Lua da Meia Noite
15 Olhos de Encanto
Notas iniciais
Não sei ao certo o que me despertou. Talvez fosse a estranheza da cama (muito maior e, de certa forma, mais confortável do que estava acostumada), talvez fosse os barulhos que vinham do lado de fora (os animais noturnos faziam as folhas farfalharem e alguns galhos se partirem) ou até mesmo eu nunca houvesse dormido de fato. Era uma possibilidade pois o quarto ainda estava escuro e tudo tão silencioso...
— Bom dia, Belle – sua respiração, tão quente como ar de uma fornalha, foi mais do que a pele nua do meu ombro podia suportar. Um arrepio desceu pela minha espinha, meus olhos se fechando para o deleite daquela sensação. Então sua mão correu pela minha cintura, abaixo de minha coberta, e ficou espalmada em minha barriga, me puxando para ele. Senti cada musculo seu em minhas costas: sua barriga, seu peitoral poderoso e a mais recente descoberta (e já amada) parte de baixo – gloriosamente enrijecida. Agora, sem o calor do momento, era impossível não sentir minhas bochechas queimando. Mas Aloys era meu marido – de papel e corpo. Então guardei meu constrangimento em um canto afastado de mim e me virei.
Acho que nunca, nem em mil vidas, eu iria estar realmente pronta para me deparar com seus olhos. Ainda mais sendo eles a primeira coisa a ver no dia, sem qualquer preparo psicológico anterior da minha parte. Seu violeta brilhava, mas seu cinza continuava tão forte quanto. Não praticamente tomando o controle, como estava ontem, mas forte o bastante para parecer um ponto de fuga em um desenho, sugando toda a cor para um lugar muito escuro e perigoso dentro de si. Eu poderia passar o dia olhando para eles, mas então me lembrei da educação.
— Bom dia, Aloys – franzi as sobrancelhas. – Isso é completamente injusto. Eu não tenho qualquer apelido para você.
Ele soltou uma risada branda, os dentes reluzindo na penumbra, e levou uma mão para meu rosto. Senti a ponta de suas unhas na minha pele, sem sequer me arranhar, apenas me tocando e sorri.
— Meu nome tem cinco letras, boa sorte em achar um – ele desafiou, me fazendo desmanchar o sorriso e bufar. – Mas— continuou. – Quando éramos crianças e não sabíamos falar direito, Aimeé não conseguia falar meu nome inteiro. Então ela vivia repetindo Alys. Na verdade, na próxima vez que ela te chamar de Bebelle, experimente a chamar de Meié, mas faço isso longe do alcance dela.
— Não acredito – pisquei meus olhos, a risada fazendo meus lábios tremerem. – Vocês eram dois retardados.
— Ei! Não se xinga uma criança de um ano de retardada, nós não sabíamos nem usar o banheiro, quem dirá falar decentemente o próprio nome.
— Oh, me desculpe – apertei meus lábios em um sorriso contido, o olhando bem. Me parece que olhar para meu marido havia se tornado uma atividade quase automática, mas eu não tinha a menor culpa. Eu desafio qualquer um a não guardar cada traço firme e selvagem de seu rosto, os olhos violeta-cinza e os cabelos negros, mais bagunçados do que eu jamais os havia visto, um pouco esparramados pelo travesseiro. Então desci o olhar, passando pelo seu pescoço forte e ombros largos e braços dignos de uma escultura em volta de mim. Tudo isso era meu e tudo isso estava... – Aloys?
— Sim? – Ele estava distraído, acariciando meu rosto e as vezes deslizando até meu cabelo, enrolando uma mecha no dedo antes de a soltar e começar todo o processo outra vez. Mas quando viu que fiquei em silencio, olhou bem nos meus olhos.
— Eu – comecei, sem ter muita certeza do como fazer isso. – Eu tenho quase certeza que eu te... arranhei ontem – olhei para minhas unhas curtas. Eram pequenas mas deviam ter deixado alguma marca. De repente, me senti completamente ineficaz. Mas, como sempre, Aloys escolheu rir de mim. Em um segundo seu corpo estava em cima do meu, seu membro tão perto da parte minha que precisava dele que a senti pulsar e tive que me contorcer. Seu sorriso já não era apenas divertido – era lupino, era selvagem, era quase cruel e definitivamente predatório.
— Ah, Belle – seu nariz percorreu a curva do meu pescoço, o que foi uma ordem imediata para meus braços se engajarem em seus ombros. – Não se engane, você fez um belo de um estrago ontem. Mas tenho certos dons que herdei de meu pai que me permitem curar de forma muito mais rápida do que o habitual. Logo, todas suas marcas desaparecem durante a noite, ou até antes – ele me pareceu chateado, mas quando sua língua tocou minha clavícula e desceu até a fenda entre meus seios, não perguntei o porquê. – Mas se isso te incomoda, você pode...
— Não, não pode não – Aloys rosnou tão alto que eu me encolhi de surpresa, mas Aimeé não. Ela estava parada na porta (consegui ver depois de me esticar, morta de vergonha, sobre o ombro de Aloys), mas suas roupas estavam diferentes. Sempre a vi de vestido. Simples ou elaborados, mas vestidos. Essa Aimeé me parecia muito mais selvagem e eu não sei o que me convencia disso primeiro: a calça preta de couro macio, as botas altas ou a blusa presa por um espartilho por cima, todos pretos. As armas, também, que carregava consigo (havia um chicote, brilhando de tão negro, enrolado em seu antebraço e uma espada pendurada em sua cintura). Ou eram apenas seus olhos, tão mais evidentes pela trança que usava, iguais os do irmão: mais cinza que violeta e mortalmente perigosos. — Vocês estão atrasados, pombinhos. Muito atrasados. Eu me apresaria se fosse vocês e deixaria as marcas para depois.
— Aimeé – já ouvi Aloys acariciar meu nome com a língua. Contornando cada silaba como havia feito com meu corpo ontem. Agora, parecia que havia mastigado e cuspido o nome da irmã, enquanto virava a cabeça para olhá-la. – Me dê um excelente motivo para não te chutar escada abaixo.
Seja o for que minha cunhada viu nos olhos do irmão, a fez sorrir. Não o tipo de sorriso que eu estava acostumada, mas o sorriso que estava me acostumando. Foi tão afiado que senti ele cortar o ar, mostrando cada dente fino e mortal atrás de seus belos lábios. Os olhos brilharam, o cinza ganhando mais força, enquanto passava a língua nos lábios. Desafio. Era isso que aquilo dizia. Então eu estava sozinha na cama.
Em uma batida de coração, Aloys estava na frente da irmã. Eu apenas podia ver suas costas poderosas, sua bunda bem-feita e as pernas trabalhadas. Atrás, eu ainda conseguia ver o topo da cabeça de Aimeé – que, se ficou incomodada com a nudez do irmão, não demonstrou nem um pouco. Continuou parada e sorrindo, suponho. Eu me sentei na cama, me esquecendo até mesmo de cobrir os seios que ficaram expostos quando o coberto deslizou. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas três coisas berravam dentro de mim: perigo, corra, se proteja.
Estava prestes a chorar, ou implorar ou me esconder de baixo da cama. Qualquer coisa para sair dali. Aloys não me machucaria, mas eu ainda tinha minhas dúvidas sobre Aimeé, e entre uma briga dos dois... sem falar que aquilo era mais que uma simples discussão como as que eu já havia visto dezenas entre eles. Era mais profundo. Era mais territorial e animal. Eu podia sentir a tensão no ar – ela me esmagava. Me fazia encolher na cama como uma criança assustada e, para ser honesta, eu não me sentia muito maior do que isso. Mas então, como eu estava me acostumando a acontecer, Rowena me salvou.
Ela apareceu atrás de Aimeé, o rosto tão sério e duro que se não fossem os mesmos olhos dourados eu teria achado que era outra pessoa. Colocou as mãos nos ombros da neta e a puxou para trás de si, quebrando o contanto visual entre os dois. Imediatamente os ombros de Aloys e o queixo de Aimeé caíram – mas apenas um pouco. Com a avó entre eles, não pareciam mais tão decididos a se matarem a qualquer momento, talvez apenas pensando no assunto. Então ela se virou para Aimeé e falou com uma voz que eu nunca havia ouvido. Era forte e severa, uma voz que não admitia desobediência e que estava acostumada a ser obedecida. Uma voz de líder.
Rainha da Corte das Bruxas.
— Vá para a floresta, Aimeé. E fique lá. Você já tomou seu café, de qualquer modo – mesmo com a frase de consideração, sua voz não amoleceu. Então quando sua neta permaneceu onde estava, aqueles intensos olhos dourados focaram bem no fundo dos selvagens violeta-cinza da minha cunhada. Relutantemente e com ainda com os dentes expostos, Aimeé deu um passo para trás e depois outro, antes de se virar e descer as escadas a passos sonoros dessa vez.
Mas então Rowena se virou para Aloys e agora eu podia ver toda sua expressão que antes estava escondida. Pude ver cada traço do seu rosto, mas não era ele que me tirou o ar, foram seus olhos. Sempre achei os olhos da parte mais velha dos Blanchard maravilhosamente lindos, perdendo apenas para os olhos de Aloys (que também eram os de Aimeé) por simples questão de gosto pessoal. O fato era que eram tão dourados que brilhavam como ouro derretido, como se a própria luz do sol houvesse se instalado ali, e eram sempre tão gentis, calorosos e convidativos... foram os olhos que me fizeram ir com ela quando me protegeu de minha mãe, mesmo que não a conhecesse, de fato.
Nesse momento, percebi que se ela tivesse me olhado daquela forma eu teria preferido ficar com Eveline.
Aloys devia ter muita força de vontade ou ser tão poderoso quanto ela para aguentar aquele olhar, pois era isso que ele emanava: poder. Poder, autoridade e direito – sobre si mesma e sobre eles. Rowena era a dona daquela casa, havia criado os gêmeos depois da morte da própria filha e, apenas pelos seus olhos eu não precisaria da afirmação de Aloys – eu podia ver, e muito bem, que não havia bruxa no mundo mais poderosa do que ela.
Gradativamente, meu marido percebeu isso também e recuou um passo, mas não abaixou a cabeça. Rowena então apontou para o banheiro com o queixo, os olhos ainda duros e a usando o mesmo tom de minutos atrás.
— Belle precisa de um banho e você também. Vá para seu antigo quarto e depois procure sua irmã e então resolvam como acharem melhor. Apenas saibam que, o que quer que aconteça, quando voltarem teremos uma conversa sobre os modos que lhes ensinei e são tão constantemente esquecidos. Principalmente na frente de sua jovem mulher.
Isso pareceu acordar Aloys um pouco, pois seus ombros deram mais uma relaxada e ele olhou para mim. Seus olhos ainda estavam completamente selvagens, mas as sobrancelhas estavam franzidas, como se tentasse lembrar a razão de não estar destruindo tudo e que, talvez, eu fosse um dos motivos.
Então voltou a olhar para frente e, sem dizer nada, mas praticamente marchando, saiu do quarto. Nu, sem qualquer cerimônia. E isso me fez lembrar da minha própria nudez e que estava sozinha com Rowena no quarto. Busquei a coberta para me esconder e isso fez a atenção da avó dos gêmeos vir para mim, aliás, estava muito mais tentada a chama-la de Vossa Majestade do que de vovó. Mas seus olhos se suavizaram e sua boca se abriu em um suspiro baixo enquanto caminhava em direção a cama e se sentava ao meu lado.
— Peço mil perdões pelos modos de meus netos, Belle – sua voz parecia realmente envergonhada e magoada, o que me fez estender minha mão para a dela quando ela o fez. Sua mão apertou a minha em uma caricia gentil, maternal e doce, como sempre foi – bem diferente da mão firme que pareceu usar em seus netos. – É a Lua Cheia, entende? Meche com os nervos deles, os deixam completamente do avesso. Até mesmo Aloys, geralmente tão mais centrado, é facilmente convencido a entrar em uma briga, como você acaba de ver.
— Fiquei com medo – sussurrei. Não sabia porque, mas o disse. Eu havia sentido medo. Um medo primitivo pela minha própria sobrevivência. Não queria ter dito nada pois prometi que não iria ter, e apesar de ter feito essa promessa para ela, Rowena apenas balançou a cabeça com um sorriso que não saberia dizer se era triste ou compreensivo. Talvez os dois.
— Foi natural que sentisse, criança. Eu pedi tanto para os dois se controlarem... – Suspirou. – Eu irei lhe explicar o que aconteceu, mas por enquanto quero que tenha absoluta certeza de uma coisa: eles nunca lhe machucariam, e se o fizessem, seriam capazes de enfiar uma adaga no coração de tanta culpa e remorso. Aloys lhe ama, e você sabe disso. Confie que Aimeé também. Eles são gêmeos, suas emoções são parecidas até demais – eu queria dizer que nunca senti que Aloys me machucaria e também que não tinha certeza que amor era o que Aimeé sentia por mim, mas ela continuou. – Mas agora o dia precisa começar, minha neta tinha razão: vocês estão atrasados.
Rowena se levantou da cama e apoiou as mãos nos quadris. Apesar dos olhos terem voltado ao brilho de sempre, eu ainda poderia ver seus ombros duros e o sorriso distraído. Ela me indicou o banheiro (uma porta no quarto que eu nem tinha reparado antes) e me garantiu que eu encontraria tudo que precisasse. Tive a impressão que ela até iria se oferecer para me dar banho, mas recuou quando viu a cor nas minhas bochechas crescerem à medida que eu esperava ela sair do quarto para levantar da cama. Quando finalmente o fez, joguei as cobertas para o lado e minhas pernas para o outro, usando toda minha força de vontade para impulsionar meu corpo para fora daquele lugar tão quente, confortável e cheio de boas lembranças.
Não me surpreendi quando vi que meu novo banheiro era quase duas vezes o tamanho do meu antigo, com um piso escuro e ilustrado que me refletia e paredes em tom claro, enfeitadas de dourado também. Havia uma grande bancada com um gomil e uma bacia, sem falar da banheira redonda e de porcelana apoiada no chão com pés de diamante que poderia, facilmente, acomodar cinco pessoas.
Como Rowena disse, encontrei tudo que precisava. A banheira já estava cheia de água quente e havia toalhas e produtos para higiene ao lado, então tudo que precisei foi deixar meu corpo entrar em contato com aquela água deliciosamente meio fumegante. Senti meu corpo arder e doer em algumas partes e percebi que, diferente de Aloys, eu não tinha qualquer vantagem em relação a cura. Tinha alguns pontos roxos e avermelhados pela pele e em alguns lugares, também estava arranhada, sem falar da dor que quase me fazia chorar se eu tentasse abrir muito as pernas.
Com cuidado e paciência, limpei meu cabelo (que parecia um ninho de ratos) e passei o sabão pela minha pele. Ainda fiquei com folga aproveitando a água que não tinha esfriado nem um pouco antes de me levantar e me enrolar em uma toalha grossa e macia. Só enquanto voltava para o quarto me lembrei de que não fazia ideia de onde estavam minhas roupas. Eu sabia que, aos poucos, Aloys ou Aimeé, ou os dois, estavam indo em minha antiga casa e pegando baús de roupas e objetos. Mas eu não sabia onde o haviam colocado. Não havia visto nada meu no quarto na noite anterior e me senti uma tonta por não ter perguntado isso a Rowena.
Então, me senti mais tonta ainda por pensar que ela não pensaria nisso também.
Estendido na cama já feita estava um dos meus vestidos de solteira e vários baús entulhados em um canto. Certo, eu fiquei bastante tempo no banho, mas com certeza não ouvi nenhum abrir de porta ou arrastar de moveis pesados. Magia, lembrei. Provavelmente foram colocados ali por magia enquanto eu não estava. Decidi que gostava disso cada vez mais.
Pus um vestido marrom desbotado que combinava com meu cabelo e realçava meus olhos, penteando o cabelo e o deixando solto, de qualquer modo. Aimeé estava usando botas e não pude ver qual era o caso de Rowena, então coloquei botas também, afinal ainda era inverno, e desci.
O cheiro do café da manhã fez meu estomago embrulhar e perceber o quanto eu estava faminta. Não tinha uma refeição decente desde antes do casamento, uma vez que lá minhas maiores preocupações eram dançar e beber. Talvez isso tenha feito com que eu pulasse os últimos degraus da escada e seguido o cheiro para a esquerda, em direção a provável cozinha. Era enorme, apenas para manter o ritmo de toda casa e bastante rustica. Haviam grandes janelas onde alguns galhos entravam e a folhas cresciam, um enorme fogão a lenha e rodeada inteiramente de bancadas.
Mas o que me chamou atenção foi a mesa.
Claro que devia existir uma sala de jantar em algum lugar, porém, aparentemente, os Blanchard (agora comigo incluída) gostavam de fazer as refeições no calor e informalidade da cozinha. A grande mesa de madeira era velha, eu podia ver pelos arranhados e lascados em alguns lugares, como se garras houvessem batido ali uma, duas, incontáveis vezes durante toda uma vida, fazendo sulcos na madeira. Também havia lugares chamuscados e um pouco escuros, provavelmente queimados. Mas isso não fazia a mesa ficar feia, de forma alguma. A dava um ar de resistência e de aconchego – aquele móvel atualmente repleto de comida havia visto historias demais, eu gostaria de saber.
Rowena estava lá. Não tocava na comida, mas estava sentada na cadeira, as mãos juntas no colo e um livro à frente, onde deveria estar seu prato. Seus olhos estavam focados nele, porém não demoraram um segundo para irem em minha direção quando entrei. Ela sorriu para mim, o sorriso que sempre me esquentou o coração, e gesticulou para uma cadeira ao seu lado.
— Venha, querida, deve estar com fome – ela disse, e, sinceramente, não precisei de outro convite. Me sentei na cadeira reservada a mim, sem saber o que fazer muito bem com toda aquela comida. Havia o dobro do que eu estava acostumada. Uma variedade de pães, sucos, frutas, bolos, tortines e geleias, leite e café. Todos eles ainda quente e fazendo meu estomago roncar. – Sem cerimônia, querida, a casa é sua também. Sirva-se – a voz de Rowena tinha humor e havia um pequeno sorriso em seus lábios, o que me fez sorrir de volta. Não demorei a servir um generoso prato com um pouco de cada e um grande copo de suco, além de deixar um mais pequeno de café me esperando.
— Onde estão...?
— Os gêmeos obedeceram a minha sugestão e foram para a floresta, lá, eles irão se entender – ela respondeu. – Sem falar que já estava realmente na hora deles irem, Aloys deixou que você dormisse demais e ele mesmo aproveitou a própria preguiça.
— Mas, Rowena... O sol está começando a nascer agora— e era verdade. Apenas nesse instante os primeiros raios de sol venciam os galhos e folhas das arvores e começavam a tocar o chão. Para mim, ainda era absurdamente cedo, mas não para Rowena, que com gentileza, mas determinação, balançou a cabeça em negativa, quase exatamente como fez com Aimeé no dia em que foram me conhecer.
— Eu havia lhe dito que não temos empregados, Belle, e é a mais pura verdade. Sendo assim, as tarefas devem começar a serem feitas logo pela manhã. É hábito da casa que seus habitantes acordem muito antes do sol nascer, em torno de quatro e meia da manhã – ela encolheu os ombros. – Quando Aimeé foi lhes tirar da cama, já eram cerca de cinco e vinte, estavam muito atrasados.
Digeri a informação enquanto mastigava um fresco e delicioso pão com manteiga e queijo. Acordar quatro e meia da manhã, realmente muito antes do Sol nascer. Queria dizer que a ideia não me agradou nem um pouco, mas não me pareceu cortês. Não que adiantasse de alguma coisa, pois Rowena riu e me respondeu mesmo assim.
— Você irá se acostumar, Belle, o dia é cheio demais para se ficar com sono e existem as horas de descanso, ninguém é de ferro, não é mesmo?
— Como...? – Franzi as sobrancelhas, olhando seus olhos que reluziam. Pareciam ficar ainda mais fortes nesse momento, com a luz fraca da manhã ainda tocando timidamente o solo. Não era a primeira vez que ela me respondia alguma pergunta que eu não havia feito, e pelo seu sorriso, eu podia apostar que não seria a última.
— Irei lhe explicar tudo, Belle, mas estamos atrasadas. Coma e então me ajude, com sorte terminaremos antes e posso ir lhe adiantando algumas coisas.
O relógio me dizia que não chegavam a ser sete da manhã, mas comi até não aguentar mais nenhuma migalhe e meu espartilho ficar desagradável. Uma pequena parte de mim esperou ouvir algum grito ou uma voz ríspida e venenosa me dizendo que eu não deveria comer tanto pois era uma tremenda falta de modos. Mas tudo que Rowena fez foi sorrir enquanto se levantava e limpar o canto da minha boca com um pano, satisfeita de me ver alimentada e com energia o suficiente para o restante do dia.
Eu posso descrever em três palavras como foi eu ajudando Rowena a limpar depois: fracasso, divertido e completamente vergonhoso. Ela realmente ia limpar tudo, desde tirar a mesa do café, empilhar os pratos e copos para serem limpos e guardar as poucas coisas que não haviam sido devoradas. Essa foi a parte fácil. Eu podia recolher os pratos e a entregar, enquanto eficientemente lavava a louça com as próprias mãos delicadas. Podia fazer isso, e fiz. Quando finalmente tiramos toda a mesa do café da manhã e limpados tudo que havia sido sujado, ai sim chegou a minha hora de morrer de vergonha.
Eu limpo lá em cima, Belle. Há muitos andares e muitos quartos, é uma casa estupidamente grande, sabe? Acho que será um trabalho pesado demais para seu primeiro dia. Então apenas fique aqui em baixo, varra o chão e tire o pó.
Foi isso que ela me disse, com um sorriso, antes de me entregar uma vassoura e um espanador. Ficou por tempo o suficiente para se assegurar que eu estava segurando as duas coisas pelo lado certo e subiu as escadas. Posso fazer isso, repeti para mim mesma. Já havia visto as empregadas fazerem. A vassoura é só ir de um lugar ao outro, é fácil. E o mesmo com o espanador.
Demorei trinta segundos para descobrir que não, não podia fazer nada daquilo.
Não importava o quanto eu varresse, parecia que a sujeira apenas se espalhava. E era uma casa grande, cheia de pequenas coisas que deviam ter um valor inestimável. Depois de quase derrubar um vaso que deveria estar ali desde que a casa foi construída, mudei para o espanador, mas também não tive muito sucesso. A poeira sempre ia na minha cara e me fazia tossir, sem falar que eu tinha que ficar na ponta dos pés na maior parte do tempo e, mesmo assim, havia lugares que eu simplesmente não conseguia alcançar.
Eu juro que estava prestes a tacar tudo no chão e chorar quando Rowena desceu as escadas. Ela demorou um segundo para observar meu trabalho não feito e então riu. Foi até mim, os olhos brilhando, e segurou em meus ombros antes de se inclinar e me beijar a testa.
— Me perdoe, Belle, lhe deixei sozinha – sorriu enquanto afagava minha cabeça. – Não fique tão frustrada, ninguém nasce sabendo. Vamos, eu lhe ajudo. Preste atenção em mim, sim?
E prestei. Rowena era graciosa até mesmo enquanto varria o chão (com menos da metade da minha força, de modo que a sujeira não se levantava ou espalhava) e jogava tudo pela porta da frente, varrendo a sujeira de lá também. Então foi a vez do espanador e ela me explicou que não era necessário que eu limpasse tudo. Os cantos mais altos eram trabalho dos gêmeos (quinas de parede, em cima de estantes e coisas assim), para mim, bastava tirar de cima dos moveis mais baixos e das lombadas de livros. Me ensinou como se segurava no espanador (até isso eu estava errando) e me mostrou o movimento certo para evitar ao máximo que a poeira fosse em meus olhos, apesar que, com um sorriso, ela me disse que as vezes era inevitável.
Quando o relógio bateu nove da manhã eu simplesmente não pude acreditar. Por causa da minha incompetência Rowena não teve tempo de me explicar nada além de afazeres domésticos e isso me deixou bastante mal-humorada. Mas uma coisa era certa, o dia naquela casa era bastante cheio e não havia tempo para ficar ruminando em um canto. Logo a porta da frente se abriu e os gêmeos entraram.
Primeiro veio Aimeé e, tirando seu cabelo mais bagunçado e com alguns pedaços de feno, e a roupa preta ainda mais amassada e rasgada, ela estava exatamente como hoje de manhã. Seus olhos ainda eram predominantemente cinzas, mas ela sorriu quando me viu. O sorriso na língua dela, mas sorriu.
— Bom dia Bebelle, desculpe por hoje mais cedo, aparentemente esqueci meus modos – eu não sabia se ela estava se desculpando pela briga que havia tentado provocar ou por simplesmente não ter me dado bom dia, então apenas fiquei em silencio. Isso não pareceu afetar ela nem um pouco que apertou minha bochecha enquanto passava por mim em direção as escadas. – E, esqueci de mencionar, você é realmente uma gracinha, não é? Tenho quase inveja de Aloys.
A medida que minhas bochechas esquentavam eu podia ouvir sua risada se distanciando no andar de cima, em direção aos quartos. Rowena também havia ido para lá e eu imaginava se essa seria a hora do sermão que ela prometera. Mas não tinha interesse em pensar nisso porque, como sempre, meu marido havia entrado no meu campo de visão.
Roupas pretas e rasgadas e desbotadas, os cabelos negros uma bagunça e as mãos e rosto sujos de terra. Era como ele estava. Também sorriu quando me viu, apesar dos olhos serem um espelho do da irmã, e veio até mim. Não tive tempo de falar qualquer coisa antes que me puxasse pela cintura e grudasse os lábios nos meus, chegando a erguer meu corpo do chão e me dando a única escolha de o beijar de voltar enquanto me segurava em seus ombros fortes.
O beijo foi exigente e brutal, quase como se ele precisasse disso antes de continuar o dia, como se fosse sua energia. Cedo demais, ele terminou e fiquei com a ponta dos pés arrastando no chão enquanto encarava seus olhos. Havia algo ali que não tinha reconhecido em Aimeé. Era vergonha. Aloys apertou minha cintura antes de abrir a boca.
— Belle, sobre hoje de manhã, me perdoe, eu...
— Não tem problema – o interrompi, o puxando contra mim no melhor abraço que eu podia oferecer em tais condições. – Sua avó me explicou. Lua Cheia, hem? Da próxima vez apenas evite quase entrar em uma briga mortal comigo nua logo atrás de você.
Isso o fez rir contra meu cabelo e a tensão que eu nem sabia que carregava se esvaiu do meu corpo. O puxei mais para mim, sentindo seu corpo quente, querendo que ele fosse toda minha fonte de calor. Aloys beijava meu rosto enquanto isso, meu maxilar e minha orelha, começando a fazer a mesma fera da noite anterior se agitar dentro de mim, mas parou com um sorriso cretino e olhos brilhando.
— Tudo ao seu tempo, bambina— meu marido me mordeu a boca, fazendo com que eu arfasse, mas isso só o fez sorrir ainda mais. – Suba as escadas, vá para o terceiro andar. Lá vai encontrar uma espécie de sala de aula, fique lá e nos espere, já iremos encontrá-la.
Não imaginava que tive de bronca Rowena fosse dar nos dois. Na verdade, até hoje de manhã, eu julgava que ela fosse incapaz de ser dura com alguém. Mas era. Havia realmente esquecido que ela havia criado os gêmeos e apesar de eu não saber toda a histórias e todos as influencias que os rodeavam, apenas vendo o presente já era possível imaginar. Eles deviam terem sido crianças difíceis, para dizer o mínimo. Com certeza ela havia precisado de pulso firme para que eles a respeitassem.
Então guardei minha preocupação com eles em uma caixa dentro de mim e comecei a subir as escadas. Quando passei pelo andar dos quartos, não pude ouvir qualquer grito ou voz alterada o que me fez minhas pernas ficarem consideravelmente mais leves para continuar o próximo lance de degraus e contornar o patamar. O que me recebeu foi um espaço aberto. Não havia uma parede sequer, mas era bem dividido por colunas e setores. Em um lugar, havia um enorme quadro negro com uma mesa para duas pessoas e duas cadeiras. Em outro, grandes bancadas de com frascos e caldeirões, e potes com folhas e ervas bem lacradas, além de algumas coisas que não conseguia reconhecer. Todo o andar era circulado por estantes de livros que iam até o teto, abarrotadas de volumes variados. Indo desde finos a do tamanho dos meus braços, alguns parecendo novos e outros tão velhos que eu achava que poderiam virar poeira no primeiro toque, todos em uma língua que nunca vi na minha vida.
Definitivamente aquilo não era francês.
Mas eu sabia muito bem o que era aquele andar. Já estive em algo parecido, apesar de em tamanho muito reduzido. Com seus livros e quadro negro, mesas e cadeiras, o terceiro andar da Mansão Blanchard era inteiramente uma sala de aula. Meu coração bateu tão forte que fui obrigada a colocar a mão sobre ele, apenas para garantir que não saísse pelo meu peito. O colar que ganhei de meu pai também vibrava, me empurrando na direção daquilo como uma ventania. Devo ter ficado bastante tempo ali, com a cabeça rodando, meu sangue correndo e algo dentro de mim se agitando e chutando para sair, pois apenas acordei quando mãos de dedos longos e finos, delicadas como uma rainha, mas firmes como alguém que conhece o peso da vida se apoiaram em meus ombros.
Olhei para cima, para o ouro derretido que brilhava para mim. Rowena sorria, tão boa e acolhedora que isso me fez soltar o ar que, aparentemente, estava preso dentro de mim. Seus cabelos estavam presos em um coque displicente que deixava várias mexas caídas em seu rosto e eu tive consciência de que isso faria Eveline sibilar de raiva, mas era apenas pura inveja.
Inveja de sem qualquer maquiagem ou enfeite, tão displicente e no meio de uma manhã como qualquer outra, ela nunca teria metade da beleza de Rowena.
— Finalmente você está aqui, Belle – ela disse, se abaixando e me beijando o topo da cabeça. Não foi difícil, já que eu estava com o pescoço virado para olhá-la. Seus olhos queimavam e demorei um segundo para perceber que não o faziam sozinhos, eles refletiam os meus.– Podemos começar?
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