Lua De Queijo
6 Capítulo 5
Para quê desperdiçar meu tempo reparando em detalhes idiotas como os desenhos dos pisos quando poderia já ter começado vivendo e aproveitando um minuto de cada vez com Thomas? Sou tão estúpida que não percebo que prestar atenção no lugar onde estou não adiantará de nada. Não há saída. Eu sou patética. Devo desculpas ao Tho, mas palavras não terão utilidade.
Nesse momento me senti mais fútil e egoísta do que nunca. Superficial também, e infantil. O que me leva a querer saber a razão de ele continuar me apoiando, sem uma única crítica, um protesto, nada.
Essas coisas estavam rodando em minha cabeça antes mesmo de eu abrir os olhos e vê-lo me encarando, ansioso.
— Oi — ele disse em voz baixa.
Eu o abracei.
— Teve um pesadelo? — Ele quis saber.
— Não, — ele retribuiu o abraço, e eu apertei mais um pouco — só fica comigo assim por um tempinho — decidi que daria a ele toda a atenção que eu conseguisse a partir daquele momento.
— Por quando tempo você quiser, — por sua voz, ele estava sorrindo — mas há algum motivo para isso?
— Se eu falar não vai adiantar.
— Tudo bem.
Me ajeitei em seus braços e não nos movemos nem mesmo para falar por um bom tempo. Me virei e fui dar um beijo em seu rosto na tentativa de agradecer e acabei sem querer acertando sua boca. Ops. Foi só o tempo de encostar e no instante seguinte me afastar com o choque, quer dizer, aquilo não deveria ter acontecido. E agora? Estávamos nos encarando um tanto assustados e receosos. Eu precisava falar alguma coisa, qualquer coisa.
— Me desculpa, — rimos sem graça. Senti meu rosto queimar, e as bochechas dele estavam avermelhadas também. Ele fica fofo assim, sem saber se me encara de volta, se fala algo ou se olha para baixo — não foi minha intenção — completei.
Virei para o outro lado e me deitei. Esperei por uma resposta enquanto mordia minha boca.
— Você… — Eu deveria prestar mais atenção? Eu sou louca? Ao invés de me repreender, ele me surpreendeu com sua resposta. — Você pode fazer isso quando quiser.
Não havia tom de brincadeira ou ironia em sua voz. Ele riu, virou para o outro lado e esperou.
Que tipo de resposta foi essa? Ele estava insinuando que isso, nós, poderíamos ser algo além de amigos? Não. Isso não estava acontecendo. Quer dizer, nunca pensei nele exatamente dessa forma. Bem, eu o amo, só que… Dessa forma? Ele deve ter sido apenas brincalhão e eu não percebi. É isso.
— Obrigada por estar aqui, — eu disse com uma risada boba, e me virei para o lado dele — desculpa ser tão… Eu.
— A mesma Liz de sempre, atrapalhada, decidida, forte, linda…
Agora estávamos mais uma vez um de frente para o outro, como se nada houvesse acontecido. Eu não tinha resposta para essa últimas palavras, então me calar pareceu uma ótima opção.
Ele não forçou a barra e se deitou virado para cima. Fiquei observando.
Seus olhos mel, sempre cuidadosos à sua maneira, sua postura que diz “estou ao seu dispor” e não descansa, seu cabelo castanho claro, na maior parte do tempo bagunçado, seu sorriso meigo. Esse é o Tho.
— Ei, se lembra de quando nos conhecemos? — Perguntei.
— Praia de Sissam, nossas mães estavam de lados opostos daquele lugar, mas mesmo assim, de alguma forma nos encontramos. Começamos a brincar na areia e você disse que queria uma concha, então fomos procurar. — Sissam era uma cidade próxima a Davlin, uns vinte minutos de trem. Como ele lembra de todos os detalhes? — Era minha primeira vez em uma praia e fiquei feliz por fazer uma amiga. Descobrimos que éramos da mesma cidade e nunca mais desgrudamos — começamos a rir.
Elize e Thomas quando se conheceram
— Me surpreende você lembrar de tudo isso. Você que não repara em nada.
— Nem eu sei como me lembro de tudo, mas lembro. E você? Algo te vem a cabeça sobre o primeiro dia em que fomos para a escola juntos?
Sou péssima em detalhes, mas como esquecer?
— No dia seguinte ao que nos conhecemos, você foi à minha casa, ficamos brincando na sala de jogos, e como era domingo, ficamos tristes por ter escola no dia seguinte, até eu perguntar onde você estudava e descobrir que era perto da minha escola, o que resultou em ir e vir juntos todos os dias. Da primeira vez, todos que passavam nos encaravam, quero dizer, mais do que já me encaravam normalmente. Aquilo estava começando a me incomodar, então passei a olhar para baixo. Aí você segurou minha mão e eu me acalmei. Sua aula começava depois da minha e você me deixou na porta da minha escola. Todos — sem exceções — estavam olhando, eu nunca fui muito sociável, só te dei um abraço e entrei, mas depois disso dezenas de pessoas passaram a falar comigo, até hoje não sei a razão para tudo aquilo — sorri.
Na verdade eu sabia o por quê. Questões financeiras, interrogatórios, desaprovação, mas naquela época eu não entendia nada. Ele devia saber também, porém não havia necessidade de dizer isso em voz alta.
— Eu sempre gostei de segurar sua mão — ele disse.
— Eu também gosto disso — entrelaçamos nossas mãos e assim ficamos.
Bip… Bip. O monitor piscando um aviso:
“Solicitação de contato: Vic e Lucca”.
— Quem são esses? — Tho quis saber.
— Sei lá, talvez amigos dos meus pais.
Após apertar todos os botões, um barulho surgiu da sala. Uma porta que brotou de sabe onde se abriu e uma cápsula cilíndrica subiu por seu interior. Ah, essa Vic. Uma garota garota que era da minha classe e alguém que pela semelhança julguei ser seu irmão apareceram.
Vic e Lucca
A Vic me abraçou como se fosse minha melhor amiga e me perguntou, histérica:
— Ellie! Como você está? Quem é esse? — Ela olhou para o Thomas e para nossas mãos que até o momento permaneciam unidas.
— Thomas. Oi, e você é…? — Tho respondeu.
— Victoria. Vic se preferir. — Não gostei do jeito que ela sorriu para ele.
— Oi Ellie, se lembra de mim? — O garoto que julguei ser irmão da Vic me abraçou e não parecia querer soltar. Eu retribuí por alguns segundos, mas depois larguei mão e me afastei.
— Na verdade não — respondi.
— Irmão da Vic, sempre conversávamos nos intervalos — ele falava e eu sorria com educação para não mandá-lo embora. Lembrei.
— Ah, sim. Bom te ver de novo — sorri educadamente. De novo.
— Legal, você lembra. Oi. — Ele olhou para Thomas, que o encarava com uma cara fechada. Já se conheciam?
— Oi — ele respondeu. Fui para seu lado novamente.
— O que estão fazendo? — Vic perguntou.
O que poderíamos estar fazendo?
— Nada, — respondi — como chegaram aqui?
— Nos autorizaram a visitar vocês. Mas só hoje, acho. — Lucca respondeu.
— Ah — eu não estava interessada em nada. Nem neles.
— Será que podemos dar uma olhada aqui? Ficamos curiosos — ela riu. Que voz irritante.
— Tudo bem — quem respondeu dessa vez foi o Tho. Hm.
— Você pode me acompanhar? — Vic perguntou.
Até parece que ele se separaria de mim só para…
— Posso — ele respondeu. Eu ouvi direito? Nossas mãos se soltando e ele saindo ao lado de uma garota que acabou de conhecer. Quanta consideração.
— Sobramos nós — Lucca riu. Bem, se meu melhor amigo decidiu ficar numa boa e longe de mim, que seja.
— É, está com fome? — Perguntei.
— Na verdade sim… — Lucca respondeu.
— Vamos comer, então.
Fomos para a cozinha, comemos o conteúdo de uma das cápsulas e guardei as demais em uma das gavetas que estavam vazias. Depois começamos a conversar, até que surgiu um assunto inesperado:
— Saudades de te ver com frequência, Ellie.
— É, era legal.
— E o Thomas? Namoram há quanto tempo?
— Han? Nós não namoramos.
— Sério? É o que parece.
— Mas não namoramos. De onde se conhecem?
— Amigo de um amigo.
— Ah, sei.
— Mas tenho quase certeza de que você gosta dele.
— Nada a ver, Lucca.
— Ellie ta apaixonada — ele começou a me fazer cócegas e repetir essa frase, o que estava me deixando extremamente irritada.
— Chega. Para… — Eu disse com uma voz controlada, até que não aguentei e tive que gritar — Cala essa boca, Lucca! Não enche!
— Agora ficou nervosinha? Ta eu paro, — ele se afastou, um pouco — mas já que vocês não têm nada, se importaria se eu te beijasse?
E veio para cima de mim. Empurrei ele com força no mesmo segundo e saí de lá — assustada — para procurar por Thomas.
Traição. Foi o que veio em minha cabeça naquele momento, vendo aquilo. Vic a um centímetro do Thomas, sem dúvidas com segundas, não, quintas intenções, e ele não estava recuando. Antes que algo acontecesse, ele olhou para mim e ficou paralisado, assim como eu. Minhas mãos estavam fechadas em punhos, mas nenhuma emoção em meu rosto, a não ser pela lágrima que senti por ele rolando. Enxuguei-a e fui para o quarto, fechando a porta articulada logo atrás de mim e me jogando na cama.
Finalmente lembrei quem é essa Vic. Dentre centenas de pessoas que estudavam na droga de escola que eu frequentava, ela era a única que fazia de tudo para acabar comigo, mesmo nunca tendo me afetado, até o momento. Parabéns, ela conseguiu.
Ouvi a porta abrindo e virei para o lado da parede, me deitando de bruços, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.
— Liz, sei que sou a última pessoa que você quer ver agora, mas por favor… Me escuta.
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