Arqueei uma sobrancelha.

— Na maioria das vezes, mas mesmo assim. – Bufou. A forma como fez isso me fez ter vontade de encostar em seu rosto, e foi o que fiz. Não sei o que me deu, mas terminei de quebrar os protocolos e encostei em meu noivo em um contato mais direto do que o braço ou até mesmo a mão. A pele dele era macia e o rosto liso me fazia crer que havia feito a barba recentemente, talvez, até mesmo para me ver? Os olhos dele brilhavam para mim e seu sorriso derreteu meu coração.

Ele lhe dará tudo que tem, de corpo e alma...

Eu podia ver isso. Deus, eu poderia tocar se quisesse. O jeito que seus olhos brilhavam para mim, o jeito que sorria... se dependesse do exemplo que tive em casa para me basear como alguém deveria agir quando gostava de outra pessoa, eu morreria sem saber. Mas eu poderia ver, era notável. Aloys olhava para mim da mesma forma que meu pai olhava Rowena.

Seu rosto se inclinou, os olhos ainda prendendo os meus, enquanto a ponta de meus dedos deslizava pela sua bochecha, chegando até seus lábios. Eram finos e pálidos, mas quentes. Com lentidão, ele abriu a boca apenas o bastante para a ponta do meu indicador entrar, e pude ver seus caninos lupinos quando me tascou uma pequena mordida.

A dor rápida me fez recuar o dedo, mas não a mão. Me sentia incapaz de o fazer. A mordida havia sido mínima, não mais que um encostar na minha pele. Mas seu dente era tão afiado que me furou o dedo. A gota do meu sangue tingiu seu lábio de vermelho, e o cinza de seus olhos me pareceu mais forte, mais perigoso, mais intenso, mais selvagem.

...não tenha medo disso, não tenha medo dele.

Seu toque em minha mão foi suave, e a sua mão cobriu a minha enquanto ele levava meu dedo de novo aos seus lábios. Mas não o mordeu, dessa vez, apenas o encostou, como um beijo, e eu senti-o quente, quase arder. Aloys não tirou os olhos dos meus nem por um segundo, nem mesmo quando olhei para meu dedo, antes furado e sangrando, e agora imaculado.

O sorriso que me deu quando o olhei era secreto, como se tivesse acabado de me contar um segredo travesso. E não tinha? Olhei no fundo de seus olhos e observei sua expectativa, seu receio. O que ele temia? Minha reação, talvez? Mas ao que eu reagiria, exatamente? Parte de mim sabia, mas a outra ria dessa certeza. Eram histórias, eram bobagens, eram lendas.

Mas toda lenda não tem um pouco de verdade?

— Belle! – Etienne gritou meu nome e vinha da sala de jantar. Fui arrastada para fora do mundo particular criado entre nós e pisquei. Aloys ainda sorria, meu dedo estava curado, mas agora ele me pegava pela cintura, beijando meu rosto, e me guiando para meu irmão. Depois da intensidade do momento passado, a cena que me deparei foi um alivio mais do que bem-vindo para meus nervos.

Etienne segurava o garfo como se fosse uma espada, e Aimeé uma colher como um escudo. Ele estava no colo de vovó, ainda sentado, mas a cor havia voltado ao seu rosto e o brilho da infância aos seus olhos, de onde nunca deviam sair, não por agora. Ele falhava miseravelmente em tentar se manter sério para a batalha eminente, pois o sorriso escapava toda hora. A sua frente, um prato de crepes pela metade, aparentemente esquecido na luta.

— Ele não sai do colo da vovó, Aloys, é o nosso colo! – Aimeé parecia verdadeiramente ultrajada e prestes a pegar meu irmão pela gola da camisa para o tirar de perto de Rowena. A mesma, por outro lado, apenas mantinha Etienne habilmente seguro em seu colo, com o sorriso nos lábios e os olhos brilhando, enquanto mantinha o olhar atento na neta, pronta para a parar se realmente fizesse algo.

Meu noivo olhou a cena e franziu o cenho para meu irmão, seu braço soltando de minha cintura e indo para o lado da irmã.

— Saia daí pirralho – mandou, ficando de tão mal humor quanto Aimeé. De formo orgulhosa como aprendeu com Eveline, Etienne levantou o queixo e estreitou os olhos.

— Me obriguem – retrucou. – Já estão muito velhos para ficarem no colo, agora ele é meu.

— Que audácia! – Aimeé bateu o pé, tirando uma faca não sei de onde e estendendo para Aloys. – Irmão, pegue sua arma, as coisas vão ficar feias.

— Espero que não esteja pensando em atacar o meu irmão – interrompi a preparação para a guerra, ficando ao lado de Etienne. Os gêmeos olharam para mim – mal-humorados. E então para Etienne – raivosos. Por fim, para a avó – indignados.

— Vovó! – Reclamaram, fazendo Rowena soltar uma risada. Ela passou a mão pelo cabelo de Etienne, lhe beijando como uma mãe faria, e então o colocou no colo de meu pai, que estava bem ao seu lado, os olhos brilhando ao observar a cena. Meu irmão cruzou os braços para ela, que apenas soltou mais uma risada ao passar o dedo na ponta de seu nariz.

— Me perdoe, querido, mas meus netos são extremamente ciumentos comigo. Não me perdoaria se eles tivessem um acesso de raiva, mesmo que por um motivo tão bobo.

— Mas eles não têm mais idade para isso... – Ele murmurou.

— E o que você tem a ver com isso, palhaço? – Aimeé rebateu, recebendo um encontrão de ombro de Aloys para calar a boca. Ela o fez, mesmo que tenha devolvido a pancada com um chute em sua canela.

— Crianças – Rowena interrompeu Aloys, que estava a um segundo de puxar o cabelo da irmã, fazendo ele se ajeitar e Aimeé sair da posição de defesa. Nenhum dos dois deram as costas para o outro enquanto se sentavam na mesa, lado a lado. – E acredito, Etienne, que ninguém fica velho demais para receber mimos e afagos, principalmente da avó.

— E da mãe? – Etienne perguntou, os olhos castanhos focados nos de Rowena. Ela arqueou uma sobrancelha e ignorou completamente meu pai, que se mexeu o bastante para mostrar que talvez, apenas talvez, estivesse próximo da morte.

— Muito menos da mãe, meu bem.

Foi o bastante para Etienne se virar, decido, para meu pai. Quando sua face ficava séria dessa forma era fácil imaginá-lo um homem adulto, Mr. Etienne Bertrant, cuidando de todos os negócios da família depois de papai. Mas por enquanto, ele tinha apenas dez anos, e era adorável. Tão adorável quanto papai, branco como um morto, olhando dele para a vovó.

— Papai, quero que Mrs. Blanchard seja minha mãe. Gosto mais dela. A mamãe é fria e ruim. Ela não gosta da Mabelle, ela fala coisas ruins dela. E fala coisas ruins de Nathanael, e de tia Deuphine, e de você, e de todo mundo. Mamãe é má, e todo mundo diz isso. – Pronto, meu pai havia morrido.

Etienne o olhava, esperando uma resposta, como se mudar de mãe fosse assim tão fácil. Rowena também o olhava, os olhos brilhando de uma curiosidade quase cruel, querendo saber qual seria sua resposta ou saída. Os gêmeos o olhavam, Aimeé se controlando para rir, os olhos um pouco mais cruéis que sua avó, e Aloys com uma curiosidade cômica, como alguém que espera o fim de uma piada. Eu esperava uma resposta dele. Não era segredo para ninguém que ele não amava Eveline, na verdade, que ele a detestava. Também não era segredo para ninguém que seus joelhos faltavam ceder toda vez que Rowena estava no mesmo lugar que ele. Se fosse assim tão fácil...

— Filho, as coisas não são assim... – Papai começou preferindo se dirigir ao meu irmão, apenas. – Sua mãe gosta de você, tenho certeza.

— Ela gosta de mim como gosta quando tio Masson diz que os lucros aumentaram. – Meu irmão rebateu. – Mamãe vive dizendo que eu sou melhor, que eu tenho que ganhar, que eu tenho que me destacar, porque sou um Foucher Bertrant... ela nunca parece gostar de mim, só do que eu represento.

Eu não sabia disso. Deus, eu não tinha ideia que meu irmão se sentia assim. Desde que nasceu, sempre o considerei o escolhido de minha mãe. O que ela tinha pego para criar e tratar humanamente. Nunca pensei que Etienne se sentisse tão usado, tão exposto, tão fútil. Ele era apenas uma criança, afinal. Mas quão boba eu era? Havia me esquecido de uns dos principais ensinamentos em Melenuit: a inocência nunca dura.

— Mamãe grita, papai – ele continuou. – Diz palavras feias. Ela nunca me pegaria no colo como Mrs. Blanchard fez, e nem me deixaria comer nele, ou me faria carinho. Por favor, papai, você não pode casar com Mrs. Blanchard?

Meu pai estava em silêncio. O rosto lívido. Tinha certeza que estava amaldiçoando o dia em que se casou com Eveline Foucher, a mãe dos seus filhos. Uma desastrosa mãe para seus filhos. Ele pegou Etienne nos braços e o abraçou com força, beijando seu cabelo quantas vezes fosse preciso, como um pedido de desculpas por ter deixado aquela mulher tão próxima de seus filhos.

— Papai vai cuidar disso, rapaz – ele respondeu, soltando-o um pouco. – Juro que vou.

Sua voz soou trêmula no início, mas logo se tornou firme. Aimeé sorriu para ele e Aloys relaxou na cadeira. Podia jurar que até mesmo Rowena sorriu com mais força, os olhos brilhando. Mas o mais feliz e entusiasmado, foi meu irmão. Ele soltou uma risada e pulou de alegria, virando o rosto para Rowena, os olhos castanhos brilhantes.

— Até lá posso chamar Mrs. Blanchard de mamãe? – Perguntou, eufórico. Rowena riu, se inclinando outra vez para ele e beijando-lhe a testa.

— Claro que pode, meu bem.

— Eu só não tenho que chamar ele de vovô, não é? – Aimeé perguntou, fazendo Rowena a olhar. Tinha um sorriso no rosto, apesar dos olhos estreitos.

— Queridos, porque não vão passear com Mabelle? Ela ficou a manhã inteira dentro de casa, tenho certeza que gostaria de um ar. E vocês também.

— Definitivamente – Aloys se levantou, ao mesmo tempo que a irmã, e me estendeu a mão, que eu segurei sem hesitar. – Não precisa de ajuda, vovó?

— Não, querido, pode ir.

— Tem certeza, vovó? – Foi a vez de Aimeé, colocando a cadeira de volta para o lugar, olhando de forma ansiosa para a porta, obviamente esperando uma resposta negativa.

— Absoluta, querida. Vão.

Eles foram. E me levaram. Aloys me segurava pela cintura, próxima a ele, de um modo que um marido seguraria sua mulher na intimidade de um quarto. Mas não estávamos no quarto. Estávamos no meio da rua, e ele não dava a mínima. Isso me fez sorrir. Me fez sorrir com a forma com que ele me segurava, com a forma que ele me assumia. Pois era isso que eu sentia fazer. Não era uma exibição tola e ridícula. Era apenas uma demonstração. De que eu estava com ele. De que ele estava comigo. De que nós estávamos juntos.

— Você acha que Patrick vai finalmente tomar alguma atitude? – Aimeé perguntou, do meu outro lado, o braço enganchado em mim. As pessoas paravam na rua para nós ver passar. Os gêmeos Blanchard. Eu. Os gêmeos Blanchard comigo, a menina Bertrant. Katriane iria gritar quando soubesse, e eu podia apostar que não demoraria muito.

— Espero que sim. – Aloys respondeu. – Tenho que tomar cuidado para não escorregar na baba que ele deixa atrás da vovó desde que nasci.

— É do meu pai que estão falando, sabia?

— Sabemos – responderam ao mesmo tempo. – Assim como sabemos que seu pai é perdidamente apaixonado por nossa avó.

— Na verdade, eu acho que todo mundo sabe. – Aloys encolheu os ombros.

— Deve fazer parte do conhecimento geral daqui: acredite na lenda, cuidado com o Lobo, não entre na floresta, Patrick Bertrant é apaixonado por Rowena Blanchard. – Aimeé completou.

Soltei uma risada com isso e cabeças se inclinaram em nossa direção, desesperados para ouvir o assunto e espalhar por aí. Os gêmeos, de forma que ainda não decidi ter pena ou não, estavam acostumados com a atenção e não se dignavam nem a olhar para o lado. Já eu não estava. Certo que fui o foco de olhares depois de minha façanha na festa, mas até mesmo isso havia passado. Deixaram de me olhar por incendiar a aldeia e passaram a fofocar sobre minha proposta de noivado, e não precisavam olhar para mim para isso.

Então agora eu não podia evitar olhar uma ou duas vezes para os rostos em choque, sem saber se corriam de volta para suas casas ou continuavam a vida. Crianças paravam suas brincadeiras e as mais novas corriam para o colo de seus pais, implorando para não serem levados pelos Filhos do Lobo. De forma quase patética, alguns adultos olhavam para cima, checando o céu para ver se a lua ainda estava escondida.

Não sabia para onde eles estavam me levando – porque afinal não havia tantos lugares para se ir em Melenuit -, até que chegamos a taberna. Era um lugar espaçoso, mas que sempre aparentava estar com falta de espaço. Isso talvez fosse consequência das mesas muito próximas e da fogueira acesa que deixava o ambiente confortável apenas a noite – agora, durante o dia, era dispensável. Havia alguns homens sentados e bebendo, e duas serventes patrulhando as mesas. Poderia contar quantas vezes havia pisado naquele lugar, a grande maioria acompanhada de papai, mas os gêmeos não pareceriam nem um pouco intimidados ao entrar no ambiente alcoólico e perverso.

Me xingando, lembrei que eles já tinham dezessete e diferente de mim, muito provavelmente, haviam bebido mais do que alguns goles de um vinho roubado uma vez na vida.

A reação do interior da taberna foi a mesma que a do lado de fora, porém, amplificado pelo ambiente fechado. As serventes pararam de andar as bebidas ficaram presas nas gargantas dos homens. Mais uma vez, meus acompanhantes demonstraram uma destreza absurda ao ignorar o impacto que causavam e se sentarem junto a mim em uma mesa afastada.

— Vocês não se sentem incomodados? – Perguntei apoiando meu corpo no de Aloys, sentado ao meu lado. Aimeé balançou a mão em um gesto desdenhoso.

— Nem um pouco, Bebelle. O ser mais belo do mundo precisa ser contemplado.

— Espero que não esteja falando de você. – Aloys alfinetou, o sorriso afiado imitando o que aparecia no da irmã.

— Com certeza não é de você.

— Nós temos, basicamente, a mesma cara, anta.

— Mas em você não deu certo, energúmeno.

— Vocês discutem o tempo inteiro? – Perguntei, interrompendo a provável resposta de Aloys. Isso fez ele se virar para mim, uma sobrancelha arqueada.

— Sim, Belle, somos irmãos, é a nossa missão de vida.

— E você, aliás – Aimeé se inclinou sobre a mesa, apoiando os braços cruzados na madeira que eu apostava não ser limpa na frequência que deveria. – Deve escolher logo um lado. E escolha bem. Vamos apenas ressaltar que serei sua irmã e posso tornar sua vida bem miserável.

— E eu sou seu noivo. – Aloys rebateu. – Em breve seu marido, e você deve ficar ao lado. E se isso não bastar, eu também posso dificultar as coisas para você.

Revirei os olhos enquanto sorria, pegando na mão de Aloys e apertando na minha, sorrindo para ele e logo depois para Aimeé. Fiz um movimento de cabeça, indicando que era para eles se aproximarem, e quando ambos estavam com o rosto perto do meu, respondi:

— Escolho o lado da vovó.

— Isso não é resposta! – Os dois exclamaram ao mesmo tempo, contrariados, e provavelmente em seria inserida em um longo duelo sobre minha lealdade quando fui salva por um grito. E eu conhecia esse grito. Apenas uma pessoa gritava meu nome dessa forma.

— Belle! – Katriane estava na entrada da taberna, as bochechas coradas do frio e da corrida. Tinha o braço de Therese agarrado a sua mão direita. Os gêmeos ficaram imediatamente em silêncio e me perguntei se era uma boa ideia chamá-las para se juntar a nós. Mas não tive que perguntar ou tomar a decisão. Engolindo o medo e o nervosismo, Katriane adentrou a taberna junto de Therese e veio em nossa direção. Eu podia ver seus lábios tremendo e a mão mais apertada do que o normal no braço da pobre Therry. – Belle, eu...

— Meninas – interrompi antes que ela dissesse qualquer coisa. Na verdade, minha amiga parecia completamente perdida nas palavras. Logo ela, sempre incapaz de ficar quieta. – Vocês conhecem mas acho que nunca foram apresentadas, esses são os gêmeos Blanchard. Aimeé – olhei para ela, que olhava para minhas amigas com os olhos estreitos enquanto tinha a cabeça apoiada no punho e o cotovelo na mesa. – E Aloys, meu noivo.

Falar essas palavras fez tudo parecer mais real e meu coração voltou a querer sair do peito. Katriane piscou, alarmada por alguns instantes, e obviamente sem qualquer jeito nos seguintes. Incrivelmente foi Therese que, ao se soltar do aperto de Kat, que desenhou um sorriso para ninguém em especial.

— Então está tudo confirmado, Belle? Fico feliz por você – disse, olhando para Aloys. – Ela ficou preocupada de você recusar.

— Preocupada? – Katriane acordou do estupor. Parecia mais à vontade em conversar com Therese do que com os gêmeos, diretamente. – Belle estava quase entrando em prantos e se jogando da janela do quarto.

— Katriane! – Sibilei, sentindo minhas bochechas esquentarem. Deus, isso não podia estar acontecendo. Não tive coragem de olhar nenhum dos dois enquanto minha amiga não se intimidava com meu pedido de misericórdia e continuava.

— Não fale assim, Belle, se não quisesse que percebessem devia ter escondido melhor seus sentimentos.

— Esconder sentimentos parece ser uma coisa que os Bertrant são incapazes de fazer, não é mesmo? – Aimeé perguntou, e apesar da pergunta ser para o irmão, ela olhava para mim, o sorriso afiado e debochado.

— De fato. – Aloys concordou, piorando minha vergonha. Apenas a mão dela na minha, por baixo da mesa, me fez respirar fundo.

— Mas porque demorou tanto para vir, Mr. Blanchard? – Therese perguntou e agora sim eu estava olhando para ele. Eu queria saber. Aloys havia demorado dias para me responder a proposta, e até agora não havia me dado uma satisfação. Certo que eu também não havia perguntado ou exigido, mas graças a lembrança de Therry, agora gostaria de ouvir.

— Tinha assuntos urgentes a resolver. – Foi tudo que ele respondeu, olhando para mim. – Tentei o fazer o mais rápido que consegui. Peço desculpas se lhe afligi, não foi a intenção.

— Eu almocei muito bem, irmão, não me faça vomitar. – Aimeé revirou os olhos, fazendo o irmão olhar para ela, o sorriso debochado.

— Devo lembrar que sua presença aqui é completamente desnecessária?

— O seu nascimento foi completamente desnecessário, paspalho.

— O mais velho sou eu, devo lhe lembrar.

— Ninguém perguntou.

— Eu vou perguntar – Therese interrompeu, fazendo Aimeé a olhar. – Nunca soube, então, o mais velho é o Aloys?

— Sim, por segundos. – Minha cunhada estreitou os olhos para o irmão, que tombou a cabeça para lhe lançar um sorriso.

— Segundos melhor que você, irmãzinha.

— Pode pegar seus segundos e ir para...

— Crianças – a porta da taberna foi aberta de novo, mas dessa vez a pessoa que a abriu não chegou a entrar. Rowena estava parada, olhando seus netos, ganhando a atenção de todos, principalmente dos homens mais bêbados a essa hora, em direção ao seu decote. Ela não lhes deu atenção e se focou em nós. – Venham para cá.

Não tinha certeza se estava falando comigo, ou se a ordem incluía Therese e Katriane também. Mas com certeza era destinada aos gêmeos. Ambos levantaram sem objeções e foram até a avó. Aloys acabou me puxando pela mão e minhas amigas me seguiram. No curto espaço de tempo que ficamos dentro da taberna o céu havia escurecido e o ar pesado e frio, anunciando a chuva que vinha por aí.

— Mrs. Blanchard – Katriane a cumprimentou, abaixando a cabeça. Rowena lhe deu um sorriso, concentrando a atenção nela.

— Senhorita Giraud. – Vovó devolveu. – Senhorita Guillot.

Therese piscou, olhando para ela como se a visse agora, e lhe deu um sorriso tímido. Os gêmeos continuavam em silêncio, olhando para ela, obviamente curiosos sobre o motivo da chamada.

— Temos de ir. – Rowena explicou. – Já é quase meio da tarde e as tarefas não vão se fazer sozinhas, muito menos os estudos de vocês.

— Mas, vovó... – Aloys tentou argumentar, a mão segurando em mim. De um modo estupido, me senti feliz por isso. Ele não queria ir embora.

— Não podemos ficar mais um pouco? Apenas até a hora do lanche – Aimeé pediu, mas pelo tom de sua voz sabia que era uma batalha perdida. Apesar do sorriso bonito e o balançar de cabeça gracioso, a resposta de sua avó foi a mesma.

— Não, queridos. Mas não se preocupem, Mabelle não irá sair daqui, não há necessidade que a acompanhem o tempo inteiro. – Ela estendeu as mãos. – Vamos.

Aimeé foi, rendida, para o lado da avó, sem se importar com formalidades e despedidas prévias. Aloys soltou um breve suspiro, e então estava na minha frente. Seus olhos brilhando, o sorriso de canto. Ele era mais alto que eu me fazendo ver com clareza a linha de seu maxilar e lábios.

— Eu volto, Belle – e como se houvesse feito isso a vida toda e estivéssemos na privacidade de uma casa, ele se inclinou e me beijou o rosto, tão, tão perto dos lábios que fez minhas pernas tremerem. Ele sorriu ainda mais e algo me dizia que de algum modo impossível, ele havia percebido. Mas suas pernas eram longas e em dois passos já havia se afastado, indo para o lado da avó.

— Se cuide, Bebelle. – Aimeé lançou para mim, os braços cruzados. – Tente não pôr fogo em anda na nossa ausência.

— Se cuide, querida. – Rowena me deu um beijo na testa e um carinho no rosto, seus olhos dourados brilhando fazendo par com o sorriso. Era algo com seu sorriso, seus olhos, seu dourado. Era como uma lembrança... — Em breve poderá ir conosco para casa.

Para a floresta.

Foi isso que quis dizer, mas de seus lábios não saiu mais nada enquanto ela se endireitava e se despedia de maneira cordial de minhas amigas. Os gêmeos lhes lançaram acenos de cabeças antes de darem as costas e, do mesmo modo que a festa, observei os Blanchard um ao lado do outro – com Rowena no meio e seus netos lhe ladeando -, caminhando em direção a floresta. Poderia ter passado o resto do dia ali, se como uma praga uma chuva fina não começasse a cair. Então Katriane me segurou o braço e me puxou para casa, falando algo como “gripe” e “casamento”.

Fui deixada em casa por elas e não resisti a ir imediatamente até meu quarto. Meu pai estava na loja, de volta ao trabalho, e Etienne enfiado na casa dos Foucher, provavelmente contanto a Nathanael seu almoço com a família de meu noivo. Me senti sorrir imaginando a expressão que Eveline faria ao ouvir o relato e isso serviu apenas para me deixar com ainda mais bom humor.

Continuei de bom humor até me encostar na janela, sentindo alguns pingos caírem em meu rosto, vendo como toda a paisagem se tornava cinza. Toda ela, menos a floresta. Ela continua escura, poderosa, cheia de promessas. Era para lá que eu iria, logo mais. Para minha mais nova casa.

Naquela noite, não me privei de dormir com a janela aberta. A chuva havia parado de qualquer forma, e fiz questão que as sombras das árvores fosse a última coisa que eu veria, junto com o cheiro de terra molhada trazida pelo vento. Sabia que dormiria bem pela primeira vez em muito tempo e tive sonhos com grama molhada, olhos violeta-cinza e machucados curados em um toque de mãos, ou lábios.

Como magia.

Mas não posso dizer com o que sonhei, não me lembro do sonho. Na realidade, não me lembro nem de ter sonhado. Talvez não tivesse chegado a tanto. Fui acordada com a sensação de algo deslizando pelo meu rosto e apenas duas mãos febris me impediram de gritar. Isso e olhos violeta-cinza.

— Juro que eu ia bater, mas a janela já estava aberta. – Aloys sussurrou, o corpo por cima do meu. Conseguia ver claramente seus olhos brilhando na escuridão e a partir de aí distinguir seus traços. Levei alguns momentos para conseguir acalmar meu coração, e apenas quando parei de ouvir seu ruído como um tambor nos meus ouvidos foi que, lentamente, ele destampou minha boca.

— Aloys...! – Me sentei na cama, fazendo-o ir imediatamente para trás, se sentando ao meu lado. Ele tinha um sorriso cheio de graça no rosto e parecia exatamente mesmo de hoje mais cedo: o cabelo negro bagunçado, as roupas gastas e desalinhadas. Mas havia algo a mais nele, algo que a noite o dava... estava ali, dançando atrás de seus olhos, fazendo seu cinza ficar mais forte. – Por Deus, o que...?

— Quero te mostrar uma coisa, Belle – ele parecia entusiasmado. – Preciso que venha comigo.

— Agora? A noite? – Passei as mãos pelo rosto, espantando o que me restava de sono. Aloys sorriu com isso, e seu sorriso parecia mais perigoso do que usualmente era.

— À noite é quando as melhores coisas acontecem, Belle. – Ele se levantou, vencendo o espaço do quarto e voltando para a janela. A noite estava escura do outro lado, com a lua em sua fase mais negra no alto do céu. Eu conseguia ver seus olhos, focados em mim, esperando, aguardando, ansiosos. – Vem comigo?

Não. A resposta certa, a resposta usual, seria não. Quando um homem praticamente estranho aparece em seu quarto no meio da noite e te pede para segui-lo para Deus sabe onde, a resposta é não. Mas ele não era um homem qualquer. Era meu noivo. Era Aloys. E eu podia gritar e chamar meu pai, e então ele expulsaria o gêmeo do quarto.

Mas eu não queria.

Olhando em seus olhos, naquele momento, senti o mesmo que sempre sentia com Rowena. Reconhecimento. Algo dentro de mim saudando algo dentro dele. Mas agora era tão forte que doía, como um gancho me puxando em sua direção. Eu sabia que ele não me faria mal. Não apenas por essa sensação, mas por ele. Tinha total consciência de que se Aloys quisesse me machucar, não precisaria me levar em lugar nenhum para isso.

Então me levantei da cama e antes que pudesse pensar onde estava meu casaco ou minhas botas, fui puxada para ele. Eu não precisava de qualquer tipo de agasalho enquanto tivesse seu corpo febril tão perto do meu, e nem de sapatos, já que ele me segurou em seu colo como se eu não pesasse mais que um bebê. Minha surpresa e êxtase por estar, literalmente, em seus braços, durou pouco, apenas o bastante para ele ir até a janela e subir em seu parapeito.

Tudo bem, talvez ele pudesse me levar para outro lugar para me machucar.

— Aloys...?

— Pelo amor da Lua, não grite.

E pulou.

A queda de três andares foi rápida e brutal para meu estômago que subiu até minha garganta. Não gritei, não tive tempo. Começou e terminou rápido demais e, antes que eu pudesse piscar, já estávamos no chão. Aloys não fez qualquer sinal para me soltar ou me colocar no chão, e muito menos eu fiz para descer. Sinceramente, não confiava na firmeza das minhas pernas nesse momento. Mas arrisquei olhar para seu rosto. Não parecia ter sentido qualquer esforço ou dor por ter pulado de uma altura como essa, e ainda por cima me carregando. Na verdade, ele sorria. E olhava para mim.

— Você não gritou. – A forma como disse isso foi como se anunciasse que eu havia sido descoberta filha do rei. Pisquei, confusa, e então puxei o ar para meus pulmões, olhando para cima, para minha janela aberta bem acima de nossas cabeças.

— Você é maluco? – Não esperei uma resposta. – Para onde nós vamos?

— Para onde pensa, Mabelle? – Sua língua acariciou meu nome e seus lábios se abriram, revelando seus caninos afiados e poderosos. – Para a floresta.

Talvez minha cara não houvesse sido das melhores quando disse isso, talvez meus olhos houvessem se aberto demais e minha boca se separado, porque ele riu. Diferente dos sorrisos contidos que vi ele dar durante o dia, ele não escondeu sua risada. Sua boca se abriu e seus dentes eram afiados, percebi de tão perto que estava. Não apenas os caninos, apesar deles serem de longe os mais notáveis, mas todos os seus dentes tinham uma leve ponta.

Ele percebeu que eu olhava, e voltou a atenção para meu rosto. Seus olhos brilharam enquanto seus braços ainda estavam firmes em mim, me segura acima do chão. Aloys não disse nada enquanto seus braços me apertaram nele, como se estivesse me abraçando, e então entrou na floresta.

Eu não conseguia ver um palmo à minha frente, mas Aloys não via problemas. Ele sabia exatamente onde pisar e não desacelerou o ritmo e nem mesmo olhou para o chão enquanto flutuava entre folhas, terra úmida e raízes sem fazer qualquer ruído. Com sua presença, a floresta me parecia estranhamente silencioso e as árvores se fechavam a nossa volta, mas ele olhava para frente como se estivesse enxergando tão claro como dia, e pelo jeito que seus olhos brilhavam, não duvidava que estivesse.

O cheiro da floresta fazia minha cabeça girar e estava por todos os lados. A minha volta e nas roupas de Aloys, em sua pele. Sempre achei que não havia cheiro melhor, cheiro mais pacifico. Consegui me sentir segura quando fechei os olhos e escondi o rosto em seu ombro, me preocupando apenas em sentir a floresta à minha volta e seu cheiro nas minhas narinas. Aposto que dormi em algum momento, por alguns minutos. Mas acordei com o vento frio no meu rosto, mais frio do que já estava, e apesar do calor de Aloys, tremi, o que me fez abrir os olhos.

O que vi me fez esquecer como se falava, ou sequer respirava, mesmo que por alguns momentos.

A primeira coisa foi o céu. Mas era diferente do céu que havia visto a minha vida inteira. Na aldeia ele não era tão azul, e nem tão estrelado. Havia estrelas em cima de estrelas, e algumas tão próximas umas das outras e tão fracas que mais pareciam nuvens, e poderiam ser, se não brilhassem. Apenas meu coração ansioso me fez ter força para abaixar o olhar e ver o que estava na minha frente. Ou melhor, abaixo.

Era a floresta. Milhares e milhares de milhas de floresta. Estávamos bem acima da copa das árvores e eu podia ver suas folhas se agitando com o vento do outono, que levava as mais frágeis e amareladas em direção ao chão. As árvores continuavam até eu perder de vista, e havia uma neblina cobrindo o topo de algumas, e, aposto, as raízes de outras. Era tão alto de onde estávamos que não era possível ver o chão. E nós estávamos onde?

Olhei para baixo, para a encosta que estava a alguns passos de nós. Me parecia uma colina, mesmo que eu nunca tivesse visto uma. A aldeia era plana e qualquer explicação de algo diferente provinha dos livros e de meu pai. Mas era alta o bastante para isso. Estávamos bem na beira, apenas um pequeno pedaço de terra nos protegia. A maior altura que havia chegado na minha vida havia sido a janela do meu quarto, e a súbita proximidade com outra de forma descomunal me fez arquejar. Olhei para seu rosto, pronta para implorar que não pulasse outra vez, mas as palavras ficaram travadas em minha garganta.

Aloys não olhava para mim. Olhava para frente, para a floresta, e nem piscava. O vento balançava seus cabelos como uma caricia e seus olhos violeta-cinza reluziam as estrelas, fazendo parecer que havia um pedaço do céu dentro deles. Mas era a forma que ele olhava para a floresta que havia me feito calar. Ela a olhava com devoção, como se olhasse para algo sagrado e de valor inestimável. E o mais impressionante era que eu podia jurar que a floresta o olhava de volta, como se o saudasse e recebesse.

Mas podia ser o ar da noite.

— Eu vou te pôr no chão agora, Belle – sua voz estava distante, mas lentamente virou a cabeça em minha direção, focando sua atenção em mim. Com cuidado, ele fez meus pés encostarem no chão, e eu pude sentir a grama entre os dedos e a terra úmida abaixo dela. Aloys também estava descalço, e não parecia se importar. Por meio segundo reparei que até mesmo as unhas de seus pés eram longas e afiadas, mas tinha coisas mais importantes para reparar, como seus olhos em mim, ansiosos. Ele queria alguma coisa. Mas o quê?

— Porque me trouxe aqui, Aloys? – A pergunta saiu baixa, e de algum modo era para ser assim. Havia alguma força naquela paisagem, com a floresta e o céu, que mereciam respeito. Ele sorriu antes de olhar para o céu mais uma vez, e então para mim de novo.

— Quero me casar com você, Mabelle – respondeu. – Realmente quero. Mas não posso fazer isso.

Meu coração falhou mais batidas do que seria humano. Não era possível...

— Por favor, em nome de Deus, me diga que não me tirou da cama no meio da noite e me trouxe nesse lugar incrível para romper comigo. Sinceramente você podia ter esperado até o dia nascer e escrito uma carta.

Ele riu. O desgraçado teve a audácia de rir. Era madrugada, estava frio, ele disse que não podia se casar comigo e ainda ria. Senti meu sangue ferver.

— É bonito mesmo, não é? – Perguntou, olhando em volta por mais um segundo. – E não precisa ficar irritada, bambina. Estou dizendo que não posso casar com você sem que lhe diga algumas coisas. Não seria honesto e nem justo, e são duas características que minha avó insistiu que aprendêssemos.

— Bam o que? – Arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços. Apesar de estar ridiculamente mais calma ao ver que ele não iria romper comigo (eu devia me dar mais ao valor que isso, eu sei), havia algo em seus olhos que ainda me fazia querer me abraçar. – O que tem para me dizer?

— Na verdade, nada – seu sorriso, lupino e afiado, fez meus ossos tremerem, mas meus braços se soltarem. – Você já sabe, Mabelle. Sempre soube. Apenas nunca pensou no assunto, nunca se permitiu pensar. Mas estava lá, Belle, desde sempre. Em uma sensação estranha, em um pensamento diferente, em uma conexão inexplicável com um desconhecido.

Rowena. A minha vida inteira, sempre que a via, tinha aquela sensação. Aquele sentimento inexplicável de reconhecimento, de calor, de conforto. De que algo dentro de mim se aproximava de algo dentro dela, de seus olhos dourados. Assim como de Aloys. Assim como de Aimeé. Franzi as sobrancelhas, tentando enxergar onde ele queria chegar.

— Você sempre soube, de tal forma, que quando viu, foi como algo de uma vida inteira. – Ele continuou. – Você nunca deu um nome, Belle, mas existe. Quando sua mãe lhe machucou o braço e eu lhe mordi o dedo, quando essas feridas simplesmente desapareceram, a reação que você teve não foi de medo ou de susto, não foi de alguém que se deparou com algo assustador e desconhecido. Foi de lembrança. Não uma necessariamente sua, consegue entender? Mas de dentro de você. Algo dentro de você que se lembra, que sabe, que conhece. Sem força o suficiente para revelar sua presença como deveria – Aloys passou a mão em meu rosto, os olhos fixos nos meus. – Mas ainda aí dentro. E forte como não aparecia a gerações.

Magia.

O nome foi lançado das profundezas da minha alma bem no meio do meu consciente. Senti um formigamento debaixo de minha pele, um calor crescente, como se apenas a palavra dentro de mim fosse o bastante para acordá-la, como cavalos arrastando as patas no chão, ansiando a cavalgada. Olhei para ele de novo, no fundo de seus olhos violetas, e soltei o ar pela boca.

— É só um monte de bobagens – repeti o que meu pai havia falado, o que eu falava. Tudo isso era apenas um monte de bobagens. Bruxas não existem, magia não existe, eram histórias para crianças se comportarem. Mas a frase soou mais do que tola, soou patética. E ele sabia disso. Sabia tanto que sorriu.

— Você é diferente deles, Belle – meu nome foi acariciado por sua língua de novo. – Não se esforce para se encaixar. Já lhe disse, é muito melhor ver as coisas pegarem fogo.

Acredito que meu noivo era uma pessoa com tendências ao drama, pois escolheu esse momento para se exibir e terminar de quebrar o meu já rachado espelho da realidade. Ao redor de nós, tão próximo que senti o calor me lamber a pele, um círculo de fogo apareceu. Era perfeito e alto, tão alto que me cobria a altura, mas não me machucava. Sabia que não. Era como Aloys. Era vivo, perigoso, mágico... e não me faria mal.

Ele havia nos escondido em sua parede de chamas, com apenas o topo ainda mostrando as estrelas. Suas mãos estavam em meu rosto e seus olhos focados nos meus, e pela primeira vez, era ele quem parecia preso. Quando Aloys Blanchard se curvou e juntou seus lábios nos meus, senti todo o fogo a nossa volta se infiltrar em minhas veias, aquecendo meus ossos e juntando meu senso de verdade outra vez, agora um novo. Pois naquele momento não existia nada de normal ou mundano. Nem no céu, nem na floresta e nem mesmo nele.

Nesse momento, tudo que existia era o fogo.

Do círculo a nossa volta. Dos seus lábios nos meus. Correndo em minhas veias, quebrando correntes que nem sabia que existiam. E da magia.

Em mim.

Notas finais
Então amores :3 Gostaram? Espero que sim :3 Bjs da tia! ♥