Lua Vermelha

3 Lua Minguante - Parte II


As gotas da chuva escorriam sem parar pela janela à sua frente. Sentada naquela velha poltrona marrom de couro, com suas pernas encolhidas contra meu tronco, seus longos cabelos negros caindo sobre seu rosto, escondendo seus olhos vermelhos — um traço de sua mutação -, e vestindo aquele estupido macacão cinza, Illíria provavelmente não passava uma imagem muito assustadora ou desafiante, mas ela precisava que as coisas seguissem assim, exatamente como o planejado.

Ela sabia que precisava se manter lúcida para o que tinha em mente, qualquer atitude que eles considerassem agressiva seria a desculpa perfeita para envolverem sua mente com doses de drogas e tranquilizantes, o que atrapalharia em muito sua fuga.

Não, ela não podia demonstrar sua agitação ou sua fúria. Precisava permanecer dona de si e não uma boneca dopada num quarto escuro, o que provavelmente aconteceria se eles a considerassem ameaçadora.

Illíria ouviu o som de suas vozes se aproximando pelo corredor e tevee que lembrar-se de manter uma expressão serena ao ouvir a voz de Daniel. Ela me recusava a chamar aquele homem de pai.

Daniel Rivers não passava de um pilantra, um mentiroso filho da puta que tinha a incrível habilidade de fazerem as pessoas acreditarem nele, motivo o qual lhe havia feito ser reeleito novamente como governador.

Ele era um homem esperto, mas Illíria sabia que também era, e chegaria o dia que ela o destruiria. Daniel ficou para trás para falar com seu médico responsável e sua mãe se aproximou, apesar de tudo a morena não a odiava, mesmo que tivesse feito nada para lhe ajudar quando Daniel decidiu a internar naquele maldito buraco que eles chamavam de hospício.

Ela não estava louca.

Pelo contrário, era mais sã que muita gente fora daqueles muros.

Sua mãe sempre tinha sido uma mulher linda, mas havia momentos que não ela conseguia compreender por quê ainda continuava junto daquele homem? Escondida atrás de toda a maquilagem, seus anos de convivência com seus pais, sabiam reconhecer as marcas roxas sobre sua pele.

Ele continua a bater nela, disse Nyx como uma voz irritante dentro da sua cabeça. Os médicos diziam se tratar de seu alter-ego, sua personalidade escondida atrás da personalidade fria e distante que exibia. A personalidade que Daniel queria que desaparecesse, afinal, ele sempre tinha conseguido manipular Illíria a seu propósito, mas não Nix.

Eu sei, resmungou Illíria mentalmente com sua outra personalidade. Quando ele me batia era por uma questão de posse, luxúria, cuidado, como se ele me marcasse como dele. Para meu pai sempre foi tudo apenas uma questão de poder. Mamãe... Ele a bate apenas para que fique calada.

Ela está tão fudida garota, respondeu Nyx.

Ela não fará nada... Não adianta lhe avisar, lembrou Illíria a sua voz.

Sua mãe sentou-se a sua frente e abriu um sorriso. Ela estava tão morta por dentro que Illíria poderia jurar sentir o cheiro da carne apodrecida de um cadáver em seu hálito.

A morena então tirou seu maço do bolso e traguei seu cigarro lentamente, deixando a fumaça escapar por entre lábios. Ela precisava da Nyx, precisava dela para encarar sua mãe e não fraquejar.

— Você deveria parar de fumar, lhe faz mal – disse sua mãe, tirando o cigarro de sua boca e o apagando.

Illíria sentiu o impulso de revidar, empurrá-la para longe por ousar interferir em seu espaço pessoal, mas respirou fundo e controlou sua raiva.

—Esse é o menor dos meus problemas, mamãe. – respondeu a garota, revirando os olhos.

— Eu tenho falado com seu pai...— sua mãe começou. — Sobre... sobre tirar você daqui. — ela completou.

— Ele a bateu por isso, não? — Illíria em um tom um tanto quanto amargo, observando sua mãe levar sua mão até sua bochecha direita. — Não se preocupe, ninguém mais percebeu. Eu apenas aprendi a reconhecer seu padrão de maquiagem.

— Não é sempre assim, seu pai não é um homem ruim... Ele tem apenas muitas responsabilidades e deveres.

— Eu não quero ouvir suas desculpas sobre... sobre aquele homem. — disse Illíria, começando a sentir a fúria borbulhar dentro de si.

Se acalme garota, você não quer que te dopem hoje. Lembrou-lhe Nix.

— Podemos falar de outra coisa, por favor?

— Ah sim, claro. — disse sua mãe. — Sobre o que você quer saber?

— Marla... Como ela está? — perguntou Illíria, realmente preocupada.

Sempre tinha tido medo que seu pai também começasse a bater em sua irmã mais nova, em algum momento ao longo de seus dezenove anos, ela tinha deixado de se importar com as surras de seu pai, mas Marla? Ela sempre temeu por Marla. Sua irmã era ainda uma criança, tinha apenas oito anos, tão doce e inocente... Ela não queria que sua irmã fosse machucada.

Vamos levá-la conosco, sugeriu Nix.

Como? Perguntou Illíria.

Quando fugirmos daqui, vamos buscar Marla.

— Illíria? Querida?

Tinha estado tão distraída que nem mesmo tinha escutado o que sua mãe tinha falado, precisava pensar em uma desculpa, rápido.

— Desculpe, são os remédios... eles me deixam com muito sono. — ela mentiu.

— Entendo querida, mas é para seu bem.

Você apenas quer acreditar nisso, ela sentiu vontade de dizer, mas preferiu simplesmente ficar em silêncio.

— Preciso ir, seu pai não pode ficar muito... Hoje ele tem uma festa importante no senado para ir. Sabe, com todos aqueles aliens chegando e tudo mais.

Sim, ela sabia. Tinha acompanhado a notícia nos jornais e telepontos, e estava contando com o fato para ajudar em sua fuga daquele lugar.

— Alien é um termo considerado ofensivo, mamãe, eles preferem estrangeiros. — lhe lembrou Illíria.

— Eu ás vezes esqueço disso, querida. Preciso ir... Te vejo semana que vem, meu bem. — disse sua mãe lhe depositando um beijo em sua testa.

Sabendo que não haveria semana que vem, Illíria segurou o pulso da mulher, impedindo que ela se movimentasse.

— Mamãe...

— Sim, querida?

— Eu te amo.

— Eu também, querida.

Adeus mamãe, ela pensou consigo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.