Acordei chorando no meio da madrugada. Nossa, que ótimo.

Pude saber que era madrugada porque ouvi o ronco de Rick no quarto ao lado, que eu o convencera de usar, e Carl estava dormindo tranquilamente ao meu lado.

Espere, eu não me lembrava disso!

O constrangimento fez que eu engolisse toda a minha tristeza. Quem o dera a permissão de se deitar ao meu lado?! E, eu digo, bem ao meu lado, porque a cama era de solteiro. Estávamos literalmente abraçados. Grudados.

– Carl... – Sussurrei, ele resmungou, mas não se moveu. – Carl, acorda... – Nada. – Carl, caramba! – Falei em uma voz alta o suficiente para fazê-lo se mover. Infelizmente, o movimento dele foi mais inesperado. Ele passou um braço pela minha cintura, puxando-me mais para perto, resmungou mais uma vez e murmurou “Mãe...”. – Escute aqui, idiota, eu tenho cara de ursinho de pelúcia?! – Eu ri, ele abriu um sorrisinho, mas permaneceu de olhos fechados.

– Tem.

– Idiota! – exclamei, empurrando-o para o chão. Ele choramingou e se levantou, coçando a nuca e xingando baixinho. – Além de ter se deitado comigo sem a minha permissão você ainda concorda que eu tenho cara de ursinho?!

– Escuta, “idiota” – disse ele, fazendo uma careta e imitando minha voz, sentando-se ao meu lado. – Primeiro: Eu só estava te respondendo; E, segundo, você estava dormindo. Eu não planejei que você acordasse no meio da madrugada. Iria sair daqui logo pela manhã!

– Tá, tá, tá! Mas por que você se deitou comigo?

Ele não respondeu. Estava escuro, então não vi se ele tinha corado ou não, mas tive a impressão. Finalmente ele deu de ombros e saiu do quarto.

– Eu não estava te mandando sair daqui – murmurei. Foi aí que alguma coisa bateu com toda a força na janela, quase quebrando o vidro. Era um Errante. Como essa porcaria tinha conseguido subir ali?!

O bicho era forte, nossa. Estava quase quebrando o vidro, que já estava rachando. Tateei a procura da minha espada e assim que eu pus as mãos nela o vidro quebrou e o Errante entrou, caindo por cima de mim e conseguindo, de uma forma “mágica”, jogar a espada no outro lado do quarto. Não foi totalmente proposital, mas eu soltei um berro esganiçado que com certeza até o Errante devia ter se assustado (esperem, Errantes se assustam?). Ouvi Carl gritar alguma coisa que eu não entendi, soou como um “Já tô indo!”, mas eu não podia esperar mais um tempo ou eu ia perder a minha cara e acabar fazendo cosplay genderbend de SlenderMan (versão SlenderGirl).

Rolei para o lado e inverti as posições com o Errante, que tinha um olho saltado. Eca. Eu não tinha outra saída a não ser acabar com ele com as minhas próprias mãos. Suguei todo o ar possível para dentro de mim e joguei a mão para a trás, preparando o punho para socá-lo, e de repente me vi socando a cara do Errante com toda a força que eu tinha. Minha outra mão estava concentrando toda a minha outra força dela para segurar o pescoço do Errante, que começava a se aquietar. Foi horrível. Minha mão ficou cheia de sangue (podre!) e restos do rosto do Errante – isso incluía, infelizmente, o olho dele, que saltara totalmente para fora e agora rolava pelo quarto. Quando eu finalmente dei um jeito no Errante eu já estava toda suja e podia ouvir os chiados dos outros Errantes se aproximando desesperadamente da casa. Me levantei em um salto. Rick e Carl estavam parados na porta, suas expressões perplexas.

– A gente precisa sair daqui. AGORA.

Eu disse isso bem na hora em que um Errante entrou no quarto pelas escadas (?).

– QUEM FOI O DEMENTE MENTAL QUE DEIXOU A PORTA LÁ DE BAIXO ABERTA? – gritei, finalmente alcançando minha espada e cortando a cabeça daquele Errante. Carl abriu um sorrisinho envergonhado e murmurou “Eu”. – Carl, eu juro que quando estivermos sozinhos eu vou te estrangular e...

– Não temos tempo para discutir! – disse Rick, apontando para escada, que agora lentamente ficava cheia de Errantes desesperados. Bufei e apontei para a janela.

– É o único jeito de sair daqui – disse. Rick foi o primeiro a pular e escorregar pelo telhado emborcado, dando de cara com Errantes e atirando neles com sua arma. Fui a segunda a pular e assim que eu me preparava para a escada Carl gritou. Eu me virei para ele e, aterrorizada, peguei desesperadamente sua mão. Um dos Errantes o segurava pelo pé.

– CARL! LINDSEY! NÃO DÁ MAIS PRA SEGURAR AQUI! – gritou Rick lá de baixo.

– VAI, LINDSEY – gritou Carl. – ANDA!

– EU NÃO VOU TE DEIXAR AQUI!

– ANDA, CARAMBA.

– NÃO, CARL, NÃO – gritei novamente, puxando-o com todas as forças que me restavam. Ouvi o barulho dos tiros de Rick.

– ACABOU AS BALAS! – gritou ele. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Eu não ia deixar Carl, jamais!

– RICK, VAI – gritei, puxando Carl.

– NÃO, LINDSEY, VENHAM LOGO!

– RICK, A GENTE TÁ ENCRENCADO, CORRE, FOGE DAQUI, SE SALVA!

– EU NÃO VOU DEIXÁ-LOS AQUI!

– RICK GRIMES – berrei. – A GENTE TE ENCONTRA DEPOIS!

– Lindsey, por favor, solta a minha mão, vai! – E berrou de dor quando um Errante enterrou as unhas no seu pé. – LINDSEY!

– N-Ã-O. – E puxei-o, gastando todas as minhas últimas forças. Milagrosamente Carl se soltou e nós dois rolamos pelo telhado, caindo de cara no chão. Simplesmente nos levantamos e, desesperadamente, corremos junto de Rick.

Minha primeira ação naquele momento foi abraçar Carl. Não com força, porque força era algo que eu realmente não tinha mais. Eu chorava como uma criancinha. Rick também chorava, mas Carl se mantera firme, me abraçando com a força que eu não tinha. Seus braços acariciavam minhas costas e eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse “Ele está salvo, está bem, está comigo”.

– Eu jurava que eu não ia... Que você não ia... Que... – Eu mesma me interrompi e me soltei de Carl, me virando para encarar Rick.

– Rick, está tudo bem? – perguntei, me aproximando de Rick. Ele estava ofegante novamente. Balançou a cabeça negativamente e começou a tossir. Soube que era aquela crise novamente. O sentei outra vez e comecei meu processo. – Expire e inspire, isso, expire, inspire, expire, inspire... – Ele me imitava novamente. Uma nova lágrima brotou nos meus olhos e escorreu lentamente pelo meu rosto, mas eu tratei de disfarçá-la sem ter que me desfazer de Rick. – Vamos, xerife, você consegue, já conseguiu uma vez. Expire, inspire, expire, inspire...

Assim que ajudei Rick eu me desculpei por não ter mais água, mas ele disse que a culpa não era minha. Então, constrangida, foquei em Carl, que também se sentara no chão, analisando seu pé direito que sangrava por causa das unhas do Errante. Me sentei na frente dele.

– Foram só as unhas, Carl?

Ele assentiu, trêmulo. A cabeça de Rick pendera para o lado e eu soube que ele voltara a dormir. Ótimo.

– Deixe eu ver esse pé, garoto.

Ele ergueu o pé e colocou-o sob meu colo. Desembainhei minha espada e, desanimadamente, cortei as pernas de um Errante que se aproximara de nós, em seguida a cabeça, como se fosse uma coisa totalmente monótona e normal.

O pé de Carl estava todo arranhado e tinhas marcas profundas. Parecia mordida de cobra (aprendi o que é uma mordida de cobra da pior maneira possível, acreditem, é terrível), mas eu sabia que eram as unhas do Errante. Passei minha mão suavemente por cima do ferimento profundo, mas isso não impediu Carl de gemer.

– Carl, eu não tenho nada para oferecer que possa te ajudar. Se a dor não fosse tanto quanto você demonstra eu faria uma massagem, mas tá na cara que isso dói pra caramba. Relaxe o pé o máximo que puder. Eu fico de vigia essa noite, estou descansada.

Ele ia protestar, mas deve ter decidido que não seria muito bom para ele, então ficou quieto.

– Você é bem durona. E muito insistente. Não deveria ter me salvado, eu não vou servir pra nada, apenas um peso morto – comentou depois de um tempo.

– Não fale isso. É sério. Eu me apeguei a você mais do que eu deveria.

– Lindsey, eu tentei dizer que é pra eu ficar de vigia e...

– Cale a boca e dorme, credo. Acordo você e o Rick quando amanhecer.

Ele assentiu e fechou os olhos, mas pareceu bem estressado. Suspirei. Agora era eu e os Errantes até o amanhecer.

Outra vez.