Lua da Meia Noite

10 Como teu Luar


Notas iniciais
OIE OIE ♥ GENTE, MANO, MEU FORNINHO CAIU, CAAAIU, SABE PORQUE? HEM? HEM? QUEM TÁ COM SESSENTA ACOMPANHAMENTOS E VINTE FAVORITOS? QUEM TÁ COM CENTO E QUATRO COMENTARIOS? QUEM? LUA DA MEIA NOITE! MANO EU AMO VOCÊS, EU AMO MUITO VOCÊS, SÉRIO, MANO, QUERO GUARDAR VOCÊS EM POTINHO E LEVAR COMIGO PRA SEMPRE ♥ Tudo bem, tudo bem, parei, me controlei. Agora que já dei meu chilique, vou avisar uma coisa a vocês. CALMA GENTE, não é nada grave. É só que não deu pra responder os comentários //3 Então respondo durante a semana, okay? Vou responder, juro ♥ Obrigada a Izzy, Cat (Isa ♥), NCristina, Rezenae (Duda ♥), Alnix, Lu na Luad, Yoonmin, Mrs Claflin, Sabri, Prinmononoke, Filha de Hades, Salayne (Docemargo ♥), Perséfone, Junim (Amor ♥), Letícia Padilha e Valarie Lockwood pelos comentarios lindos, diwos e mais que perfeitos ♥ Fizeram meu dia feliz pra cacete! Aproveitem o cap ♥

Apesar da clara má vontade, era inevitável que alguma hora papai tinha que ir trabalhar. Então ele foi quando já se passava das nove, os olhos focando Rowena até o ultimo segundo enquanto saia pela porta. Mas quando saiu, na companhia de Etienne, eu fui atacada.

— A cerimônia será na Igreja, claro – Rowena começou a falar. – E a festa será na praça da aldeia. Claro, terá que ter um espaço pronto aqui dentro, pois as chuvas do outono são um pouco imprevisíveis. Mas será bonito de qualquer maneira. Você poderia falar com sua amiga Giraud sobre isso, Belle, a ideia das folhas na festa foi realmente espetacular, a menina leva jeito para a decoração. Depois disso ainda temos a comida, os convidados, os presentes, o vestido e a data, o mais importante de tudo. Novembro deve ser o bastante, não acham?

— Se eles puderem esperar até lá – Aimeé revirou os olhos, mas o sorriso dispensava comentários enquanto os olhos reluziam para o irmão. – Sabe, se Aloys continuar se encontrando as escondidas na floresta no meio da noite, a cor do vestido vai ter que ser outra.

Corei, mas meu noivo nem se mexeu. Estreitou os olhos para irmã, brilhando do desafio aceito, os lábios imitando seu sorriso.

— Se Aimeé continuar cuidando da vida dos outros, teremos que decidir qual será a cor das flores em seu funeral.

— Eu cuidaria da minha vida se você não ficasse tão animado, parecia um garotinho! Foi vergonhoso, irmão.

— Não me diga que você estava lá – minha voz falhou, meu rosto se esquentando como eu não o sentia desde que vi Aloys pela primeira vez. Aimeé me olhou, como se tivesse me visto pela primeira vez agora, e balançou a cabeça. Mas foi Rowena quem me respondeu.

— Não, querida, pode ficar tranquila – ela sorriu, os olhos brilhando. – Aimeé não estava lá, bom, ao menos não fisicamente. A questão é que os dois são gêmeos e, se não bastassem, nasceram com uma condição muitíssimo especial. Suas mentes e emoções são conectadas, de certa forma. O que faz um sempre estar com o outro, no final. – Ela se virou para Aimeé. – Apesar que, com o tempo, os dois aprenderem a disciplinar essa habilidade. Não havia necessidade de você espiar seu irmão, querida.

— Eu não fiquei olhando, vovó. – Ela encolheu os ombros. – Sai quando me recuperei do trauma.

— Mentes ligadas? – Minha voz saiu fina, e a pergunta era para Aloys. Me sentia sem ar, mas ele sorria para mim, os caninos aparecendo.

— Apenas mais um detalhe, Belle. – Piscou. – Eu disse que você ainda tem muito a aprender.

— Nem me diga – Aimeé tombou a cabeça, os olhos reluzindo. – Você está tão ferrada quando começar a estudar. É normal que os ensinamentos comecem logo cedo e você perdeu quinze anos. Alguém vai ter que se esforçar.

Me mexi no colo de Aloys, sentindo mais uma vez minha pele formigando. Olhei para Rowena, que tinha os olhos dourados tão focados em mim que eu podia ver meu reflexo no ouro. Vendo que eu olhava de volta, ela me deu um sorriso gentil.

— Geralmente os estudos são iniciados na primeira infância, por volta dos sete ou oito anos. E são apenas exercícios simples de controle e disciplina, pois, Aloys lhe explicou, cada bruxo nasce com um dom natural, que exibe certo controle desde o berço. Então, por volta dessa idade, quando a magia começa a exibir um risco a própria criança e aos outros se não controlada, é necessário que ela aprenda a guardar esse poder dentro dela para que ela não incendeia a casa por acidente ou cause uma vala no chão com uma birra. – Me respondeu sem eu perguntar. – No seu caso, querida, é necessário que despertemos de fato sua magia, e então iniciaremos um processo delicado mesclando disciplina e aprendizado. Ao mesmo tempo que vai aprender a manter em seu controle qualquer que seja seu prima elementum, irá aprender a utilizá-lo.

— E isso vai ser complicado. – Aimeé jogou os cabelos sobre os ombros. – A maioria dos bruxos leva anos para aprender disciplina, e mais anos para aprender a efetivamente usar seu prima elementum. Mas vovó e Aloys estão certos que você vai conseguir sem muitos problemas. – Ela me deu seu sorriso afiado que, percebi, estava começando a gostar. – Eu ainda acho que você vai causar algum desastre.

— E como foi com você, posso saber, Aimeé? – Arqueei uma sobrancelha, mas me arrependi de ter feito muito antes dela abrir a boca. Tudo bem que eu não havia gostado do jeito que ela havia falado, como se estivesse certa do meu erro e se deliciasse com minha dificuldade. Porém, há certos momentos em que se deve manter a boca fechada. E um deles é na hora de cutucar o orgulho de Aimeé Blanchard.

Á minha volta estava o mesmo círculo de fogo que Aloys havia criado, mas ainda maior, dando a volta em toda mesa. Estava tão quente que me senti suar, mas acabou antes que o desejo por um novo banho virasse uma necessidade.

— Eu e Aloys desenvolvemos nossas habilidades ainda no berço, Bebelle. – Sua língua estralou, certeira, em cima de mim. – Temos aulas desde que nascemos. Somos prodígios. Assim como vovó.

— Mas nada disso é assunto para agora. – Rowena balançou a cabeça, olhando para a neta. – Mantenha seus nervos calmos, querida. E, Belle – ela me olhou, o sorriso se tornando menos repreendedor do que foi para Aimeé. – Você é muito amiga da menina Giraud e da menina Guillot, não é mesmo? Katriane e Therese, se não me engano. Quer que a chamemos? Devem querer dar palpite no casamento uma da outra, do jeito que cresceram juntas.

Me lembrei de quando eu, Therese e Katriane nos juntamos em meu quarto, logo depois delas saberem que eu estava praticamente noiva de Aloys Blanchard, e por isso passamos horas conversando sobre uma possível festa e cerimonia. Fiz que sim com a cabeça, sorrindo com a lembrança.

— Então, Aimeé – Rowena olhou para a neta. – E Aloys. – Meu noivo, que por um breve momento, percebi, achou que tinha se safado, prendeu o suspiro na garganta enquanto focava seus olhos nos da avó. – Poderiam fazer o enorme favor de ir chamá-las? Não está mais assim tão cedo. Então as acompanhem até a loja de Mr. Foucher. Acho que o tecido do vestido é um bom lugar para começar.

Nem Aloys e nem Aimeé abriram a boca para contestar as ordens da avó, mesmo que o primeiro houvesse torcido os lábios e a segunda soltando uma respiração profunda. Mal tive tempo de receber um beijo de Aloys antes que sua irmã o puxasse pela gola da camisa, saindo de minha casa com passos duros. Quando a porta se fechou, minha atenção foi imediatamente focada em Rowena, que fez um gesto fluido para eu me aproximar.

— Quero que perdoe a falta de controle de minha neta – ela começou quando me sentei na cadeira ao seu lado. Seus olhos reluziam e o sorriso amável desenha seus lábios. Ela possuía sardas no rosto, mais concentradas no nariz, e era incrível como essa era a primeira vez que eu havia visto. Provavelmente por elas se misturarem com o cabelo. – Ambos meus netos são temperamentais e instáveis, isso é certo. Mas Aimeé é um tanto mais inflamável, em todos os sentidos. Além de ter o fogo como prima elementum, a fazendo naturalmente impulsiva e impaciente, coisas que, inclusive, partilha com irmão, a outra parte de seu sangue é conhecida pelos nervos altos e um miserável senso de controle sobre suas emoções. Muitas vezes ela será arrogante, cruel e egoísta, em atitudes e palavras. Mas eu conheço minha neta, assim como você vai conhecer, e sei que seu íntimo não é tão rude quanto tenta parecer. Vai descobrir isso.

Me lembrei de quando ela me ajudou a lavar o rosto, depois das coisas que disse para minha mãe. Me lembrei de seu toque suave e sua prontidão para me ajudar. Até o que ela disse sobre eu ter coragem, me elogiando, talvez, querendo me animar. Aimeé não era má. Eu sabia disso. Pela forma como me estendeu a mão, pela forma como falou sobre o irmão, pelo jeito que colocava o coração em tudo que fazia. Eu sabia que ela era melhor do que um sorriso cortante e uma língua afiada. Então sorri para vovó.

— Acho, vovó, que já estou descobrindo.

Ela sorriu enquanto se inclinava e me beijava a testa, me permitindo sentir aquela calma natural que sempre escapava dela. Quando ela se afastou, já estava de pé, e seus olhos dourados reluziam de pura felicidade, como eu tinha visto na maioria das vezes até agora.

— Então acho melhor se levantar, querida. — Rowena me estendeu a mão. – Pois será um dia muito cheio.

A reação natural de quando Rowena atravessava as medíocres ruas e passava pelas casas mundanas de Melenuit era a mesma da de seus netos: destacamento, chamando uma atenção que uma pessoa comum, normalmente, não o faria. Mas ela não era comum. Era Rowena Blanchard, e apenas essa pequena parte que os aldeões sabiam era o bastante. Me perguntei o que aconteceria se soubessem todos os seus nomes e títulos, se soubessem que estavam certos sobre o que ela era. Era obvio. Aquela sensação de algo mais profundo, era possível sentir a magia fluindo de dentro dela, a envolvendo como uma capa. Seus olhos dourados, os cabelos negros, os passos seguros e o queixo erguido. Eu nunca deixaria de a comparar como uma rainha.

Ela com certeza se portava como uma.

E, no final, ela era, não é mesmo?

Acabei soltando uma risada imaginando como soava estranho e engraçado a Rainha da Corte das Bruxas bem aqui, andando pela terra úmida e convivendo com as pessoas pequenas de Melenuit, nos confins da França. Rowena me olhou enquanto eu ria, e abriu um sorriso também, como se compartilhasse de minha graça. Pelo jeito que seus olhos brilhavam, eu não duvidava, mas não pude perguntar, pois o sino da loja já tinha soado e estávamos no único lugar que vendia tecidos em toda aldeia.

De repente, senti meu estomago embrulhar ao encontrar o irmão de minha mãe. Ele também parecia surpreso em me ver, alterando entre o natural olhar de contemplação para Rowena (mesmo em um casamento feliz e satisfatório, com uma esposa bonita e seis filhos, começo a perceber, que não há homem que resista a, no mínimo, olhar para vovó por alguns segundos, mesmo que seja apenas para se recuperar do impacto de sua figura e presença), e um notoriamente surpreso e sem jeito para mim. Felizmente, nenhum de nós teve que dizer alguma coisa.

— Bom dia, Mr. Foucher, vai bem, espero? – Rowena perguntou, lhe lançando um sorriso cordial enquanto avançava para dentro da loja. Isso fez meu tio se concentrar – com certo alivio – em sua pessoa.

— Bom dia, Mrs. Blanchard, que surpresa agradável, devo dizer. E continuo bem como sempre fui – meu tio soltou uma risada, seus cabelos castanhos claros estavam presos por um laço, muito bonito. – Vai bem, também?

— Saudável como uma menina. – Ela devolveu para ela, os olhos faiscando, e meu tio tocou a fita métrica ao redor do pescoço, levemente nervoso. Por fim, decidiu ir para um assunto que poderia ter mais domínio.

— E no que posso ajudá-la, Mrs. Blanchard?

— Ah, não é nada para mim – vovó tombou a cabeça e suas mãos me buscaram, me segurando pelos ombros em botando na sua frente. – É para Belle. Seu casamento está para chegar e, obviamente, toda noiva deve ter o vestido mais bonito do mundo.

— Casamento de Belle, ah... – Tio Masson me olhou, e até mesmo conseguiu sorrir. Me lembrei que sempre gostei dele, era tremendamente mais agradável que minha mãe. Era um pouco reservado, sim, e fechado para os seus. Mas sorria de forma verdadeira, e sempre beijava os filhos e os colocava no colo quando os viam, além de rodar a mulher nos braços de forma que sempre fez Katriane suspirar. – Com o seu neto, não é mesmo? Bom, isso não será difícil. Belle sempre foi muito bonita e a cada ano fica mais, não será difícil achar algo para ela.

— Concordo plenamente, Mr. Foucher – Aimeé invadiu a loja, os cabelos flutuando atrás de si como uma capa e fazendo o sino soar enquanto mantinha a porta aberta para Therese e Katriane passarem, seguidas por Aloys. – Mas é o casamento de Bebelle com meu querido irmão, não iremos achar algo. Tem de ser o vestido mais bonito que essa aldeia se lembra de ver. Não irei aceitar me tornar irmã de alguém que esteja menos que belíssima no próprio casamento.

— Faço das palavras dela as minhas. – Katriane pôs as mãos na cintura, me olhando de cima a baixo. – Belle, querida amiga Belle, temos que pensar o que fazer com você. É certo que Deus não lhe favoreceu na altura...

— E nem a você, Katriane. – Disparei. Ela era apenas um ou dois centímetros mais alta! Porém, como de costume, Kat prosseguiu sem me dar muito ouvidos.

— Mas seu cabelo é espetacular e seu rosto divido!

— E pode ser pequena, Belle – Therese tombou a cabeça. – Mas não deixa de ser uma das garotas com melhor corpo na aldeia inteira.

— Com licença – Rowena interrompeu o falatório, e olhou para o neto, que ainda estava em silêncio e escondido ao lado da porta. – Aloys, querido, fora.

— O que?! – A boca dele se abriu, claramente contrariado. – Porque?!

— Ora, ver o vestido da noiva dá azar! Além do que, você é homem, e tudo que será dito aqui é exclusivamente do universo contrário. Pode ser íntimo de sua irmã, mas creio que as outras damas não se sentiram à vontade com sua presença. Então, por favor?

Meu noivo ainda olhou para a avó por mais uns segundos, mas quando Rowena arqueou uma sobrancelha ele se desencostou da parede e foi em direção a porta. Aimeé fez questão de abrir, sorrindo para ele como sorriria para algum condenado em direção a forca, e enquanto se contorcia do beliscão que seu irmão lhe deu na cintura, fechou a porta com brutalidade, conseguindo acertar suas costas.

Rowena, aparentemente, não deu importância a isso, pois já estava conversando com meu tio e ele fazia o rosto sério e concentrado, imaginando possibilidades para o que ela falava, com a experiencia de quem mexia a anos com tudo isso. Katriane e Therese estavam ao lado dela, também dando sugestões e ouvindo as respostas, enquanto Aimeé vasculhava todas as amostras que via pela frente, o olhar crítico e as mãos ansiosas. Eu mesma não tive lá muito tempo para rir da briga entre ela e Aloys, uma vez que meu sorriso foi transformado em uma abertura pela sobrecarga de informações quando fui puxada por Kat.

Minha cabeça rodava quando, mais de duas horas depois, saímos da loja. O mais impressionante era que apesar de passar todo esse tempo revirando e analisando ideias, não saímos com praticamente nada decidido. Agradeci ao meu tio pela paciência, e ele me assegurou que faria questão de meu vestido ser a melhor criação de sua loja, que ele mesmo tomaria a frente de tudo. Era sempre reconfortante ver alguém que amava seu trabalho, e esse era o caso de tio Masson. Eu podia ver seus olhos brilhando e as mãos inquietas enquanto saímos e ele ficava lá, rabiscando freneticamente um caderno, provavelmente fazendo esboços com tudo que acertamos.

Rowena era extremamente exigente e perfeccionista. O mesmo se podia dizer de Aimeé, Katriane e Therese. Isso fazia a maioria de suas ideias difíceis e improváveis, e meu tio sorria ao aceitar o desafio. Eu mesma estava ali apenas para dizer sim ou não, pois as ideias eram todas tiradas da cabeça delas. Não tinha qualquer problema com isso, pois era verdade que não tinha a menor ideia do que queria e confiava plenamente em qualquer uma delas para organizar meu casamento.

Porém, já era praticamente a hora do almoço quando saímos e talvez fosse a incontável quantidade de nome de tecidos e cortes, mas minha cabeça doía e eu precisava descansar um pouco. Não avistei Aloys em lugar nenhum, mas nem Aimeé e nem Rowena o procuraram. Continuaram em direção a minha casa, seguidas por Therese e Katriane, que aceitaram o convite para o almoço, e quando entramos, pude ver meu noivo deitado no sofá.

Ele era do tamanho do móvel, e tinha uma perna esticada e a outra apoiada no chão. Um braço jogado por cima dos olhos enquanto sua respiração subia e descia. Katriane imediatamente falou de falar quando percebeu que tinha alguém dormindo, e Rowena sorriu para o neto. Mas Aimeé deu um sorriso malicioso enquanto deslizava em direção ao irmão. Já estava a dois passos dele quando a voz de Aloys saiu e seus olhos aparecerem, estreitados para a irmã.

— Nem pense nisso, fedelha.

— Pensar no que, estupido? – Ela arqueou uma sobrancelha, colocando as mãos para trás e encolhendo os ombros. – Estava apenas indo acordar meu amado irmão mais velho. Não queria que perdesse o almoço. É uma refeição muitíssimo importante do dia. Não é mesmo, vovó?

— Não me meta nisso, querida. – Rowena balançou a mão, como se afastasse com ela qualquer envolvimento em mais uma discussão de seus netos. – Aloys, querido, está em cima da hora, nos ajude na cozinha, sim? E Belle, fique aqui com suas amigas. Se seu pai chegar para o almoço, diga para ele esperar com vocês. É adorável, mas ele apenas ficar parado lá para me olhar é algo dispensável, temos o dia cheio. – Nessa hora os gêmeos soltaram uma risada abafada. – O mesmo com seu irmão, sim? – E me beijou os cabelos. – Um instante.

Ela deu as costas e foi para a cozinha, seguida por Aimeé. Aloys ainda parou na minha frente, me dando um beijo na frente de minhas amigas, e então as seguiu. Permaneci parada, sorrindo como uma tonta enquanto ainda sentia meus lábios quentes desse contato tão breve. Mas logo estava sendo arrastada para o sofá por uma Katriane eufórica, que se sentou ao meu lado e pegou minhas mãos.

— Deus, Belle, ele não tem vergonha! – Não me parecia exatamente uma ofensa. – E Mrs. Blanchard, não acredito, ela realmente tomou conta da casa! Foi fazer comida como se fosse a própria Mrs. Bertrant. E vai ser, eu lhe garanto. Seu pai deve estar ocupado com seu casamento, mas não duvido que na primeira oportunidade ele irá dar um jeito de se desfazer de sua mãe! Ah, tinha toda razão, sabia? Eles não são tão ruins.

— Quando nos buscaram, Aimeé parecia perdida. – Therese tombou a cabeça. – E irritada. Aloys estava mais calmo, explicou a situação e pediu que nós os acompanhassem. Quando Katriane perguntou porque, ela parecia prestes a soltar alguma, mas seu noivo segurou seu braço e impediu.

— Eu podia ver o sorriso dela se formando e já estava me preparando para o baque – Kat bufou. – Tem uns olhos maldosos, ela, não é? Mas apesar disso, qualquer uma que também ache babados um dos sete pecados capitais merece o benefício da dúvida.

Eu ri com isso, segurando em suas mãos. De certa forma, me fazia feliz saber que Katriane havia gostado, em algum nível, de Aimeé. Algo dentro de mim desejava que fosse reciproco. Talvez por ela e Therese serem parte importante da minha vida, e apesar de ser uma parte que iria deixar para trás, gostaria que pudessem conviver bem com o novo pedaço, do qual Aimeé fazia parte.

— E quem sou eu para lhe convencer do contrário, não é mesmo?

Me senti de novo uma menina, ao lado de minhas amigas, cercada dos olhos pesados de Therese sua meia atenção e das bochechas coradas de Katriane. Ela continuava a falar de tecidos, lista de convidados e flores. Com grande surpresa fiquei sabendo que existia um debate para escolher, até mesmo, o tipo de guardanapo que se colocava. Perguntei se não era tudo a mesma coisa e Kat parou de falar por alguns segundos, olhou bem para meu rosto e então prosseguiu.

Aparentemente, preferiu não me dirigir resposta.

Quando o almoço ficou pronto e papai chegou para almoçar, avisou que Etienne almoçaria na casa dos Foucher, provavelmente por insistência de Eveline, achei que teria um tempo a sós para realmente aproveitar a presença de meu noivo. Mas tudo que consegui fazer foi colocar minha mão por cima da sua – que estava no meu colo -, durante o almoço, e então fui sequestrada novamente por Aimeé. Não tive nem chance de pedir socorro, pois Kat e Therry ajudaram ela a me segurar, e vovó tinha a atenção de meu pai nela, enquanto ia para a cozinha, com ele logo atrás.

Aloys, resignado e mal-humorado (pude ver pelos seus olhos mais cinzas do que violetas), se deitou novamente no sofá, esperando qualquer que fosse a nova ordem de sua avó, e se não houvesse, talvez tirasse um cochilo.

O dia passou com mais dúvidas do que certezas, e eu estava a ponto de arrancar meus cabelos, sendo que nem era quem estava propriamente organizando. Rowena riu do meu desespero e disse que era completamente natural. Um casamento demorava mais que um dia para ficar pronto, e assim, logo no primeiro, é claro que não haveria nada certo. Mesmo assim, não deixei de me revirar na cama, à noite, nervosa e ansiosa, com detalhes, tecidos e pétalas girando ao redor de minha cabeça. Esperava que o dia seguinte fosse mais tranquilo.

Mas não foi.

E nem o próximo.

Ou o próximo.

Nem sequer as semanas seguintes.

Se transformou em rotina, todo dia, os Blanchard chegaram à minha casa durante o café da manhã. Nunca comiam, pois diziam que tinham acabado o deles, mas sempre se sentavam à mesa. Eu poderia ter sorte e ser acordada por Aloys (e então eu poderia lhe dar um beijo ou dois e sentir o calor de sua pele), mas normalmente era acordada por Aimeé, ou até mesmo Rowena. Eu sabia diferenciar as duas antes mesmo de abrir os olhos, pois a primeira, era certo, faria um barulho infernal ou me jogaria alguma coisa, às vezes me arrancando as cobertas ou me jogando da cama.

Às vezes, eu me irritava – e isso acontecia quando sonhava com Aloys -, mas com o passar dos dias passei a jogar de volta tudo que ela me jogava, e fazer com que ela arrumasse novamente minha cama, então ela me penteava o cabelo com aquele sorriso cruel e olhos faiscantes “acordou irritadinha, Bebelle? Chamarei Aloys para você, tenho certeza que meu irmão será capaz de lhe acalmar em instantes”. Suas frases maliciosas me faziam corar no início, e ainda conseguiam, mas agora também me faziam rir. Enquanto ela me penteava o cabelo com dedos habilidosos, naquelas semanas, tive certeza que Aimeé não era má. Havia uma vivacidade pura nela, uma energia inesgotável e uma chama ardente. Ela brilhava atrás dos seus olhos. Era bonito e admirável. Essa era Aimeé Blanchard, e apesar de aprender a gostar de sua língua-chicote e sorriso cortante, ela era bem mais bonita dessa forma: com os olhos brilhando e a covinha aparecendo.

Já Rowena era algo diferente. Sabia que ela estava no quarto antes mesmo de abrir os olhos, antes mesmo de sair completamente do mundo dos sonhos. Era como uma sensação de afago, de convite, algo quente e tranquilizante, que me pegava à mão e me guiava para a realidade. Quando abria os olhos, podia focar os olhos dourados da minha infância, tão perto de mim como nunca achei que ficariam. Reluzindo minha imagem na meia-luz de meu quarto. Ela sempre estava com um sorriso amável, e sua mão no meu rosto. Suas palavras vinham macias como patas de um gato, e caiam sobre mim com a vagarosidade de folhas ao vento.

— Bom dia, querida, levante-se, sim? Não me obrigue a lhe tirar da cama. – Ela geralmente ria quando dizia isso, e seus olhos ganhavam um brilho particularmente parecido com o de Aimeé, e eu me perguntava se ela realmente me tiraria da cama algum dia.

Uma vez, comentei com ambos os gêmeos sobre isso, e eles me olharam como se eu estivesse louca. “Não tente a sorte” foi o que eles disseram “a menos que queira tirar água da sua orelha até ter cem anos”. Depois disso, parei de enrolar, mesmo que um pouco, e me levantava assim que abria os olhos.

Depois do café, não demorava muito para Katriane e Therese se juntarem a nós. Claro, as vezes uma não podia logo cedo, e outra tinha algum compromisso. Therry sempre ajudou na loja dos pais, e Kat estava com olhos mais brilhantes, pois com sua ótima experiencia de ouvir conversas alheias, soube que seu noivado com Lenard estava mais próximo do que nunca. Ao que parecia, os Pottier estavam apenas esperando toda essa agitação pelo meu casamento passar, para anunciarem o próximo. Não via problemas nisso. Kat merecia ter as atenções todas nela, era o mínimo.

Passávamos o dia inteiro juntas, eu, Rowena, Katriane, Aimeé e Therese. Fizemos do escritório de meu pai um local para entulhar ideias e reuniões de horas sobre detalhes que eu apenas me deliciava com os debates acalorados entre Aimeé e Kat, sendo sempre controladas por Rowena, enquanto Therese geralmente se apoiava em algum lugar e se perdia dentro de si mesma. Aloys, pobre Aloys, pouquíssimas vezes pode nos fazer companhia, então passava a maior parte de seu tempo em algum canto, provavelmente cochilando, ou no meu quarto, lendo meus tesouros.

Eu mesma, em todo esse tempo com ele tão perto de mim, mal conseguia o ver ou o tocar. Ficávamos realmente juntos apenas nas refeições e quando ele me acordava, o que me deixava ansiosa e irritada. Quando ele percebia isso, sempre me beijava a testa e dizia “teremos todo o tempo do mundo, bambina, tenha paciência”. Bom, sempre me considerei uma pessoa bastante paciente, mas tudo tinha limite. O que me fazia respirar fundo eram seus beijos. Na testa, no rosto, nos lábios, na cabeça, na mão. Sempre que me via, Aloys me beijava. Parecia a forma dele de compensar, tanto para ele quanto para mim, nosso tempo separados. Ele me sorria e seus olhos brilhavam, tão violetas que me deixavam sem ar, e para mim, apenas para mim, mostrava por um segundo ou dois a ponta de seus caninos.

Meu pai, também, parou de fazer qualquer refeição fora de casa. Era seu costume, uma vez que ir para casa significava comer com Eveline. Mas agora que Rowena fazia o almoço e ficava até o meio ou fim da tarde, era pontual como as badaladas dos sinos da Igreja que na hora do almoço ele iria abrir a porta de casa. Então ele cumprimentava quem estivesse em seu caminho, me beijava o rosto e ia em direção a Rowena. A cada dia um pouco mais era possível ver como estavam mais próximos.

Os olhares eram mais demorados, os sorrisos mais direcionados e os toques mais frequentes. Não me lembrava de alguma vez ter visto papai fazer mais do que pegar na mão de vovó, em um cumprimento ou despedida. Agora, era possível ver em como seus braços as vezes a envolviam enquanto ela dançava pela cozinha, fazendo o almoço. Ela então olhava para ele, e seus olhos brilhavam antes de se soltar em um par de passos, deslizando para seu destino original.

No meio da bagunça que estava minha própria vida, era verdade que não estava tendo muito tempo para conversar com papai. Gostaria de o perguntar quais eram seus planos em relação a Eveline, e se realmente se casaria com Rowena. Repetia meu desejo que sim para as estrelas e a lua, dia sim, dia não, e esperava que um dia fosse atendida.

Os dias se passaram e foram se tornando cada vez mais frios. No fim da primeira quinzena de novembro as chuvas eram poucas. Agora faltava bem pouco para o inverno, e capas, botas, vestidos e casacos grossos eram indispensáveis. A neve em si ainda não caia, mas não devia se demorar muito agora. Mais do que nunca, apreciava quando sentia o corpo quente de Aloys debaixo das grossas cobertas junto de mim. Porém, para dar uma novidade, não era propriamente nele em que estava pensando, parada do lado de fora de casa. Os Blanchard já haviam ido embora e o sol se punha através das árvores, tornando tudo ainda mais escuro e cada vez mais sem cor. O céu, as árvores, o chão. Mas assim como, ao que parecia a uma vida de distância, o sol do verão era incapaz de me descongelar por dentro, a falta vida do fim do outono era incapaz de me arrancar as cores.

Meu casamento com o de Aloys havia sido marcado para dali cinco dias.

A lua estava alta no céu, e não demoraria muito para estar cheia outra vez. Me lembrei da anterior, quando me senti incapaz de dormir e abri a janela. Mais do que a outra vez, sentia como se nada me fosse fazer mal. Olhei as estrelas, a floresta e a lua. Olhei até mesmo mais além, tentando enxergar pela extensão de galhos a colina onde Aloys havia me entregado sua aliança e me contado o que ele era, quem eu era. Não consegui, mas, podia jugar que vi, pelo canto dos olhos, um par de olhos violetas-cinza, bem ali, na borda da floresta. Quando olhei de novo, já não estava mais lá. O uivo que cortou a noite fez, provavelmente, crianças correrem para as camas de seus pais e pais agarrarem seus filhos. Mas eu dormi sorrindo, e sonhei com o cinza em seus olhos violetas, me mirando como alto inestimável.

Na próxima vez que a lua subisse cheia no céu noturno, eu já estaria casada com Aloys Blanchard. A aliança mudaria em meu dedo e eu estaria morando nas profundezas da floresta, na misteriosa mansão Blanchard. Parte de mim sentia um frio correr pela minha espinham como dedos pontiagudos querendo me arrastar de volta para a bolha de medo e insegurança onde fui criada. Mas me recusava. O calor no meu coração e o fogo nas minhas veias não permitiam tal coisa. Eu sabia o que Aloys era, não detalhadamente, mas sabia.

Meu noivo era neto de uma bruxa. E não apenas qualquer bruxa, era a Rainha da Corte e Domine seja lá o que for.

Era um dos Filhos do Lobo. Junto com sua irmã, com o cinza tão selvagens e sorrisos tão perigosos, escondendo ardilosamente seus dentes tão afiados.

A magia deles era fogo, o que os faziam arrogantes e egoístas, mas também motivados e vivos.

Seus olhos eram violetas, mas também eram cinzas.

Esse era Aloys, e tudo isso era meu. Pois eu sabia, eu sabia com todas as forças, Aloys era tão meu quanto eu era dele. Cada fibra, cada batida de coração e cada ar que puxava para os pulmões. Se a lua iluminava a escuridão impenetrável da floresta, também podia fazer com que a chama se acendesse por trás de seus olhos, podia fazer meu coração bater.

Prometi que não teria medo. Não tinha. Nem de Aloys, nem de mim, e nem do que quer que me aguardasse. Naquela noite, deitei a cabeça na cama sentindo minha pele arder e minha cabeça rodar. A luz da lua se infiltrava em meu quarto e acabou fazendo o mesmo com meus sonhos, mas de forma alguma achei algo incômodo. Na luz da lua que crescia, senti meus sentimentos seguirem seu exemplo. Ansiedade, animação, felicidade, paixão.

Paixão que corria dentro de mim.

Paixão que me esquentava a alma.

Paixão para me fazer acreditar.

Na minha vida, em meu pai, nos gêmeos, em Rowena. E em mim. Enquanto tivesse a mim, teria paixão. Enquanto tivesse paixão, teria coragem. E enquanto tivesse coragem, permaneceria leal a mim mesma. Era tudo que eu poderia querer.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim ♥ Bjs da tia! ♥