Lua da Manhã

2 Inocência Cruel


Notas iniciais
Primeiro capítulo *-----* Meu tempo tem estado bastante corrido esses dias, então escrever tem custado meu sangue. Portanto não custa nada você copiar o link da fic na testa e sair gritando e correndo pela rua, custa? rsrsrs brincadeira, apenas deixar um comentário com a sua opinião já vai ajudar muito! Boa leitura!!! :D E não esqueçam de me seguir no twitter ;) @RylanRMorgan

No início Alana não tinha ideia do que estava acontecendo, a dor era tão intensa que pensar estava fora de questionamento. Todo o seu corpo estava em chamas, disso ela sabia. Sentia-se mergulhada no fogo, ardendo eternamente. Por mais tempo que se passasse, o fogo não diminuía, ela não morria ou a inconsciência a derrubava. Estava sempre consciente, absorvendo cada gota da dor insuportável.

Ela percebeu que gritar não adiantava, havia perdido totalmente a noção do tempo e começava a esquecer de quem era e dos que amou um dia. Até o acontecimento na nevasca agora era um fato distante e sem sentido. Os anos se encarregaram de destruir toda a humanidade que havia na garota, e quando estes se tornaram séculos, sua alma havia sido transformada, moldada pelas chamas.

***

A sua boca estava seca e ela sentia o vento frio que batia em seu rosto, secando os lábios já rachados. Como por extinto, sabia que precisava beber alguma coisa. Com a mente completamente bagunçada, abriu os olhos esperando entender o que estava acontecendo, mas isso não ajudou. Se deparou com um céu sem lua, onde as estrelas brilhavam com força pela ausência de uma luz mais forte.

Ela lembrou-se que podia mover as mãos e apertou a grama que cobria o solo embaixo do seu corpo. A sensação era boa, mas haviam mais um milhão de coisas que ela queria descobrir. Logo se deu conta das suas pernas e se pôs de pé, cambaleando no início. Inspirou profundamente o ar puro da planície, até que seus pulmões queimassem de tão cheios.

Notou que usava um longo vestido branco de seda fina, que causava um toque delicado na pele. Ela não entendia como havia chegado ali, não sabia de onde havia vindo, ou para onde ia. Tudo o que podia fazer era olhar em volta, redescobrindo o mundo que a séculos atrás havia deixado.

Havia um imenso carvalho a frente, os galhos frondosos balançavam suaves com a brisa, completamente silenciosos. Alana notou uma forma humana recostada ao tronco, numa postura despreocupada. Assim que percebeu que havia sido notado, o homem deixou seu posto de espera — onde aguardou que a menina acordasse — e caminhou até estar a poucos metros de Alana. Semi-iluminado pela luz das estrelas e projetando uma fraca sombra no chão.

Seu rosto era familiar, embora ela tivesse certeza de que nunca o havia visto antes. Possuía um corpo forte, coberto por um manto negro, com o mesmo tom de seus olhos e cabelo. Os lábios se retorciam em um sorriso confiante e debochado, que se destacava na pele clara. Mas não era nada nele que chamava a atenção de Alana. O que estava fazendo a sua respiração acelerar e os pelos da nuca eriçarem era a sua sombra. Um homem alto com cabeça de bode.

Ela o reconheceu no mesmo momento. Toda a dúvida e incerteza que sentia até agora se extinguira. Era dele que ela vinha, era até ele que ela ia. Algo dentro de si a lembrava que devia se curvar diante do seu mestre. Ela se ajoelhou e esperou, enquanto o homem se aproximava e lhe tocava a cabeça.

– Mestre... – Alana sussurrou, uma única palavra, mas que possuía todo o significado de sua existência. Ela vivia para servir e isso era tudo o que sabia, tudo o que precisava e queria saber.

– É bom vê-la forte novamente, minha menina. – Respondeu o demônio, falando em voz alta com Alana pela primeira vez. Sua voz era igual à que ela ouvia em sua cabeça, diferenciando apenas por uma vibração que não sentia em seus pensamentos. Alana se pôs de pé, olhando fixamente nos olhos chamativos do seu mestre. Atraída pela energia que ele emanava. – Eu lhe dei tudo o que precisou, agora é a sua hora de retribuir. – Ele completou, aproximando a sua testa da dela e enviando os pensamentos que queria compartilhar.

Alana afogou-se na mente do demônio, preenchida com os pensamentos dele. Ainda o sentia segurando suas mãos, a testa encostada na sua, mas não era nada disso que via. Em frente aos seus olhos havia uma vila pequena que começava a prosperar, situada um pouco ao norte de onde ela estava agora. Imponente no meio das casas, uma pequena capela com paredes de pedra, abrigava um menino esquelético e sujo, sentado em um dos banco. Alana viu quando um senhor usando vestes desbotadas de um padre saía de trás do altar trazendo um pedaço de pão e alimentando o garoto. O rosto do padre pairou no fundo das pálpebras de Alana, por tempo suficiente para que ficasse tatuado na sua mente. Quando as imagens desapareceram, ela viu os olhos negros do seu Senhor novamente e este lhe disse:

– Mate-o.

Ela acenou positivamente com a cabeça, como uma criança querendo agradar aos pais. Tudo dentro dela dizia para fazer o que ele mandava. Não havia nenhuma culpa, remorso ou medo. Haviam sido destruídos pelas chamas do inferno e agora não havia nenhum bom senso em sua mente que a fizesse negar o pedido.

– Mas como posso fazer isso? – Ela perguntou – sou apenas uma menina, não terei forças...

O Demônio colocou um dedo em seus lábio, os fazendo silenciar. – Você tem tudo do que precisa. Sua vida é eterna, é poderosa e logo vai descobrir como usar toda a sua força, só precisa sentir...

Ele deslizou sua palma levemente pelo rosto dela até seus olhos, os fechando. Alana procurou em seu interior o poder que ele havia mencionado e se deu conta da energia que fluía do seu corpo, da forma como ela se misturava e dominava tudo ao redor.

Bastou concentrar-se mais um pouco para controlar o seu poder, podia influenciar em tudo, destruir o que quisesse. Tinha o mundo ao redor em suas mãos. A sensação de comando fez com que um sorriso travesso cruzasse seu rosto.

– Você já sabe o que deve fazer, e quando chegar a hora saberá como. – Disse o demônio, despertando-a dos seu momento de glória e acenando para que ela seguisse com a sua ordem.

– Mas e depois? Como posso encontra-lo novamente? – Perguntou Alana, já sentindo uma pontada no peito apenas em pensar em deixar seu criador.

– Quando eu precisar novamente, eu irei procura-la. – Ele respondeu. E com isso, sua forma escureceu e se desfez, deixando alana sozinha na planície. Naquela noite sem lua.

***

Embora já caminhasse a algumas horas a exaustão não lhe atingia, seu passo continuava firme e sua respiração estável. Depois de andar por alguns quilômetros, atravessando um riacho e dezenas de arbustos, Alana chegou a pequena vila, com uma expressão satisfeita no rosto.

O céu começava a mudar de cor com os tons do amanhecer e alguns homens saiam de suas pequenas casas de madeira. Todos pararam onde estavam quando a viram chegando. O cabelos negro e longo estava um pouco assanhado, de um jeito selvagem. A pele clara trazia um pouco de sujeira, mas continuava contrastando perfeitamente com os olhos azuis e os lábios incrivelmente vermelhos.

Seu delicado vestido de seda estava sujo e rasgado depois longa caminhada apressada. Além disso, estava molhado, fazendo com que colasse em seu corpo em alguns pontos, o que destacava ainda mais suas formas arredondadas e firmes.

A visão era de tirar o fôlego e não era de se espantar que todos estivessem com os olhos vidrados enquanto ela passava por eles com uma postura arrogante. Bonita como uma rainha e desleixada como uma escrava. O mistério deixou todos que a viram ainda mais encantados. Logo Alana descobriria que sua nova e incomum beleza seria uma das suas melhores armas.

Não demorou muito para que ela encontrasse a capela. As portas de madeira estavam fechadas, mas só precisou forçar um pouco para que se abrissem o suficiente para que ela entrasse.

Quando seus olhos se acostumaram com a falta de luz, ela ficou deslumbrada com toda a beleza que a igreja Católica ostentava. Os bancos de madeira polida estavam bem distribuídos, divididos em dois grupos por um longo tapete vermelho que ia até o altar. Repleto de estátuas e pinturas sagradas. As paredes de pedra continham grandes janelas, com vitrais coloridos e bem trabalhados.

Alana caminhou curiosa até uma pequena fonte no canto esquerdo, a estátua de um anjo derramava água de um vaso, provocando um barulho baixo que ecoava por toda a capela. Ela se aproximou e bebeu da água pura e benta, e mesmo estado com o estômago cheio dela, ainda lhe faltava algo para saciar sua sede.

O barulho de um engasgo atrás de si lhe chamou a atenção. Alana se virou devagar para o padre assustado. Ele devia ter acabado de chegar para abrir as portas da igreja e claramente não esperava encontrar ninguém ali.

– Precisa de alguma coisa, minha criança? – Ele perguntou, limpando a garganta para se recuperar de sua surpresa.

Alana sorriu maliciosamente, era ele que precisava matar. Era instintivo, o demônio tinha razão, ela sabia exatamente o que fazer.

– Eu ainda tenho cede. – Ela respondeu, com a voz aguda e dramática, aproximando-se vagarosamente do padre idoso. Ele ficou parado onde estava, encantado com toda a inocência cruel que Alana exalava. Não sentiu medo, ela era como um anjo negro. Atraente e perigoso ao mesmo tempo.

Alana parou quando seu rosto estava bem próximo do dele e fez o que sua nova natureza foi criada para fazer. Nem precisou se concentrar muito para que sua energia fluísse de seu corpo e se misturasse ao corpo do padre. Ela sentia cada parte do corpo dele como se estivesse tocando, sentia seu coração bater, sua respiração acelerar ao notar que estava completamente dominado e teve acesso a todos os seus pensamentos agora assustados.

Havia algo mais ali, algo além do material. A alma do padre fez com que a garganta de Alana apertasse de desejo. Olhando em seus olhos, ela os assistiu perder o brilho da vida, enquanto embalava sua alma com seu poder e a absorvia.

Sua sede – ou seria mais adequado chamar de fome – foi totalmente saciada. O corpo do padre caiu duro no chão, os olhos apagados e a pele branca como papel. Satisfeita por ter cumprido seu dever, Alana fugiu por onde entrou, um sorriso cruzando seu rosto de um lado a outro ao pensar que deixaria seu mestre orgulhoso.

Notas finais
Continua... Obrigado pela leitura! Até o Próximo Capítulo. (Caso tenha esquecido, não esqueça de deixar um comentário e de me seguir no twitter! @RylanRMorgan)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.