Lua Negra
1 Lua Negra
Sabe quando você vai dormir, apaga a luz e tudo fica escuro a sua volta e por mais que você tente enxergar alguma coisa não consegue? Então é assim que eu me sinto agora que já não posso ver as pessoas, a claridade e nem o mundo a minha volta.
Me chamo Isaque, sou negro e moro no morro, lá todo mundo é muito feliz e vivemos longe daquelas pessoas brancas e metidas que se acham superior só porque tem um tênis de marca ou uma bolsa de grife. Talvez se eu fosse branco como eles, as pessoas gostassem mais de mim e se eu fosse rico teria mais status e as meninas com certeza gostariam de ficar comigo. Mas se a vida fosse feita de talvez, ela não seria vivida. Diariamente no caminho para a escola sempre escutei ofensas e no ônibus tinha aquelas pessoas que me olhavam de canto de olho como se eu fosse um ladrão ou alguma coisa assim. Acho que em um país com uma porcentagem tão alta de população negra as pessoas não deveriam ser preconceituosas, mas mesmo que neguem e afirmem ser contra o preconceito, a hipocrisia reina e a minha realidade é a de muitos outros negros que vivem aqui.
Todas as noites depois de um dia cansativo na escola e todo o tempo e dinheiro gasto com três conduções, eu chegava em casa. Via minha mãe de quem eu tenho muito orgulho, que também chega sempre exausta depois de um dia de trabalho e meus quatro irmãos, isso mesmo minha mãe teve cinco filhos, eu, a Eduarda, o Pedro, a Cristina, e o Paulinho que é meu irmão caçula. Eu sempre jantava e ia para meu quarto e abria a janela, e era então que me encontrava. Lá estava ela linda e majestosa como sempre a lua minha fonte de inspiração. Eu tenho muito medo do escuro, todo mundo pode pensar que isso é coisa de menina, mas eu não me importo, então dormia com a janela aberta para que a lua pudesse iluminar a minha noite e os meus sonhos até aqueles mais distantes da minha realidade.
Lembro bem que era um sábado à tarde, o sol estava iluminando aquela tarde quente e agradável. Eu saí de casa logo após o almoço e estava a caminho do mercado, minha mãe tinha mandado eu comprar um produto de limpeza do qual não me lembro o nome.
Eu estava cruzando a esquina quando um grupo de garotos me cercou eles estavam drogados e bêbados. Eram um sete ou mais, uns eram altos, outros baixos, gordos e magros, mas de uma coisa eu tenho certeza eram brancos, todos filhinhos de papai, pois vestiam roupas de marca e traziam garrafas de bebidas importadas nas mãos.
Eles me arrastaram até um beco bem próximo, eu tentei fugir mas foi inútil, eles me bateram e eu tentei revidar mas eu era um só contra vários. Me deram chutes, socos, pontapés, me chamaram de macaco chimpanzé.
Em um momento eu tentei me levantar e sair correndo mas um deles jogou uma garrafa de vidro no meu rosto e os estilhaços atingiram meus olhos foi então que eu descobri que tudo o que estava vivendo era apenas o começo daquele inferno que seria minha vida dali pra frente.
Os covardes foram embora e me deixaram ali desmaiado no chão sangrando quase morto e pensar que a menos de um quarteirão tinha um posto policial e eles não fizeram nada para me salvar. Minha salvação foi um senhor que me encontrou e chamou socorro.
Me levaram para um hospital publico e só fui atendido pois cheguei lá e meu caso era muito grave, senão teria morrido ali mesmo em uma maca no corredor daquele hospital. Eu acordei, parecia que tinham se passado meses que eu dormia e de fato se passaram eu fiquei em coma e passei por uma cirurgia na cabeça.
No momento que eu acordei fiquei muito feliz pois ouvi a voz da minha mãe e do meus irmãos, mas eles pareciam preocupados com alguma coisa. Pedi que acendessem as luzes eu não estava vendo minha família, queria muito revê-los. O doutor me pediu para ficar calmo e me revelou que as luzes estavam acesas, foi ai que eu me desesperei.
Aquilo não podia ter acontecido eu tinha ficado cego, isso era um fato, mas como seria minha vida desde então? Foi difícil pra mim aceitar minha nova realidade, mas eu não tinha outra escolha. Quando cheguei em casa meu vizinho me deu uma notícia, aqueles caras que me agrediram tinham pagado fiança e foram liberados. A partir desse dia o sentimento de revolta cresceu dentro do meu coração.
Ao anoitecer fui ao meu quarto admirar a lua mas havia me esquecido da minha nova condição. Meu irmão tentou me confortar dizendo que era dia de lua nova que não dava pra ver, mas nada podia me fazer melhorar, agora para mim ela teria uma nova fase que seria eterna, a lua negra.
Agora diariamente eu tenho que conviver com meu maior medo a escuridão, graças a irresponsabilidade da segurança pública e ao preconceito da sociedade.
Mas pensando bem depois de tudo o que aconteceu o meu maior medo não é mais a escuridão e sim as pessoas que não aceitam o diferente e tem preconceito com aqueles que não se assemelham a elas.
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