Notas iniciais
Primeira história original que eu posto. A ideia surgiu de repente alguns dias atrás. Espero que gostem!! (n_n)

Água suja escorria do pano de chão que Anne usava para tirar a sujeira do assoalho imundo da taverna onde trabalhava. A jovem tinha 25 anos e trabalhava naquele estabelecimento desde os 12, quando seus pais, sua única família, foram assassinados por piratas. Há treze anos nutria um ódio indelével por eles.

Anne não se lembrava muito de sua infância, todos aqueles anos de trabalho duro na taverna fizeram-na se esquecer de suas lembranças, boas e ruins. Mas aquela noite em especial ela nunca esqueceria. Foi a cicatriz mais profunda que a vida deixou em sua alma.

Os piratas, inúmeros, invadiram sua casa e mataram seus pais a facadas bem diante dos seus olhos. Eles, Anne e seus pais, eram uma família pobre, o pouco que tinham conseguiram ao custo de muito suor. Mas exatamente por serem pobres, por terem aprendido à força a lutar pela sobrevivência, seus pais resistiram durante muito tempo. Lutaram como leões protegendo sua cria, e de certa forma foi exatamente o que aconteceu.

Anne não sabia porque tinham sido atacados, também não sabia porque a haviam deixado viva depois de eliminarem seus pais. Naquela hora, enquando as lágrimas jorravam de seus olhos como cascatas naturais, olhando para seus pais deitados em frente a ela, tudo que queria era ter morrido com eles. Foi então que ele apareceu. Horas depois do ocorrido, um homem velho e gordo entrou pela porta da frente, que fora arrombada, foi até Anne e disse:

–Garota, você agora trabalha para mim.

Anne ohou para ele sem entender nada. Ele continuou:

–Vai trabalhar na minha taverna. O que foi? Não me olhe com essa cara. Sua vida vai ser boa. Pelo menos vai ser melhor do que essa que você tem agora.

Ao dizer isso o homem soltou uma risada que era puro escárnio e Anne pode sentir seu bafo. Junto com aquele fedor veio uma vontade incrível de chorar, mas não pôde. Suas lágrimas haviam secado, a dor as fez evaporar.

–Vamos! –Bradou o homem.

Anne não queria ir, mas que escolha ela tinha?

Agora alí estava ela, treze anos depois, esfregando o chão da taverna e trabalhando como uma escrava para um homem fétido que se autodenominava seu pai. As vezes a vontade que tinha era de cuspir na cara dele, mas não podia fazer isso.

Anne torceu o pano no balde próximo a ela. A água dentro dele estava preta de tanta sujeira. Levantou-se e foi trocar a água do balde e ver se conseguia outro pano. Contornou o balcão e passou pela porta que ficava no canto esquerdo logo atrás dele, entrando na cozinha. Dalí saiu por uma porta lateral que dava nos fundos da taverna, um local ao ar livre usado como área e depósito ao mesmo tempo.

Despejou a água no chão que antes era gramado, mas,de tanto ser regado com sujeira, o mato deixou de crescer, restando apenas terra. Foi até uma torneira de água natural e encheu o balde de novo. Quanto ao pano, teria que usar o mesmo, não havia nenhum outro.

Enquanto terminava a limpeza da taverna as horas passaram rápido, num instante já era noite. Estava limpando o balcão, sua última tarefa, quando o taverneiro desceu as escadas localizadas no canto oeste da taverna e veio falar com Anne.

–O que você está fazendo aí que ainda não foi trocar de roupa?! Já está na hora de abrir! Os clientes vão chegar logo!

Levou umas das mãos ao ouvido, Murat só falava gritando.

–VAI! –Ele berrou.

Anne deixou o pano no balcão e dirigiu-se para o andar de cima, onde ficavam os quartos e o banheiro. Seu quarto era pequeno como uma concha, cabia apenas sua cama e um baú com as poucas roupas que tinha. Tirou a roupa que costumava usar para fazer a limpeza e colocou um vestido mais arrumadinho, que costumava usar para trabalhar como garçonete no andar de baixo.

Quando desceu as escadas alguns clientes já tinham chegado e se acomodavam em algumas mesas. Apressou-se em atendê-los.

A taverna era bastante frequentada, embora não pelas melhores pessoas. Os clientes eram, em sua maioria, homens, comerciantes da região que gostavam de brigar e beber até bem tarde. Não havia uma hora do dia em que Anne não trabalhava. Os únicos momentos que tinha para descansar eram a hora do almoço e a do banho. Anne dormia muito pouco, estava longe de ser o suficiente.

–O que vão querer, senhores? –Perguntou.

–Como assim “ o que vão querer, senhores?”? Cerveja!!! –Um deles bradou.

Os outros homens da mesa olharam para Anne como se tivesse feito a pergunta mais óbvia de todos os tempos. E de fato havia feito.

A jovem assentiu e foi buscar a cerveja, grandes canecas cheias daquele líquido amarelado e espumante cujo cheiro a deixava enjoada de tanto que sentia. Enquanto os servia ouviu mais alguns homens gritarem:

–Mais cerveja, garota!!!!

Esta seria uma daquelas noites que parecem não acabar nunca.

♣

Os primeiros raios de luz solar já despontavam no horizonte quando o último cliente saiu pela porta da taverna. Anne caminhou até a mesa mais próxima e desabou em uma cadeira, exausta. Murat, por sua vez, estava atrás do balcão contando o dinheiro ganho na noite passada com um sorriso satisfeito no rosto.

–Vá descansar, filha. Já, já o trabalho recomeça! –Murat falou, mas não havia carinho em sua voz. Pelo contrário, apenas o tom frio da ordem.

Anne não disse nada, apenas subiu para seu quarto e deitou em sua cama. Não contou três segundos até cair no sono. Suas horas de descanso eram poucas, afinal, quanto menos dormisse mais horas tinha para terminar a limpeza da taverna. Dormiu um sono sem sonhos, mas já estava acostumada com isso.


O dia ainda nem estava completamente claro e Anne estava no mercado fazendo compras para a dispensa da taverna, que estava esvaziando. Havia poucas pessoas nas ruas da pequena cidade de Cardiff. A rua principal era delimitada por vários casebres de aparência pobre, em sua maioria residências. O comércio abria as portas e as padarias já estavam lotadas.

A vida em Cardiff começava cedo, afinal de contas, era a cidade de um povo pobre, trabalhador. A lista em suas mão era comprida, ia demorar algumas horas para comprar tudo o que estava escrito alí e a caligrafia de Murat não ajudava.

Não demoru muito até começar a riscar os itens da lista, Anne trabalhava rápido, tinha aprendido a ser eficiente. Algumas horas depois estava carregando muitas sacolas, cerca de 6 ou 7 em cada mão, e sua lista não estava nem na metade. Cansada, a garota parou na barraca de verduras e colocou as sacolas no chão. Flexionou os dedos para recuperar a circulação.

–Bom dia. –Ela disse para o dono da barraca.

–Bom dia, Dona. –Ele respondeu, com um sorriso simpático no rosto.

Anne apenas disse:

– Vou precisar de alface, agrião, alcachofra...

Continuou a ler as palavras da lista enquanto o vendedor separava o que ela pedia.

Selecionar as verduras era uma tarefa simples, mas que custava muito do seu tempo.

–O sol ainda nem subiu completamente e você já está trabalhando? –Perguntou uma voz.

Anne se virou para ver quem era.

–Olá, Samuel. –Ela disse.

Samuel ostentava um semblante irritado, olhava para o chão tentando controlar a raiva.

–Esse canalha está explorando você! –Ele disse.

–Eu sei, Samuel. Você diz isso toda vez que me encontra. –Disse Anne.

Anne conhecia Samuel desde que eram muito pequenos, desde antes daquela noite. Ele era seu melhor amigo, a única pessoa em que confiava. Vê-lo assim a entristecia

–Prontinho, Dona. –Disse o homem da barraca, interrompendo seus pensamentos.

Anne entregou a ele o dinheiro e disse:

–Obrigada.

O homem, aquele senhor simpático, devia ter uns 50 anos. Todas as vezes que ia à feira era ele quem a atendia naquela barraca. Não costumavam trocar muitas palavras, mas, por algum motivo, hoje foi um pouco diferente:

–Sabe, Dona, a senhorita é muito bonita, mas tem os olhos tão tristes. Um sorriso lhe faria muito bem. –Ele disse, sorrindo.

Samuel olhou para o lado, quieto. Uma série de emoções diferentes atravessaram a alma de Anne. Muitas lembranças, todas elas incrivelmente tristes. Talvez um sorriso fosse mesmo fazer bem a ela, mas há muito tempo Anne havia perdido a capacidade de sorrir.

–Talvez o senhor esteja certo. –Ela disse, mas não sorriu. –Até mais.

Anne pegou suas sacolas e voltou para as compras, Samuel foi atrás dela.

–Isso parece pesado. –Ele disse, tentando fazê-la esquecer-se da conversa anterior.

–E está. –Ela respondeu.

–Deixa eu te ajudar a carregar. –Samuel se ofereceu.

–Você pode me fazer um favor melhor. –Disse Anne. –Compre metade do que falta nessa lista que eu compro a outra.

–Tudo bem. –Ele disse.

Separaram-se para continuar as compras.

Algumas horas depois Samuel e Anne se encontraram, ambos haviam terminado de comprar os itens que lhe foram designados. Caminharam lado a lado de volta para a Taverna.

Murat estava atrás do balcão, impaciente. Quando Anne passou pela porta ele gritou:

–Demorou muito, fedelha!

Alguns segundos depois, Samuel entrou no estabelecimento.

–Ora se não é o amiguinho da fedelha. –Disse Murat.

Samuel detestava aquele homem e Murat detestava Samuel. Nada dava certo quando os dois estavam no mesmo recinto.

–Fora da minha taverna! –Gritou Murat.

Samuel fingiu que não tinha escutado, mas obedeceu. Colocou as sacolas em cima do balcão e caminhou em direção à porta.

–Tchau, Anne. A gente se vê. –Disse, ao passar pela garota.

Anne acenou com a cabeça e foi colocar suas sacolas em cima do balcão.

–Moleque atrevido! –Disse Murat. –E você? Não vai desempacotar essas coisas?!

Anne suspirou, cansada, e pôs-se a trabalhar. Depois que tudo estava exposto sobre o balcão, Murat começou a examinar os alimentos minuciosamente.

Uma expressão de raiva surgiu em seu rosto.

–Ei, garota, o que é isto aqui? –Ele perguntou.

Anne se aproximou do balcão.

–O que foi? –Ela perguntou.

–ESTES TOMATES ESTÃO PODRES! –Ele berrou.

Anne não teve tempo de dizer sequer uma palavra. A mão gigantesca de Murat desceu sobre seu rosto num golpe violento e poderoso. O tapa fez a pele de Anne arder. A garota perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Sentada, pôs a mão no rosto para amainar a dor, mas não fez muita diferença.

–Você gastou o meu dinheiro para comprar frutas podres?

A jovem não disse nada. Apenas continuou alí, sentada, imóvel.

–Humpf! –Murat bufou. –Guarde essas coisas e comece a limpar este lugar.

Depois de dizer isto, ele subiu as escadas, desaparecendo do campo de visão de Anne.

Ela demorou alguns minutos para se recuperar. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas não importa quantas vezes tivesse passado por isso, toda vez era igualmente assustadora.

As horas seguintes passaram sem que a garota se desse conta e antes que percebesse a taverna já abria as portas. A noite começava.

Horas de trabalho depois, Anne já estava muito cansada. Foi até o depósito buscar mais cerveja, pois o estoque interno já estava para acabar.

Do lado de fora parou e olhou para o céu noturno, permitindo-se descansar durante alguns instantes. Depois de tantos anos levando esta vida, Anne tinha desaprendido a gostar da noite. Era durante a noite que sofria as mais diversas humilhações, que recebia as mais estranhas ordens. Foi também durante a noite que perdeu tudo que tinha de mais precioso. Na verdade, Anne detestava a noite. O brilho das estrelas, antes tão belo, para ela, agora, não significava mais nada.

Voltou para dentro da taverna, trazendo consigo a cerveja.

–Ei! Minha caneca está vazia! –Gritou um homem.

Anne correu até a mesa dele e encheu rapidamente a caneca do homem, aproveitando para encher também as outras canecas da mesa. Virou-se para ir embora, atender outros clientes, quando o mesmo homem que havia gritado há pouco, puxou-a pelo braço forçando-a a sentar-se em seu colo.

–Para que a pressa? –Ele perguntou em tom malicioso. –Podemos nos divertir bastante hoje a noite.

Ao dizer isso, pousou uma mão sobre um dos seios de Anne. O que a garota fez a seguir foi, talvez, ao mesmo tempo a maior burrice e esperteza de sua vida. Levantou-se e deu um tapa no rosto do homem, um golpe que foi desferido com toda a sua força.

Foi a vez de Anne gritar:

–Mas o que pensa que está fazendo?!

O homem se levantou, agarrou-a pelo pulso e fitou-a por um instante que pareceu eterno. Os olhos dele estavam banhados em ódio.

O homem então gritou:

–MURAT!!!!!!!!!

Anne então percebeu que seu orgulho havia feito com que ela cometesse um erro irremediável que viria a possuir consequências assustadoras.


Notas finais
Então, o que acharam? O primeiro capítulo é bastante dramático, talvez o segundo também seja. Bom, planejo reviravoltas em breve.
Mandem reviews dizendo o que acharam. ^^ Vocês me fariam muito feliz.
Até o próximo capítulo! (n_n)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.